NOVOS TEMPOS

A moral e a ordem são primas, mas jamais irmãs gêmeas

Moral é a infantaria das quedas de regimes


Mas ordem foi quem sempre fincou a bandeira

Há de entrar para os livros de sociologia e de história talvez o evento simbólico mais importante de nosso tempo, a era da crise moral. Ouso propor até mesmo um nome para o incidente: “O desencontro do aeroporto JK”.

Relembro aos leitores: no dia 30 de março de 2017, o símbolo da moral dos nossos tempos, o juiz Sérgio Moro, estava no mesmo aeroporto em Brasília em que iria embarcar o símbolo da ordem contemporâneo, o ex-capitão e deputado federal Jair Bolsonaro.

O símbolo da ordem, acompanhado por um cinegrafista, viu o valor simbólico de se associar ao juiz. Foi até sua direção. Estendeu a mão, mas não recebeu o cumprimento.

Visto assim, como pequena história, foi apenas mais um episódio banal da crônica do cotidiano político. Colocado agora sob a perspectiva histórica e da grande angular do tempo, agora com Jair Messias Bolsonaro com a dimensão colossal que assumiu, a diatribe tácita do aeroporto JK é um gesto cheio de significados e com inúmeros precedentes.

O fato é que naquele dia a ordem foi cumprimentar a moral. E a moral, perdoem o jogo de palavras, não deu muita moral à ordem. Não é a primeira vez que ordem e moral se esbarram e reagem de maneira impulsiva e hostil, uma à outra.

Nas vésperas da quebra institucional de 1964, a moral surfava na onda e Carlos Lacerda e sua UDN (União Democrática Nacional) tocavam a banda de música que encantava os ouvidos da classe média, ao mesmo tempo que revirava seus estômagos contra os desmandos, a corrupção que “toma conta do país” (os motes nunca mudam). O que aconteceu? O regime colapsou e as Forças Armadas assumiram o país em nome da ordem, em nome primeiro dela, mas também em defesa da moral. Com o tempo, a ordem foi cassando os adversários do regime, inclusive Lacerda e alguns porta-vozes da moral.

Aí é que está: a ordem e a moral são primas em primeiro grau, mas não são irmãs gêmeas univitelinas. São muito, muito parecidas. O povo em geral acha uma a cara da outra. Só que não. Existia ordem por exemplo nos campos de concentração: afinal, é preciso disciplina rigorosa para fazer uma indústria da morte como aquela funcionar. Mas ali não havia moral: matar um semelhante é imoral. Então, pode existir ordem onde não existe moral. Há muita ordem na Igreja Católica, mas os escândalos de abusos sexuais recentes mostram que faltou moralidade. Pode haver ordem nos canteiros de flor, nas filas aprumadas dos desfiles das ditaduras, mas existirá moral?

O mesmo ocorre com a moral. Pode existir moral e desordem. Pode haver a intenção genuína de impor o rigor de valores morais, mas abusar de poderes em nome disso é desordem. Pode haver desordem na determinação de certas obrigações legais, inspiradas no moralismo, mas que representam escárnio público contra alguém, excesso de autoridade, desprezo às garantias. Ou seja, um atentado à ordem legal.

No Brasil, historicamente, a moral é a infantaria das quedas de regimes ou das viradas de estação na política. Mas quem sempre fincou a bandeira e conquistou o território, até hoje, foi a ordem. A ordem parece muito com a moral, mas não é. Então, o “Desencontro do Aeroporto JK” entre o símbolo da moral e o símbolo da ordem hoje tem uma dimensão, redundarei, simbólica: jamais nos confundam! Não somos a mesma coisa! Foi isso que esbravejou a moral, diante da ordem que tentava se aproximar.

De certa forma, eu arriscaria dizer que a moral e a ordem são adversárias políticas viscerais. O grande inimigo político da moral não é o imoral, assim como o da ordem não é a desordem. Derrotados os imorais e os desordeiros, moral e ordem sabem que travarão o último combate. O povo sempre chama a moral, mas normalmente recebe a ordem como troco e se da por satisfeito. E a ordem sempre tem entrado em campo como a favorita. Quer ver? De uma olhadinha em nossa bandeira: tá escrito lá Moral e Progresso?*

(*) Mário Rosa  – jornalista, Poder360

GRANDE GABEIRA!!!

As prisões mentais

Bolsonaro terá de moderar retórica. E oposição precisa tomar consciência da situação delicada em que o país entra

Lula está preso, meu caro. Repito a frase de Cid Gomes que ecoou na rede, suprimindo a palavra babaca. Não por correção política. A palavra iguala a estupidez à vagina. Apenas para lembrar, com humildade, como certos sentimentos estão arraigados em nossa cultura e emergem de nosso subconsciente.

A líder da direita francesa, Marine Le Pen, afirmou que algumas frases de Bolsonaro são inaceitáveis na França. Mas não o foram no Brasil.

Humildade aqui significa reconhecer que mudanças culturais levam tempo para se consumar. Não são como uma ponte destruída pela chuva que se reergue rapidamente. Nem mesmo uma nova capital que pôde ser construída no Planalto. Às vezes, atravessam gerações.

Lula está preso. É natural que o PT não aceite isso. Mas a forma de recusar foi chocar-se diretamente com a Justiça, tentar dobrá-la com manifestações, apoio externo e uma inesgotável guerra de recursos legais.

Compreendo que isso era visto como uma forma de acumulação de forças. Mas, na verdade, também acumulou rejeição.

Quando Haddad foi lançado, cresceu rapidamente exibindo a máscara de Lula. No segundo turno, a máscara envelheceu como o célebre retrato de Dorian Gray.

Mas o período que se abre agora será de tanto trabalho, que talvez não tenhamos mais tempo para nos patrulharmos. São tempos complexos, que demandam mais humildade ainda.

Num debate em São Paulo, depois do primeiro turno, confessei como o processo me surpreendeu. As pesquisas indicavam uma grande vontade de renovação. Quando os partidos se destinaram quase R$ 2 bilhões para a campanha, concluí que a renovação seria mínima.

Apesar de ter feito algumas campanhas no território digital, minha reflexão ainda se dava no quadro analógico. A renovação, cuja qualidade ainda é discutível, aconteceu. Com R$ 53 milhões, Meirelles teve menos votos do que o Cabo Daciolo, um exemplo de como os velhos parâmetros foram para o espaço.

As próprias pesquisas que tanto critiquei no passado porque achava que favoreciam Sérgio Cabral, hoje as vejo com nostalgia. Existe informação na pergunta clássica em quem você vai votar.

Mas, para detectar tendências, é preciso um oceano de dados e capacidade de análise. As pesquisas envelheceram, sem que muitos se dessem conta. Mas não apenas elas envelhecem, num mundo em que a inteligência artificial avança implacavelmente.

E é nesse mundo que teremos de navegar. A situação econômica internacional não é favorável como no passado. Nos artigos em que trato de alguns de seus aspectos, começo sempre com o paradoxo: os Estados Unidos, que lideraram uma ordem multilateral, decidiram abandoná-la. Será preciso mais do que nunca acertar os passos aqui dentro. Isso significa gastar menos, fazer reformas.

Quando estava na Rússia, os primeiros protestos contra a reforma da Previdência foram abafados pelo oba-oba da Copa do Mundo. Soube que agora a popularidade de Putin caiu 20 pontos precisamente por causa dela. Em outras palavras, a vida não é nada fácil para quem precisa reformar o Estado e fazer um ajuste fiscal.

Nesse futuro tão nebuloso que nos espera, a tese do quanto pior melhor é atraente, no entanto, pode ser também um novo erro de avaliação.

Quando ficamos muito concentrados nos problemas internos, perdemos um pouco de vista nossa inserção internacional. A imagem do Brasil lá fora mudou. O próprio Bolsonaro começará seu mandato como um dos presidentes mais rejeitados pela imprensa planetária. Ele terá de moderar sua retórica. E quem faz oposição precisa tomar consciência da situação delicada em que o país entra.

A sobrevivência da democracia não está ameaçada. Mas algumas escoriações podem empurrá-la para o viés autoritário que hoje cresce no mundo.

As fake news, por exemplo, sempre existiram, mas hoje têm um peso maior, pelo alcance e velocidade. Utilizá-las sem escrúpulos e denunciá-las no adversário apenas confirma o pesadelo moderno da decadência da verdade.

É muito difícil chamar à razão a quem se considera o dono dela. Os intelectuais condenam as escolhas populares, mas, às vezes, não percebem a sede de sinceridade que há por baixo delas. Pena.*

(*) Fernando Gabeira – O Globo

 

E O VENTO LEVOU

Investigação do caso WhatsApp será demorada

Será demorada a investigação da Polícia Federal sobre o uso do WhapsApp para propagar falsidades com propósitos eleitorais. Investigam-se as duas campanhas finalistas da corrida presidencial, a de Jair Bolsonaro e a de Fernando Haddad. É nula a hipótese de conclusão do inquérito antes do término do segundo turno, no próximo domingo (28), informou ao blog uma autoridade que acompanha o caso.

Significa dizer que nem o inquérito aberto pela Polícia Federal nem os procedimentos deflagrados pelo Tribunal Superior Eleitoral produzirão efeitos capazes de modificar o processo eleitoral. Apura-se aquilo que a procuradora-geral da República Raquel Dodge classificou de “uso de recursos tecnológicos para propagar informações falsas ou ofensivas à honra e à imagem dos dois candidatos”.

Eventuais comprovações resultarão em contenciosos jurídicos a serem julgados após a eleição. Não há, por ora, definição quanto a prazos. Estima-se que a apuração pode se desdobrar em pelo menos duas fases. Numa, investigam-se as empresas de tecnologia e os financiadores da difusão de mensagens. Noutra, mais delicada, buscam-se os vínculos com as candidaturas.

Contribuições empresariais estão proibidas nesta eleição. Em tese, a comprovação do uso de dinheiro de caixa dois em benefício de uma candidatura configuraria abuso do poder econômico. Algo que, no limite, pode levar à perda do mandato.

Um aliado de Jair Bolsonaro reagiu à movimentação com ironia. Chamou de “fake news” o inquérito e o noticiário que o originou. Indagou: “Uma Justiça Eleitoral que, diante de provas irrefutáveis do uso de dinheiro sujo da Odebrecht, se negou a cassar a chapa Dilma-Temer, terá autoridade para questionar o mandato do Bolsonaro?”*

(*) Blog do Josias de Souza

MAL TREINADO

Desculpa de falso tolo

 

 

Se alguns dos seus seguidores batem e esfolam os que pensam o oposto deles, o deputado Jair Bolsonaro se apressa em dizer que não tem como controlá-los.Se donos de fortunas contratam serviços de empresas para beneficiá-lo com mensagens distribuídas nas redes sociais, Bolsonaro afirma que não tem como controlá-los.

Se grileiros de terras na Amazônia atacam a tiros equipes de ambientalistas empenhadas em preservar os recursos naturais, Bolsonaro insiste que não tem como controlá-los.

Ora, se nem os filhos ele controla, a ponto de um deles ter dito que um soldado e um cabo bastariam para fechar o Supremo Tribunal Federal, como Bolsonaro imagina governar o país?*

(*) Blog do Ricardo Noblat

UM PAÍS QUE “DEU RUIM”

Missa de sétimo dia

A tempestade de insultos bolsonaristas, acompanhada de torrentes de fake news, encontra um eleitorado habituado à linguagem exterminista

 

 

Aqui, em agosto de 2016, escrevi o seguinte: “A Nova República apaga-se na bruma do passado — mas nenhum sistema político alternativo surgiu para substituí-la. Temer (…) é um gerente de ruínas.” Nessa, acertei: o velório da Nova República deu-se no primeiro turno das eleições. Mas errei, e feio, sobre a forma de que se revestiria o ato fúnebre: seis semanas atrás, escrevi que, “no turno final, a rejeição a Bolsonaro elege qualquer adversário”. De fato, pelo contrário, a descida do caixão até seu túmulo será acompanhada pelos acordes da vitória de Bolsonaro. Diante de nós, sobra a missa de sétimo dia: um esforço para desvendar como chegamos ao ponto de eleger o candidato que cultua o sistema anterior à Nova República — isto é, a ditadura militar.

Sem qualquer ordem hierárquica, sugiro algumas causas para o desfecho:

1) A implosão do PSDB. O sistema político da Nova República estabilizou-se ao redor da disputa entre PSDB e PT. Desde o fim do ciclo do Plano Real, os tucanos perderam a capacidade de formular uma plataforma popular — e foram batidos em quatro eleições consecutivas. O colapso terminal deu-se com a desmoralização de Aécio Neves, na “operação Joesley Batista”. Bolsonaro tornou-se o desaguadouro do voto antilulista que, antes, se inclinava para os tucanos. O PSDB, tal como o conhecemos, está morto.

2) A deslegitimação geral da elite política. Sob Lula, o “presidencialismo de coalizão” degenerou no “presidencialismo de cooptação” (apud FHC). A devassa da Lava-Jato esclareceu os mecanismos de corrupção sistêmica que envenenam o sistema político. Na sequência, uma “fase 2” da Lava-Jato, conduzida como projeto de poder corporativo por Janot e pela ala jacobina do Ministério Público, destruiu o que restava de credibilidade na prática da política. Bolsonaro encarnou, no plano imaginário, a antipolítica.

3) A pedagogia petista do “nós” contra “eles”. O lulismo converteu as disputas eleitorais em guerras de extermínio. O adversário deixou de ser um parceiro na divergência democrática para se transformar no “inimigo do povo”, no “fascista”, no quinta-coluna a serviço do imperialismo. No ápice desse teorema, em 2014, Marina Silva foi pintada como agente dos banqueiros numa conspiração destinada a esvaziar o prato de comida dos pobres. Pelas mãos de Bolsonaro, o ácido corrosivo voltou-se contra o PT. A tempestade de insultos bolsonaristas, acompanhada de torrentes de fake news, encontra um eleitorado habituado à linguagem exterminista. Depois da missa, o Brasil precisará reaprender a conversar.

4) A configuração da eleição como plebiscito sobre Lula. A narrativa petista do “golpe parlamentar” e da “perseguição judicial” confluiu para a estratégia da candidatura de Lula. A máscara do ex-presidente sobre o rosto de Haddad completou o percurso, impondo aos eleitores um veredicto sobre o lulismo. Mas o lulismo nunca foi majoritário, como atestam as quatro eleições consecutivas, entre 2002 e 2014, que exigiram segundo turno. Bolsonaro aceitou, agradecido, o desafio de comprovar a existência de uma maioria disposta a rejeitar um quinto mandato lulista. O PT foi expulso do Centro-Sul do país. A tardia, confusa, tentativa do PT de girar para o centro após o primeiro turno não funcionou. Junto com os funerais da Nova República, encerra-se o ciclo lulista.

5) Bolsonaro é inculto, como Lula — mas, como Lula, não lhe falta inteligência política. Nos EUA e na Europa, a direita nacionalista identificou nas senhas da imigração e do terrorismo os pulsos eficazes para ativar um eleitorado atemorizado diante do futuro. Bolsonaro traduziu os códigos para as circunstâncias da crise brasileira, apertando as teclas da violência urbana e da corrupção. Seu discurso eleitoral explode a gramática política da Nova República. Ninguém, no centro ou na esquerda, encontrou antídotos para as toxinas bolsonaristas.

Donald Trump ou Rodrigo Duterte, o populista que preside as Filipinas à frente de esquadrões da morte? Provavelmente, nem um nem outro. Mas isso só saberemos ao certo depois da missa.*

(*) Demétrio Magnoli – O Globo

 

SANATÓRIO GERAL

Culpa do WhatsApp

Gleisi responsabiliza aplicativo pelo fracasso nas urnas da quadrilha que saqueou o Brasil

“Que que vai fazer com esse resultado da eleição? Vai fazer o quê? Vai anular? Vai anular as eleições inteiras? Vai suspender o WhatsApp? Acho que a primeira coisa que a gente tinha que pedir é a suspensão do WhatsApp até finalizar a eleição. Essa gente tá com um esquema criminoso montado. Querem ganhar? Então disputem o voto, disputem o projeto, disputem a opinião das pessoas, vamo pras ruas”.
 

(Gleisi Hoffmann, presidente do PT, fingindo que foi por culpa do WhatsApp, e não pelo voto, que milhões de brasileiros deixaram claro que não suportam mais ser enganados por gente como Gleisi Hoffmann, Dilma Rousseff, Lindberg Farias, Fernando Pimentel, Fernando Haddad e outros comparsas de Lula, chefão do bando que saqueou o Brasil).*

(*) Blog do Augusto Nunes

BRASIL 40º

Alta ansiedade

Vivemos momentos de “nervosia”, palavra antiga, mas muito precisa, para descrever essa atmosfera de irritabilidade, impaciência e hostilidade nas eleições

O fato é que estamos vivendo momentos sem precedentes de “nervosia” ─ palavra de uso antigo, mas muito precisa, para descrever essa atmosfera de irritabilidade, impaciência e hostilidade geral que se levanta hoje em dia a cada vez que o cidadão diz que vai votar em Bolsonaro ou Haddad. Em geral, as brigas de campanha costumam se limitar aos próprios candidatos. Hoje, emigraram com mala e cuia para o meio de uma boa parte dos eleitores. É entre eles, e não nos palanques ou “debates” na televisão, que está havendo agora derramamento de sangue ─ inclusive de sangue mesmo. Não é preciso, para acender a banana de dinamite, gritar “Mito!” no meio de um ajuntamento petista, ou de vir com um “Lula Livre!” na comissão de frente de um bloco bolsonarista. O desastre, nesta campanha de 2018, pode acontecer no aconchego do seu próprio lar. Você diz que vai votar num ou no outro, e dali a pouco está formado um barraco rancoroso em sua casa, com a súbita troca de ofensas, palavras malvadas e ressurreição de velhos ressentimentos, no que deveria ser um churrascão inofensivo de domingo. Amigos se desentendem feio com velhos amigos. Há brigas de pais com filhos, de irmãos com irmãos, de mulher com marido. Familiares rompem relações, colegas de trabalho viram as costas uns para os outros e se fecham em suas próprias trincheiras. Falar de política, em suma, virou um perigo.

Os rompantes mais curiosos de neurose se multiplicam por todos os lados. Uma senhora foi notada no facebook fazendo um anúncio aflito: “Hoje, eu tive de dar um block na minha tia de 78 anos!”. Uma jornalista-celebridade de São Paulo denunciou em seu jornal, com a gravidade reservada às notícias de grande impacto, que tinham sido feitas pichações racistas no banheiro de um colégio chique ─ isso mesmo, rabiscaram a parece do toalete da moçada. Quem jamais ouviu falar de uma coisa dessas? A dona de um restaurante paulistano teve a ideia de exibir na internet uma foto, tirada junto com a sua equipe, mostrando o dedo do meio para os bolsonaristas. Amizades intensas formadas nas redes sociais explodem antes que as pessoas tenham tido tempo de se conhecer. Lulistas são chamados de esquerdopatas. Quem vota em Bolsonaro é fascista ─ embora 80% dos que fazem essa acusação não tenham a menor ideia do que estão falando. Não optar nem por um nem por outro, então ─ não seria uma defesa? Esqueça. Nesse caso você será acusado de “isentão”, e muita gente fica irritadíssima quando é chamada de “isentão”. O ambiente deveria estar bem mais calmo, pois até a véspera da eleição todas as “pesquisas” garantiam a mesma coisa: Bolsonaro perderia para qualquer outro candidato no segundo turno. Mas está dando o contrário. Aí vira nervosia pura.*

(*) J.R. Guzzo – veja.com

PICARETA JURAMENTADA

Como entender Marina?

Sete anos após praguejar contra a ‘velha política’, ela negocia com os donos da casa de onde saiu batendo a porta

A partir então, ela ganhou musculatura.

Obteve mais de 20 milhões de votos como candidata a presidente da República e fundou a Rede, classificando os demais partidos como os representantes da “velha política”.

Mas sete anos depois de deixar o PV, tudo deu errado. E, então, o que faz Marina?

 Melancolicamente, volta ao ponto de partida.

Pela sobrevivência de uma legenda que nunca vingou, agora, ela recorre ao pragmatismo absoluto e negocia uma fusão com PPS de Roberto Freire (ex-ministro de Michel Temer) e – não poderia ser mais irônico – o PV.

Seria de bom tom Marina fazer algo que detesta, ir a público para explicar o que pensa.

Há gente ávida por saber o que ela está disposta a manter vivo a qualquer custo: seu arremedo de partido ou o discurso que convenceu 20 milhões de brasileiros.*

(*) Gabriel Mascarenhas, coluna Radar, veja.com

ASSIM CAMINHA A HUMANIDADE

A volta de quem se foi

Esta é a segunda morte política de Alckmin. A primeira ocorreu quando, fazendo exatamente o que Doria fez com ele, ignorou o acordo de Serra com Gilberto Kassab, ganhou a convenção tucana e disputou a Prefeitura de São Paulo. Foi surrado por Kassab. Estava liquidado, diziam. Mas Serra o levou para seu Secretariado e Alckmin ressuscitou politicamente.
E agora? Depende: se Doria se eleger governador, cuidará com carinho de Alckmin, com maçã na boca e pele pururuca. Se França for o eleito, ele terá nova chance. Velhos políticos não morrem, fingem que não é com eles.
O goiano Perillo talvez não tenha como escapar. Perdeu de cabo a rabo e, no Governo, tem hoje um adversário duro e respeitado, Ronaldo Caiado. Marina volta em quatro anos, como de costume, Eunício tem couro duro, nem lembra mais da grande surra. Cristovam Buarque tem chance. Dilma, esta não volta, porque para voltar é preciso ter ido e ela nem foi, só foi-se.
Alguns se evaporaram nas eleições, mas podem voltar: Tarso Genro e Aloízio Mercadante, por exemplo, ficaram intactos. Outros perderam, mas saíram maiores do que entraram: Ciro, Kátia Abreu, Ana Amélia, Eduardo Jorge– e quem lembra que ele, pelo Partido Verde, foi vice de Marina?
Política é jogo esquisito. Nixon perdeu a Presidência para Kennedy, tentou o Governo da Califórnia, perdeu. Voltou para ser presidente. Na frase do repórter James Reston, “foi a maior ressurreição desde Lázaro”.

Coisas estranhas

Política é jogo esquisito. Quem diria, há um ano, que Bolsonaro seria candidato forte? Ou que Manuela d’Ávila se ajoelharia na igreja? Que tal o PT esquecendo o vermelho e virando verde-amarelo? E Haddad, que chegou a dizer que ele era Lula e Lula era ele, dando apoio a Sérgio Moro?
E há, claro, aquilo que só político fala, porque ninguém mais entende. A candidata do PT ao Governo do Rio falava em “laicizar o cu”, e Alexandre Frota explicava que existe o “sexo anal técnico”. Pois é. Laicizado, talvez.

Questão idiomática

A palavra “cu”, usada por este colunista, citando a candidata, não é palavrão. É parte do idioma de Portugal. Dela derivam “cueca” e “recuar”.

A lei, só a lei

Uma reportagem de Patrícia Campos Mello, na Folha de S. Paulo, diz que empresas privadas compraram milhões de remessas de WhatsApp para fazer propaganda de Bolsonaro. A Justiça Eleitoral decidiu apurar se houve crime eleitoral, o que pode levar à cassação da candidatura Bolsonaro (é o que o PT pede).
Houve abuso do poder econômico? Essa é a questão: o envio de WhatsApp pode ser legítimo, mas o pagamento por empresas privadas não é. Só são admitidas, nestas eleições, doações de pessoas físicas. Mas é questão de lei: se houve crime, qual a punição aplicável?

Agressão, não

A questão dos envios de WhatsApp está na Justiça, onde deve ser avaliada. Até lá, pode haver quantas discussões os dois lados quiserem. Mas é inadmissível o que está ocorrendo nas redes, com ataques pessoais e insultos à repórter Patrícia Campos Mello. É boa repórter, respeitável, correta, experiente. Pode eventualmente errar, claro; mas jamais de má fé.

Por falar no assunto

A questão das contribuições de campanha merece uma boa análise. Houve empresários que, dentro da lei, doaram grandes quantias (vinte deram mais R$ 1 milhão, sendo que um deles doou quase R$ 7 milhões). Mas haverá só doações legais nesta campanha? Seria o caso de investigar o total das despesas e verificar se as enormes verbas públicas destinadas à campanha, somadas às doações legais, foram suficientes para os gastos. Se não foram, de onde veio o restante do dinheiro das despesas?

Temer e o porto

A Polícia Federal, após pouco mais de um ano de investigações, decidiu indiciar o presidente da República, Michel Temer, pelas acusações de corrupção passiva, lavagem de dinheiro e organização criminosa. Temer, diz a Federal, teria recebido propina de duas empresas do setor portuário de Santos, a Rodrimar e a Libra, em troca de benefícios indevidos. É processo de longa duração e só será julgado após o fim do mandato de Temer.

O sítio que é dele

Mais um problema para Lula (embora pequeno diante de outros que enfrenta): foi multado pela Justiça de São Bernardo em R$ 1.000,00 por agir de má-fé. O caso, narrado pelos jornalistas Junior Carvalho e Raphael Rocha, do Diário do Grande ABC: a Prefeitura de São Bernardo embargou a obra de uma casa que Lula construía ao lado do sítio Los Fubangos – que tem desde antes de entrar na política. Lula pediu mandado de segurança, e o juiz José Carlos de França Carvalho Neto, da 1ª Vara da Fazenda Pública, não só o negou como impôs a multa. A defesa de Lula vai recorrer.*

(*) Coluna Carlos Brickmann, na Internet