E VIVA O LUDOPÉDIO

Teste matrimonial

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Convide seu marido para um jantar romântico nesta sexta-feira! Se ele alegar que tem jogo da Copa à noite na TV, considere grave a crise de seu casamento! O sujeito está te trocando pela pelada Honduras x Equador!*

(*) Tutty Vasquez, no Estadão.

DITADORES CUCARACHOS

A lista do PT

Blacklist2012

Lula só pensa naquilo. Diante das vaias (normais no ambiente dos estádios) e dos xingamentos (deploráveis em qualquer ambiente) a Dilma Rousseff na abertura da Copa, o presidente de facto construiu uma narrativa política balizada pela disputa eleitoral.

A “elite branca” e a “mídia”, explicou, difundem “o ódio” contra a presidente-candidata. Os conteúdos dessa narrativa têm o potencial de provocar ferimentos profundos numa convivência democrática que se esgarça desde a campanha de ataques sistemáticos ao STF deflagrada pelo PT.

O partido que ocupa o governo decidiu, oficialmente, produzir uma lista de “inimigos da pátria”. É um passo típico de tiranos — e uma confissão de aversão pelo debate público inerente às democracias. Está lá, no site do PT, com a data de 16 de junho (LeiaAQUI).

O artigo assinado por Alberto Cantalice, vice-presidente do partido, acusa “os setores elitistas albergados na grande mídia” de “desgastar o governo federal e a imagem do Brasil no exterior” e enumera nove “inimigos da pátria” — entre os quais, este colunista.

Nas escassas 335 palavras da acusação, o representante do PT não cita frase alguma dos acusados: a intenção não é provar um argumento, mas difundir uma palavra de ordem. Cortem-lhes as cabeças!, conclama o texto hidrófobo. O que fariam os Cantalices sem as limitações impostas pelas instituições da democracia?

O artigo do PT é uma peça digna de caluniadores que se querem inimputáveis. Ali, entre outras mentiras, está escrito que os nove malditos “estimulam setores reacionários e exclusivistas a maldizer os pobres e sua presença cada vez maior nos aeroportos, nos shoppings e nos restaurantes”.

Não há, claro, uma única prova textual do crime de incitação ao ódio social. Sem qualquer sutileza, Cantalice convida seus seguidores a caçar os “inimigos da pátria” nas ruas. Comporta-se como um miliciano (ainda) sem milícia.

Os nove malditos quase nada têm em comum. Politicamente, mais discordam que concordam entre si. A lista do PT orienta-se apenas por um critério: a identificação de vozes públicas (mais ou menos) notórias de críticos do governo federal.

O alvo óbvio é a imprensa independente, na moldura de uma campanha de reeleição comandada pelo ex-ministro Franklin Martins, o arauto-mor do “controle social da mídia”. A personificação dos “inimigos da pátria” é um truque circunstancial: os nomes podem sempre variar, aos sabor das conveniências.

O truque já foi testado uma vez, na campanha contra o STF, que personificou na figura de Joaquim Barbosa o ataque à independência do Poder Judiciário. Eles gostariam de governar um outro país — sem leis, sem juízes e sem o direito à divergência.

Cortem-lhes a cabeça! A palavra de ordem emana do partido que forma o núcleo do governo. Ela está dirigida, imediatamente, aos veículos de comunicação que publicam artigos ou difundem comentários dos “inimigos da pátria”.

A mensagem direta é esta: “Nós temos as chaves da publicidade da administração direta e das empresas estatais; cassem a palavra dos nove malditos.” A mensagem indireta tem maior amplitude: no cenário de uma campanha eleitoral tingida de perigos, trata-se de intimidar os jornais, os jornalistas e os analistas políticos: “Vocês podem ser os próximos”, sussurra o persuasivo porta-voz do presidente de facto.

No auge de sua popularidade, Lula foi apupado nos Jogos Pan-Americanos de 2007. Dilma foi vaiada na Copa das Confederações. As vaias na abertura da Copa do Mundo estavam escritas nas estrelas, mesmo se o governo não experimentasse elevados índices de rejeição.

O governo sabia que viriam, tanto que operou (desastrosamente) para esconder a presidente-candidata dos olhos do público. Mas, na acusação desvairada de Cantalice, os nove malditos figuram como causa original da hostilidade da plateia do Itaquerão contra Dilma!

O ditador egípcio Hosni Mubarak atribuiu a revolução popular que o destronou a “potências estrangeiras”. Vladimir Putin disse que o dedo de Washington mobilizou um milhão de ucranianos para derrubar o governo cleptocrático de Viktor Yanukovich. O PT bate o recorde universal do ridículo quando culpa nove comentaristas pela recepção hostil a Dilma.

Quanto aos xingamentos, o exemplo nasce em casa. Lula qualificou o então presidente José Sarney como “ladrão” e, dias atrás, disse que FHC “comprou” a reeleição (uma acusação que, nos oito anos do Planalto, jamais levou à Justiça). O que gritaria o presidente de facto no anonimato da multidão de um estádio?

Na TV Estadão, critiquei o candidato presidencial José Serra por pregar, na hora da proclamação do triunfo eleitoral de Dilma Rousseff, a “resistência” na “trincheira democrática”.

A presidente eleita, disse na ocasião, é a presidente de todos os brasileiros — inclusive dos que nela não votaram. Dois anos mais tarde, escrevi uma coluna intitulada “O PT não é uma quadrilha”, publicada nos jornais O GLOBO e “O Estado de S. Paulo” (25/10/2012), para enfatizar que “o PT é a representação partidária de uma parcela significativa dos cidadãos brasileiros” e fazer o seguinte alerta às oposições: “Na democracia, não se acusa um dos principais partidos políticos do país de ser uma quadrilha.”

A diferença crucial que me separa dos Cantalices do PT não se encontra em nossas opiniões sobre cotas raciais, “conselhos participativos” ou Copa do Mundo. Nós divergimos, essencialmente, sobre o valor da liberdade política e da convivência democrática.

Se, de fato, como sugere o texto acusatório do PT, o que mais importa é a “imagem do país no exterior”, o “inimigo da pátria” chama-se Cantalice. Nem mesmo os black blocs, as violências policiais ou a corrupção sistemática são piores para a imagem de uma democracia que uma “lista negra” semioficial de críticos do governo.*

(*) Demétrio Magnoli, O Globo

ISSO PODE, ARNALDO?

Em ano eleitoral,Dilma

turbina gasto com publicidade

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Montante até maio é 61,84% superior ao valor desembolsado no mesmo período de 2013. Gastança segue alta: em junho, até dia 17, conta ficou em R$ 28,1 mi

No ano em que a presidente Dilma Rousseff disputa a reeleição, o Palácio do Planalto acelerou seus gastos com autopromoção: de janeiro a maio, a Presidência da República desembolsou 92,3 milhões de reais em publicidade institucional. O montante representa um salto de 61,84% em relação ao mesmo período em 2013, quando mais de 57 milhões de reais foram pagos, segundo levantamento feito pela ONG Contas Abertas a pedido do site de VEJA. Em relação a 2011, quando 39,7 milhões de reais foram usados de janeiro a maio para promover ações da Presidência, o aumento foi de 132,51%.

O valor planejado pelo Planalto para a publicidade institucional é ainda maior: 201,2 milhões de reais. A cifra se refere ao montante empenhado (jargão orçamentário para um compromisso de gasto) até maio. Os 92,3 milhões de reais referem-se, portanto, àquilo que foi realmente pago pela Presidência. O levantamento do Contas Abertas leva em conta apenas os gastos da Presidência, excluindo-se ministérios.

O levantamento indica ainda que os gastos seguem a todo vapor. No mês de junho, até o dia 17, o Planalto gastou 28,1 milhões de reais em publicidade institucional. O valor é 77,8% superior ao montante gasto nos trinta dias de junho do ano passado – 15,8 milhões de reais. A cifra desembolsada até a segunda quinzena deste mês já supera os montantes gastos em cada um dos meses anteriores. Junho não é apenas o mês em que começou a Copa do Mundo no país – evento celebrado repetidamente em propagandas oficiais e discursos de Dilma –, como também o último em que a publicidade institucional é liberada pela legislação eleitoral. Esse tipo de publicidade é vetado nos três meses anteriores ao pleito.

Preparação – Também pela lei, o governo só pode gastar em publicidade em ano eleitoral aquilo que já foi gasto no ano anterior. Tamanha elevação das despesas com publicidade em 2014 é, portanto, um reflexo da corda que Dilma começou esticar no passado, quando desembolsou 186,2 milhões de reais com publicidade institucional – e 952,2 milhões de reais no total, se somada a de utilidade pública.

Na terça-feira da semana passada, Dilma utilizou-se de um pronunciamento nacional e rádio e televisão para emitir um discurso eleitoreiro. A pretexto de comemorar o início da Copa do Mundo, que ocorreria dali a dois dias, a presidente deu lugar à candidata e, por dez minutos, promoveu seu governo e atacou os críticos, que chamou de “pessimistas”. O mesmo discurso – com dados inflados pelo governo – foi repetido em um palanque em Salvador e no programa semanal de rádio da Presidência, que foi ao ar nesta segunda-feira. Dilma só vai oficializar sua candidatura neste sábado, em convenção do PT. Mas a promoção de sua imagem por meio das prerrogativas do cargo já está a todo vapor.

Padilha – A publicidade institucional tem o objetivo de divulgar informações sobre atos, obras, programas, metas e resultados de governo. Já a publicidade de utilidade pública tem a função de informar, orientar, prevenir e alertar a população sobre temas específicos. Nesse quesito, o campeão de gastos é o Ministério da Saúde, comandado até o final de janeiro por Alexandre Padilha, que deixou o cargo para concorrer ao governo de São Paulo pelo PT. A pasta foi a campeã de gastos com publicidade entre todos os ministérios em 2013: 226,8 milhões de reais. E se mantém à frente também em 2014 – 103,8 milhões de reais até 17 de junho.

Em janeiro, prestes a deixar o comando da Saúde, Padilha usou uma campanha de vacinação contra o HPV como pretexto para fazer propaganda eleitoral antecipada em cadeia de rádio e televisão. Ele falou durante quatro minutos em horário nobre e não deixou de lado sequer a gravata vermelha. Em tom eleitoral, Padilha não se restringiu à vacina. Falou do programa Saúde Não Tem Preço, que distribui medicamentos gratuitamente, e destacou o Mais Médicos, principal bandeira de sua futura campanha eleitoral.*

(*) Carolina Farina – VEJA

REJEIÇÃO, O GRANDE LEGADO DA COPA

LEGADOS DA COPA

000 - A DILMA REJEIÇÃO

O primeiro legado da Copa: 64 anos depois repetiram-se as touradas de Madrid e a Espanha voltou para casa com seu revolucionário futebol de posse de bola enferrujado e humilhado.

Por coincidência, ao mesmo tempo, a dinastia dos Bourbon que reina na Espanha desde 1713 mudou de guarda: o rei Juan Carlos, artífice da transição democrática pós-franquismo, alquebrado pela saúde e desmoralizado por alguns escândalos e alguns safaris, cedeu o lugar ao filho Felipe 6º, uma cara mais nova que a do técnico Del Bosque e mais confiável que a do premiê Mariano Rajoy.

Esse foi o evento mais ruidoso e escandaloso dentro de campo. Fora do campo, onde hordas de turistas misturam a alegria natural de forasteiros que andam em grupos, produzem um carnaval temporão, cada um com a sua ginga própria e seu senso de humor particular.

Enquanto nós esperamos que a seleção de Felipão se solte um pouco mais, os olhos do País estão divididos entre o futebol e a política, pois afinal de contas quando as emoções do espetáculo do futebol se esvaírem, voltaremos à rotina da mediocridade técnica mas apaixonante do nosso Brasileirão e as especulações sobre o futuro do País.

No nosso contencioso em suspenso, estão a incapacidade de crescimento mais robusto e sustentável do país e a irresistível compulsão do governo de controlar, tanto as variáveis econômicas como a opinião alheia.

Está também no contencioso o decreto 8.243, que cria uma hegemonia forçada e superposta à democracia representativa por conselhos habitados por “movimentos sociais”, que se chocam claramente com o conceito republicano de “um homem e um voto” e com a soberania do Legislativo e o princípio da separação e independência de Poderes consagrada em todas as democracias do mundo.

O partido que comanda a aliança que está no poder, abalado com a perda de consistência de sua candidata à reeleição nas pesquisas de intenção de voto, e indignado com a vaia que ela tomou no Itaquerão no jogo de abertura da Copa do Mundo, tentou orquestradamente jogar a culpa pela manifestação incivilizada pelo exagero dos palavrões nas costas de uma suposta “elite branca”, no que foi desmentida pelo seu mais representativo porta voz na especialidade de puxar briga, o ministro Gilberto Carvalho.

E então a coordenação da campanha de Dilma reuniu-se, com Lula à frente, para estudar estratégias que possam reverter as tendências demonstradas pelo eleitorado ingrato, que nao sabe reconhecer as benesses que o governo lhe propiciou. Além de Lula, participaram da reunião Ruy Falcão, o presidente do PT, o tesoureiro da campanha Edinho Silva, o ex-ministro Franklin Martins e o marqueteiro João Santana.

Nem a candidata nem o seu braço direito Giles Azevedo foram convidados para a reunião. Foi a primeira derrota por W.O nesta Copa.*

(*) Sandro Vaia, no blog do Noblat.

BRAZIL…ZIL…ZIL…

Show de bola

000 - bateram a carteira

Os estádios estão lindos e cheios, os jogos de ótimo nível, com muitos gols e surpresas, as torcidas animadas e pacíficas, as ruas fervilhando de gringos e de alegria. Independentemente da performance da seleção brasileira, a Copa é um sucesso. Quem ama o futebol está feliz.

Assaltos, arrastões, tiroteios, roubos e furtos, achaques policiais, saidinhas de banco, sequestros-relâmpago — o habitual cotidiano urbano brasileiro — sumiram dos noticiários e, aparentemente, das ruas. Com o Congresso em recesso futebolístico, cessam temporariamente as negociatas vergonhosas, as tenebrosas transações políticas e as propostas indecentes que prejudicam o país. Quem ama o Brasil está feliz.

Todo mundo que ama futebol e já foi a um estádio sabe que nada se compara a ver um jogo ao vivo, no meio do calor da torcida. Mesmo com todos os fabulosos recursos da televisão, o espetáculo no estádio ainda é insuperável. Enquanto a câmera apenas segue a bola, da arquibancada se vê a totalidade do campo e a movimentação dos jogadores, as manobras táticas e as possibilidades de jogadas e lançamentos, que são parte importante da emoção do futebol.

Agora que se pode assistir ao jogo no estádio ouvindo rádio e conferindo no celular os replays e os detalhes da transmissão da televisão — e ainda comentando cada lance com os amigos, um dos maiores prazeres do futebol, pelas redes — é show de bola.

Quem não deve estar tão feliz é Lula, que trabalhou tanto pela Copa e ajudou o seu Corinthians a construir um estádio, que adora futebol, mas não vai assistir a nenhum jogo porque tem medo de ser vaiado, como nos Jogos Pan-Americanos de 2007, embora atribua a vaia a uma conspiração de Cesar Maia, que teria até treinado milhares de militantes da prefeitura para vaiá-lo… rsrs.

Pobre Lula, que imaginou desfrutar da “sua” Copa na Tribuna de Honra, assistindo à vitória da seleção brasileira e ovacionado pela multidão, vendo televisão em São Bernardo com dona Marisa. Para quem adora futebol não pode haver pior castigo.

A vaidade vai vencer a paixão? O que é uma vaiazinha diante de um jogão? Vai, Lula, vai!*

(*) Nelson Motta, O Globo.

CAINDO PELAS TABELAS

DILMA E A ESPANHA

Dilma e a Espanha tem algo a ver. Os espanhóis chegaram ao  Brasil certos de ser os favoritos, campeões do mundo na última copa  e detentores de um fabuloso elenco. Esbanjaram empáfia e soberba. Dilma, com quatro anos na presidência da República, nadava de braçada rumo ao segundo mandato. Pois a “fúria” acaba de ser desclassificada e a presidente cai de forma permanente nas pesquisas eleitorais.

Há outras semelhanças. Lá, o rei acaba  de abdicar. Aqui, Sua  Majestade Lula, primeiro e único,  dá sinais de que a sucessora não vai bem, na economia e nas consultas populares, parecendo conformar-se com o segundo turno.  Acresce que Juan  Carlos deixou o trono mas permanece alerta: caso o filho fracasse, poderá voltar, ao tempo em que o Lula mantém o apoio a Dilma, como veremos amanhã, na convenção do PT, mas não afasta a hipótese de, à beira da perda do poder, poderem os companheiros logo reconduzi-lo à condição de candidato.

Política e futebol desenvolvem-se por linhas tortas. Um ano atrás muita gente duvidava de que Aécio Neves e Eduardo Campos poderiam apresentar-se, sabendo previamente do malogro.  O que mais se ouvia era estarem encenando o ensaio-geral em 2014 para a apresentação da peça em 2018.  Agora, disputam lugar no segundo turno.

Montes de Iniestas, Sergios Ramos e Xavis Alonso pululavam em torno da presidente, fazendo planos para a conquista do campeonato, ou seja, de olho na composição do segundo governo e dos lugares do futuro ministério. Pouco a pouco os partidos da base de apoio de Dilma foram saltando de banda, com outros  preparando a fuga ainda não concretizada mas já idealizada.

Pergunta-se como essas mutações podem acontecer, contrariando  a lógica,  e a  resposta surge clara: a presunção, quando é demais, engole os presunçosos. Tanto nos gramados quanto nos palácios.*

(*) Carlos Chagas, Tribuna da Imprensa Online

LUDOPÉDIO

“Grandes jogos nos esperam”

000 - bicicleta

 

Tenho insistido na tese da separação radical entre políticos e a sociedade. O Brasil é um carro sem as molas da mediação parlamentar, sem o lubrificante do diálogo democrático: marcha aos solavancos. Mostramos isso ao mundo, ao vivo e em cores.Em Brasília os políticos querem que o povo se estrepe…

Fiquei triste em 50 e pensei em torcer contra o Brasil em 70. Inutilmente.

Tenho várias Copas na bagagem. Esta é realizada no Brasil sem que os brasileiros fossem consultados. Mesmo assim nos envolve. Resistir é tão difícil como distribuir panfletos políticos nas vésperas do Natal – essa lição aprendi em dezembro de 68, protestando contra o AI-5.

Sigo a Copa como torcedor apaixonado, mas com uma ponta de razão anoto meus limites. Força, Brasil! Porém não posso comprar tudo o que o Neymar anuncia porque estaria quebrado em pouco tempo. Tampouco posso comer os frangos e lasanhas que o Felipão nos oferece na TV porque engordaria uns dois quilos nesta Copa.

Também sou brasileiro, mas não consigo achar, como os locutores de TV, ter sido uma indelicadeza escalar um árbitro japonês para apitar Brasil x Croácia. Afinal, ele expulsara Felipe Melo em 2010 na partida contra a Holanda, e o fez com absoluta correção. Por que despertaria más lembranças, por que deveria ser evitado? Yuichi Nishimura marcou um pênalti duvidoso a favor do Brasil. Agora consideram uma delicadeza escalá-lo para apitar nossos jogos.

Moreno como vocês, não posso embarcar nessa. Muito menos nos insultos a Dilma.

Sou oposição desde cedo, meio de 2003. Mas acho que as circunstâncias eram especiais. Uma abertura de Copa do Mundo revela um pouco o País. Não precisava uma festa tão mixuruca. Nem, por mais ásperos que sejam os estádios, dizer aquilo a uma senhora, em voz alta, diante de bilhões de espectadores.

Capitão do time que trouxe a Copa ao Brasil, Lula assistiu ao jogo diante de uma televisão, possivelmente na tranquilidade do lar, ou num refúgio petista.

Não se xinga uma senhora, mas também é preciso alguma eficácia para executar a tarefa de enfrentar um estádio num momento em que o País está enfurecido com a política. Dilma foi xingada em três estádios no início da Copa. No ano passado houve apenas o que chamamos de uma vaia básica. Ninguém notou gradação, a passagem de uma etapa para outra, que, aliás, já estava aparecendo em alguns shows musicais.

Tenho insistido na tese da separação radical entre políticos e a sociedade. O Brasil é um carro sem as molas da mediação parlamentar, sem o lubrificante do diálogo democrático: marcha aos solavancos. Mostramos isso ao mundo, ao vivo e em cores.

Brasília os políticos querem que o povo se estrepe, com um verbo começado com f. Nos estádios parcela do povo quer que os políticos tomem naquele lugar. É simples assim, apesar da vulgaridade do enunciado.

Pelos descaminhos da nossa História recente passamos a nos detestar. E pelos labirintos da nossa cultura erotizamos nossa antipatia recíproca. Supondo que os repórteres tenham o hábito de traduzir as coisas (era assim no passado), grande parte do mundo ficará sabendo a que ponto chegamos. E lamentará, como muitos brasileiros lamentam, que para tanto futebol tão pouco avanço político.

Quando um governante abraça a ideia da Copa do Mundo em seu país, pensa na sua própria glória. É irônico ser hostilizado na abertura do evento. Lula soube tirar o corpo da reta, deixando Dilma ouvindo frases que não se podem dizer diante das crianças. O ideal seria fingir que não houve nada, seguir com a festa. Nas minhas análises, a explosão de parte do público é o resultado de um longo processo de desgaste. Outros políticos que ali se apresentassem teriam destino semelhante ao de Dilma.

Lula e o PT não interpretam assim. Continuam se achando populares e bem-amados. Tanto que pretendem radicalizar, a julgar pelas notícias, caso vençam as eleições de novo. Eles acham, como Lula declarou, que os palavrões contra Dilma foram estimulados pela imprensa. Num momento de sua fala menciona o PT na oposição e diz que nunca fez o que fizeram com Dilma. Ora, a imprensa jamais defendeu xingar alguém, apenas despertou a curiosidade para a roubalheira entre o governo e aliados.

E os gritos no estádio não podem ser atribuídos a algo organizado pela oposição.

Lula usou o episódio para fortalecer sua vontade de controlar a mídia e isolar a oposição. É uma reação clássica: supor que as coisas não andam bem por falta de mais repressão e controle.

…” Criar conselhos populares numa época informatizada, em que todos podem participar, faria Lenin mexer-se no túmulo, apesar de sua rigidez de corpo e alma. Em pleno século 21, estabelecer o controle da mídia e cair de pau na oposição vai ser muito difícil: pede quadros dispostos a matar ou morrer. Conheço apenas alguns no PT, assim mesmo sobreviventes dos anos 60. Será que a maioria deles, perdida em seus empreguinhos, seus gadgets, suas escapadas à Disneylândia, vai encarar essa tarefa, quase impossível hoje em dia?”…

A partir dessa lógica, é possível prever dias piores. O PT escolheu os culpados pela reação a Dilma e, como sempre, vai partir para cima. Não se pode dizer que seja uma saída brilhante. Mas foi Isaac Deutscher, na sua trilogia sobre Trotsky, que lembrou bem: as pessoas parecem burras, mas não são; apenas não têm mais margem de manobra.

Criar conselhos populares numa época informatizada, em que todos podem participar, faria Lenin mexer-se no túmulo, apesar de sua rigidez de corpo e alma. Em pleno século 21, estabelecer o controle da mídia e cair de pau na oposição vai ser muito difícil: pede quadros dispostos a matar ou morrer. Conheço apenas alguns no PT, assim mesmo sobreviventes dos anos 60. Será que a maioria deles, perdida em seus empreguinhos, seus gadgets, suas escapadas à Disneylândia, vai encarar essa tarefa, quase impossível hoje em dia?

No futebol temos visto a derrota de alguns favoritos, algumas zebras e até a humilhação de grandes times, como o da Espanha. Na política, o ano eleitoral está só começando. Com tantas Copas na bagagem e a lembrança das revoluções do século 20, é preciso sempre cantar para os detentores do poder o verso de Jimmy Cliff: “Ooh, the harder they come, the harder they fall, one and all”. Quanto mais forte vierem, mais forte eles cairão, todos e cada um. O que a muitos pareceu um episódio marginal, o clima da abertura da Copa, com as pessoas cantando apaixonadamente o Hino Nacional e insultando a presidente, é um grande sintoma de mal-estar na vida cotidiana brasileira.

Vinicius falava da grande ilusão do carnaval: a gente trabalha o ano inteiro por um momento de sonho e tudo acaba na quarta-feira. Como no carnaval, tudo acaba com o apito encerrando a Copa. Aí virão os duros meses da ressaca e, lamento prever, o jogo feio e sujo do poder a qualquer custo. Quem seremos no final disso tudo, como revigorar a terra arrasada da nossa convivência política?

Grandes jogos nos esperam.*

(*) Fernando Gabeira, no Estadão.

O PERSEGUIDO PELAS “ZELITE BRANCA”

Lula enxerga elite branca

no reflexo do espelho

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A política convive com uma regra antiga: personalize o seu adversário. O mal, quando tratado como mera abstração, é impalpável. Mas dê-lhe uma cara com um par de chifres e você terá um inimigo nítido. Durante muitos anos, Lula foi vítima dessa técnica. O rótulo de ‘esquerdista radical’ custou-lhe três eleições presidenciais. Para prevalecer em 2002, teve aparar a barba, vestir Armani e beijar a cruz. Renegou numa carta aos brasileiros tudo o que sempre defendera.

Desde então, Lula passou de alvo do feitiço a feiticeiro. Hoje, utiliza o mesmo método contra seus rivais. Pós-graduado nas artes da mistificação, ele estava atrás de um nome para o fantasma da mudança, que ameaça a reeleição de Dilma Rousseff. Dias atrás, encontrou. Chamou-o de “elites”. Pronto! Qualquer criança de cinco anos sabe que o problema do Brasil são as elites. O governo é maravilhoso, o povo é extraordinário. Corruptas e gananciosas, as elites é que não valem nada. Urge derrotá-las.

O PT realiza neste sábado (20), em Brasília, a convenção que aclamará Dilma como candidata ideal para assegurar aos brasileiros mais quatro anos de felicidade. O ponto alto da cerimônia será um novo encontro de Lula com o microfone. Desse contato resultará o terceiro pronunciamento do grande líder desde que a “elite branca” do Itaquerão mandou Dilma “tomar no cu”. Será mais uma oportunidade para esconjurar o inimigo.

O demônio exime o exorcista do exame de todo o mal. A começar pelo mais doloroso: o auto-exame. A coisa vinha funcionando bem. Em 2006 e 2010, bastou transferir para o neoliberalismo da elite tucana a culpa pelas ações, omissões e crimes do poder petista. Enquando o país se divertia com as reações atabalhoadas do PSDB, o marqueteiro João Santana cuidava da propaganda redentora. As pesquisas informam que o desafio de 2014 talvez seja maior.

O governo de Dilma nunca foi tão mal avaliado. Segundo o último Ibope, divulgado nesta quinta-feira (19), a taxa de aprovação do governo da madame caiu de 36% para 31% entre março e junho. Na outra ponta, subiu de 27% para 33% o percentual dos que consideram a administração federal ruim ou péssimo. Em novembro de 2013, os brasileiros que avaliavam a atual gestão como ótima ou boa somavam 43%. Quer dizer: a popularidade do governo despencou 12 pontos em sete meses.

Tomada pelo potencial eleitoral, Dilma ainda é uma candidata de 39%. Não é preciso ser um gênio para intuir que os dois índices —avaliação do governo e intenção de votos— tendem a cruzar em algum momento do processo eleitoral. Mergulhando-se no mar de números colecionados pelo Ibope, percebe-se que o mago João Santana terá de molhar a camisa para impedir que o percentual de votos caia, encontrando-se com a popularidade do governo no ponto mais baixo da curva.

O Ibope recolheu a opinião dos eleitores sobre o desempenho do governo em oito áreas específicas. Em todas elas, sem exceção, a taxa de desaprovação é maior que o índice de aprovação. Na Educação, 67% desaprovam a ação governamental e 30% aprovam. Na Saúde, 78% desaprovam e apenas 19% aprovam. Na segurança, a desaprovação é de 75% e a aprovação de 21%. No meio ambiente, 52% de desaprovação, contra 37% de aprovação.

Na política de combate à fome e à pobreza, principal logomarca do petismo, a desaprovação é de 53% e a aprovação de 41%. No combate ao desemprego: 57% de desaprovaçao e 37% de aprovação. No essencial, que é a economia, os índices tóxicos se repetem. O combate à inflação é reprovado por 71% dos entrevistados e aprovado por apenas 21%. Na política de juros, a desaprovação é de 70% e a aprovação de 21%. Na área dos impostos, a desaprovação vai à casa dos 77% e a aprovação é de escassos 15%.

O Ibope informa que o mau humor do brasileiro içou a taxa de rejeição a Dilma Rousseff para as alturas. Hoje, declaram que não votariam nela “de jeito nenhum” 43% dos eleitores. Verificou-se que é menor a rejeição aos antagonistas Aécio Neves (32%) e Eduardo Campos (33%). Nesse contexto, o velho hábito de Lula de apontar o dedo indicador para as “classes dominantes”, elegendo-as como demônio para o qual transferir as culpas do PT, talvez já não seja a melhor arma eleitoral. É possível que não sirva nem mesmo para desconversar.

Lula ainda não se deu conta —ou talvez já tenha notado e apenas finge que não vê—, mas o fenômeno mais eloquente da atual quadra sucessória é o surgimento de nichos de contestação à margem do PT e de toda a engrenagem sócio-sindical que se move sob o comando do partido. As ruas voltaram para casa. Mas o sentimento de mudança explodiu em junho de 2013 continua ardendo no asfalto.

Tudo leva a crer que o ministro Gilberto Carvalho, o Gilbertinho, tem razão quando diz que os nomes feios que a presidente evoca não brotam apenas dos lábios da “elite branca”. Se as pesquisas carregam alguma novidade é a seguinte: o Brasil está virando uma espécie de Itaquerão hipertrofiado. A tese de que o problema são as elites já fez longa carreira no país do PT. Mas pode estar com os dias contados.

Só os petistas ainda não notaram que a elite agora são eles. Os 800 mil industriais que, segundo o então presidente da Fiesp Mário Amato, fugiriam do país se Lula fosse eleito em 2002, foram domesticados pelo “bolsa-empresário”, pelas isenções tributárias e pelo prêmio à sonegação embutido no Refis eterno. O empresariado reclama de Dilma porque já não se satisfaz com tudo. Quer algo mais.

A integração do indivíduo num grupo é, quase sempre, um processo de aviltamento. Por vezes, o sujeito tem que se violentar para entrar no todo. Mas Lula não parece desconfortável com sua nova condição. Ele hoje dá palestras milionárias, é protegido por seguranças, move-se em carro oficial e só voa de jatinho. Deve dar boas gargalhadas ao verificar, na hora de escovar os dentes e pentear os cabelos toda manhã, que a elite branca agora mora no espelho do banheiro da cobertura de São Bernardo.*

(*) Blog do Josias de Souza.

QUINTA-FEIRA, 19 DE JUNHO DE 2014

SOM NAS CAIXAS

Morre o pianista de jazz e pioneiro de ‘hard bop’ Horace Silver

Músico tinha 85 anos.
Pianista morreu em New Rochelle, nos EUA.

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O pianista e compositor de jazz Horace Silver, pioneiro do ‘hard bop’ na década de 1950, morreu nesta quarta-feira (18), aos 85 anos, nos Estados Unidos, anunciou a “NPR”, a Rádio Nacional Pública americana, em sua página on-line, citando o filho do músico.

A publicação “Jazz Times” também noticiou a morte do músico, informando que Silver teve uma parada cardíaca em New Rochelle, no estado de Nova York, onde morava..

Nascido em Connecticut (nordeste dos EUA), Horace Ward Martine Tavares Silva era de uma família originária do Cabo Verde, e, desde a infância, foi influenciado pela ‘folk music’ das ilhas da costa do Senegal.

Horace Silver começou tocando sax tenor e, em seguida, passou para o piano, acompanhando o saxofonista Stan Getz em sua turnê. Depois, instalou-se em Nova York, onde trabalhou por 25 anos para o selo Blue Note.

Seu primeiro álbum, “Horace Silver and the Jazz Messengers”, é considerado a pedra angular do ‘hard bop’, que se inspira no R&B, no gospel e no blues, em oposição ao ‘cool jazz’, o jazz ‘dos brancos’.