…É BOA, MAS SE PUDE EVITAR

Eles não gostam da imprensa livre

Anos atrás, repórteres não se atreveriam a perguntar a um ministro do STF quem paga a viagem dele ao exterior

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‘O GLOBO não é um jornal, é um panfleto político, sempre interessado em trocar notícia por verba publicitária” — disse o prefeito Marcelo Crivella, para justificar a exclusão de repórteres do GLOBO de uma coletiva.

O comentário é uma óbvia contradição. Se estivesse interessado em trocar notícia por verba, por que O GLOBO faria críticas à gestão municipal, fonte de muito dinheiro de propaganda? Seria o inverso, não é mesmo? Deveria bajular não apenas a prefeitura Crivella, como o presidente Bolsonaro, ambos donos de gordas verbas publicitárias.

Citamos Bolsonaro porque ele também tem se dedicado a atacar veículos diversos, incluindo todos do Grupo Globo e mais a “Folha”, alvos especiais.

De espírito autoritário, muitos líderes políticos não sabem o que é democracia e seu corolário, a imprensa livre. Podemos incluir aqui Lula e o pessoal do PT. Não esqueçamos: as primeiras palavras de Lula ao deixar a prisão foram para atacar a TV Globo.

Assim, vamos explicar, mais uma vez. Na verdade, não se pode falar “a” imprensa. Há muita diversificação entre os veículos, sendo a principal divisão entre os independentes e os chapa-branca. Estes são aqueles que só existem para fazer propaganda e/ou defender os interesses do governo, de políticos, de igrejas e de negócios setoriais. Vivem de verbas públicas ou de dinheiro colocado pelo patrocinador exclusivo.

A imprensa independente é aquela que vive da notícia e, no caso da TV, também do entretenimento. Vive no duplo sentido: tem que ser reconhecida como tal pelo público (credibilidade) e tem de ganhar dinheiro com venda em bancas, de assinaturas e de publicidade. A independência é editorial e econômica ao mesmo tempo.

Aqui, essa imprensa independente amadureceu ao longo da vida democrática pós-1985.

Tem várias características, algumas boas, outras ruins, mas há um ponto essencial. A imprensa brasileira não é bem agressiva — como a qualificou uma vez o ministro Gilmar Mendes. É atrevida. Nem sempre foi. Tornou-se atrevida, especialmente na política, em tempos relativamente recentes.

Por exemplo: alguns anos atrás, repórteres políticos não se atreveriam a perguntar a um ministro do STF quem estava pagando a viagem dele ao exterior.

Na verdade, não é que não se atreveriam, nem lhes ocorria perguntar esse tipo de coisa. Parecia normal que autoridades tivessem privilégios, incluindo as famosas mordomias.

Também não era um vício apenas nacional. Na Washington de John Kennedy, todo mundo sabia que o presidente gostava muito de mulheres e que as recebia na piscina da Casa Branca quando Jacqueline não estava por perto. Jornalistas sabiam, alguns até participavam das farras — e não publicavam nada. Ao contrário, publicava-se que se tratava de um feliz casal presidencial.

Em Brasília dos anos 80 e 90, os jornalistas também sabiam das mazelas pessoais (amantes, rolos) e, digamos, profissionais dos políticos, tais como negócios paralelos. Corrupção. Não lhes ocorria publicar, mesmo porque muitos jornalistas desfrutavam de vantagens indevidas, como empregos no Congresso, em autarquias e estatais. Além de financiamentos especiais em bancos públicos.

A mudança forte começou a aparecer na passagem dos anos 80 para os 90. Repórteres mais novos começaram a publicar os privilégios, os bastidores, inclusive das casernas — ou seja, as informações não oficiais, não autorizadas, mas obtidas por apuração e investigação independente.

Ao mesmo tempo, desenvolveu-se o jornalismo opinativo — outro que tanto incomoda as autoridades. Estas consideram uma impertinência quando jornalistas as criticam. Dizem que não são jornalistas, mas jornaleiros, uma ofensa a estes últimos.

Mas na democracia, quem decide se uma imprensa é boa ou não é o público, com sua audiência, sua leitura, seu respeito.

Não precisam me lembrar que a imprensa erra. Nós, jornalistas, sabemos disso melhor que os outros. Também sabemos reconhecer e corrigir.

Os ataques simultâneos das direitas e das esquerdas, da situação e da oposição, indicam que estamos fazendo a coisa certa.*

(*) Carlos Alberto Sardenerg – O Globo

É MUITA CARA DE PAU!

“Me equivoquei”, diz Flavio Bolsonaro ao votar pelo aumento do fundo eleitoral

 

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O senador Flavio Bolsonaro admitiu nesta quarta-feira (4) que “não prestou atenção” na votação no Congresso sobre vetos à minirreforma eleitoral e permitiram o aumento do fundo eleitoral para 2020. A proposta chegou a R$ 3,8 bilhões, enquanto o governo manteve a previsão de R$ 2 bilhões. “Eu me equivoquei sim nesse voto específico em relação ao fundo eleitoral. Foi uma falha minha, uma desatenção minha, responsabilidade minha não ter votado da forma correta”, afirmou o senador em vídeo publicado em seu canal no YouTube. O veto a que ele se refere foi um dos sete estipulados por Jair Bolsonaro, que impedia um aumento no fundo eleitoral.*

(*) Gazeta do Povo

CRÍTICAS? – NEM PENSAR!

Exemplo de tolerância

Vemos quase diariamente diversas modalidades de agressão à imprensa

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Nenhum problema quando um chefe de Poder Executivo discorda do teor de determinado conteúdo jornalístico. Para isso ele, e todos, tem sempre o direito de resposta. E, pela natureza do cargo que ocupa, seu canhão de comunicação pode muito bem contestar a informação publicada e tentar provar que ela está errada. Se a informação estiver errada, com certeza veículos profissionais, como “Folha de S.Paulo”, TV Globo ou O GLOBO, farão imediatamente a correção. Assim é que se faz nas democracias. Se a denúncia for exata, o negócio é corrigir o erro e pedir desculpas, quando couberem.

O grande escândalo do governo de Michel Temer trouxe também uma excelente história de tolerância, de respeito à democracia e de convivência democrática entre imprensa e poder público. Quem não se lembra da reportagem de Lauro Jardim, no GLOBO, mostrando com detalhes um encontro sombrio entre o então presidente e o empresário Joesley Batista? Não houve até aqui no governo Bolsonaro um escândalo de tamanha dimensão. E o que Michel Temer fez contra a imprensa depois da denúncia que repercutiu em todos os veículos de comunicação e se estendeu pelo resto de seu mandato? Nada.

Temer tentou por todos os meios lícitos provar que o encontro no Jaburu não tinha nada de mais. Que não deu carta branca a Joesley, nem o incentivou a manter calado o ex-deputado Eduardo Cunha ao falar a famosa frase “Tem que manter isso, viu?”. E mais, mesmo debaixo de um verdadeiro dilúvio político, o presidente seguiu dialogando com jornalistas e recebeu repórteres, colunistas e editores do GLOBO no Palácio do Planalto para conversas absolutamente republicanas. Recebeu até mesmo Lauro Jardim, o autor da reportagem que quase encerrou o seu mandato. Foi uma conversa respeitosa seguida de almoço.

Desde a posse de Bolsonaro, vemos quase diariamente diversas modalidades de agressão à imprensa. Já estão contabilizados mais de cem ataques furiosos do presidente contra jornais e jornalistas. Os dois mais recentes foram o faniquito contra a TV Globo, no final de outubro, e a suspensão de assinaturas seguida de boicote à “Folha de S.Paulo”, anunciado na semana passada pelo Palácio do Planalto. Nos dois casos, o que se viu foi uma reação extravagante a reportagens que desagradaram a Sua Excelência.

O nome disso é intolerância. Nenhuma novidade em se tratando do capitão. Ele nunca escondeu que é assim mesmo que pensa e é dessa forma que sempre reagiu, desde seu primeiro mandato como deputado federal. Se nunca foi freado por seus atos antidemocráticos no Congresso, por que haveria de ser no Planalto? Com esta pergunta respondida, Bolsonaro avança com sua regra agressiva e criminosa. E, até agora, nenhum poder pisou no freio. O Congresso finge que não é com ele. O Supremo faz ar de paisagem.

Por isso, pela impunidade, a escalada contra a imprensa do presidente segue e gera filhotes, todos perigosos. Alguns ridículos. O prefeito do Rio, Marcelo Crivella, é um desses clones patéticos de Bolsonaro. Na segunda-feira, depois de O GLOBO publicar matéria com a denúncia de um doleiro preso sobre o balcão de negócios de Crivella, o prefeito imitou seu superior e chamou os repórteres de patifes e canalhas. Na terça, proibiu O GLOBO de participar de uma entrevista coletiva sobre o réveillon deste ano. Trata-se de um despropósito. O prefeito imagina que a prefeitura é sua casa e que pode determinar quem nela entra e quem não entra.

Se Bolsonaro pode fazer qualquer barbaridade, por que eu também não posso?, deve ter se perguntado o bispo-prefeito com aquela sua cabeça rudimentar. Do outro lado da montanha, cansamos de ouvir as ameaças do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva contra veículos de comunicação. Ele já disse, mais de uma vez, que se um dia voltasse ao poder faria o controle externo da mídia, nome de fantasia de censura à imprensa. A sanha antidemocrática alcança da mesma forma as duas extremidades do espectro político.

O capitão, o bispo e o sindicalista deveriam mirar-se no exemplo de Michel Temer.*

(*) Ascânio Seleme – O Globo

DENDURADO NA BROXA

Moro sem força no Congresso

A aprovação do pacote anticrime sem as principais bandeiras do “super-ministro” comprova seus limites na articulação política com o Legislativo e complica seus planos eleitorais futuros

Sob o efeito dos nove cadáveres pisoteados em virtude de uma ação desastrada da Polícia Militar na favela paulistana de Paraisópolis, o ministro da Justiça, Sérgio Moro, sofreu uma derrota política ontem. Ainda que a Câmara tenha aprovado seu pacote anticrime por 408 votos a 9, a versão diluída que agora segue ao Senado não tem as principais bandeiras defendidas por Moro.

Mais popular ministro do governo Jair Bolsonaro – mais que o próprio presidente –, Moro chegou a Brasília no início do ano cheio de ideias, mas com nenhuma experiência política. Na hora de pô-las em prática, de nada valeram a popularidade ou o epíteto de “super-ministro”.

O outro “super-ministro”, Paulo Guedes, encontrou no Congresso uma força favorável a seu programa de reformas. Moro, em contraste, desde o início esbarrou nos limites de sua capacidade de articulação no Legislativo. Foi isso, mais que eventuais ameaças que o pacote pudesse representar a um ou outro parlamentar investigado por corrupção, que provocou o resultado.

No balcão brasiliense de negociações, a fama de super-herói não pegou bem ao artífice da Operação Lava Jato. O texto original foi fundido com outro projeto, derivado de propostas enviadas por um de seus antecessores na pasta da Justiça, o hoje ministro do Supremo Alexandre de Moraes. Na hora H, de algo como 30 propostas defendidas por Moro, apenas 4 foram aprovadas pelos deputados.

Ficaram fora os pontos que mais defendeu: ampliação da prisão cautelar e cumprimento de penas depois da condenação em segunda instância, aplicação de penas menores a réus que assumissem a culpa pelos crimes (dispositivo conhecido pela expressão em inglês “plea bargain”), redução de penas para policiais cujos atos criminosos decorressem de “escusável medo, surpresa ou violenta emoção” (instrumento apelidado com o eufemismo “excludente de ilicitude”).

O tal “excludente de ilicitude” é um projeto caro também a Bolsonaro e à bancada policial. Comparado a uma licença para matar, foi alvejado sem piedade pelos deputados. No único destaque levado a votação, Moro também foi derrotado. Defendido pelo partido Novo, propunha retirar do texto a criação do juiz de garantia, responsável apenas pela instrução criminal, mas não pelo julgamento dos réus. Até o último momento, Moro fez pressão em favor do destaque. Em vão.

A confusão entre os papeis de instrutor e julgador permitiu a Moro agir como ambos na Lava Jato. Ao se comunicar livremente com os procuradores, sugerir linhas de investigação e estratégias, Moro despertou um sem-número de críticas. Foi acusado de agir com parcialidade e de perseguir réus, em particular o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Até agora, nada do que fez foi julgado errado pelas instâncias superiores que reviram sua atuação. Mas, se fosse apenas um juiz de garantia, é certo que não poderia ter feito nada daquilo.

Os quatro pontos aprovados entre as ideias iniciais são relevantes, mas não compensam os derrotados. São eles: autorização para a gravação de conversas de advogados suspeitos de conspirar com presos, permissão de que policiais infiltrados simulem ações para obter provas (como comprar drogas de suspeitos de tráfico), fim da progressão de penas para integrantes de facções criminosas e cumprimento imediato de sentenças superiores a 15 anos proferidas pelo tribunal do júri (os principais casos envolvem crimes violentos como homicídio).

Dos pontos rejeitados, o cumprimento das penas depois da sentença da segunda instância terá nova chance na proposta que tramita no Senado e a Comissão de Constituição e Justiça decidiu ontem levar a votação (à revelia do que pretendia o próprio presidente da Casa, Davi Alcolumbre). Depois que o Supremo Tribunal Federal (STF) vetou a execução das penas até a sentença da última instância, ficou claro que o tema depende de mudança constitucional. Diante do clamor popular, é possível que ela ocorra.

Bolsonaro também falou em mudar o entendimento da expressão “legítima defesa” no Código Penal e não desistirá de seu “excludente de ilicitude”. Nada do que venha a acontecer agora, contudo, estará associado ao nome de Moro. Seus adversários conseguiram lhe impingir uma derrota política inequívoca que reduz (embora não elimine) a viabilidade de seus projetos eleitorais no futuro. No Congresso Nacional, o super-ministro parece ter encontrado sua criptonita.*

(*) Helio Gurovitz – G1

NO FUNDO DOS OUTROS É REFRESCO

PT e PSL terão R$ 730 milhões do fundo eleitoral para distribuir aos seus candidatos em 2020

O aumento no valor do fundo eleitoral para R$ 3,8 bilhões, aprovado nesta quarta-feira, dia 4, na Comissão Mista de Orçamento do Congresso, vai turbinar o caixa dos partidos na disputa do próximo ano, em especial do PT e do PSL.

As siglas, que polarizaram a discussão política na última eleição, terão quase 20% deste montante, o equivalente a R$ 730 milhões para distribuir aos seus candidatos a prefeito e vereador, o que lhes assegura ampla vantagem com relação às outras legendas.

RECURSOS PÚBLICOS – Essa será a primeira eleição municipal abastecida majoritariamente com recursos públicos. As contribuições de pessoas físicas são permitidas, mas limitadas a 10% da renda do doador no ano anterior, tornando assim improvável que outros partidos tenham tanto dinheiro quanto o PT e o PSL para impulsionar seus candidatos.

O fundo eleitoral é alimentado com dinheiro do Tesouro e se destina a financiar gastos das campanhas, como viagens, cabos eleitorais e material de divulgação. Protagonistas de recentes escândalos, o PT e o PSL ficam com a maior parte do dinheiro porque elegeram mais deputados e senadores em 2018.

“DIREITO” – Os petistas terão R$ 376,9 milhões, enquanto que o ex-partido de Jair Bolsonaro vai embolsar R$ 350,4 milhões, quantia 37 vezes maior do que teve na disputa presidencial de 2018. O líder do PT na Câmara, Paulo Pimenta (PT-RS), afirmou que seu partido ganhou o direito a ter a maior fatia do fundo eleitoral “nas urnas”.

“É proporcional ao número de votos que cada partido teve na última eleição e a população nos conferiu essa condição de ser a maior bancada.” Luciano Bivar (PE), presidente do PSL, afirmou que o partido está preparado para administrar tanto dinheiro. “Temos o maior sistema de transparência hoje, quanto a isso não tenho a menor preocupação”, afirmou, em referência à suspeita de candidaturas laranja em 2018.

O valor proposto para o fundo pelo relator do Orçamento, deputado Domingos Neto (PSD-CE) – e que tem aval da maioria dos partidos – representa um aumento de 120% em relação ao que foi desembolsado nas eleições do ano passado, quando os partidos receberam R$ 1,7 bilhão.

APOIO – O reajuste ainda precisa ser confirmado no plenário do Congresso no próximo dia 17. Treze partidos apoiam a medida, o que garante votos suficientes para ser aprovada. Apenas Cidadania, Novo, Rede, Podemos e PSOL são contra o aumento.

Parlamentares favoráveis ao crescimento do valor do fundo argumentam que as disputas do ano que vem, para escolher prefeitos e vereadores, demandarão muito mais recursos por envolver candidatos nas 5.568 cidades do País.

“JUSTIFICATIVA” – “Hoje, o fundo eleitoral é responsável por um Congresso mais diverso. Sem ele, elegeríamos somente pessoas que têm muito dinheiro para financiar campanhas”, afirmou ontem Domingos Neto, após receber críticas nas redes sociais.

O presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ), afirmou que qualquer acréscimo de dinheiro público para campanhas precisará ser “muito bem justificado”. “Todo mundo sabe que a democracia, a eleição, precisa ser financiada. E financiamento privado está vedado. Então precisa se construir no financiamento público”, disse.

RACHA –  Hoje dividido entre as alas “bolsonaristas” e “bivaristas”, o PSL pode ficar com R$ 350,4 milhões do fundo para distribuir entre seus candidatos, um valor 37 vezes maior do que os R$ 9,2 milhões que teve em 2018. Na ocasião, mesmo sendo considerado um “nanico”, a sigla elegeu o presidente Bolsonaro, três governadores e a segunda maior bancada da Câmara, com 52 deputados.

A debandada que deve ocorrer com a criação do Aliança pelo Brasil – sigla que Bolsonaro tenta tirar do papel –, não diminuirá a quantia destinada ao PSL. Isso porque uma alteração na lei feita na minirreforma eleitoral mudou o cálculo da divisão do fundo, que passou a ignorar eventuais mudanças de partidos por parte dos parlamentares.*

(*) Thiago Faria
Estadão

AMAR É…

Caiu a ficha e é hora de repensar as relacões com os EUA, defendem assessores de Bolsonaro

 

Apesar de não externarem publicamente, o presidente Jair Bolsonaro e sua equipe já avaliam que o relacionamento com os Estados Unidos precisa ser repensado, porque a qualidade da parceria com o presidente Donald Trump não está sendo nada boa para o Brasil. Nas palavras de um assessor presidencial, “caiu a ficha” e a hora é de ser pragmático com o governo norte-americano.

Desde o início do governo, o presidente Bolsonaro adotou uma política deliberada de alinhamento com os Estados Unidos. Fez diversas concessões ao governo norte-americano, mas até agora só recebeu promessas em alguns setores e ameaças de retaliação em outros. Por isso, a avaliação agora, feita pela equipe presidencial, é que “a qualidade da parceria não está sendo boa para o Brasil”.

DEVAGARINHO – Isso não significa que o governo brasileiro irá praticar de imediato algum tipo de retaliação contra os Estados Unidos. Adotar esse caminho de cara, argumentam assessores da equipe econômica, seria ir contra a linha do governo atual, que é pela abertura da nossa economia, e não pela adoção de medidas protecionistas.

Por enquanto, a ordem interna é apostar nas negociações para reverter a decisão de Trump, que anunciou a adoção de sobretaxa de 25% sobre a importação de aço brasileiro e de 10% sobre o alumínio. Negociadores brasileiros conversaram com funcionários da Casa Branca e ouviram deles o reconhecimento de que Trump pode ter errado ao incluir o Brasil no aumento de tarifas de importação.

Primeiro, porque, ao contrário de outros países, a maior parte do aço brasileiro exportado para os Estados Unidos é utilizada como insumo pelas siderúrgicas norte-americanas. Com isso, se a tarifa de importação sobe, o custo delas também sobe e acaba prejudicando a própria economia americana.

COTAÇÃO CAMBIAL – Segundo, os funcionários norte-americanos concordam que o Brasil não estava adotando nenhuma medida artificial de desvalorização cambial, como havia acusado Trump.

Agora, a expectativa é que, nas conversas com o presidente americano, ele possa voltar atrás. Ou que a medida fique apenas na ameaça e não entre em vigor.

Por isso, o governo brasileiro está optando por evitar declarações críticas públicas contra Donald Trump. O Brasil não afasta, porém, a possibilidade de uma reação caso a sobretaxa seja realmente adotada nas próximas semanas.*

(*) Valdo Cruz
G1 Política

BRIGA NO COVIL

Ex-aliada, Joice diz à CPI como atua o “gabinete do ódio” da família  Bolsonaro

Em depoimento à Comissão Parlamentar Mista de Inquérito da Fake News (CPI da Fake News), a deputada federal Joice Hasselmann (PSL-SP) detalhou nesta quarta-feira (4) como seria a atuação do grupo que ficou conhecido como “gabinete do ódio”, que funcionaria no Palácio do Planalto.

Segundo ela, uma rede de assessores, comandada pelo vereador Carlos Bolsonaro (PSC-RJ) e pelo deputado Eduardo Bolsonaro (PSL-SP), filhos do presidente Jair Bolsonaro, seria encarregada de promover ataques virtuais nas redes sociais contra desafetos da família e adversários do governo.

OS MENTORES – “Carlos e Eduardo são os cabeças, os mentores”, afirmou a deputada aos integrantes da CPI, afirmando que os filhos do presidente têm rede de perfis que espalham fake News.

Ex-líder do governo no Congresso Nacional, Joice passou a ser alvo de ofensas nas redes e foi destituída em outubro, após contrariar o governo. Na ocasião, ela se recusou a apoiar o nome de Eduardo Bolsonaro na disputa pela liderança do PSL na Câmara.

O nome “gabinete do ódio” surgiu em referência aos assessores que ocupam uma sala no terceiro andar do palácio, próximo de onde despacha o presidente Jair Bolsonaro.

ESTRATÉGIA – Na audiência da CPI, a deputada afirmou que o grupo atua com uma estratégia bem definida e organizada, que começaria com uma lista de personalidades consideradas “traidoras” e que seriam escolhidas como alvo dos ataques. “Qualquer pessoa que eventualmente discorde [da família Bolsonaro] entra como inimigo da milícia”, disse.

A publicação dos posts com memes ou ofensas seguiria um calendário estabelecido pelo grupo e uma rede de parlamentares e assessores, além de robôs, seria responsável por compartilhar as mensagens de forma articulada a fim de viralizá-las nas redes o mais rápido possível.

“Escolhe-se um alvo. Combina-se um ataque e há inclusive um calendário de quem ataca e quando. E, quando esse alvo está escolhido, entram as pessoas e os robôs. Por isso que, em questão de minutos, a gente tem uma informação espalhada para o Brasil inteiro”, afirmou Joice.

TRECHOS DE CONVERSAS – A deputada fez uma apresentação para mostrar como funciona o esquema de distribuição de ataques e notícias falsas. Ela exibiu trechos de conversas no Whatsapp atribuídas ao “gabinete do ódio”, com orientações sobre os procedimentos a serem seguidos. Os diálogos teriam sido repassados por um integrante do grupo.

“Essas informações foram passadas a mim. Por óbvio, vou preservar a fonte. Eu não faço parte desse grupo, demorei para conseguir essas informações, porque é muito sigiloso, mas até algumas pessoas que fazem parte entendem que todos os limites foram estourados”, afirmou.

A parlamentar relatou ainda ter usado um software desenvolvido por uma universidade americana para analisar os perfis no Twitter do presidente Jair Bolsonaro e do deputado Eduardo Bolsonaro.

SEGUIDORES-ROBÔS – Segundo Joice, quase 2 milhões dos seguidores dos perfis deles são robôs.

Ainda de acordo com ela, o software americano identificou 21 perfis do aplicativo Instagram usados pelo grupo que seriam interligados para distribuir o conteúdo de memes e notícias falsas a algumas páginas do Facebook.

“Estou mostrando o modus operandi, estou mostrando pessoas ganhando dinheiro público para atacar pessoas”, disse, em referência aos assessores lotados no Planalto.*

(*) Luiz Felipe Barbiéri, Fernanda Calgaro e Elisa Clavery
do G1 e da TV Globo

DESCULPAS ESFARRAPADAS

Falha em dados de exportações pode levar à revisão do PIB e preocupa analistas

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“Financial Times” estranhou três revisões em uma só semana

 

O Ministério da Economia do Brasil revisou números referentes às exportações pela terceira vez em menos de uma semana, o que causou dúvidas sobre a divulgação de dados importantes e fez com que os analistas questionassem se ainda podem aceitar a confiabilidade das estatísticas brasileiras.

Surgiram dúvidas na semana passada quando a moeda do país caiu, com o anúncio pelo BC (Banco Central) de números que demonstravam uma forte deterioração no balanço da conta-corrente brasileira no período entre janeiro e outubro, causada por uma queda nas exportações.

VALORIZAÇÃO – Mas a moeda se recuperou na quinta-feira (dia 28)  quando o Ministério da Economia revelou que as exportações nas quatro primeiras semanas de novembro não haviam sido de decepcionantes US$ 9,7 bilhões, como informado anteriormente, mas de US$ 13,5 bilhões, um resultado muito melhor.

A controvérsia continuou nesta semana. Na noite de segunda-feira (2), o Ministério da Economia disse que o erro havia sido causado por uma falha no registro de um grande volume de declarações de exportadores nos últimos três meses e que as exportações em setembro e outubro também haviam sido subestimadas, em US$ 1,37 bilhão e US$ 1,35 bilhão, respectivamente.

Isso foi seguido nesta terça-feira (3) pelo anúncio do PIB (Produto Interno Bruto) brasileiro no terceiro trimestre – com números compilados antes que os dados revisados sobre o comércio exterior, anunciados na segunda-feira, estivessem disponíveis.

 MENOS EXPORTAÇÕES – “Os números do PIB mostraram uma contração bastante significativa nas exportações no terceiro trimestre, e assim isso também pode ser revisado mais tarde”, disse Gustavo Rangel, economista-chefe da ING Financial Markets para a América Latina, em Nova York.

Ele disse que os números do PIB, embora superiores aos esperados, haviam causado dúvidas entre alguns analistas devido ao incomum valor alto calculado para os estoques das empresas – um indicador negativo em termos de atividade econômica. Existe a possibilidade, ele disse, de que parte desses estoques na verdade tenham sido exportados, mas é cedo demais para dizer.

As recentes revisões, e a possibilidade de que outras venham a acontecer, pela primeira vez, causaram dúvidas sobre os dados brasileiros, vistos há muito tempo como um modelo de prontidão e transparência entre os países de mercado emergente.

HAVERÁ REVISÃO? – O IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) disse que poderia ter de revisar os dados relativos ao terceiro trimestre, mas que normalmente isso só aconteceria dentro de um ano. No entanto, tendo em conta a magnitude do erro do Ministério da Economia, é possível que números revisados venham a ser divulgados junto com as estatísticas sobre o quarto trimestre, que devem sair no começo de março.

Também nesta terça, o IBGE revisou, para pior, os dados de exportações e importações nos dois primeiros trimestre de 2019, devido a mudanças feitas pela Secretaria de Comércio Exterior nos dados do período. A maior mudança foi a contribuição das vendas ao exterior, antes positiva em 1% no 1º trimestre, para -1,6%.

O Ministério da Economia afirmou estar confiante em que os dados revisados sobre as exportações reflitam a posição real e enfatizou que operava sob uma política de completa transparência e de boas práticas.

CONTRADIÇÃO – O IBGE anunciou que o PIB cresceu 0,6% no terceiro trimestre, ante o trimestre anterior, e 1,2% comparado ao período no ano passado, o que superou confortavelmente as projeções dos analistas, que era da ordem de 0,4%. No entanto, a instituição informou que as exportações de bens e serviços tiveram uma queda acentuada, de 2,8% ante o segundo trimestre.

A movimentação afetou o câmbio. “O real caiu devido à forte erosão da balança comercial e da conta-corrente, o que significaria que as bases da cotação da moeda estão mais fracas”, disse Alberto Ramos, analista do Goldman Sachs em Nova York.  “Pessoas certamente perderam e ganharam dinheiro” como resultado da confusão sobre a situação real das exportações, ele acrescentou.

Ramos disse que não existiam suspeitas de que os dados tivessem sido manipulados, mas que o incidente ainda assim havia despertado diversas preocupações.

INCOMPETÊNCIA – “Foi tudo um grande erro”, ele disse. “Não acho que tenha acontecido qualquer impropriedade, só incompetência e negligência em um momento no qual os mercados estavam ficando ansiosos sobre a erosão do comercio.”

Em Nova York, Gustavo Rangel, do ING, disse que o mais provável é que a explicação real seja que o Ministério da Economia brasileiro, um “superministério” criado neste ano pela fusão do Ministério da Fazenda com outras áreas da administração econômica do governo, tenha caído vítima das medidas de corte de custo que ele mesmo decretou. “As contratações estão congeladas e muita gente está se aposentando, e por isso eles estão sobrecarregados”, disse o analista.

“Como o setor público funciona quando as contas fiscais estão sofrendo tamanho aperto? Existe até o risco de uma paralisação do governo no ano que vem se eles não conseguirem cortar outros gastos”, disse Rangel.*

(*) Jonathan Wheatley
Financial Times