FALA SÉRIO!

No mundo da Lua, Temer comemora ‘avanços’


Um dia depois de o governo anunciar que não conseguiu cumprir suas metas fiscais e entregará rombos ainda maiores até 2019, Michel Temer veio à boca do palco para comemorar as reformas que conseguiu empinar. Eis o que disse o inquilino do Planalto:

“Toda vez que você propõe uma reforma, a primeira coisa é uma guerra brutal contra a reforma, não é? Logo depois, reforma aprovada, o que se verifica nas pesquisas é uma aprovação extraordinária e o silêncio daqueles que protestaram, porque foram obrigados a curvar-se à realidade que aquela reforma trouxe.”

Temer se referia à reforma do ensino médio. Talvez tenha sido a mexida mais alvissareira que seu governo promoveu. Mas não há vestígio de aferição que ateste a “aprovação extraordinária” de que fala o presidente. De resto, o ensino reformado significará muito pouco num país que não consegue pagar regularmente nem a faxina nas escolas.

Temer solta fogos num instante em que sua infantaria parlamentar se recusa a aprovar a reforma da Previdência, apresentada pelo ministro Henrique Meirelles (Fazenda) como a mãe de todas as reformas. Sem ela, o teto constitucional dos gastos, outra reforma da qual o presidente se orgulha, será estourado entre o final de 2018 e o ano da graça de 2019.

Prestes a ser abalroado por uma segunda denúncia da Procuradoria, dessa vez por obstrução de Justiça, Temer sinaliza que sua principal dificuldade não é a incapacidade de apresentar soluções. Tomado pelas palavras, o presidente já não enxerga nem os problemas. Passou a viver no mundo da Lua.*

(*) Blog do Josias de Souza

CHAMA O LADRÃO! CHAMA O LADRÃO!!!

Mas que país é este?

… onde o presidente da República, pressionado por deputados, nomeia para diretor do Departamento de Atenção Básica da Secretaria de Atenção à Saúde do Ministério, uma das áreas mais sensíveis da política pública no setor, João Salame Neto, ex-prefeito de Marabá, no Pará, citado por delatores da Odebrecht como tendo recebido parte do R$ 1,5 milhão doados, na eleição de 2014, a ele e ao atual ministro Helder Barbalho, da Integração Nacional? Salame Neto responde também a processo por improbidade administrativa.

… onde foi aberta a temporada de caça a 60 cargos públicos, no mínimo, cujos ocupantes, indicados por deputados que votaram a favor da licença para que o presidente da República fosse processado por corrupção, serão substituídos por outros a serem indicados por deputados que votaram contra a licença? As trocas começarão em breve.

… onde a funcionária encarregada da agenda e das roupas da primeira-dama fura a fila de pretendentes ao mesmo benefício e é contemplada com um apartamento funcional cedido pelo governo?

… onde desponta como forte candidato a presidente da República um deputado, no caso Jair Bolsonaro (sem partido-RJ), condenado pelo Superior Tribunal de Justiça por ter-se referido assim à sua colega Maria do Rosário (PT-RS) em discurso na Câmara e, depois, em entrevista a um jornal: “[Eu não a estupraria] porque ela é muito ruim, muito feia, não faz meu gênero”? Bolsonaro será obrigado a pagar R$ 10 mil a Maria do Rosário e a postar a decisão da Justiça em sua página oficial no Youtube.

… onde 84 juízes de Mato Grosso receberam mais de R$ 100 mil no contracheque de agosto, sendo que 18 deles ultrapassaram os R$ 300 mil? O maior salário no serviço público deve ser de pouco mais de R$ 33 mil como manda a Constituição. O juiz Mirko Vincenzo Giannotte, também de Mato Grosso, recebeu R$ 503 mil.

… onde o governador de um Estado quebrado, que não consegue pagar sequer em dia o salário dos servidores, lança um edital para contratar em proveito próprio um jatinho por até R$ 2,518 milhões? O Ministério Público do Rio de Janeiro anunciou, ontem, que foi instaurado um procedimento para investigar o caso. O governador Luiz Fernando Pezão nada disse a respeito.*

(*)  Blog do Ricardo Noblat

BESBARATANDO O LEGADO LULOPETISTA

Bretas toma passaporte e quebra sigilo fiscal e bancário de Bethlem

‘Homem de confiança de Sérgio Cabral e Eduardo Paes’ é o novo alvo da Operação Lava Jato no Rio

O juiz federal Marcelo Bretas, da 7.ª Vara Federal do Rio, determinou o afastamento do sigilo dos dados bancários e fiscais do ex-secretário municipal de Assistência Social Rodrigo Bethlem, gestão Eduardo Paes (PMDB), e de quatro empresas ligadas a ele. A ordem atinge ‘todas as contas de depósitos, contas de poupança, contas de investimento e outros bens, direitos e valores mantidos em instituições financeiras’ entre 2007 e 2017. O magistrado autorizou que a Receita use os dados obtidos ‘em seus procedimentos administrativos’.

“Parece que Rodrigo também detém grande influência política, eis que participa do governo do Rio de Janeiro desde 2001, quando foi eleito vereador, e se tornou homem de confiança de Eduardo Paes e Sérgio Cabral, atuando como secretário desses desde 2009.”

Bethlem foi alvo de mandado de busca e apreensão nesta terça-feira, 15, em desdobramento da Operação Ponto Final – que prendeu, em julho, a cúpula dos Transportes no Rio. Policiais federais cumpriram as ordens judiciais na casa de Bethlem e em um escritório, ambos na Barra da Tijuca. Na casa, foram apreendidos equipamentos de informática e telefones celulares. No escritório, a PF apreendeu documentos.

Bretas autorizou também o afastamento dos dados telefônicos, entre 30 de julho e 30 de julho de 2017, em dois endereços de e-mail de Rodrigo Bethlem.

“Advirtam-se as operadoras de que o não cumprimento desta decisão no prazo de 30 dias importará na aplicação de multa diária de R$ 100 mil, sem prejuízo da apuração da prática de ilícitos penais”, afirmou o magistrado.

O juiz determinou ainda a apreensão do passaporte de Bethlem e o proibiu de se ausentar do País por 180 dias.*

(*) Julia Affonso – Estadão

HAJA SUPREMACIA…

Tribunal da Bahia suspende aulas de caminhadas a seus magistrados

Corte decidiu aguardar parecer do Conselho Superior da Justiça do Trabalho sobre projeto para contratação de empresa especializada na atividade física destinada a preparar os juízes e funcionários para a Olimpíada da toga

O Tribunal Regional do Trabalho da 5.ª Região (TRT5) suspendeu a contratação de uma empresa especializada em dar aulas de corridas e caminhadas a seus servidores e magistrados. A Corte estava disposta a gastar parte de seu orçamento a fim de preparar um grupo para a Olimpíada da Justiça do Trabalho, que promove corrida anual. O contrato iria custar R$ 196 mil por ano, prorrogável por mais cinco anos.

Segundo a Corte, o projeto ‘atende a uma resolução do Conselho Nackional de Justiça, que trata da saúde dos integrantes do Poder Judiciário’. Mas, agora, decidiu aguardar parecer do Conselho Superior da Justiça do Trabalho.

O TRT5 abriu licitação eletrônica chamando ’empresa especializada’ para assessorar juízes e funcionários. Os organizadores queriam uma ’empresa com qualificação profissional e experiência’ para conduzir os exercícios da equipe.

“Contratação de empresa com qualificação profissional e com experiência para assessorar magistrados e servidores em aulas de corrida e caminhada, com a inclusão de guia para pessoa com deficiência visual; orientar os magistrados e servidores que participarão da Olimpíada da Justiça do Trabalho, na modalidade de atletismo e realizar uma corrida e caminhada ecológica anual”, dizia o edital.

No exercício de 2017, entre março e julho, segundo dados oficiais, o Tribunal gastou R$ 652,1 milhões com despesas que incluem obras, salários, e benefícios.

Só a remuneração dos servidores custou 578 milhões do total de despesas, dentre os quais R$ 5 milhões foram desembolsados para cobrir auxílio-alimentação.

Entre os benefícios, como diárias pagas a servidores, foram empregados R$ 1,7 milhão. O auxílio-moradia e as despesas de transporte custaram R$ 2,2 milhões somente no âmbito do TRT5.

Os dados estão todos registrados no portal da Transparência da Corte.

Além dessas despesas, mais um item seria adicionado à lista: as aulas de caminhada e corrida aos juízes e servidores. O pregão seria aberto no dia 22 de agosto às empresas interessadas.

Na semana passada, a presidente do TRT da Bahia, desembargadora Maria Adna Aguiar, declarou que o objetivo ‘é melhorar a qualidade de vida dos funcionários, e, com isso, diminuir gastos com problemas de saúde e afastamento do trabalho’.*

(*) Luiz Vassallo e Julia Affonso – Estadão

HAJA REGIME

Governo engorda para emagrecer

OS ECONOMISTAS do governo e seus amigos no mercado teriam chiliques caso Michel Temer, ao tomar posse, tivesse criado impostos e planejasse estourar a meta de gastos a fim de aumentar o investimento público.

O governo, porém, acaba de aumentar impostos e estourar ainda mais as suas contas a fim de pagar o reajuste dos servidores federais, gracinha que concedeu em julho do ano passado.

Nesta terça (15), a equipe econômica anunciou um pacote desesperado a fim de corrigir a besteira e conter outras à espreita: a coalizão temeriana rasgou de vez a fantasia responsável depois da folia que manteve o presidente no poder.

A casta burocrática e o estamento empresarial com amigos e representantes no Congresso hastearam as bandeiras piratas e planejam saquear o Estado quase falido.

Parlamentares temerianos inventam gastos e rejeitam tanto aumentar impostos como votar remendos na Previdência. Planejam assim um colapso à moda do Rio de Janeiro, um modo de dizer apenas, pois o desastre teria outro feitio.

É conversa mole do governo dizer que estourou suas metas já extravagantes de deficit fiscal porque a inflação baixa reduziu a arrecadação prevista. Sim, a receita cai pelas tabelas, por vários motivos, IPCA baixo inclusive. Mas o governo:

a) gastou mais no que não devia, repita-se; b) por convicção fundamentalista e interesses da coalizão Patópolis, mal movera até agora uma palha a fim de aumentar a receita. Orgulha-se disso, aliás. Prefere pedir emprestado, a juro de 10%, conta a ser paga com o couro do povaréu, a aumentar imposto.

A despesa com servidores cresceu mais de 11% neste ano, já descontada a inflação. Neste século, é aumento inferior apenas ao de Lula em 2009. No ano, apenas o gasto extra com pessoal e encargos sociais federais deve ficar perto de R$ 30 bilhões. Pelo andar atual da carruagem, todo o dinheiro federal destinado a investimentos (“obras” etc.) não deve ser muito mais do que isso neste 2017.

No entanto, os economistas-padrão dos dias que correm, em especial aqueles no governo, consideram anátema elevar despesa de investimento a fim de dar um impulso para tirar o país do buraco recessivo. Dado o tamanho dos outros problemas, porém, a discussão é quase acadêmica.

As dívidas de campanha que Temer fez para se manter no poder custam até pouco em comparação com os efeitos do descaramento terminal da elite bucaneira.

Gente da coalizão temeriana jogou no lixo a medida provisória da “reoneração” (empresas voltariam a contribuir para a Previdência como o faziam antes dos favores de Dilma Rousseff).

Quer perdoar multas e juros de impostos atrasados (fazendo picadinho com farofa da MP do Refis com a qual o governo esperava arrecadar R$ 13 bilhões).

Juízes e procuradores querem aumento ou manter a farra dos penduricalhos que multiplicam seus salários. Etc. A reforma política dos fugitivos da política concentra-se justamente no “distritão” (policial?).

Isto posto, o que vai sobrar do pacote de agosto?

Vivemos em uma espécie de autocracia picareta, que faz a maior parte do país de refém, parlamentares e governo que procuram escapar da cadeia e distribuem o butim enquanto durar essa oportunidade curta de saque. *

(*) Vinícius Torres Torres – Folha de São Paulo

O TORNIQUETE ESTÁ FUNCIONANDO

STJ confirma decisão de Moro e nega liberdade para ex-presidente da Petrobras

Ministro Felix Fischer concluiu que não houve qualquer ilegalidade na prisão preventiva de Aldemir Bendine

O ministro Felix Fischer, relator dos recursos contra decisões da Lava Jato no Superior Tribunal de Justiça (STJ), negou liberdade para o ex-presidente da Petrobras Aldemir Bendine, alvo da Operação Cobra, a 42ª fase da Lava Jato. Na semana passada, após tentativa frustrada no Tribunal Regional Federal (TRF) da 4ª Região, os advogados de Bendine recorreram ao STJ. Eles protocolaram um habeas corpus com pedido de liminar. Fischer afirmou no despacho que não houve ilegalidade no decreto de prisão preventiva assinado pelo juiz Sergio Moro. O ex-presidente da Petrobras está preso em Curitiba desde o mês passado. Ele é acusado de receber propina da Odebrecht, após ter assumido em 2015 o comando da Petrobras, escolha pessoal da ex-presidente Dilma Rousseff.*

(*) MARCELO ROCHA – ÉPOCA

É UM ESCÂNDALO

A vida longe da crise

Oito em cada dez brasileiros não ganham em um ano o valor embolsado em apenas um mês pela elite dos procuradores e juízes

Crise no Brasil? Se existe, está restrita aos hospitais públicos deficientes, lotados até nos corredores. Talvez atinja quem depende de programas de renda mínima e de habitação para famílias pobres (com renda mensal de até dois salários mínimos). Ou prejudique crianças do interior do Maranhão, que estudam embaixo de árvores porque a escola fundamental está sem teto. Ou ainda, afete a rotina da cidade do Rio, onde a insegurança é pública, e o ano letivo de 2017 nem começou na universidade estadual.

Vista de Brasília, essa é uma paisagem de outro mundo, anos-luz de distância. Não tem nada a ver com a vida real que gravita em torno dos orçamentos do Executivo, do Legislativo e do Judiciário e do caixa de 159 empresas estatais federais ativas.

Dentro dos 5,8 mil quilômetros quadrados do Distrito Federal, vivem 2,9 milhões de pessoas, quase todas dependentes do Erário. A cidade é um oásis, com boa infraestrutura urbana e renda muito acima do padrão nacional, superada apenas por São Paulo. De cada R$ 100 recolhidos em Imposto de Renda no país, R$ 26 são pagos pelos empregados do setor público que residem em Brasília.

Oito em cada dez brasileiros não ganham em um ano o valor embolsado em apenas um mês pela elite dos procuradores e juízes (entre vencimentos e ajutórios, como auxílio-moradia, recebem uma centena de salários mínimos). A remuneração da grande massa de contribuintes, estacionada na faixa de dois a três salários mínimos mensais, não alcança sequer dois terços da verba de gabinete dos deputados federais (R$ 43 mil ao ano).

Mesmo assim, os brasileiros serão obrigados a desembolsar R$ 360 bilhões para cobrir o rombo nas contas públicas deste e do próximo ano. Significa pagamento extra de um salário mínimo e meio em tributos para cada habitante. E vai servir apenas para manter funcionando serviços públicos extremamente precários.

Mudança é palavra impronunciável em Brasília. Ontem, por exemplo, no Palácio do Planalto discutia-se o anúncio do aumento do buraco nas contas públicas. Perto dali, o Ministério da Ciência e Tecnologia confirmava a abertura de licitação para o bufê “diferenciado” nas “aeronaves da Força Aérea Brasileira utilizadas pelo ministro”.

Percebia-se a Justiça Eleitoral preocupada com seu jardim, mantido ao custo de R$ 272,5 mil. O Superior Tribunal de Justiça gastava R$ 7,4 milhões com a contratação de 108 garçons, copeiros, cozinheiros, e respectivos chefes, embora tenha 92 deles no quadro de funcionários. Na garagem do palácio do STJ, que tem 32 elevadores, debatia-se a pintura do piso, ao custo de R$ 600 mil, para demarcação das vagas dos 33 juízes servidos por 120 motoristas, mais 1,8 mil chefes.

A vasta legislação em vigor sugere que o Brasil é um país rígido no trato com o dinheiro público. É impossível, porém, encontrar os responsáveis pelos sucessivos rombos nas contas públicas. Nos registros judiciais eles simplesmente não existem, como mostra o mais recente estudo dos consultores do Senado Débora Ferreira, Fernando Meneguin e Maurício Bugarin.*

(*) José Casado – O Globo

ANIMADOR DE PALANQUE

Com edição petrolão de caravana, Lula repete a história que já era uma farsa

Político adora dizer que conhece seu povo, por óbvio. Alguns o conhecem melhor que outros, ainda mais evidente. No Brasil, subsiste uma verdadeira tara esquerdista com certa mitologia relativa a marchas, nas quais líderes messiânicos travam contato com a realidade brutal de seus futuros súditos, digo, governados.

Não creio que haja uma historiografia clara disso, mas é possível arriscar que no Brasil essa fascinação tem origem a coluna Prestes (1925-27), ainda que a natureza brutal do movimento seja esquecida de forma seletiva por quem o enaltece. O mesmo ocorre na China, com a Longa Marcha (1934-35) que viu a emergência do líder comunista Mao Tsé-tung.

Na falta de colunas militares, o que restou da esquerda brasileira se derrete pelas Caravanas da Cidadania empreendidas por Luiz Inácio Lula da Silva entre 1993 e 1996. Foram 26 Estados e 359 cidades visitadas de forma bem mambembe, ainda no espírito do velho PT.

Naquele ponto, o partido vivia em negação. Recusara apoio a Itamar Franco no pós-Collor, criticara o Plano Real como enganação e acabara derrotado por um ministro da Fazenda que só tinha um ativo a apelar à toda a população: a nota do real. Em resumo, era a antítese da ideia de entender o que “o povo” queria. Em 2001, uma versão mais “light” do processo foi repetida, mas aí estamos falando de pré-campanha eleitoral pura e simples.

Sempre que o sapato aperta, o PT apela à mística das tais caravanas, como se Lula fosse emergir delas purificado e renovado, um Getúlio deixando sua fazenda rumo ao Catete (naturalmente contando com um final feliz).

A edição petrolão da coisa começa nesta quinta (17) na Bahia e correrá o Nordeste. É pregação para convertidos, já que o apoio à figura de Lula é enorme na região, seja pela memória afetiva ao filho da terra, seja por identificação com os programas de inclusão social que são mais prevalentes naquela área —que vem sentindo especialmente os efeitos da crise econômica gestada, ironicamente, pelo PT.

A classe média que o levou ao Planalto com a promessa de responsabilidade econômica em 2002 perdeu-se nos mensalões da vida, e não será por lá que o ex-presidente vai resgatá-la. É capaz até de encontrar alguma hostilidade no caminho, das franjas que por ora estão apoiando o radicalismo de Jair Bolsonaro, o que ajudaria a compor o quadro de vítima a que Lula se propõe desde que afundou de vez na Lava Jato.

Serão previsíveis imagens de “banho de povo”, com criancinhas famélicas a acarinhar o nhonhô provedor. É capaz até de inaugurarem de novo algum trecho da transposição do São Francisco. Para fidelizar o eleitorado petista que logrou recuperar após o impeachment, o que já é um feito em si, parece que estará de bom tamanho.

Ao fim, contudo, será um grande embuste, até porque se tem algo que político rodado conhece é a realidade de seu país. O que realmente interessa é o que ele propõe fazer sobre ela, e tirando “lutar contra as reformas” e torcer para o governo Temer continuar o miserê que é, não se conhece plano de Lula ou do PT. Pulando a etapa “tragédia” no chavão máximo do vovô Marx, é hora de a comédia burlesca apresentar-se como repetição da história, que de todo modo já era farsesca.*

(*) Igor Gielow – Folha de São Paulo

ARMAÇÕES ILIMITADAS

Em benefício do infrator

Todos os partidos querem mudar regras da eleição para manter foro e escapar de Moro


Um dos mais bem achados e felizes slogans da política brasileira de todos os tempos foi aquele que conduziu Luiz Inácio Lula da Silva à primeira vitória na eleição presidencial de 2002, depois de amargar três derrotas seguidas, para Fernando Collor e Fernando Henrique:  “A esperança vai vencer o medo”.

Passados 15 anos e três gestões e meia do PT, sendo que a metade da quarta está sendo tocada pelo vice que o mesmo Lula escolheu para compor a chapa de Dilma Rousseff duas vezes, o julgamento do mensalão no Supremo Tribunal Federal (STF) e a Operação Lava Jato da Polícia Federal e do Ministério Público Federal, sob a égide do juiz Sérgio Moro, em Curitiba, ensinou à Nação que não foi tudo como se esperava naquele tempo. Na decisão unânime da Segunda Turma do STF que aceitou o despacho de Teori Zavascki, relator da Lava Jato à época, mandando prender o então líder do governo Dilma Rousseff no Senado, Delcídio Amaral, a ministra Cármen Lúcia deu uma lição que se tornou histórica.

“Na história recente de nossa pátria, houve um momento em que a maioria de nós brasileiros acreditou no mote de que a esperança tinha vencido o medo. Depois, nos deparamos com a Ação Penal 470 (mensalão) e descobrimos que o cinismo venceu a esperança. E agora parece se constatar que o escárnio venceu o cinismo. Quero avisar que o crime não vencerá a Justiça. A decepção não pode vencer a vontade de acertar no espaço público. Não se confunde imunidade com impunidade. A Constituição não permite a impunidade a quem quer que seja”, ela disse.

A primeira metade da sentença é irretocável. A segunda, nem tanto. A Nação acompanhava então, entre perplexa e indignada, investigações que desvendavam o maior escândalo de corrupção da História, praticado nos governos em que Lula, que havia cunhado o belo lema, e seus acólitos, que o apregoavam, mandavam na República.  O cinismo continua sendo soberano na reação dos acusados de terem esvaziado todos os cofres disponíveis do País sob a indiferença e depois, conforme tem sido revelado, a cumplicidade dos mandatários máximos, eleitos para executarem um projeto de socialismo real nos trópicos. Agora o escárnio atingiu o ápice, quando, pilhados, os mandatários políticos do governo e da oposição, dos municípios, Estados e União, resolveram intervir para encontrar um meio e um método de se manterem livres de pena e, de preferência, com mandatos à sua disposição para continuarem vivendo à tripa forra por conta de  propinas bilionárias distribuídas por contratantes de obras públicas, dispostos a corromper e ser corrompidos. A conspiração pela impunidade.

Por enquanto, a promiscuidade social vigente na capital federal, erguida no cerrado distante para proteger os donos da lei – que a aprovam, executam e julgam tal execução – da ordem institucional vigente, tem protegido os sócios do club privé dos mandatários. O prestígio popular massivo da Ação Penal 470 tornou inevitável que maganões do ofício político fossem conduzidos às barras dos tribunais e às celas do inferno presidiário. Mas, com o passar do tempo, os maiorais escorregaram pelas frestas da permissividade. Dos condenados do dito mensalão restam presos alguns gatos-pingados sem partidos para escondê-los nem padrinhos para acobertá-los. Do topo do mandato dado pelo voto popular, Dilma perdoou companheiros de partido e de ofício e contou com a complacência da mesma Corte que os apenou. Zé Dirceu, o capitão do time de gatunos, Genoíno, ex-guerrilheiro que presidiu o partido no poder, e todos os seus comparsas voltaram para o conforto do lar, doce lar, com tornozeleiras. Ficaram na prisão os sem-mandato Marcos Valério, Kátia Rabello e outras figuras sem relevância na briga pesada pela ocupação dos palácios.

À exceção de gatos pingados que podem ser contados nos dedos de uma mão só, os companheiros de luta pelo poder não conheceram o mesmo destino de quem os corrompeu, caso de empreiteiros que comandavam o propinoduto, destacando-se o príncipe Marcelo Odebrecht.

Os políticos, mandantes dos crimes praticados, compartilham o conforto do foro privilegiado de que gozam 36 mil nobres patrícios que foram eleitos ou nomeados para cargos de prestígio na burocracia da politicagem. Agora, no entanto, paira no ar seco do Planalto uma ameaça real: as eleições para Presidência, governos estaduais e Casas legislativas federais e estaduais, que podem desalojá-los do foro e entregá-los a Moro. Tal ameaça se concretiza na manchete de primeira página e no noticiário da editoria política do Estado do domingo 13 de agosto, mês da efeméride do martírio político do suicídio do caudilho Getúlio Dornelles Vargas. O noticiário reproduziu pesquisa de um instituto insuspeito de se imiscuir em política paroquial brasileira, o Ipsos. Segundo o levantamento, como enfatiza o redator que escreveu a linha fina da página A4 do jornal, a um ano da eleição, “94% dos eleitores não se veem representados por políticos”, como ressoa a manchete abaixo apenas do título do jornal. Quem convive com o cidadão brasileiro em casa, nas ruas, no trabalho e nos botecos só estranha uma informação da pesquisa publicada: onde se escondem os 6% de entrevistados que não negam peremptoriamente a expressão “democracia representativa”, tal como se define a nossa.

O desencanto da cidadania ainda não atingiu em cheio o prestígio da boa e velha democracia das ágoras gregas, dos burgueses europeus ou dos pais fundadores da Revolução Americana. Metade (50%) dos eleitores brasileiros ainda considera o Estado de Direito o melhor a ser praticado no País, contra a opinião de 33%, aos quais se somam 17% que não sabem o que dizer a respeito. Mas é quase igual (47%) a porcentagem dos cidadãos destes nossos tristes trópicos sul-americanos que não consideram nosso tipo de democracia o mais adequado. Os que deles discrepam e concordam com nossa “democracia” chegam a 38% e os que dizem não saber, a 15%.

Toda a pesquisa é acachapante e está bem resumida nas páginas do Estado ou nos arquivos deste portal. Não me resta mais espaço aqui para expô-los e facilitar sua busca. Falta-me ainda dizer que os políticos que não nos representam, se não sabiam disso, pelo menos desconfiavam desde antes da publicação da pesquisa. E é por isso que tentam agora o tiro de misericórdia na cabeça da democracia para continuarem com seus desmandos – entre os quais a corrupção é apenas mais um.

Por isso o deputado Vicente (nada) Cândido, relator de um mostrengo falsamente apelidado de reforma política, apresentou à comissão especial encarregada de realizá-lo e que o apoiou, deu nomes de santos aos demônios que soltou em nossa vida comum. Além da reforma política, o “distritão”. E para driblar a decisão judicial que mantém interditada a doação empresarial para campanhas, o por fora bela viola, por dentro pão bolorento Fundo para o Financiamento da Democracia, na verdade, um “passe aí sua carteira com o que ela contiver, seu idiota batizado”.

Quando basbaques como o autor destas linhas ou bem-intencionados ingênuos – como Modesto Carvalhosa, José Carlos Dias e Flávio Bierrenbach – passaram a divulgar ideias como não votar em nenhum mandatário de qualquer poder e de convocar uma Constituinte independente, eles já tinham o veneno que anularia tais antídotos. Como detêm o apito do jogo na mão e a toga do juiz a seu favor e, perdidos por um, perdidos por mil, resolveram se antecipar às providências da cidadania para providenciarem o próprio e privilegiado salve-se quem poder.

Emulam o coronel Chico Heráclio do Rego, que Chico Anysio imortalizou como Coronel Limoeiro. Na final do campeonato pernambucano das seleções municipais, tendo o árbitro da contenda marcado pênalti a favor de Arcoverde e contra Limoeiro no último minuto da porfia, impressionado com a turba revoltada, o coronel questionou o capanga sobre a causa da confusão. Informado da importância da decisão, desceu à área adversária, apontou o 45 para a cabeça do apitador e mandou que invertesse área e campo. E o pênalti foi batido contra a meta do visitante. Essa boutade é a metáfora perfeita para este benefício para o infrator praticado na Brasília de costas para o Brasil. E para a civilização.*

(*) Blog do Nêumanne