AMIGOS, AMIGOS; BEÓCIOS À PARTE

Até agora, o “alinhamento” entre Bolsonaro e Trump só deu prejuízo ao Brasil

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Charge do Simanca (Charge Online)

Anunciado como vantajoso para o Brasil, o alinhamento com os Estados Unidos, por enquanto, rende mais frutos para um dos lados – e não é o brasileiro. O Brasil alterou a sua política externa buscando uma aproximação com os Estados Unidos, com o discurso de que se tratava de uma guinada pragmática, que seria benéfica ao país do ponto de vista comercial, além de render acordos na área de defesa e o apoio americano a demandas em organismos multilaterais.

Por enquanto, o Brasil cedeu mais do que levou. Cedeu ao aumentar a cota de importação de etanol, sem tarifa, um afago direto aos Estados Unidos. Também topou tirar a obrigatoriedade de visto para turistas americanos (os de outros países também ganharam o benefício, é verdade. Mas, novamente, o afago tinha um destinatário).

BASE ESPACIAL – O uso da base de Alcântara, por meio do Acordo de Salvaguardas Tecnológicas que se arrastava por anos, também foi uma sinalização relevante aos EUA, com diferentes leituras entre os analistas sobre se, de fato, o acordo é benéfico ao país.

Do lado brasileiro, havia a expectativa de que os Estados Unidos retribuíssem os gestos de boa vontade, por meio de uma defesa mais firme sobre a entrada do Brasil na Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) – a Argentina estava na fila antes, mas a realidade é que a equipe econômica esperava, sim, uma manifestação contundente do governo americano a respeito do ingresso do Brasil no clube dos ricos.

Para isso, o governo brasileiro aceitou abrir mão do status de país em desenvolvimento na Organização Mundial do Comércio (OMC), o que lhe rendia algumas vantagens na concessão de incentivos. O Ministério da Agricultura também tinha como prioridade derrubar as barreiras americanas à importação de carne brasileira in natura, o que não aconteceu durante a viagem da ministra Tereza Cristina ao país em outubro.

TRUMP BATE DURO –  De olho na eleição de 2020, Trump joga para o seu eleitorado, como os fazendeiros americanos. Ataca os países com moedas desvalorizadas, como o real, sugerindo que há manipulação do câmbio para se exportar mais, acusa Brasil e Argentina de desvalorizarem moedas e promete tarifas sobre aço e alumínio

Um dos fatores que colaboram com a venda de produtos brasileiros no exterior é justamente a guerra comercial promovida pelos Estados Unidos contra a China, que gera oportunidade para os exportadores brasileiros.

E a moeda brasileira está desvalorizada em parte por causa desta guerra e da valorização do dólar diante de outras moedas – além das contingências internas (como juros baixos, frustração na entrada de dólares com os leilões do pré-sal, pagamento de dividendos de multinacionais e dívidas em dólar de empresas brasileiras). Enquanto isso, na relação comercial, o país continua comprando mais dos Estados Unidos do que vendendo.

E OS CHINESES? – Com a decisão dos americanos de taxar produtos brasileiros, fica difícil encontrar um argumento para atender a demanda americana de retirar os chineses do leilão do 5G, que deve acontecer no segundo semestre de 2020.

Diante do avanço mundial dos chineses no fornecimento da infraestrutura (equipamentos, como antenas) para a instalação do 5G, os americanos pressionam o Brasil para que, na prática, haja restrições no edital, que é elaborado pela Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel). Alegam questões de segurança e dizem que a empresa Huawei, que detém a tecnologia, promoveria espionagem para o governo chinês.

TRUMP NÃO LIGA – O Brasil, no momento, tenta se equilibrar entre os anseios americanos e os negócios com os chineses, que anunciaram investimentos bilionários no Brasil durante a cúpula dos Brics – isso sem contar na demanda atual pela carne brasileira, que causa euforia entre os produtores.

O presidente Jair Bolsonaro vai precisar de mais argumentos do que a boa relação com Trump para conseguir um recuo. O americano tem como prioridade sua reeleição – e nem se preocupa em ficar bem na fotografia com o Brasil.*

(*) Julia Duailibi – G1