ESPERANDO POR UM MILAGRE

Na montanha-russa da economia, otimismo e incerteza se alternam
Notícias boas e ruins aparecem todos os dias, e ninguém sabe dizer quando o crescimento realmente vai voltar

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Desde que o Brasil saiu oficialmente da recessão, no fim de 2016, as previsões para a economia viraram uma espécie de montanha-russa. Às vezes, a sensação trazida pelos  indicadores e pelo noticiário relacionado às empresas é de que o crescimento está de volta. Mas aí chegam outros indicadores, outras notícias, e todo mundo se pergunta: quando é que o Brasil volta a crescer de verdade?

Neste mês, experimentamos isso mais uma vez. Na semana passada, a divulgação do desempenho da indústria em agosto (uma surpreendente alta de 0,8%, após três meses de queda) dava uma certa esperança de que a economia talvez começasse a dar sinais de recuperação. Aí veio o dado do comércio, que ficou praticamente estagnado  (alta de 0,1%). E, nesta sexta-feira, 11, o IBGE divulgou que o setor de serviços teve queda de 0,2% em agosto.  Um sinal bom, outro ruim e todos continuam à espera de que haja realmente uma retomada.

Já fizemos aqui no Estadão uma série de reportagens e entrevistas mostrando, no final das contas, por que o Brasil não cresce. Economistas como José Roberto Mendonça de Barros,  Marcos Lisboa e Eduardo Giannetti acreditam que o grau profundo de destruição deixado pelo longo período de recessão, iniciado no primeiro trimestre de 2014, e a falta de investimentos, tanto públicos quanto privados, prejudicam qualquer ensaio de retomada. Lisboa afirma que será muito difícil, pelas condições atuais, que o Brasil volte a ostentar crescimentos acima de 3% ao ano.

Na questão específica das obras, está claro que não será possível contar com o governo, completamente sem dinheiro. O Orçamento federal para 2020, quase completamente tomado pelas despesas obrigatórias, prevê apenas R$ 19 bilhões para investimentos,  um número ridículo, o menor em uma década. O presidente Jair Bolsonaro, em entrevista ao Estadão, disse que tem pedido aos ministros para terminarem obras inacabadas, o que teria, segundo um levantamento do Tribunal de Contas da União (TCU), potencial para destravar investimentos de R$ 144 bilhões. Mas a pergunta é: com que dinheiro isso poderia ser feito?

Mais seguro seria contar com dinheiro privado para os investimentos. E, nesse sentido, houve uma ótima notícia nesta semana. O leilão de áreas de exploração de petróleo realizado na quinta-feira, 10, foi um sucesso – embora nem todas as áreas tenham recebido ofertas. No final, a arrecadação foi de R$ 8,9 bilhões, muito acima das previsões do governo. O ágio foi de 322% em relação aos preços iniciais. E, bom sinal, houve forte presença de empresas estrangeiras. A Petrobrás, que sempre foi o motor dos leilões de petróleo no País, ficou somente com uma área.

Esse sucesso traz alento porque esse é um setor que exige grandes investimentos. A estimativa da Agência Nacional de Petróleo (ANP) é que só o pagamento de royalties aos governos chegue a R$ 100 bilhões quando as áreas estiverem produzindo. E em novembro tem mais: o governo espera arrecadar R$ 106 bilhões com a licitação de blocos do  pré-sal. Como disse nossa colunista Cida Damasco, foi apenas o começo, e um bom começo.

Mas é preciso mais, e o governo sabe disso. A privatização da Eletrobrás, por exemplo, é um objetivo que já vem sendo perseguido desde o governo de Michel Temer, mas sempre trava no corporativismo do Congresso.  Com subsidiárias importantes, como Chesf e Furnas, a empresa sempre foi objeto de barganha política.  Mas o governo Bolsonaro insiste. O ministro de Minas e Energia, Bento Albuquerque, disse que o novo projeto de lei de venda da estatal será enviado ainda este mês ao Congresso.

Assim, a economia continua em compasso de espera. Há promessas de reformas estruturais (Previdência – quase lá -, tributária, administrativa), fundamentais para tornar o País mais amigável aos investimentos, de reformas microeconômicas e de um festival de concessões e privatizações. Mas o salto da economia precisa que as promessas sejam cumpridas.*

(*) Alexandre Calais, O Estado de S.Paulo