DESMORALIZAÇÃO TOTAL E IRRESTRITA

Bolsonaro volta a avacalhar o conceito de indulto

No Brasil, até o nobre conceito do indulto está sendo avacalhado. Nas últimas três décadas, todos os presidentes submetidos à Constituição de 1988 exercitaram seus pendores humanitários por meio do indulto de Natal. Mas há um limite depois do qual uma tradição pode se transformar em maldição. Em 2017, o que parecia natural virou imoral. O então presidente Michel Temer estendeu o indulto aos presos por corrupção. Agora, Jair Bolsonaro quer perdoar policiais condenados.

O indulto de Temer levou a suavização do castigo às fronteiras do escárnio, perdoando 80% das penas e 100% das multas. A Procuradoria-Geral da República recorreu na época. O ministro Luís Roberto Barroso, do Supremo, levou o pé à porta, atenuando o absurdo por meio de uma liminar. Mas Temer acabou prevalecendo no plenário da Suprema Corte. Ficou entendido que o indulto é um ato discricionário do presidente. Ou seja: no limite, Bolsonaro pode fazer agora o que lhe der na telha.

Na campanha presidencial, Bolsonaro disse que o petista Fernando Haddad, se eleito, decretaria um indulto seletivo, só para abrir a cela de Lula, um malfeitor da política. Agora, o capitão ameaça recorrer à mesma seletividade para livrar da tranca os bandidos da polícia —civis e militares. Gente condenada, segundo ele, “por pressão da mídia”.

Pela tradição, o indulto só pode beneficiar criminosos “não-violentos”. Sob Temer, alegou-se que corrupção não é crime violento. Uma bobagem. Ao roubar verbas públicas, o corrupto mata metaforicamente nas macas dos hospitais sem recursos. Mata o futuro de crianças matriculadas em escolas precárias. Bolsonaro será ainda mais explícito. Promete soltar gente que puxou o gatilho.*

(*) Blog do Josias de Souza – UOL

 

“ALTÍSSIMO NÍVEL”

Assessores da Presidência assessoram Eduardo

Não só o chanceler Ernesto Araújo foi aos Estados Unidos acompanhar o filho do presidente Jair Bolsonaro em seu encontro com o presidente Donald Trump. Três assessores da Presidência da República integraram a comitiva do deputado federal e candidato a embaixador em Washington, cujo nome nem foi ainda apresentado ao Senado: os assessores especiais da Presidência Filipe Martins e Arthur Weintraub (irmão do ministro da Educação, Abraham Weintraub), e o secretário-executivo da Casa Civil, Vicente Santini –que, dado o cargo que ocupa, não se sabe o que teria a ver com o objetivo da viagem.

Chanceleres não costumam ser assessorados por integrantes da Presidência em suas viagens –já dispõem da estrutura do Itamaraty, muito mais preparada, e, no caso de Washington, da embaixada mais aparelhada do País. Deputados federais também não costumam contar com esse tipo de assessoramento. A Casa Civil informa que ministério, Casa Civil e Comissão de Relações Exteriores foram juntos na viagem para mostrar “unidade do Estado brasileiro”. E que Santini foi junto porque a Casa Civil coordena as ações do governo.

A viagem foi para lá de heterodoxa segundo os preceitos da diplomacia tradicional. Em análise no Estadão neste sábado, o doutor em Relações Internacionais Lucas Leite lembra que houve uma viagem oficial do presidente aos Estados Unidos há pouco tempo. “Jair Bolsonaro exalta o filho à categoria de para-chanceler enquanto não consegue os votos necessários à aprovação deste no Senado para o cargo de embaixador nos Estados Unidos”, escreve.

O próprio Ernesto Araújo disse que a viagem foi “simbólica“, para mostrar ao mundo a “relação diferenciada” entre os governos dos Estados Unidos e do Brasil. Mas não foi feito nenhum anúncio de resultados práticos da visita –como Jair Bolsonaro havia dito que haveria.*

(*) Vera Magalhães – Estadão

AMIGOS E IRMÃOS…

Bolsonaro diz que Queiroz era ‘nota dez’ e que cabe a ele responder sobre ‘problema’
MPF apura transações bancárias irregulares do ex-assessor. Presidente disse que não sabia do paradeiro de Queiroz, que não era visto desde janeiro. Revista “Veja” descobriu que mora em SP.

O presidente Jair Bolsonaro afirmou neste sábado (31) que desconhecia o paradeiro de Fabrício Queiroz, ex-assessor do senador Flávio Bolsonaro (PSL-RJ), revelado pela revista ‘Veja’.

A revista divulgou que o ex-assessor vive no bairro do Morumbi, na Zona Sul de São Paulo e, faz tratamento no Hospital Albert Einstein.

Não se tinha notícia de Queiroz desde o dia 12 de janeiro, quando postou na internet um vídeo dançando em um hospital durante a recuperação de uma cirurgia. Desde então, ele não fez mais aparições públicas e o bordão “Cadê o Queiroz?” se tornou popular nas redes sociais.

Apesar das buscas, é importante destacar que não há ordem de prisão contra ele, nem mesmo determinação para que deponha.

Questionado por jornalistas ao deixar o Palácio da Alvorada, o presidente disse que, quando o conheceu, era “um cara sem problemas, nota dez”. “Apareceu esse problema, quem responde por ele é ele, não sou eu”, completou.

Revista Veja revela que Fabrício Queiroz mora em São Paulo.

Relatório do Coaf
Fabrício Queiroz foi assessor e motorista de Flávio Bolsonaro até outubro de 2018, quando foi exonerado. Em 2018, o Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf) detectou em sua conta movimentações atípicas no valor total de R$ 1,2 milhão, entre janeiro de 2016 e janeiro de 2017.

O relatório do Coaf, apontou operações bancárias suspeitas de 74 servidores e ex-servidores da Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro (Alerj).

De acordo com o Ministério Público Estadual do Rio de Janeiro, o valor veio de um sistema de coleta de repasse de dinheiro de funcionários do gabinete de Flávio Bolsonaro. Na época, Queiroz disse que o dinheiro veio do lucro da venda de carros e depois afirmou que recolheu salários dos funcionários do gabinete para poder contratar mais gente.

O MP do Rio abriu um procedimento para investigar o caso. Porém, em julho de 2019, o presidente do Supremo Tribunal Federal, ministro Dias Toffoli, acolheu o pedido da defesa de Flávio Bolsonaro e suspendeu temporariamente todas as investigações em curso no país que tenham como base dados sigilosos compartilhados pelo Coaf.

O julgamento sobre uso de dados sigilosos do Coaf em investigações está previsto para o 21 de novembro. No entanto, Toffoli informou que pretende antecipar.

Ambiente
Na porta do Alvorada, Bolsonaro também comentou sobre a questão das queimadas da Amazônia e classificou de “pressão” a ameaça de interrupção de compra de produtos brasileiros.

“É pressão, isso é normal no mundo todo. Faz parte da regra do jogo. Eu não trabalho dessa maneira. Agora, eles querem o quê? É a nossa soberania”, disse.

A devastação da floresta pelo fogo é o centro de uma crise internacional, que gerou críticas a Bolsonaro dentro e fora do Brasil por sua política ambiental.

O G7, grupo que reúne as sete principais economias do mundo, chegou a oferecer US$ 20 milhões para o Brasil, mas o presidente Bolsonaro exige desculpas do presidente da França, Emmanuel Macron, que fez o anúncio da oferta. O brasileiro acusa o francês de ameaçar a soberania nacional ao falar sobre a definição de um “status internacional” da Amazônia.

“Depois, vão acabar fazendo uma maldade com índios e botar na minha conta e dizer que nós não temos como tomar conta da Amazônia, do índio”, disse ainda Bolsonaro.

“Agora, o Macron [presidente da França] tem o lado pessoal dele também. Se está mal, é porque não está sabendo administrar o seu país. Motivo para querer crescer em cima do Brasil não vai crescer e não aceitamos esmola, tá certo? Ponto final”, completou.

PGR
Sobre a indicação do sucessor da procuradora-geral da República, Raquel Dodge, Bolsonaro afirmou que recebeu a informação de que estariam sendo nomeados cargos no órgão a partir do outubro, na próxima gestão.

Segundo a coluna Painel deste sábado do jornal “Folha de S.Paulo”, Dodge começou a nomear procuradores regionais eleitorais, como é tradição, mas a partir da data em que ela já não estiver mais no posto.

“Eu não posso ter um PGR que chegue lá e não possa mexer em câmaras, não possa mexer em nada”, afirmou.

Questionado se seriam nomeações de Raquel Dodge e se isso influenciaria em sua escolha, Bolsonaro afirmou: “Só pode ser ela. Espero até que não seja verdade”. “Não vai influenciar em nada. Que vai ter algum peso, vai, não há a menor dúvida.“*

(*) Rosanne D’Agostino, G1 — Brasília

FOGO NO RABO

ONDE HÁ FUMAÇA, HÁ FOGO, E ELE ARDE E QUEIMA

Da Receita Federal ao Coaf, do Cade à Polícia Federal, o que se viu foram órgãos agonizando em queimadas patrocinadas pelo Planalto


Na semana em que o dia virou noite, uma feia fumaça cobriu os céus de Brasília, atingindo as principais instituições de fiscalização e controle da administração pública. Da Receita Federal ao Coaf, do Cade à Polícia Federal, o que se viu foram órgãos agonizando em queimadas patrocinadas pelo Planalto, algumas delas com rajadas de apoio do STF e do Congresso.

Nunca é demais lembrar que o governo Bolsonaro herdou uma estrutura de órgãos de fiscalização e controle que vieram se afirmando paulatinamente nas últimas décadas e cuja atuação no combate à corrupção produziu o cenário favorável à ascensão de um candidato com discurso antissistema. Aos oito meses do governo símbolo da negação da velha política, essa estrutura se vê ameaçada tal como animais numa floresta em chamas.

Sobre o Cade pesa a suspeita de que cadeiras vagas foram politicamente negociadas pelo governo com o Senado, de olho na votação da reforma da Previdência e na sabatina do filho-embaixador. Na Receita Federal, o número dois na hierarquia foi destituído do cargo a pedido de Bolsonaro, na esteira de ações do STF e do TCU que emparedaram auditores que estavam investigando altas autoridades. Criticado pela interferência, o presidente disse que fora eleito para “interferir mesmo” e que, “se é para ser um banana, um poste dentro da Presidência, estou fora, pô”. É curioso que tenha se utilizado de símbolos fálicos para afastar a hipótese de impotência, mas desta feita agiu para obstruir a atuação de fiscais que antes aplaudia.

No caso da Polícia Federal, um dos órgãos de  maior prestígio nesta década de combate à corrupção, o presidente ameaçou a autonomia da instituição ao intervir diretamente na superintendência do Rio de Janeiro. Criticado pela atitude que seus antecessores não ousaram adotar, Bolsonaro afirmou que “se eu não posso trocar o superintendente, eu vou trocar o diretor-geral”, dobrando a aposta e passando por cima de Sergio Moro, ministro a quem a PF está teoricamente subordinada. Quanto ao Coaf, a novela que se arrastava desde o início do novo governo se encerrou com a transferência do órgão, que já esteve na Fazenda e na Justiça, para o Banco Central. A caminho do novo endereço, Roberto Leonel, seu dirigente e outro homem de confiança de Sergio Moro, caiu do caminhão da mudança. Beneficiado por uma sequência de decisões que atingiram o Coaf, o filho-investigado do presidente agradece, assim como Queiroz (onde quer que ele esteja).

Para entender essas queimadas, é necessário considerar que, ao longo das últimas décadas, o Brasil viu florescer um importante conjunto de instituições de fiscalização e controle, mas isso não se deu mediante um plano geral prévio e articulado. Antes, tem sido resultado de germinação espontânea, que começa no interior desses próprios órgãos, cujas burocracias buscam afirmação institucional e crescentes graus de autonomia e poder. Foi o que aconteceu com o Ministério Público e, em parte, com a Polícia Federal, que hoje servem de exemplos a outros órgãos que também pretendem alcançar a copa das árvores. Segundo o mantra, querem ser considerados como órgãos de Estado, e não de governo, isto é, permanentes e autônomos para sobreviver às intempéries provocadas pela alternância de partidos no poder.

Paradoxalmente, tem sido em situações críticas como a atual que tais órgãos ganham força. Delegados da PF voltaram a reivindicar a aprovação de emendas constitucionais capazes de assegurar maior independência à corporação. Quando propôs a transferência do Coaf para o BC, o ministro Paulo Guedes afirmou que “toda vez que tem uma crise institucional, não é só uma cabeça rolar. Uma cabeça rolar pode até acontecer, desde que haja avanço institucional”. O ministro descreve bem o fenômeno que tem marcado a evolução das instituições nesse campo e, provavelmente, acredita que a nova Unidade de Inteligência Financeira (UIF) representa um avanço, apesar de cabeças terem sido queimadas em seu nome.

Todavia, o tempo de Bolsonaro não se assemelha a qualquer outro, e essa lei geral do desenvolvimento institucional brasileiro, segundo a qual órgãos de controle crescem na crise, pode caducar. Até o Congresso Nacional teve o seu dia de fogo, ao aprovar a Lei de Abuso de Autoridade, algo esperado há muitos anos, mas que somente agora prosperou com as raízes expostas da Lava Jato. Quem percebeu que a queimada pode estar correndo morro abaixo foi o presidente da Associação Nacional dos Auditores Fiscais (Unafisco). Segundo Mauro Silva, sua categoria é contrária à proposta que tem sido ventilada de transformar a Receita Federal em autarquia — portanto mais independente —, pois veem na iniciativa uma espécie de “cavalo de Troia”, um presente bonito por fora, mas que seria preenchido por nomes estranhos à carreira e nomeados politicamente, por dentro. Um golpe contra a instituição, em resumo.

Desmatamento seguido de fogo, é isto que devem temer as instituições de fiscalização e controle no período atual.*

(*) ROGÉRIO ARANTES – ÉPOCA
É cientista político, professor da Universidade de São Paulo e atualmente Pesquisador do Instituto de Estudos Avançados (IEA) da USP.

CULPADOS NÃO ERAM AS ONGS?

Investigações revelam quadrilhas e ganho milionário por trás do desmate

Apuração do MPF mostra que devastação ilegal da floresta envolve uma série de crimes, como corrupção e grilagem. Retirada de árvores demanda uso de equipamentos pesados e custo de ao menos R$ 800 por hectare (um campo de futebol) cortado


Corrupção, formação de quadrilha, trabalho escravo, violência, grilagem, roubo de madeira. O desmatamento ilegal da Amazônia se insere em um conjunto de crimes que vai muito além do ambiental e envolve custos – e ganhos – milionários. Investigações da força-tarefa  Amazônia, do Ministério Público Federal, demonstram que há elaboradas organizações criminosas por trás do problema. Nesse processo, as queimadas são apenas a sua face mais visível.

“Não vou ignorar que existe sim o desmatamento da pobreza, que é para fins de subsistência, mas o que realmente dá volume, o desmatamento de grandes proporções, que é o objeto de preocupação, é outro. No sul do Amazonas vimos cortes de 200, 500, 1 mil hectares (cada hectare equivale a cerca de um campo de futebol) de uma só vez. E isso quem faz é o fazendeiro já com rebanho considerável que quer expandir para uma área que não é dele. É o grileiro que invade uma terra pública. Não tem nada a ver com pobreza”, disse ao Estado o procurador Joel Bogo, no Amazonas.

O custo para fazer um desmatamento desses é alto. Segundo ele, é de no mínimo R$ 800 por hectare, mas pode chegar a R$ 2 mil. “Depende das condições. Se tem muitas motosserras, por exemplo, ou se usa correntão. Um trator esteira, para abrir os ramais (estradas), custa centenas de milhares de reais. Em um desmate no Acre de 180 hectares, o Ibama encontrou 35 pessoas trabalhando ao mesmo tempo. Em condições análogas à escravidão”, relata.

O problema é reconhecido inclusive por parte do agronegócio, que veio a público na semana que passou pedir para que o governo combata o desmatamento e as queimadas. A Coalizão Brasil Clima, Florestas e Agricultura, entidade que reúne mais de 200 representantes do agronegócio, de entidades de defesa do meio ambiente, da academia e do setor financeiro, entregou um manifesto ao presidente Jair Bolsonaro, dizendo que isso é necessário para que o Brasil possa ser um “líder agroambiental”.

“Já vivemos períodos em que uma queda significativa do desmatamento se deu em meio a um ciclo de saltos de produtividade na agropecuária. Esse histórico mostra que não é necessário desmatar para aumentar a produção agrícola. O agronegócio está sendo prejudicado por quadrilhas que atuam na ilegalidade, manchando a reputação do setor, aumentando a insegurança jurídica e a concorrência desleal para produtores e empresas”, aponta o manifesto.

Em pouco mais de um ano, o esforço da Procuradoria, que envolveu o trabalho de 15 procuradores em Amazonas, Rondônia, Amapá, Acre e Pará, resultou em seis operações com ações penais já ajuizadas. Só no Amazonas, 33 pessoas foram denunciadas criminalmente.

Os ganhos dependem do que vai se fazer com o terreno depois. Alguns dos casos investigados pela força-tarefa envolvem altas somas nos mais variados crimes ambientais. Um caso é o de uma família denunciada por extrair ilegalmente ouro ao longo de quase dez anos em garimpo no Amapá. A Polícia Federal estimou que o grupo tenha lucrado cerca de R$ 19 milhões. Em outro caso, de extração de madeira na terra indígena Karipuna, em Rondônia, o dano ambiental foi calculado em mais de R$ 22 milhões.

Nove pessoas e duas empresas foram denunciadas por invadir e lotear a terra indígena. Laudo da Polícia Federal descreveu grandes áreas desmatadas e construções sendo feitas para ocupação humana, sob a falsa promessa de regularização da área. A operação descreve que o desmate no local saltou de 1.195,34 hectares (de 2016 a 2017) para 4.191,37 hectares no ano seguinte.

Em outra operação de extração ilegal de madeira na mesma região – a Floresta Virtual –, que investigou várias madeireiras que teriam vínculos entre si na organização do crime, somente uma delas foi acusada de acobertar madeiras de origem ilegal num montante de R$ 12.334.437,16.

Para Bogo, um dos casos mais exemplares foi o da Operação Ojuara, na qual o MPF denunciou 22 pessoas por corrupção, constituição de milícia privada, divulgação de informações sigilosas, lavagem de dinheiro e associação criminosa, em um processo que ocorria há anos no Acre e no Amazonas.

“Para levar a cabo o desmatamento e a grilagem (apropriação de terra pública e falsificação de documentos para, ilegalmente, tomar posse dessa terra), alguns fazendeiros tinham ramificação até em órgãos públicos”, diz Bogo. Segundo ele, havia crimes como falsidade em cartório e corrupção de servidor público. “Era um grupo organizado, que atuava até com georreferenciamento. Havia toda uma divisão de tarefas que leva à conclusão de que se tratava de crime feito de modo organizado.”

Grilagem
O desmate para especulação imobiliária é outra face do problema. A floresta é derrubada apenas para poder ser vendida. “Com floresta em pé, a terra vale pouco. O que valoriza é a derrubada. Área pronta para pasto é muito mais cara”, resume Bogo.

Estudo publicado em junho na revista Environmental Research Letters mostra que grande parte dos lucros da grilagem se dá com estímulos da própria legislação. O trabalho avaliou o impacto de uma lei de 2017 que facilitou a regularização fundiária de terras da União ocupadas na Amazônia. A justificativa era dar título de terra para os mais pobres e reparar injustiças históricas com pessoas que ocuparam a região após chamado do governo federal na década de 1970 e nunca tiveram sua situação legalizada. Para ambientalistas, isso favoreceria grileiros.

“A lei dá preferência de compra para quem está ocupando a terra. Além de usá-la de graça por muitos anos, grileiros podem comprá-la por preços abaixo do mercado”, diz o pesquisador Paulo Barreto, da ONG Imazon, que conduziu o estudo. O trabalho avaliou perdas de receita que poderiam ocorrer com 32.490 terrenos – que somam 8,6 milhões de hectares –, e já estão no processo de receber o título de terra. “A perda de curto prazo varia de US$ 5 bilhões (cerca de R$ 20,7 bilhões) a US$ 8 bilhões (R$ 33,2 bilhões)”, calcula. Isso tem potencial de aumentar ainda mais o desmate, acrescenta, uma vez que estimula ocupações futuras com a esperança de regularizar a posse.

Considerando regularizações futuras – de áreas onde o governo tem planos de expandir o programa –, os pesquisadores estimaram que o potencial de perda de receita pode chegar perto de US$ 20 bilhões. E isso tem potencial de aumentar ainda mais o desmatamento, diz Barreto, uma vez que estimula ocupações futuras com a esperança de poder regularizar a posse.*

(*) Giovana Girardi, O Estado de S.Paulo

NO OSSO…

Exército alega falta de recursos e diminui expediente de militares

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Citando falta de recursos, o comandante do Exército, general Edson Pujol, autorizou que o expediente na Força às segundas-feiras do mês de setembro seja cortado para contribuir com a economia de despesas. Em um e-mail enviado nesta quarta-feira, dia 28, ao Alto Comando do Exército, Pujol diz que os comandantes, chefes e diretores da Força poderão “suprimir” a seu critério o dia de trabalho em suas respectivas áreas nos dias 2, 9, 16, 23 e 30 de setembro. “O contingenciamento ora imposto impacta, de forma significativa, a capacidade de custeio do Exército, exigindo medidas severas para que seja possível honrar os contratos com concessionários e outras despesas inerentes à vida vegetativa da Força”, diz o chefe militar.

No mesmo comunicado, ao qual a Folha teve acesso, Pujol alega que o quadro orçamentário do Comando do Exército neste ano sofreu um contingenciamento de 28% do previsto no Orçamento para as despesas discricionárias, incluindo os programas estratégicos. Ele argumenta ainda que o orçamento do Exército autorizado para 2019 é pouco mais da metade (54%) da dotação recebida em 2015. “Em sintonia com a iniciativa do governo federal de equilibrar as contas públicas, a Força vem despendendo os esforços possíveis de racionalização, como cortes e ajustes em contratos, alongamento dos programas estratégicos, readequação da manutenção de material de emprego militar, redução de estoques estratégicos e redução dos gastos com concessionários de serviços públicos e contratos administrativos”, segue o comandante do Exército.

CONTENÇÃO – A ordem que permite o corte no expediente foi disparada por Pujol às vésperas do envio, pelo presidente Jair Bolsonaro (PSL) ao Congresso Nacional, da proposta orçamentária para o ano que vem. O primeiro projeto de Orçamento de Bolsonaro deve ser encaminhada ao Congresso nesta sexta-feira, dia 30. Não é a primeira medida administrativa de contenção de gastos adotada pelo Exército. No ofício, por exemplo, Pujol determina que seja mantido o meio expediente nas sextas-feiras.  Ele encerra o comunicado dizendo que serão transmitidas outras orientações “em caso de evolução da situação orçamentária”.

O próprio presidente Jair Bolsonaro tem abordado em suas entrevistas a situação financeira das Forças Armadas e falta de recursos.  Em meados deste mês, ao comentar a situação “grave” das contas públicas, Bolsonaro disse que os ministros na Esplanada estavam “apavorados” e que o Exército “vai ter que entrar em meio expediente”.  “Não tem comida para dar para o recruta”, disse o presidente. O ministério da Defesa foi um dos mais afetados pelo contingenciamento do governo.  A pasta sofreu um corte de mais de 40% das despesas não obrigatórias. *

(*) Ricardo Della Coletta
Folha de São Paulo

O MAIOR “VENDEDOR DE CARROS” DO PAÍS

Defesa diz que Fabrício Queiroz paga despesas no Albert Einstein “com recursos próprios”

 

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A defesa do policial militar aposentado Fabrício Queiroz, ex-assessor do senador Flávio Bolsonaro (PSL-RJ), afirmou nesta sexta-feira, dia 30, que ele paga as despesas médicas no hospital Albert Einstein “com recursos próprios e, quando possível, com o plano de saúde dele”. Em janeiro, quando fez a cirurgia para tratar o câncer de cólon, Queiroz pagou R$ 64,6 mil em dinheiro pelo procedimento. Com paradeiro ignorado desde então, o ex-assessor de Flávio Bolsonaro foi fotografado pela revista Veja na recepção e na porta do hospital, onde continua fazendo o tratamento da doença. Segundo a revista, foi localizado na segunda-feira passada, dia 26, e mora atualmente no bairro do Morumbi, zona sul de São Paulo.

Em nota, o advogado Paulo Klein, que defende o ex-assessor, disse que “recebe com tranquilidade as informações recentemente veiculadas, uma vez que só comprovam que o que vem sendo dito é absolutamente verdadeiro”. A defesa, no entanto, deixou de responder a outras perguntas relacionadas a Queiroz: afirmou não saber em que imóvel ele está hospedado na capital paulista, quem paga pelo imóvel e quem o acompanha no dia a dia do tratamento médico. A justificativa é que essas informações não estão relacionadas com o âmbito jurídico do caso.

BOATOS – Para interlocutores, a localização do ex-assessor ajuda a afastar teorias de que teria sido morto, saído do País ou se escondido em áreas dominadas por milícias no Rio de Janeiro. Queiroz relatou a interlocutores que sua família tem sofrido com esses boatos. Um deles foi reforçado, inclusive, pelo deputado federal Alexandre Frota (PSDB), que saiu do PSL há duas semanas. “Onde está enterrado o Queiroz?”, questionou o parlamentar.

Pessoas próximas ao ex-policial militar demonstraram incômodo com o mote “Onde está o Queiroz?”, usado com frequência pela oposição ao governo do presidente Jair Bolsonaro, pai de Flávio. Alegam que ele nunca fugiu, apesar de se recusar a falar com a imprensa e de ter faltado a depoimentos marcados pelo Ministério Público do Rio (MP-RJ) – ele apresentou a defesa por escrito. A descoberta do paradeiro e a tranquilidade que Queiroz demonstraria ao transitar pelo hospital ajudaram a desconstruir a ideia de que ele seria um foragido da Justiça, dizem os interlocutores. Eles argumentam que, mesmo estando há mais de oito meses sem dar declarações e do mistério em torno de onde havia se estabelecido, o ex-assessor não tem nenhuma obrigação formal de “aparecer”.

COAF – Queiroz é pivô de uma investigação aberta pelo Ministério Público do Rio após a descoberta de “movimentações atípicas” na sua conta. Quando foi suspenso pelo ministro Dias Toffoli, do Supremo Tribunal Federal (STF), em julho, o caso estava na fase de análise da quebra dos sigilos bancário e fiscal das 85 pessoas e nove empresas ligadas ao gabinete e às transações imobiliárias de Flávio. O MP não havia feito a denúncia do caso. As suspeitas são de peculato, lavagem de dinheiro e organização criminosa.*

(*) Caio Sartori
Estadão

MALANDO & OTÁRIO

Morador de Mirante do Paranapanema leva prejuízo de mais de R$ 7 mil após tentar ‘pacto com Lúcifer’
Homem de 31 anos registrou Boletim de Ocorrência nesta terça-feira (27), na Delegacia da Polícia Civil. Promessa era de retorno financeiro de R$ 160 mil com os investimentos feitos.

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Um homem de 31 anos, morador de Mirante do Paranapanema (SP), sofreu um prejuízo de R$ 7.350,00 após tentar um “pacto com Lúcifer” supostamente intermediado por um “sacerdote espiritual” com quem teve contato através de vídeos publicados na internet.

O caso foi registrado nesta terça-feira (27) como estelionato, na Delegacia da Polícia Civil, e está sob investigação.

De acordo com as informações do Boletim de Ocorrência, ao qual o G1 teve acesso, a vítima contou que, através de vídeos publicados na internet, conheceu o “sacerdote espiritual”, que também diz ser “mestre e pai de santo”.

Devido a “problemas de ordem pessoal”, a vítima entrou em contato com o homem, morador de São Paulo (SP), em outubro do ano passado, através de um aplicativo de troca de mensagens, para obter informações a respeito dos serviços prestados pelo “sacerdote espiritual”.

De imediato, o homem ofertou à vítima um “pacto” através do qual o morador de Mirante do Paranapanema poderia fazer um investimento inicial de R$ 5 mil e no mês seguinte já teria um retorno de R$ 10 mil e poderia fazer saques.

Diante da proposta ofertada, a vítima interessou-se e depositou R$ 1.350,00 ao “sacerdote espiritual”.

O homem, que tem 25 anos de idade, sempre dizia que a vítima teria um valor de retorno mais alto do que o depositado. Além disso, segundo o relato apresentado no Boletim de Ocorrência, parte do valor retornado seria novamente investido e outra parte seria devolvida à vítima com prazo de 30 dias.

Convencido pelo “sacerdote espiritual”, o morador de Mirante do Paranapanema, que trabalha como servente, continuou a realizar depósitos para o homem na crença de que teria os retornos financeiros propagados pelo “mestre”.

Os depósitos totalizaram a quantia de R$ 7.350,00, segundo o Boletim de Ocorrência, e foram feitos na conta bancária nominal do “mestre”.

O morador de Mirante do Paranapanema contou ainda à polícia que, em certo ponto da conversa com o “sacerdote espiritual”, o “mestre” lhe informou que até abril de 2019 teria um retorno financeiro de R$ 160 mil com os investimentos feitos.

No entanto, até a presente data, o servente nunca recebeu nenhuma quantia financeira prometida pelo “mestre” e o valor pago em depósitos ao “sacerdote espiritual” também não foi devolvido.

A Polícia Civil abriu investigação para apurar o caso.

Na descrição de um de seus vídeos, o “sacerdote espiritual” diz:

“Seja bem vindo ao único e verdadeiro caminho a Lúcifer e para tornar todos seus sonhos e desejos em realidade… Jamais vou ludibriar sua pessoa , pois já deve ter sofrido muito até chegar aqui, já deve ter sido ludibriado, já devem ter prometido amor e uma vida próspera em vários lugares! Mais tenho a plena certeza que foi meu Pai Senhor e todo poderoso Lúcifer que lhe mostrou o caminho ate minha pessoa [sic]”.

Na mesma publicação, ele dá instruções sobre os valores e as formas de pagamento pelo “pacto”, inclusive com a indicação dos números de duas contas bancárias para o depósito do dinheiro, e ainda faz uma observação:

“Assim que efetuar o deposito enviar seu nome completo, data de nascimento, 3 fotos de perfil , seus pedidos financeiros, sentimentais e espirituais junto com COMPROVANTE ai darei inicio a sua preparação e enviarei todo no seu procedimento antes e depois do PACTO [sic]”.*

(*) Por G1 Presidente Prudente