E NO PAÍS DA PIADA PRONTA…

O preço do crime

É provável que não houvesse alternativa à intervenção federal: Pezão, o governador, já havia demonstrado sua incapacidade para combater os narcotraficantes e a tragédia da insegurança no Rio tornava-se intolerável. Mas o presidente Temer mostrou que até quando faz o certo o faz de modo errado. A improvisação foi tamanha que até agora não se sabe de onde vai sair o dinheiro para pagar as despesas da intervenção – o que inclui desde a alimentação dos soldados até o custo operacional. O comandante do Exército, general Villas Bôas, quis saber de onde sairia a verba; o ministro da Fazenda, Henrique Meirelles, disse que não é mágico e que o dinheiro da intervenção terá de sair do corte de outras despesas. Mas como saber quanto será necessário, se o interventor, general Braga Netto, ainda não apresentou seu plano? Braga Netto foi apanhado de surpresa pela escolha, e só a aceitou porque, militar de brio, não rejeita missão. Mas o secretário da Segurança do Rio pediu demissão e Braga Netto não tinha o substituto.
A reforma da Previdência daria fôlego aos cofres oficiais, mas a própria intervenção impede que reformas sejam implantadas em sua vigência. E há desentendimentos: o Conselho Nacional de Direitos Humanos manifestou seu repúdio à intervenção. Tudo bem – se o Conselho não fizesse parte do Governo. O problema, portanto, não é concordar ou não com a intervenção: é saber que, mantida essa bagunça, não há nada que possa dar certo.

Velhos tempos…

A crise no Rio vem de longe, de muitos anos; o Rio esteve sob controle dos bicheiros, dos narcotraficantes, dos milicianos. Os bandidos, de certa forma, supriam a ausência do Governo: levavam doentes para hospitais, às vezes conseguiam remédios para os moradores, tudo em troca da submissão total. Nas eleições presidenciais de 1989, só Brizola podia livremente fazer sua campanha. Os outros candidatos, para entrar no Rio, precisavam acertar uma aliança com algum bicheiro de porte – e certamente não era de graça. O Correio atende no máximo à metade da população. A outra metade está em áreas perigosas demais. Só que isso tudo era conhecido e, mesmo sem a erupção de crimes dos últimos dias, já exigia ações bem planejadas.
Não é só jogar o fardo para que os militares carreguem. Por que a improvisação?

…velhos dias

Há quem diga que Temer, sabendo que a reforma da Previdência seria rejeitada, armou um factoide para mascarar a derrota. Há quem diga que Temer, com a popularidade no chão, decidiu encarnar-se no herói que luta contra bandidos. Pode ser: ninguém jamais perdeu dinheiro ao apostar no caráter vacilante de um político. Mas por que não armar tudo direitinho?

Os sujos e os mal-amados

Talvez haja um certo constrangimento no combate ao crime no Rio. Pois não é que no Conselho da República, convocado a aprovar a intervenção, há 16 conselheiros, dos quais nove sendo investigados no Supremo? São o próprio Temer, o presidente do Senado, Eunício Oliveira, o presidente da Câmara, Rodrigo Maia, o secretário-geral da Presidência, Moreira Franco, o líder do Governo no Senado, Romero Jucá, o líder do Governo na Câmara, Aguinaldo Ribeiro, o chefe da Casa Civil, Eliseu Padilha, o líder do Governo no Congresso, André Moura, e o líder da Minoria na Câmara, José Guimarães. No Governo, na oposição, na linha sucessória, quantos!

A minoria

Não estão sendo investigados os ministros da Fazenda, Henrique Meirelles, da Justiça, Torquato Jardim, do Planejamento, Dyogo Oliveira, Carlos Marun (Governo); os deputados Raymundo Lira, líder da Maioria no Senado, Humberto Costa, líder da Minoria no Senado, e Lelo Coimbra, líder da Maioria na Câmara. Os investigados são maioria absoluta.

Tudo paradinho

Com a intervenção no Rio, não é apenas a reforma da Previdência que para de andar. Há mais 536 emendas constitucionais – que, como estavam mesmo paradas, não chamam a atenção. Uma delas, do então deputado Clodovil, é a que reduz o número de deputados e senadores. Por isso parou.

Ódio é ódio

A mãe do prefeito carioca Marcelo Crivella, idosa, doente, foi tratada num hospital público do Rio. Os adversários do prefeito protestam: afinal, ela ocupa a vaga que poderia ser ocupada por um pobre. A briga política é muito feia: se a senhora tivesse sido internada num hospital particular, seria criticada por não confiar num hospital público. Em resumo, não há saída.

Sim, sim, pois é, né?

O presidente impichado Fernando Collor confirmou, no Senado, que sai candidato à Presidência da República. Suas virtudes, segundo o discurso: “Moderação, equilíbrio, maturidade”. Sua posição: “centro democrático, ao mesmo tempo progressista e liberal”. Simples – mas que é que quer dizer?*

(*) Coluna Carlos Brickmann, na Internet

…NAS COXAS

Intervenção meia-boca

Sem tolerância zero à corrupção da gestão pública não se põe fim ao crime organizado


Como todas as iniciativas demagógicas adotadas para algum fim inconfessável e anunciadas como se tivessem por objetivo o interesse público, que dificilmente será alcançado, a intervenção federal sob chefia militar na segurança pública do Rio é, no popular, meia-boca.
O Estado do Rio de Janeiro está clamando por uma intervenção federal por inteiro há muito tempo, desde, pelo menos, a ampla divulgação da roubalheira superlativa que faz do ex-governador Sérgio Cabral protagonista do maior escândalo de corrupção e má gestão da História. E o atual ocupante do cargo (chamá-lo de governador é uma cínica licenciosidade léxica), Luiz Fernando Pezão, não passa de um capataz com carta branca do antecessor, enquanto este passa uma temporada no inferno prisional. Intervir na segurança e mantê-lo no cargo é um acinte para os fluminenses, que terão de continuar a suportar sua óbvia nulidade, e os brasileiros, que pagam a pesada conta secreta para manter essa fantasia de bloco de sujos.

No editorial Uma intervenção injustificável, publicado sábado, este jornal já fez a pergunta que não quer calar: o que aconteceu nos últimos dias que justificasse a decretação da medida radical antes de ser debatida e votada no Congresso Nacional a reforma da Previdência? Ao que se saiba, nada! A crônica do fiasco anunciado na conquista dos três quintos de votos dos congressistas para aprovar a reforma, sem a qual não há remendo possível para as contas públicas nacionais, é mero pretexto.

Em nome da busca desse ideal, Temer nomeou o mais truculento cabo de esquadra das hostes que herdou, no pra lá de baixo clero do MDB ─ à época ainda com o pê, não o do início de pudor, mas, sim, o do meio de impunidade ─, do colega Eduardo Cunha, hoje habitante do Arquipélago Curitiba, onde se encontra Cabral. Carlos Marun na Secretaria de Governo é o erro de pessoa no lugar errado. Nomeado para seduzir parlamentares resistentes a uma causa improvável, ele só sabe rosnar e morder.

Se seria injusto inculpar só o valentão de circo com porrete à mão pela derrota na votação capital para o equilíbrio das contas públicas, sua instalação no Palácio do Planalto, à direita de “deus-pai todo-poderoso”, é a mais completa tradução da desistência sem honra da votação e do pretexto para evitá-la. Marun é subserviente a Eduardo Cunha a ponto de figurar entre os gatos-pingados que tentaram evitar sua cassação pela Câmara e de ir visitá-lo na cela, com passagem paga pelo contribuinte. E Marun não seria Marun se não tivesse confessado, como o fez há pouco, que a única atitude de que já se arrependeu até hoje na vida foi, sob pressão, devolver essa despesa. Pois, para ele, tudo o que o chefe manda é legítimo.

Resta a segunda questão: por que intervir pela metade, se Pezão já renunciou governar o Estado? Não é o que ele fez ao se acoitar em seu berço, Piraí, para fugir do caos momesco na capital do Estado, depois de ter anunciado um plano de segurança sem dados, comprometimento de verbas nem metas à vista? A única explicação (usar justificativa seria um engano semântico) é a conveniência para os remanescentes palacianos ─ Temer, Moreira e Padilha ─, que preferiram evitar a investigação do que Rodrigo Janot chamou de “quadrilhão do PMDB” a encará-la.

Eles são do mesmo partido de Geddel, que, ainda que vive aos prantos na Papuda, nunca deu nem indício de origem e destino dos R$ 51 milhões encontrados num apartamento em Salvador usado pelo clã, também formado pelo mano Lúcio, da fiel base de Temer na Câmara, e “mãinha” Marluce, acusada de usar o próprio closet como caverna de Ali-Babá. São da patota de Rodrigo (nome pelo qual se identificou Joesley Batista ao entrar no Jaburu para gravar o presidente) Rocha Loures, recordista dos cem metros com mala com R$ 500 mil, sem dono nem fiel depositário. E de Henrique Alves, aquele lá das Dunas.

Convém não omitir Jorge Picciani, chefão na Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro que conseguiu de Eduardo Cunha a nomeação do filhote Leonardo para a liderança da bancada do então PMDB na Câmara, vendeu o voto dele a Dilma e terminou aderindo ao companheiro de primeira hora, Temer. Por mercê dessa virada dupla, Leonardo Picciani é ministro do Esporte no ano da Copa do Mundo e, ao que indica seu sumiço, deve estar dando expediente na Rússia.

A terceira causa (usar razão seria um escárnio gramatical) da intervenção pela metade é que, despojado do disfarce de presidente reformista em plena Quarta-Feira de Cinzas, o atual chefe-geral da súcia resolveu apelar para o velho refrão da violência como tema de enredo que todos os governos adotam, mas nenhum se arrisca a enfrentar de verdade.

Para isso tomou “na moral” a bandeira de Bolsonaro e apelou para os militares de hábito. Assim foi na Eco-92, nos Jogos Pan-Americanos de 2007, no Mundial da Fifa em 2014 e na Olimpíada de 2016. Sempre no Rio e com idêntico receituário: um acordo com os chefões do tráfico de drogas, que tiraram férias e deixaram a autoridade brincar de ocupação do Haiti nas praias, longe do seu território. Deu certo enquanto duraram os acordos. E agora?

O problema agora é que um objetivo colide com o outro. A violência campeia porque as Polícias Civil e Militar são corrompidas do topo à base, como constatou Torquato Jardim, “escanteado” ministro da Justiça. E isso só é possível porque os gestores públicos fazem vista grossa após serem comprados como o são os subordinados. Como se reprime o crime organizado se faz isso para impedir que policiais, procuradores e juízes federais da primeira instância tenham mãos livres para combatê-lo? E isso não é só no Executivo. Quem duvida que o Supremo Tribunal Federal julgue (o que já é um absurdo) e até conceda habeas corpus ao criminoso (condenado por corrupção e lavagem de dinheiro) Lula da Silva? E um fato nega outro.*

(*) José Nêumanne – Estadão

ACORDA, BRASIL!

Sem votos para privatizar a Eletrobras

Outra vez, o governo engana o distinto público


Esta manhã, em reunião com o presidente da Eletrobras, Wilson Ferreira Junior, e com o deputado José Carlos Aleluia (DEM-BA), relator do projeto de lei que privatiza a empresa, Rodrigo Maia (DEM-RJ), presidente da Câmara, disse que o governo não tem e nem terá votos este ano para aprovar a venda da Eletrobras.

Maia convenceu-se disso depois que consultou a respeito os líderes dos principais partidos que apoiam o governo. A “defesa do patrimônio do país”, segundo ele, é o argumento invocado por seus colegas para negar votos à aprovação do projeto. Pessoalmente, Maia é a favor da privatização.

O que disse Maia a Ferreira Junior e à Aleluia chegou de imediato aos ouvidos do presidente Michel Temer e de ministros diretamente interessados no assunto. Um deles foi orientado a continuar dizendo que a Eletrobras será privatizada porque as ações da empresa estão em alta na Bolsa de Valores “e tem muita gente ganhando dinheiro com isso”.*

(*) Blog do Ricardo Noblat

EVOÉ MOMO!

O carnaval do carnaval

Neste desfile houve politização sem troça e em regime democrático. Não era mais protesto dos fracos contra os fortes, como no regime militar, mas tomada de posição

Na Quarta-feira de Cinzas de 2015, escrevi uma crônica sobre o carnaval na qual o famoso brasilianista Richard Moneygrand declarava:

— Acho que vocês enterraram o carnaval!

Naquele ano, o professor Moneygrand argumentava que o carnaval como um ritual de abandono programado das rotinas — e como festa de mascaramento da pobreza — iria sofrer abalos num país despertado pela comunicação eletrônica, cada vez mais consciente de suas assombrosas desigualdades sociopolíticas, ao lado de uma endêmica corrupção ironicamente efetuada em nome dos pobres e oprimidos.

— Como é possível continuar “brincando” fantasiado de deuses que imitam o luxo de uma saudosa realeza à brasileira? Como é possível — provocava o professor — exibir-se em carros alegóricos extraordinários em cidades carentes de segurança, transporte, saneamento, educação, saúde e administradores honestos? De onde sai essa alegre loucura quando obras públicas desmoronam, há uma batalha entre traficantes e policiais e balas perdidas fazem vítimas rotineiramente? Da profundeza deste indizível sofrimento, o riso carnavalesco-rabelaisiano não seria, ele próprio, a ironia do porco comendo gulosamente o seu toucinho?

— É preciso — continuou Moneygrand — entender essas festas que promovem o turismo e geram renda ao mesmo tempo que compensam a pobreza e a desigualdade. Nas entranhas das festas, há os aproveitadores, e todos sabem como contraventores usam o carnaval como instrumento de legitimação. Num país onde reina a ambiguidade do legal com o delituoso seria o carnaval o fiel emblema dessa aliança? Sei que tudo isso é teoria e que estou complicando algo muito simples… Mas seria absurdo dizer que o carnaval é uma festa antiga num mundo moderno?

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Quando, em 1979, publiquei “Carnavais, malandros e heróis: para uma sociologia do dilema brasileiro”, eu mencionei o elo entre transgressão e carnaval. O carnaval licencioso festejado num Brasil do proibido seria uma contradição em termos. Uma transgressão com hora para começar e terminar. Neste Brasil monárquico e escravocrata, a igualdade era lida como “folia” ou loucura racionalizada pelas normas do sistema. Liberdade e igualdade eram transgressões permitidas só no carnaval. Mas o que ocorre quando instituímos a igualdade republicana?

No fundo, carnavalizar é revolucionar, mas fico somente nisso porque o tema não cabe na crônica.

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Não estranho que a festa tenha sido, como previa o brasilianista, politizada neste travoso ano de 2018, no qual o país tem um ex-presidente condenado, governadores presos, a vida se desmanchando numa avalanche de violência, e o prefeito-bispo da cidade governando por ausência (por motivos religiosos, ele não pode nem ver o carnaval…).

De fato, onde estaria a “loucura” do carnaval se o cotidiano já havia enlouquecido? Como inverter carnavalescamente o mundo no Sambódromo se o mundo real já estava de cabeça pra baixo? Seria, com efeito, surpreendente que o espirito carnavalesco amante do grotesco e da transgressão não fizesse essa irônica teatralização da “vida como ela é” neste Rio de Janeiro que virou uma Pompeia sem Vesúvio.

Quando algumas escolas de samba apresentaram o seu teatro de horrores numa festa da alegria, surge a pergunta que não quer calar: até quando vamos misturar meios e fins? E comer o pão antes de plantar o trigo?

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A politização não é nova. Ela foi realizada em tempos autoritários pela Beija-Flor e pela Vila Isabel nos anos 80. Isso para não falar dos milhares de carnavalescos anônimos que, em bloco ou solitariamente, parodiavam freiras e padres pecadores, generais covardes, machões femininos e falsos profetas, presidentes e políticos ladrões.

O que chama atenção neste desfile foi a politização sem a troça e em pleno regime democrático. Não era mais um protesto dos fracos contra os fortes (como no regime militar), mas uma tomada de posição. Nada contra, desde que todas as posições sejam exibidas. Caso contrário, o desfile vira manifestação partidária, e se extingue o riso satírico que os poderosos ou a desgraça suportam. Sem a burla que permite rir de nós mesmos, corremos o risco de enterrar o carnaval tal como até agora o fabricamos.

(*) Roberto DaMatta é antropólogo – O Globo

Leia mais: https://oglobo.globo.com/opiniao/o-carnaval-do-carnaval-22415965#ixzz57mXd8hsg
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ONDE MORA O PERIGO

A demofobia envenena a intervenção

Não se espera que a tropa venha como o coelhinho da Páscoa, mas não se pode chegar com ameaças aos cidadãos

Michel Temer já viu governo derretendo. Em 2013, quando o monstro da opinião pública estava nas ruas, a presidente Dilma Rousseff tirou um gambá da cartola e propôs uma Constituinte exclusiva para fazer a reforma política. Um telefonema de seu vice (ele) ajudou-a a perceber que aquilo era pura maluquice. Passaram-se cinco anos, Temer está na cadeira da doutora e peregrina com gambás na cartola.

No primeiro dia útil depois do decreto de intervenção federal, horas antes da aprovação da medida pelo Congresso, o ministro da Defesa, Raul Jungmann, informou:

“Algumas medidas talvez sejam necessárias, como a realização do que se chama mandado coletivo de busca e apreensão.”

E explicou:

“Na realidade urbanística do Rio de Janeiro, você muitas vezes sai com a busca e apreensão numa casa, numa comunidade, e o bandido se desloca. Então você precisa ter algo como o mandado de busca e apreensão e de captura coletivo para uma melhor eficácia do trabalho a ser desenvolvido.”

A geografia a que o doutor se referiu é a dos bairros pobres da cidade, onde, salvo os bandidos, ninguém foi para lá porque se encantou com o lugar. Por trás da ideia dos mandados coletivos está a noção demófoba segundo a qual quem mora nesses bairros, e não no Leblon, tem algo a esconder. É gente constrangida pelos bandidos, achacada pelos milicianos e abandonada pelo poder público, mas não se confia nela.

No segundo trecho da fala de Jungmann havia um erro, a referência ao “mandado (…) de captura coletivo”. Nunca houve coisa parecida, nem durante a vigência do Ato Institucional nº 5. (Noves fora a ação militar no Araguaia, onde fizeram-se prisões em massa e queimaram-se casas de roceiros.) Horas depois, o ministro corrigiu-se, dizendo que a referência às capturas foi um “mal-entendido”. Foi um erro, muito bem entendido.

Passou-se uma noite, e ontem o governo foi convencido de que a ideia do mandado coletivo de busca e apreensão era uma girafa. Temer 2018 arrebatou o troféu Dilma 2013.

Dilma poderia ter telefonado para Temer antes de tirar o gambá da cartola. Temer poderia ter telefonado para algum advogado amigo (ele os tem) antes de patrocinar a nova mágica.

Improvisada e demófoba, a intervenção na segurança do Rio começou da pior maneira possível. É isso que acontece quando o governo faz a opção preferencial pela marquetagem. (Viva Pezão, a batata quente da segurança do Rio foi para o colo de Temer.)

As forças da ordem não precisam entrar nesses bairros vestidas como coelhinhos de Páscoa, mas também não precisam de protofonias cinematográficas.

Para Michel Temer e para a torcida do Flamengo, tudo iria melhor se ninguém pudesse falar em nome da operação do general Braga Netto. Falariam o general, quando achasse necessário, e seu porta-voz autorizado. Só. Em operações recentes o Exército usou esse sistema, com sucesso. Está na mesa a encrenca em que se meteu o chefe da Polícia Federal, Fernando Segovia, por falar demais. Depois de anos de silêncio de seu antecessor, ele se revelou um adorador de holofotes. Deu no que deu. Se blá-blá-blá resolvesse problema, o Rio seria o que já foi.*

(*) Elio Gaspari é jornalista – O Globo

Leia mais: https://oglobo.globo.com/opiniao/a-demofobia-envenena-intervencao-22415876#ixzz57mUJynxo
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É O FIM DA PICADA

Fontes do desassossego

Jovens bandidos não se contentam mais em roubar. O prazer maior é proporcionado pelo sadismo com que agridem, espancam e até matam sem qualquer motivação

A intervenção federal ainda requer muita explicação, mas já se pode afirmar que uma das maiores dificuldades que a medida vai enfrentar é a existência no Rio dos dois principais agentes da desordem: o crime organizado e o crime desorganizado, o que age no atacado e o que atua no varejo. O primeiro se dedica preferencialmente a grandes ações, como tráfico de drogas, contrabando, assaltos a caminhões de carga, explosão de caixas eletrônicos e rebelião nos presídios.

Tão ou mais bem armados do que a polícia, os traficantes são os donos das favelas, exercendo sobre elas domínio absoluto — territorial, político, econômico e militar. Antes, ainda tinham que disputar a hegemonia com a milícia, mas hoje são parceiros, e a força do terror duplicou.

Eles formaram um Estado paralelo tirânico, que impõe suas leis seja por meio da extorsão — pedágios e tributos sobre serviços como luz e gás —, seja por meio da execução dos que desobedecem ou transgridem. Seus “tribunais” julgam, condenam e aplicam sentenças de morte.

Tudo isso é sabido, mas, como ocorre do “outro lado” da cidade, não chega a assustar tanto quanto o crime desorganizado, que neste verão, principalmente no carnaval, aterrorizou os moradores do asfalto, com grupos de menores agindo em conjunto e praticando pequenos furtos e roubos a pé ou de bicicleta, às vezes usando facas. Eles têm promovido arrastões não só na praia, mas também em lojas, onde entram em bandos, saqueiam rapidamente e saem, como fizeram no supermercado Pão de Açúcar no Leblon.

Com mais frequência, porém, eles agem nos calçadões e nas ruas da Zona Sul. Só na segunda-feira de carnaval, a Delegacia de Atendimento ao Turista registrou 26 ocorrências. Dois italianos foram feridos na cabeça; uma chinesa e uma alemã levaram socos no rosto, além de chutes; uma argentina que passeava com um bebê foi jogada no chão.

Um vídeo flagrou a cena de uma senhora de 58 anos em Ipanema. Ela chegava ao trabalho às 7h30m num condomínio, quando foi atacada pelas costas por quatro bandidos. “Foi uma covardia o que fizeram comigo”, ela contou, inconformada com a violência gratuita. “Por que não me pediram para passar a bolsa? Eu entregaria. Não precisava ser agredida”.

Nos ataques a transeuntes, é essa a característica: o requinte de crueldade. Os jovens bandidos não se contentam mais em roubar. O prazer maior é proporcionado pelo sadismo com que agridem, espancam e até matam sem qualquer motivação. É muito difícil prendê-los porque se dispersam rapidamente após cada ação.

Não têm chefes, agem de modo anárquico em bandos e por conta própria, numa espécie de versão tupiniquim dos “lobos solitários”. Será que a intervenção federal tem algum plano para secar essas fontes de nosso desassossego?*

(*) Zuenir Vantura – O Globo

FALA SÉRIO!

Acabou o mistério! Marqueteiro de Temer confirma que ele “já é candidato”

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Mouco trabalha no Planalto, pago pelo erário

O Planalto quer usar a intervenção federal no Rio para ressuscitar a imagem de Michel Temer e alavancar uma candidatura à reeleição. É o que diz o marqueteiro Elsinho Mouco, responsável pela propaganda presidencial.

O homem está animado. Considera que o chefe ganhou uma “grande chance” para sonhar com um novo mandato. “Ele já é candidato”, anima-se Elsinho. “A vela está sendo esticada. Agora começou a bater um ventinho”, comemora.

REPROVAÇÃO – Em outubro, Temer se tornou o presidente mais detestado desde o fim da ditadura militar, em 1985. O índice de reprovação a seu governo chegou a 73%, de acordo com o Datafolha.

Para o marqueteiro, a operação militar ajudará o peemedebista a “se recolocar no tabuleiro”. “Viramos a agenda. Agora o momento é outro”, diz Elsinho. “Neste momento, o presidente precisa resgatar sua biografia. A eleição é só em outubro. Ainda está muito longe”, acrescenta.

Antes de assinar o decreto, Temer recebeu pesquisas que encorajaram um gesto de impacto contra a violência. “Hoje a maior preocupação do brasileiro é com a segurança pública”, diz o publicitário.

LANCE DE PÔQUER – Ele define a medida como um “all-in”, lance do pôquer em que o jogador aposta tudo de uma vez. “O Temer jogou todas as fichas na intervenção”, resume.

Na avaliação do Planalto, o primeiro objetivo já foi alcançado. O presidente arrancou a principal bandeira de Jair Bolsonaro, que tem prometido usar as Forças Armadas para combater o crime.

O deputado atacou a intervenção, mas recuou ao ser cobrado por eleitores. Na segunda-feira, ele votou a favor do decreto. “O Bolsonaro se enrolou. Errou feio, como o Ciro Gomes em 2002”, festeja Elsinho.

IBOPE PESQUISA – A pedido do governo, o Ibope fará uma pesquisa telefônica na sexta-feira para medir a aceitação do decreto. Temer também planeja um novo pronunciamento em cadeia de rádio e TV, a pretexto de explicar a criação do Ministério da Segurança Pública.

A ideia é deixar os escândalos de corrupção para trás e vender o presidente como um político “corajoso”. Para o marqueteiro, o sucesso da ação militar pode operar milagres. “Se der certo, até o vampirão da Tuiuti pode virar um atributo positivo”, sonha Elsinho. “Vampirar pode passar a ser transformar, revolucionar…”, empolga-se.*

(*) Bernardo Mello Franco
O Globo

CASO DESMORALIZANTE

Juiz flagrado com o Porsche de Eike Batista é condenado a 52 anos de prisão

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O juiz usava o Porsche de Eike até para ir trabalhar…

Conhecido por ser flagrado dirigindo o Porsche apreendido do empresário Eike Batista, o juiz federal Flávio Roberto de Souza foi condenado por peculato e lavagem de dinheiro em dois processos que respondia na Justiça Federal. Em sua decisão, o juiz Gustavo Pontes Mazzocchi, da 2ª Vara Federal Criminal do Rio de Janeiro determina que Flávio Roberto cumpra pena de 52 anos de prisão, além de perder o cargo de magistrado e pague uma multa de R$ 599 mil.

As decisões são dos dias 16 e 19 deste mês. De acordo com o Ministério Público Federal, em um dos processos, Flávio Roberto desviou para seu benefício dinheiro que estava apreendido na 3ª Vara Federal Criminal do RJ quando ele era titular da vara.

DESMORALIZAÇÃO – “Consequências gravíssimas, não apenas pelo desaparecimento de autos processuais — que acabaram por ser parcialmente restaurados —, mas pela desmoralização absoluta do Poder Judiciário como um todo e, especialmente, da Justiça Federal e da magistratura, decorrência dos atos criminosos perpetrados por aquele que deveria aplicar a lei. Poucas vezes se teve notícia de agente da magistratura que tenha conseguido achincalhar e ridicularizar de forma tão grave um dos poderes do Estado”, afirmou em sua decisão o juiz Gustavo Mazzocchi.

De acordo com um dos processos, enquanto era juiz da 3ª Vara Federal, Flávio Roberto desviou R$ 106 mil obtidos com a venda do carro do traficante espanhol Oliver Ortiz preso em uma operação da Polícia Federal. Por este caso, ele foi condenado por peculato – crime que é a subtração ou desvio, por abuso de confiança, de dinheiro público ou de coisa móvel apreciável, para proveito próprio ou alheio, por funcionário público que os administra ou guarda; abuso de confiança pública.

EM NOME DA FILHA – O MPF afirma que Flávio Roberto utilizou parte do dinheiro para comprar um carro em nome da filha. Para isso, transferiu R$ 90 mil para a conta da moça.

O outro processo tratou do desvio de R$ 290,5 mil que estavam em uma conta da Justiça Federal e foram desviados por Flávio Roberto para a compra de um Land Rover Discovery. O então titular da 3ª Vara Federal Criminal ainda se apropriou, segundo o MPF, de US$ 105,6 mil e 108,1 mil euros. Após convertidos em reais, os recursos foram usados para a compra de um apartamento na Barra da Tijuca, na Zona Oeste do Rio. Na tentativa de esconder a manobra, segundo o MPF, Flávio Roberto lançou no sistema decisões falsas. Ele ainda destruiu provas e partes do processo para ocultar as irregularidades que praticou.

O G1 ainda não conseguiu contato com a defesa do juiz Flávio Roberto de Souza, que pode recorrer da decisão. Nos processos, seus advogados alegaram que ele possuía problemas mentais e sofria de depressão.*

(*) Marco Antônio Martins
G1 Rio

SÓ BOLA FORA

A banalização das forças-tarefas

Violência contra a mulher, estrada parada, carne “fraca”. Incluída a que chegou hoje a Fortaleza, Temer criou ao menos 7 forças-tarefas em um ano. Pra quê?

De onde o presidente Michel Temer tira tanta gente para compor as forças-tarefas que ele inventa?
Só esta semana, foram duas, ambas para “situações emergenciais”.
Em plena segunda-feira de carnaval, ele foi a Boa Vista e, sob os holofotes de redes de TV nacionais e internacionais, faturou manchetes ao anunciar, com a pompa que lhe é típica, a criação de uma força-tarefa para organizar a imigração em massa de venezuelanos que assola Roraima.
Na sexta-feira, decretou, com outro tanto de manchetes, a inédita intervenção federal no Rio de Janeiro – abertamente desafiada pela rebelião no presídio de Japeri, 48 horas depois.
Enquanto detentos mantinham 18 pessoas reféns no Rio, Temer anunciava ontem outra força-tarefa. E mandou 36 pessoas para Fortaleza porque um chefe do PCC, o perigoso Primeiro Comando da Capital, foi encontrado morto no Ceará.
Só no ano passado, pelo menos cinco forças-tarefas foram criadas pelo governo federal, três delas no âmbito da segurança.
Em 26 de janeiro de 2017: depois de 26 mortes e sangrenta rebelião no maior presídio do Rio Grande do Norte, 78 agentes formaram uma força-tarefa de intervenção penitenciária, e foram enviados a Natal.
Em 15 de fevereiro, também de 2017: criada força-tarefa especializada na investigação de feminicídios, homicídios dolosos e violência contra a mulher. Seus primeiros braços atuariam em três capitais: Porto Alegre (RS), Aracaju (SE) e Natal (RN).
Duas semanas depois, no dia 3 de março, Temer anunciaria mais uma, para outra emergência: a estratégica BR 163, que vai de Mato Grosso ao Pará, e é usada principalmente para o transporte de soja, estava obstruída por absoluta falta de manutenção. Caminhoneiros sitiados precisaram ser hidratados e alimentados com mantimentos transportados via aérea, pela FAB. A força-tarefa está lá até hoje, segundo informa o site do Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes.
Pois não é que, exatos 16 dias depois, o presidente anunciou outra força-tarefa?
Para auditar frigoríficos!
Era um domingo, 19 de março. Dois dias antes, a Polícia Federal havia deflagrado a Operação Carne Fraca, causando outro baque ao agronegócio (já queixoso da precariedade da BR 163).
Temer reuniu-se com 40 embaixadores de países importadores, anunciou uma força-tarefa para fiscalizar frigoríficos, e faturou outra peça de marketing. Levou os convidados para jantar numa churrascaria de Brasília, atestando sua confiança no produto nacional.
Em 9 de outubro, depois que mais de 50 presos fugiram no Piauí, Temer anunciou mais uma força-tarefa, e mandou para o estado 100 agentes de intervenção penitenciária.
O brasileiro não viu, não sentiu, não percebeu, não sabe, até hoje, quais benefícios essas fabulosas missões lhe trouxeram.*(*) Lillian Witte Fibe – veja.com