POBRE BRASIL

Dias de cão no jardim das ilusões de Dilma’

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Sempre que se fala em Glauber Rocha a tendência é relembrar obras-primas do cinema nacional que dirigiu, como Deus e o Diabo na Terra do Sol, principalmente, e Terra em Transe, primoroso registro cinematográfico do subdesenvolvimento político nacional. Embora o documentário Maranhão 66 já circule há muito tempo no YouTube, poucos telespectadores o destacarão para o panteão em que figuram os dois grandes filmes citados. Afinal, trata-se de trabalho encomendado e pago e, portanto, suspeito de ser o registro hagiográfico de um político que sobreviveu ao cineasta e ainda atua com força e poder na gestão pública do seu Estado, onde seu clã reina até hoje, com raros interregnos insignificantes, e também na cena federal.

No entanto, Maranhão 66 é uma obra que só melhora com o tempo, sem ter sido necessária uma única mudança ou intervenção de seu diretor, o que seria impossível tanto tempo após sua morte precoce. Como é possível esse absurdo? Procure o filme e veja. O que assistirá é ao discurso competente, bem alinhavado e de certa forma barroco do jovem deputado federal do grupo rebelde da chamada banda de música da UDN nos anos 60 José Sarney assumindo o governo do Maranhão. As imagens acompanham, de início, o povo na praça ouvindo o eloquente tribuno e, depois, fazem um mergulho profundo num abismo de miséria e sordidez que confirma as palavras ditas na praça denunciando a barbárie vivida por aquela gente sob o jugo do padrinho e, depois, principal adversário do novo governador, o pessedista Vitorino Freire. E, coerente com as ancestrais utopias políticas nordestinas, prometendo uma era de paz, bonança e prosperidade, similar às profecias de peregrinos como Antônio Conselheiro, protagonista do massacre de Canudos. Hoje, qu ase meio século depois, a miséria é a mesma, o discurso é igual e o filme de Glauber, que parecia laudatório, torna-se uma denúncia política coerente e forte.

Já não se fazem documentários em p&b como antigamente e talentos como Glauber não existem mais. No entanto, o contraste brutal entre a retórica salvacionista e a horrenda realidade do subdesenvolvimento real manifesta-se de forma mais crua no cotidiano de informações e entretenimento da televisão colorida do dia a dia.

Ao começar o último fim de semana do ano passado, os telejornais diários exibiram de forma franca a atualidade ululante do documentário de Glauber no Maranhão de 1966. Câmeras e microfones registraram o drama de uma jovem mãe com seu bebê nos braços em peregrinação pelos hospitais públicos de sua cidade para encontrar um pediatra para consultar. Ela não estava no Vale do Jequitinhonha nem no sertão do Piauí, mas em plena capital da República e seus arredores. A criança não foi examinada, mas o secretário da Saúde do governo distrital, sob comando petista, não teve pejo de registrar a ausência de pediatras em sua jurisdição e terminou com a promessa de hábito: em março serão contratados novos profissionais. A pobre mãe e seu bebê que os esperem.

Domingo, à noite, em horário nobre, com discurso dessemelhante ao de seu aliado Sarney pelo estilo, mas bastante similar pelo afastamento da realidade, a presidente Dilma Rousseff descreveu e deu números positivos sobre o que seu governo tem feito pela saúde de pobres mães e bebês como aqueles. Vieram médicos de Cuba e eles estão garantindo o atendimento nos ermos do sertão brasileiro.

Por falar em sertão, os telejornais também noticiaram a falta de água em Itapipoca, no interior do Ceará, porque uma adutora, que custou R$ 16 milhões ao contribuinte, se rompeu e a construtora que vencera a concorrência para construí-la faliu. Ninguém responde pela obra inconclusa: os falidos sumiram e os que retomaram a obra nada têm a dizer. O governador Cid Gomes ─ que rompeu com o chefão de seu partido (PSB), Eduardo Campos, governador de Pernambuco, para ficar no palanque da presidente petista ─ tentou resolver o problema mergulhando num tanque buscando fechar um registro e evitar que a água vazasse. Enquanto isso, a população da cidade não tem água para lavar, cozinhar ou matar a sede de nenhum vivente.

Mas no Paraíso na Terra descrito por Dilma no domingo seguinte o país vive uma prosperidade não só inédita na própria História, como singular num planeta afundado em crise. E o único risco é provocado pela canalha oposicionista que maldiz a própria terra criando empecilhos para investimentos e prejudicando, assim, o pobre povo brasileiro. No discurso da presidente, de 15 minutos recheados de deselegantes gerúndios sem dês (estou fazeno, estou realizano, e por aí afora), os anjos dizem-lhe sempre amém, mas o diabo corre atrás para demolir sua fantástica obra de governo.

Só que no Maranhão governado por Roseana Sarney ainda resta um exemplo de que o endereço de nosso inferno é o mesmo do Éden de Dilma, embora o baiano Patinhas, que escreve seus discursos, não saiba. Na Penitenciária de Pedrinhas, em São Luís, os chefões do crime organizado, que à ausência de autoridade mandam e desmandam, matam com métodos cruéis presos desassistidos pelo Estado cujas mulheres, irmãs e mães se neguem a lhes prestar favores sexuais. O Conselho Nacional de Justiça já contou 60 cadáveres e a Organização dos Estados Americanos cobrou reação imediata dos governos do Estado e da União. Ninguém apareceu para responder. O ofício foi para o Ministério da Justiça, o causídico Cardozo negou ser assunto dele e o reencaminhou para a Secretaria dos Direitos Humanos, cuja titular, Maria do Rosário, mandou de volta para o destinatário original. “Não é comigo” é o jeito gerentão com que Dilma modernizou o “não vi, não ouvi, não falei” do padim Lula de Caetés.

Infelizmente, contudo, ninguém encontrou nos longos e tediosos votos presidenciais de boas-festas uma só referência à segurança do bem-aventurado cidadão do Brasil sob a égide do PT e do PMDB. A vida de seu súdito não é da conta dela, nunca foi, nunca será. Vade retro! E amém nós tudo.*

(*) JOSÉ NÊUMANNE – ESTADÃO

 

 

SE GRITAR, PEGA LADRÃO….

A privataria petista mora nos detalhes

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Durante o tucanato, converteram-se papéis podres de dívidas da União em moeda corrente, juntaram-se financiamentos do BNDES, dinheiro dos fundos de pensão estatais, e torrou-se a patrimônio da Viúva na festa da privataria. O comissariado petista diz que não faz isso, pois não vende o que é da Boa Senhora. Tomando-se o caso dos leilões dos aeroportos, resulta que fazem diferente, e pior.

Em novembro a Odebrecht, associada a uma operadora de aeroporto de Cingapura, arrematou a concessão do Galeão por R$ 19 bilhões. Quem ouve uma coisa dessas acredita que o futuro chegou. As vítimas da Infraero pensam que se livrarão do dinossauro e que o novo dono investirá seu dinheiro no aeroporto para torná-lo uma vitrine da cidade.

Não é bem assim. A Infraero continua com 49% do negócio, e o velho e bom BNDES e mais um fundo de investimentos estatal botaram R$ 1,4 bilhão na operadora de transportes da Odebrecht. Somando-se essa participação à da Infraero, a Viúva fica com mais de 50% do Galeão.

Pode-se argumentar que a gestão ganhará a eficácia da iniciativa privada, mas ganha uma passagem de ida a Davos quem sabe onde terminam os braços das empreiteiras e onde começa o Estado dos comissários. Ganha a passagem de volta quem sabe onde termina a máquina de administração de serviços do Estado e onde começa a das empreiteiras.

Até aí, ainda haveria lógica, mas, conforme o repórter Daniel Rittner revelou, as empreiteiras que arremataram as concessões dos aeroportos de Guarulhos, Brasília e Viracopos querem fazer uma pequena mudança nos contratos assinados em 2012.

Pelo que se acertou, as concessionárias podem construir hotéis, centros de convenções e torres de escritórios nas áreas arrendadas, explorando-os por períodos de 20 a 30 anos. Agora, uma associação de concessionários cabala a prorrogação da posse dessas melhorias.

Nesse caso, o negócio não é administrar aeroporto, mas explorar empreendimentos imobiliários. Parece a piada do chinês de Nova York: “Meu negócio é a tinturaria, venda de cocaína é disfarce”.

A privataria tucana patrocinava grandes tacadas iniciais, a petista move-se suavemente nas mudanças dos contratos. Cada mudança, um negócio. Para quem quer desmoralizar o país como destino de investimentos estrangeiros, nada melhor.

Nem a criatividade dos advogados da bancada da Papuda seria suficiente para explicar a uma empresa que entrou no leilão de um aeroporto e teve seu lance superado que devia ter previsto a possibilidade da extensão do período de exploração dos empreendimentos imobiliários.

A doutora Dilma deve botar sobre sua mesa um talonário do jogo do bicho carioca: “Casa Lotérica São Jorge, vale o que está escrito”*

(*) Elio Gaspari, O Globo.

CARA DURA

MAIS UMA ‘MARQUETADA’: DILMA ANUNCIA AJUDA

FINANCEIRA ‘ILIMITADA’ ÀS CIDADES INUNDADAS

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Como diz o ditado, “falar é fácil”. Os jornais divulgam que, após sobrevoar Governador Valadares e Virgolândia, em Minas, a presidente Dilma Rousseff anunciou ajuda financeira “ilimitada” às cidades devastadas pelas chuvas neste fim de ano e classificou a visão que teve dos municípios mineiros como “impactante”.

Acontece que a realidade é muito diferente. O governo de Dilma Rousseff (ou Lula Rousseff) não conseguiu aplicar este ano o orçamento de que dispunha para prevenir essas calamidades, que desta vez foram responsáveis por 43 mortes só na última semana, sendo 20 em Minas Gerais e 23 no Espírito Santo.

A esse respeito, a repórter Renata Mariz, do Correio Braziliense, fez uma crítica impactante, ao destacar: “A despeito do alívio que investimentos emergenciais podem trazer às famílias que perderam tudo, os discursos de políticos diante da tragédia anunciada, que todo verão faz mortos e desabrigados no país, escondem uma incompetência histórica da gestão pública”.

SEM GASTAR

Realmente, o ano já está acabando e o tal programa Gestão de Riscos e Respostas a Desastres, que tinha R$ 5,3 bilhões para serem aplicados em 2013, só investiu 3,2 bilhões — e já contando recursos pendentes de anos anteriores que só foram pagos no exercício atual.

“São 10 vezes mais gastos com resposta do que com prevenção. Todo ano é a mesma coisa: o governo não consegue sequer aplicar os recursos do orçamento para, depois dos desastres, ter gastos ainda maiores, que poderiam ser minimizados, sem contar as vidas perdidas”, lamentou o economista Gil Castello Branco, fundador da organização não governamental Associação Contas Abertas.

Segundo ele, o cenário dos desastres acaba sendo interessante para o jogo político, ao lembrar que parte do dinheiro prometido emergencialmente, muitas vezes, nem sai do papel. “Politicamente, é melhor aparecer na hora da resposta do que na hora da prevenção”, denunciou o economista, entrevistado pelo Correio Braziliense.

Por fim, prometer “ajuda ilimitada” chega a ser patético, diante dessa realidade irrespondível.*

(*) Carlos Newton – TRIBUNA DA IMPRENSA ONLINE

FUNÇÃO DAS GRAMÁTICAS

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Um professor de uma grande universidade brasileira, num artigo publicado numa revista especializada, defendeu que a sintaxe dos escritores merece o aval das gramáticas normativas. Disse ele que Drummond usou o verbo ter impessoalmente num poema (“No meio do caminho”) e nenhuma gramática abonou esse emprego, embora o exemplo seja antigo (O poema encontra-se no livro Alguma poesia, de 1930; tem, portanto, mais de 80 anos.). O autor se pergunta: se Rubem Fonseca usa ela em função de objeto direto, sem preposição, e todos aplaudem, por que num falante anônimo isso seria condenável?

Não passou pela ideia desse professor a distinção entre “desvio eufórico” e “desvio disfórico”. Numa atividade criativa da língua, os desvios da norma (os pretensos “erros”)  são propositados, e têm intenção estética. Já os desvios do falante anônimo são fruto da ignorância da norma culta ou não têm intenção lúdica.

Há também dois equívocos na pretensão desse professor de incorporar à gramática da língua os desvios de norma praticados por escritores ilustres. O primeiro diz respeito à intenção com que Drummond  usou o verbo ter impessoalmente, que era a de agredir a tradição normativa baseada no português lusitano, algo que era parte da bandeira de luta do movimento modernista de 22. Em outros momentos, Drummond usou os verbos ter e haver de acordo com a norma gramatical. Não me consta que haja, em toda a obra de Drummond, outro exemplo do emprego do verbo ter impessoal Como diz um axioma muito usado na linguagem jurídica, testis unus, testis nullus, isto é, “uma única testemunha, nenhuma testemunha”, ou, em termos proverbiais, “uma andorinha só não faz verão”.

O segundo equívoco diz respeito à própria criação literária: um escritor tem o direito e o dever de subverter as normas gramaticais, de reinventar a linguagem. Depoimentos nesse sentido de escritores como  Autran Dourado e Guimarães Rosa e até de gramáticos, como Celso Cunha,  reivindicam o direito que o escritor tem de escrever diferentemente dos outros. O estilo, ou melhor, a escritura  de um escritor é constituída dessas subversões sintáticas a que Coseriu chama de “feitos de fala”. Se os gramáticos tivessem de aceitar todos os feitos de fala dos escritores de língua portuguesa, haveria tantas gramáticas quantos fossem os escritores consultados. Por que se cita Machado de Assis como abono de uma regra de concordância ou de regência, e não se cita Guimarães Rosa? Porque, em primeiro lugar, menos por Machado de Assis ter sido  tímido na subversão da sintaxe, atentando preferencialmente para o jogo semântico e psicológico, do que por Guimarães Rosa ter abusado superlativa e genialmente do seu direito de recriar a linguagem. Em segundo lugar, porque há um erro metodológico nas gramáticas da maioria das línguas modernas conhecidas, que é o de citar exemplos de escritores como abono de regras gramaticais.

As gramáticas latinas se basearam nos exemplos de escritores, porque não havia outro meio de  sistematizar o conhecimento  da sintaxe do latim imperial a não ser com o recurso à análise dos escritores, como Ovídio, Virgílio, Cícero ou Júlio César, por exemplo. Numa língua viva, contudo, essa metodologia é desastrosa porque não leva em conta o objetivo maior da criação literária que é o de reinventar a linguagem. Bem fez o Dicionário Houaiss em não citar exemplos de escritores em seus verbetes. Aliás, a norma culta não foi sedimentada pela língua dos escritores, mas pela linguagem jurídica. As primeiras cartilhas de alfabetização, segundo depoimento dos nossos primeiros gramáticos e ortógrafos do século XVI, foram baseadas em textos legais. João de Barros e Fernão de Oliveira, nossos primeiros gramáticos, não citavam exemplos de escritores como abono de regras gramaticais. Autran Dourado confessou, no seu livro O meu mestre imaginário (Rio de Janeiro: Record, 1982) que decorou a gramática de João Ribeiro para desrespeitar as regras gramaticais com conhecimento de causa. Citemos duas pequenas passagens desse pequeno grande livro: “Quebrar as regras da sintaxe não é mais do que uma obrigação do escritor consciente do seu ofício” (p. 58). “E que tem um escritor a ver com a gramática, senão a obrigação de desrespeitá-la. Sei de cor e salteado a gramática de João Ribeiro, outro mestre da prosa. Mas sei-a para desrespeitá-la”(p. 60).

O papel das gramáticas normativas portanto, não é o de mostrar um escritor como modelo de boa norma, mas o de construir um padrão ideal de comportamento linguístico a que os falantes devem obedecer para uma compreensão supradialetal  da língua em sua modalidade culta, em seu registro formal

Pena que os gramáticos não conheçam linguística. Pena que os linguistas desprezem a gramática. Pena que nossos dicionários e gramáticas ainda sigam uma metodologia ultrapassada.

 

José Augusto Carvalho é mestre em linguística pela Unicamp, doutor em letras pela USP, autor da Gramática Superior da Língua Portuguesa (2.ed. Brasília: Thesaurus, 2011) e do Pequeno Manual de Pontuação em Português (2.ed. Brasília: Thesaurus, 2012)  e professor aposentado (por idade) da Universidade Federal do Espírito Santo.

CENSURA NUNCA MAIS

DESINVENTANDO A IMPRENSA

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Pesquisa científica divulgada há dias revela que foram os chineses, há 5.500 anos, que domesticaram os gatos -1.500 anos antes dos egípcios, a quem se creditava essa maravilha. Quando um país está com a bola branca, como a China, não apenas seu presente chama a atenção -até seu passado fica iluminado. E, se alguns ainda se espantam com o ímpeto com que ela ocupa hoje todo tipo de espaço, só me intriga que não tenha acontecido antes.

A história nos ensina que, com sua criatividade, os chineses já mudaram o mundo pelo menos duas vezes. Uma foi quando inventaram a pólvora -de que resultaram o canhão, o mosquete, o arcabuz e muita gente morta. A outra foi quando criaram o papel e, daí a séculos, os tipos móveis, de argila -do que, 400 anos antes de Gutenberg, nasceu a imprensa.

Essas foram as suas grandes contribuições no atacado. No varejo, é aos chineses que devemos o macarrão e, deste, o talharim, o espaguete e a língua de pato. Eles nos deram também a seda, a porcelana, a bússola, o sismógrafo, o moinho hidráulico e até a pipa -esta, para pescar sem barco. Sem falar no palito de fósforo, nos fogos de artifício e na tinta -não por acaso, nanquim.

Mas isso foi lá atrás. A China moderna são os bilhões de cacarecos e cafonices que assolam o mercado mundial, empesteiam o planeta e levarão séculos para ser digeridos pelo ambiente. E ela vem agora com uma novidade ainda mais revolucionária: a desinvenção da imprensa. Seus jornalistas, se quiserem manter a licença de trabalho, terão de devorar um manual de 700 páginas para fazer uma prova sobre os princípios do marxismo e se submeter a 18 horas de treinamento para se condicionar a não contrariar o Partido.

No Brasil, havia gente no governo que queria nos impor essa medida. Mas isso foi antes da Papuda.*

(*) Ruy Castro – Folha de SP

VAI SER O MAIOR MANÁ

No Maranhão, Roseana deseja erguer

11 presídios com BNDES e sem licitações

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Com a autoridade desafiada pelas facções criminosas que dominam o maior presídio do Maranhão, o complexo de Pedrinhas, a governadora Roseana Sarney deseja erguer 11 presídios novos a toque de caixa. Quer fazer isso com dinheiro do BNDES —coisa de R$ 53 milhões— e sem licitações.

Deve-se a atmosfera emergencial à imprevidência do próprio Estado. No Maranhão, emergência tornou-se outro nome para a imprudência. É como se o governo local, desejasse desnudar a incompetência, cometendo-a. A administração de Roseana recebera do Ministério da Justiça R$ 22 milhões para construir três cadeias entre 2011 e 2012.

A aplicação do dinheiro estava condicionada à apresentação de bons projetos. Por razões que a sensatez desconhece, o governo maranhense descumpriu as pré-condições. A verba voltou às arcas do Tesouro. E o caos do sistema penitenciário aprofundou-se na proporção direta do crescimento do monturo de cadáveres.

Nos últimos doze meses, foram executados dentro dos cárceres do Maranhão 59 detentos. Numa chacina de outubro passado, produziram-se no complexo de Pedrinhas dez cadáveres e mais de duas dezenas de feridos. Com o cadeião de Pedrinhas sob convulsão, Roseana decretou “situação de emergência” —que lhe permitiria agora dispensar as licitações.

Na semana passada, arrancado de sua inércia por um novo surto de violência no presídio de Pedrinhas (cinco mortos, três decapitados), o procurador-geral da República, Rodrigo Janot, pediu explicações a Roseana por escrito. O prazo para a resposta venceu na terça-feira.

Como não havia expediente na Procuradoria, a data limite foi esticada para esta quinta-feira pós-natalina. Porém, Roseana já mandou dizer que precisa de pelo menos 15 dias para se manifestar. O procurador-geral cogita requerer no STF a intervenção federal no Maranhão.

Há dois meses, em 24 de outubro, Roseana recebeu em sua sala representantes do Conselho Nacional de Justiça (CNJ) e do Conselho Nacional do Ministério Público (CNMP). Seus interlocutores tinham acabado de visitar o inferno de Pedrinhas. Desfiaram na frente dela o rosário de violações de direitos humanos que haviam testemunhado.

Nesse encontro, Roseana disse que não compactua com as atrocidades. E mencionou a intenção de erigir os 11 presídios novos —dez no interior do Estado, um na capital São Luís. Entre os presentes estava o juiz Douglas de Melo Martins. Vinculado ao Tribunal de Justiça do Maranhão, Douglas está cedido ao Conselho Nacional de Jutiça. Ele assessora a presidência do órgão, hoje ocupada por Joaquim Barbosa, que também preside o STF.

Profundo conhecedor das mazelas carcerárias do Maranhão, o doutor Douglas sustenta que o Complexo Penitenciário de Pedrinhas fugiu ao controle sobretudo porque recebe presos de todo Estado. Nessa versão, o crime organizado do interior do Maranhão passou a disputar território dentro da cadeia com as facções criminosas da capital. Daí a elevada quantidade de defuntos.

Contra esse pano de fundo, Roseana acertou ao localizar em cidades do interior maranhense dez dos 11 presídios que pretende erguer. Ela prometera entregar as cadeias prontas em seis meses. Já lá se vão dois. E não há vestígio de parede levantada. O que o procurador-geral terá de avaliar é se Roseana será capaz de fazer por pressão o que não fez por obrigação.*

(*) Blog do Josias de Souza.

LARANJAL PETISTA

Empresa de Dirceu alterou finalidade cinco vezes

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Depois que ex-ministro saiu do governo Lula, documentos foram modificados para incluir a possibilidade de sua consultoria fazer lobby no setor público

BRASÍLIA – O ex-ministro José Dirceu multiplicou suas possibilidades de negócios após a passagem como ministro da Casa Civil do governo Lula. Fora do governo e com o mandato de deputado cassado pelo envolvimento no esquema do mensalão, Dirceu alterou cinco vezes a finalidade da JD Assessoria e Consultoria e incluiu no seu escopo de atuação a atividade de lobby para diversos setores com interesses no governo federal.

As mudanças no contrato da empresa incluem o registro de uma filial no Panamá, conforme revelou neste domingo o Estado. A filial tem o mesmo endereço da Truston International, sócia majoritária do hotel St. Peter, que ofereceu o cargo de gerente administrativo a Dirceu, com salário de R$ 20 mil, dez dias após ele ser preso pela condenação no mensalão. No endereço da JD e da Truston funciona o escritório de advocacia Morgan & Morgan, que oferece testas de ferro para abertura das filiais no paraíso fiscal.

Ao ampliar o escopo de sua consultoria, Dirceu fez fortuna. Sua última declaração de bens pública, apresentada à Justiça Eleitoral em 2001, informa que ele tinha bens e valores que somavam R$ 172,8 mil, em valores da época. Somente a casa em que funcionava sua consultoria, em São Paulo, está avaliada em R$ 5 milhões por corretores. Após sua prisão, o imóvel na Avenida República do Líbano, a 300 metros do Parque do Ibirapuera, foi colocado à venda.

A oposição cobrou neste domingo investigação sobre a filial da JD Assessoria e Consultoria no Panamá. “A cada dia surge uma nova descoberta daquilo que seria um grande ‘laranjal’ arquitetado em torno do mensalão. Isto é gravíssimo, o que exige das instituições que façam ampla investigação”, disse o líder do PPS, deputado Rubens Bueno (PR).

A assessoria de imprensa da empresa de consultoria afirmou que “nunca atuou ou estruturou qualquer operação” no Panamá. “O pedido de abertura de filial, feito a partir do Brasil, nem sequer foi registrado naquele país, sendo revogado por decisão da própria empresa, que seguiu todos os trâmites previstos pela legislação.

Dirceu desistiu do emprego no St. Peter após a denúncia de que a empresa proprietária do hotel tinha um “laranja” como presidente. “Isso reforça a suspeita de que o hotel é de propriedade do próprio Zé Dirceu”, disse o líder da minoria, Nilson Leitão (PSDB-MT).

Documentos aos quais o Estado teve acesso mostram que, com as alterações no contrato da JD Assessoria e Consultoria, Dirceu se propôs a “viabilizar o relacionamento institucional de particulares com os mais variados setores da administração pública”. Atuou em favor de clientes dos setores sucroalcooleiro, minero-siderúrgico e termoelétrico junto a órgãos públicos de fiscalização e de meio ambiente, áreas tradicionalmente dominadas pelo PT.

Enquanto o petista estava na Casa Civil, o objeto da empresa – aberta em janeiro de 1998 – ocupava apenas quatro linhas do contrato social, sem relacionar o lobby. Após sua saída do Executivo, o documento foi ampliado para 13 linhas.

Dirceu manteve forte influência no governo federal mesmo fora dele. Em agosto do ano passado, foi flagrado pela revista Veja recebendo políticos e até o então presidente da Petrobras José Sérgio Gabrielli num quarto de hotel, em Brasília.

Entre as alterações na empresa feitas após junho de 2005, quando deixou o governo, está, ainda, a possibilidade de estabelecer parcerias comerciais com países do Mercosul. Essa mudança foi registrada no contrato um mês antes de Dirceu constituir a filial da JD no Panamá, conhecido paraíso fiscal.

A assessoria de Dirceu justificou que o objetivo era prospectar negócios no Panamá. O país, contudo, não está relacionado no objeto da empresa nem tampouco integra o Mercosul.*

(*) Andreza Matais e Fábio Fabrini – O Estado de S.Paulo

E NO PAÍS DA PIADA PRONTA…

Renan implantou cabelos.

Só faltam os miolos!

 

Renan Calheiros, voou para Recife de Jet-FAB para implantar na cabeça dez mil fios de cabelos. O IBGE informou nesta semana que a taxa de desemprego recuou para 4,6%. Pode chegar a zero se o Congresso aprovar um novo programa: o Bolsa Picadeiro. Consiste na distribuição gratuita de milhões de narizes vermelhos, colarinhos folgados, lágrimas de esguicho e sapatos grandes.

Se todo mundo considerar normal que o presidente do Senado, a pretexto de forrar a calva, pode viajar nas asas do contribuinte, milhões de brasileiros serão convertidos em palhaços instantâneos. Não precisa nem fazer curso de reciclagem. Basta distribuir o equipamento e abrir uma linha de crédito na Caixa Econômica Federal para o ‘Meu Circo, Minha Vida’. A mão de obra já está garantida.

É comovente o esforço de Renan em favor do plano de pleno emprego. Em junho, ele já havia cutucado as ruas com vara curta ao recorrer ao Jet-FAB para fins recreativos. Junto com a mulher, voara para Trancoso, na Bahia, para testemunhar o casamento da filha do colega Eduardo Braga. Agora, suprema ironia, a motivação foi estética. Renan está preocupado com a própria imagem. Por sorte, o senador só implantou cabelos. A ciência ainda não desenvolveu uma técnica para o implante de miolos. O sucesso do Bolsa Picadeiro está assegurado.*

 

(*) Blog do Josias de Souza.

SER VELHO

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Num de seus poemas – cito de memória – diz Hilário Soneghet, um dos maiores poetas capixabas que ombreia com Narciso Araújo ou Benjamin Silva em talento poético: “O velho é um traste que se põe de lado.”

Pôr de lado um traste é, de alguma forma, reparar nele. Mas o velho, às vezes, é um ser quase invisível que poucos notam e que muitos desprezam. Por exemplo: num ônibus cheio, os mais jovens, devidamente sentados, fingem dormir para não se sentirem na obrigação de ceder lugar a um idoso. Há sempre uma expectativa que as situações ensejam. Fingir dormir é uma forma de frustrar a expectativa de um comportamento socialmente desejável.

O desprezo pelo idoso é oficial: o salário do aposentado vai minguando a cada dia, embora as obrigações fiscais continuem as mesmas ou aumentem. E o pior é que é na aposentadoria que o idoso mais precisa de dinheiro para fazer face pelo menos aos problemas de saúde típicos da idade.  O governo,  com o beneplácito do Supremo Tribunal Federal, que desrespeitou o direito adquirido, impôs a taxação dos aposentados, quando o déficit da Previdência poderia diminuir e até acabar, evitando-se a corrupção em casos flagrantes, como o denunciado pela Folha de São Paulo, edição de domingo, 20-10-2013:  “SUS paga 201 vezes, num único dia, o atendimento a um único cliente em uma clínica de Água Branca, no Piauí.” Nossos congressistas são os mais caros do mundo. Por que não diminuir pelo menos os privilégios e as mordomias dos nossos parlamentares que podem aposentar-se com um único mandato de 4 anos, com direito a um plano de saúde integral o resto da vida? Sobraria dinheiro para os cofres da Previdência, e até se poderia suprimir a taxação dos aposentados, já que o julgamento do mensalão provou que muitas medidas do governo  foram aprovadas graças à compra  de parlamentares venais.

Muitas expressões eufemísticas para a velhice correm entre nós com algum imerecido sucesso: melhor idade, terceira idade, quarta idade… Talvez a melhor delas, a menos falsa, seja a que diz que a velhice é o ocaso da vida, o limiar da morte, único futuro que nos espera a todos, jovens ou velhos, porque não existe idade certa para morrer.

Daqui a cem anos, na melhor das hipóteses, ninguém saberá quem fui, e meu nome se apagará mesmo entre meus descendentes, porque a morte é definitiva. Como diria outro grande poeta, Mílson Henriques, capixaba de coração, nós só morremos real e definitivamente após o nosso encantamento, quando ninguém mais se lembrar ao menos de pronunciar o  nosso nome…

No dizer ainda de Hilário Soneghet, em outro poema que também cito de memória: “Ser velho é ter conselhos para dar. / É ter enfim o dom iluminado / de ensinar as vitórias do futuro / com as derrotas sofridas no passado.”

O problema é que, ainda que o velho tenha conselhos para dar, isso não significa que ele tenha a oportunidade de ser ouvido, nem que haja interesse nos mais jovens em aprender vitórias com as derrotas dele.

Dizia Rabindranath Tagore, poeta indiano, prêmio Nobel de literatura, em seu livro Pássaros Perdidos (Rio de Janeiro: José Olympio, 1952, p. 18), em tradução de Abgar Renault:“Ninguém dá graças ao leito seco do rio pelo seu passado.”

O velho é um leito seco de um rio.

(José Augusto Carvalho é mestre em Linguística pela Unicamp, doutor em Letras pela USP, e autor de um Pequeno Manual de Pontuação em Português (1ª edição, Bom Texto, do Rio de Janeiro, 2010, 2ª edição,  Thesaurus, de Brasília, 2013) e de uma Gramática Superior da Língua Portuguesa (1ª edição, Univ. Federal do ES,  2007; 2ª edição, Thesaurus, de Brasília,  2011)

“A VIDA COM MOELA É”

‘Desilusões Perdidas’:

5 razões para você não desistir de ser jornalista

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1. Convença-se de que ser milionário não é tudo. Pouca gente acumula uma fortuna só trabalhando. O lance é não ser escravo do dinheiro. Vida de milionário também tem suas chatices. Já imaginou como é foda só poder ir à praia cercado de seguranças, como a filha da Xuxa? Viver a neurose de dirigir um carro blindado? Nada como a liberdade do pobre. É possível ter dignidade mesmo bebendo Kaiser e com plano de saúde do sindicato.

2. Saiba que o fim da exigência do diploma não é o fim do mundo. Agora que você já extravasou toda a sua raiva contra o dotô Gilmar Mendes, respire fundo e comece uma nova etapa em sua carreira. Invista em você e desbanque a concorrência descanudada. Não lamente o tempo que você passou na faculdade. Quem não a cursou jamais saberá o que é uma festinha numa república ou uma partida de truco durante a aula de Sociologia.

3. Perceba quando você não saberia ou odiaria fazer outra coisa na vida. Você acha que vai fazer sucesso como garoto de programa com essa barriga ridícula de chope? Você acha que vai abrir a sua assessoria de imprensa e se tornar um magnata da comunicação com essa sua vocação empreendedora de bosta? Quando você descobre que o jornalismo está no seu sangue, doe-se a ele, apesar de todos os perrengues.

4. Acredite que ninguém morre de tanto trabalhar. Taí o Silvio Santos que não me deixa mentir. O homem do Baú passou dos 80 anos faz tempo, e segue gravando programas na TV, interagindo com as colegas de trabalho e dando uns pegas na dona Íris. Ops, acho que exagerei nesta última frase. E jornalista, mesmo com os plantões, tem o privilégio de viver uma rotina sempre nova e muito mais excitante do que à de um burocrata do mercado financeiro.

5. Descubra que ser jornalista tem lá suas vantagens. Quem não adoraria viver e construir a História, saborear experiências reservadas a poucos, ter o poder da palavra, ganhar o elogio de um leitor que adorou a sua matéria? E, principalmente, quem não curtiria um jabazinho, um convite vip e uma boca-livre aqui e ali?

(*) Duda Rangel, no portal Comunique-se