NEM COM MILAGRE…

Lema do PT: Dilma vai

mudar porque deu certo

NaniDilmaMurcha

Engolfada por uma onda de impopularidade, a pior que seu governo já enfrentou, Dilma Rousseff é relançada à Presidência como a mudança de si mesma. Lula e o PT informam que o primeiro mandato de Dilma deu muito certo. Deu tão certo que terá de mudar. A única crise que o país enfrenta é de semântica. Mas isso será rapidamente solucionado quando João Santana puder explicar na propaganda eleitoral o que é “dar certo”.

O povo anda meio irascível. Ouvida pelos institutos de pesquisa, mais de 70% da sociedade cobra mudanças. Lula e o PT avaliam que a sociedade está correta, muito correta, corretíssima. O que está errado é o mau humor da sociedade. A irritação da sociedade só existe porque a elite e a mídia golpista desinformam o país. Logo, logo João Santana revelará toda a verdade: depois que Lula e Dilma inventaram a felicidade, a sociedade exige ficar ainda mais feliz.

A reeleição de Dilma é o passaporte para a felicidade, informam Lula e o PT. A satisfação plena pode ser apalpada no slogan da campanha: “Mais Mudanças, Mais Futuro”. Ah, o futuro! Um espaço impreciso que a propaganda se encarregará de tornar concreto. Grande sacada do João Santana! No futuro cabe tudo. O futuro não pode ser cobrado. O futuro não pode ser conferido.

Os pessimistas decerto perguntarão: que fim levou 2011, futuro de 2010? E 2012, futuro de 2011? E 2013, futuro de 2012? E o que será de 2014, ainda tão presente e já premido pela visão do pretérito passando? Lula e o PT, otimistas a mais não poder, respondem: com Dilma, a sociedade não perde por esperar. Ganha. No momento, a sociedade flerta com a alternância do poder. Mas João Santana demonstrará que é tolice fixar um prazo para a felicidade. Vem aí Lula-2018.*

(*) Blog do Josias de Souza

O POSTE FRACASSOU

DEPOIS DA COPA, A GUERRA

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O sinais são bem claros: Rui Falcão, presidente do PT, diz que as eleições de outubro serão as mais difíceis que o partido já enfrentou, enquanto Lula avisa que a campanha será uma guerra. Há outras declarações de petistas graduados no mesmo tom.

Mas essas resumem o que vem por aí. Há um nítido tom de ameaça de desestabilizar o país. Mesmo assim, Dilma Rousseff continua perdendo pontos nas pesquisas, não obstante estar abrindo a caixa de bondades para melhorar sua imagem.

A campanha, a rigor, não começou. Há manifestações nas redes sociais, mas o grosso do eleitorado só tomará conhecimento quando chegar à TV aberta. Por enquanto, na chamada periferia, onde está a maioria pouco se conhece do candidato da oposição.

O uso do singular decorre do fato de, até aqui, entre os candidatos competitivos, só há mesmo o do PSDB, Aécio Neves. A chapa do PSB, Eduardo Campos-Marina Silva, não pode assim ser classificada. Faz oposição a Dilma, não ao sistema que representa.

O discurso do PSB é mais ou menos o seguinte: Lula entregou um país em ordem para Dilma, que o estragou. Não por acaso, os dois integrantes da chapa foram ministros de Lula. Faz sentido defendê-lo. Só não dá para iludir. João Pedro Stédile, o chefão do MST, já declarou que, com o PSB, nada muda, mas com Aécio haverá forte reação dos movimentos sociais.

Falta pouco para que o PT oficialize a chapa Dilma Roussef-Michel Temer. Permanece, porém, a dúvida: confirmando-se a tendência de queda de Dilma, irá o partido arriscar-se a concorrer com ela? Parte do PMDB, o mais pragmático dos partidos, já decidiu debandar, por sentir que o barco está fazendo água.

Segundo noticiou um jornal, Lula teria respondido a um parlamentar graduado do PT, há dias, que “ainda está cedo para entrar em campo”. Ficou a dúvida quanto à expressão. Em campo, ele já está há muito tempo. A rigor, nunca saiu. Daí a suspeita de que “entrar em campo” signifique mais que subir em palanques – e se traduza por assumir sua própria candidatura.

Há vantagens e desvantagens. A desvantagem é que, nessa hipótese, estaria confessando que seu “poste” fracassou. E ainda: poria em xeque sua imagem de presidente bem sucedido, já que terá, na eventualidade de se eleger, de colher os frutos que ele próprio semeou, deparando-se com uma economia em frangalhos.

A vantagem é que, constatada a inviabilidade de Dilma, Lula é ainda uma alternativa forte, com um grau de competitividade junto ao povão em princípio superior ao do candidato do PSDB. A ressalva decorre do fato de que, mesmo em relação a Lula, há dúvidas sobre se repetiria a performance de eleições anteriores.

A inflação do preço dos alimentos já está há muito sendo sentida pela população mais pobre, a que mais fundo sente seus efeitos. O discurso do nós x eles – que pretende dividir a sociedade – está por mostrar sua eficácia eleitoral.

Não foi com ele que Lula se elegeu. Ao contrário, para romper um longo ciclo de derrotas, apelou para a imagem conciliadora, do “Lulinha, paz e amor”, que culminou com a Carta aos Brasileiros, que prometia não promover rupturas na economia.

O que se constata é que o PT está numa sinuca de bico: se Dilma não decolar, terá que pôr em cena sua única figura alternativa, que é também sua liderança maior. Se ela perder, o partido se desfigura e entra em crise existencial.

O perigo está aí: nada mais perigoso que uma fera acuada. É capaz de tudo. O partido, ao longo de seus mais de onze anos no poder, formou milícias armadas e, por meio do decreto 8.243 – que institui a Política Nacional de Participação Social, dando aos movimentos sociais, que são seus satélites, meios de influir nas decisões do Executivo -, pretende manter seus militantes dentro da administração pública.

Em síntese, perdendo, o PT promete infernizar a vida de quem ganhar; ganhando, promete dar início ao processo de ruptura até aqui evitado. Depois da Copa, a guerra.*

(*) Ruy Fabiano , no blog do Noblat.

NO VINAGRE

Perfil: as metamorfoses de Dilma

no primeiro mandato

A candidata Dilma Rousseff que será oficialmente lançada neste sábado (21) para disputar as eleições de outubro está bem distante daquela consagrada na convenção de 2010. Com a queda brusca de sua popularidade, a presidente foi submetida a uma transformação que a colocou, a contragosto, no figurino de uma candidata tutelada por seu partido e seu antecessor, o ex-presidente Lula.

Na avaliação de interlocutores, se Dilma tivesse disputado sua reeleição em outubro de 2011, teria sido a “candidata-faxineira”, fruto da imagem de tolerância zero com acusados de desvios.

Se fosse em 2012, entraria em cena a “candidata-intervencionista”, resultado sobretudo da tentativa de controlar tarifas nas concessões de infraestrutura.

Já em 2013, as corrosivas manifestações de junho teriam lançado a petista à condição hipotética de “candidata-fraca”. De lá para cá, o enfraquecimento político de Dilma, refletido nas sondagens eleitorais, forçou uma nova mudança de perfil.

Para não se afogar na onda do “Volta, Lula”, sempre oportunista nos momentos de maior vulnerabilidade presidencial, a presidente que chega à convenção deste sábado precisou ao longo do ano se distanciar da figura tradicional e se aproximar de uma nova Dilma. Que fala com a imprensa, oferece jantar a empresários e bancadas políticas e, sobretudo, segue quase à risca os conselhos do padrinho e do PT.

Dilma subiu a rampa do Planalto com a marca de gestora competente embalada na propaganda oficial. Os primeiros desafios ao estilo durona só começaram a ser notados com a saída de Antonio Palocci do primeiro escalão.

Com Palocci ministro, as dificuldades de diálogo com o setor privado se resumiam a anedotas de bastidor. Naquela época, o centralismo de Dilma sequer era visto como um traço que emperrava a produção do governo.

O vento só mudaria em 2012, combinado com a crise econômica que se encarregaria de agravar a desaceleração do PIB (Produto Interno Bruto) brasileiro.

O primeiro a verbalizar preocupação com o impacto do estilo pessoal na agenda presidencial foi seu criador, o ex-presidente.

Uma conversa reservada relatada à Folha resume bem essa ideia: Lula diz que Dilma, quando ministra da Casa Civil, era um Pelé. Mas confessa que o craque não conseguiu manter o mesmo rendimento na condição de presidente da República.

Os reparos ao jeitão da sucessora não cessaram mais. Na avaliação do ex-presidente, Dilma fez diferença em sua equipe. Mas, como presidente, não soube dialogar com subordinados, com o PT e com o empresariado.

O resultado foi o avanço das queixas de assessores, raiva de petistas e um clima de má vontade entre empresários, com reflexos sobre investimentos no país.

PORTA FECHADA

Nos três primeiros anos de governo, ela fechou-se para o partido, o que alimentou até intrigas de que estaria se distanciando de Lula. Escolheu a dedo seu círculo próximo de assessores –nenhum deles lulistas– e não se esquivou do difícil papel de dizer não a correligionários.

Embora pareça mais influenciável agora que está mais dependente da ajuda do partido e de seu padrinho, a nova candidata presidencial ainda guarda um enigma: ninguém sabe exatamente como será o futuro da economia em um possível segundo mandato. A dúvida é se ela vai dobrar a aposta no modelo que adotou nos últimos anos ou se fará correções.

AJUSTES GRADUAIS

Segundo assessores, a tendência é fazer alguns ajustes, de forma gradual. Não dará uma paulada nos preços administrados –como a conta de luz–, segurados para conter a inflação.

O mercado cobra por medidas fiscais mais realistas e exige a liberação de preços como o da gasolina e o da energia, controlados por ela com corda curtíssima.

Lula enxerga Dilma reconhecendo mais os erros cometidos no passado, e já vê na petista disposição em adotar novo estilo num segundo mandato.

Auxiliares próximos, porém, dão definição diferente. Acham que Dilma mudou para fora, não para dentro.

Nos encontros informais, mostra-se gentil, agradável e bem-humorada –”um papo excelente”. Já nas reuniões de trabalho, transforma-se.

A equipe do Minha Casa, Minha Vida cunhou expressão que exprime isso. Para eles, o programa ganhou outro nome: “Minha Casa, Minha Vida, Nosso Inferno”.*

 

Durante seu mandato, Dilma colecionou episódios que só fizeram reforçar um sentimento de insatisfação em relação a seu comando. Até Lula sentiu-se, em determinados momentos, vítima de ações da presidente.

Não gostou das comparações que ela faz insinuando, contra os críticos, que suas taxas de inflação são inferiores ao do antecessor no mesmo período de governo.

Sempre que isso ocorre, o ex-presidente resmunga: “Só que eu peguei juros muito mais altos.”

PRONUNCIAMENTOS

Na política, Dilma protagonizou pronunciamentos em cadeia nacional de rádio e TV, uma exigência que seu partido fazia há tempos e só foi acatada agora, após queda nas pesquisas. De janeiro para cá, foram três, todos com indiretas aos adversários.

O convencimento ocorreu em reunião no Palácio da Alvorada, no início do ano. “Ou fazemos disputa política ou não estancaremos a sangria”, disse um dos coordenadores da pré-campanha, conforme relatos de presentes. Até então, ela temia ser acusada de uso da máquina pública.

Os protestos de 2013 não só sugaram sua popularidade como também inocularam nas pesquisas de opinião um pessimismo até hoje persistente no eleitorado.

As ruas de junho, com seu efeito cáustico nas sondagens de opinião, deram o primeiro sinal de alerta. E as ondas do “Volta, Lula” terminaram o chacoalhão.*

(*) NATUZA NERYVALDO CRUZ – FOLHA DE SÃO PAULO

DITADORES CUCARACHOS

A lista do PT

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Lula só pensa naquilo. Diante das vaias (normais no ambiente dos estádios) e dos xingamentos (deploráveis em qualquer ambiente) a Dilma Rousseff na abertura da Copa, o presidente de facto construiu uma narrativa política balizada pela disputa eleitoral.

A “elite branca” e a “mídia”, explicou, difundem “o ódio” contra a presidente-candidata. Os conteúdos dessa narrativa têm o potencial de provocar ferimentos profundos numa convivência democrática que se esgarça desde a campanha de ataques sistemáticos ao STF deflagrada pelo PT.

O partido que ocupa o governo decidiu, oficialmente, produzir uma lista de “inimigos da pátria”. É um passo típico de tiranos — e uma confissão de aversão pelo debate público inerente às democracias. Está lá, no site do PT, com a data de 16 de junho (LeiaAQUI).

O artigo assinado por Alberto Cantalice, vice-presidente do partido, acusa “os setores elitistas albergados na grande mídia” de “desgastar o governo federal e a imagem do Brasil no exterior” e enumera nove “inimigos da pátria” — entre os quais, este colunista.

Nas escassas 335 palavras da acusação, o representante do PT não cita frase alguma dos acusados: a intenção não é provar um argumento, mas difundir uma palavra de ordem. Cortem-lhes as cabeças!, conclama o texto hidrófobo. O que fariam os Cantalices sem as limitações impostas pelas instituições da democracia?

O artigo do PT é uma peça digna de caluniadores que se querem inimputáveis. Ali, entre outras mentiras, está escrito que os nove malditos “estimulam setores reacionários e exclusivistas a maldizer os pobres e sua presença cada vez maior nos aeroportos, nos shoppings e nos restaurantes”.

Não há, claro, uma única prova textual do crime de incitação ao ódio social. Sem qualquer sutileza, Cantalice convida seus seguidores a caçar os “inimigos da pátria” nas ruas. Comporta-se como um miliciano (ainda) sem milícia.

Os nove malditos quase nada têm em comum. Politicamente, mais discordam que concordam entre si. A lista do PT orienta-se apenas por um critério: a identificação de vozes públicas (mais ou menos) notórias de críticos do governo federal.

O alvo óbvio é a imprensa independente, na moldura de uma campanha de reeleição comandada pelo ex-ministro Franklin Martins, o arauto-mor do “controle social da mídia”. A personificação dos “inimigos da pátria” é um truque circunstancial: os nomes podem sempre variar, aos sabor das conveniências.

O truque já foi testado uma vez, na campanha contra o STF, que personificou na figura de Joaquim Barbosa o ataque à independência do Poder Judiciário. Eles gostariam de governar um outro país — sem leis, sem juízes e sem o direito à divergência.

Cortem-lhes a cabeça! A palavra de ordem emana do partido que forma o núcleo do governo. Ela está dirigida, imediatamente, aos veículos de comunicação que publicam artigos ou difundem comentários dos “inimigos da pátria”.

A mensagem direta é esta: “Nós temos as chaves da publicidade da administração direta e das empresas estatais; cassem a palavra dos nove malditos.” A mensagem indireta tem maior amplitude: no cenário de uma campanha eleitoral tingida de perigos, trata-se de intimidar os jornais, os jornalistas e os analistas políticos: “Vocês podem ser os próximos”, sussurra o persuasivo porta-voz do presidente de facto.

No auge de sua popularidade, Lula foi apupado nos Jogos Pan-Americanos de 2007. Dilma foi vaiada na Copa das Confederações. As vaias na abertura da Copa do Mundo estavam escritas nas estrelas, mesmo se o governo não experimentasse elevados índices de rejeição.

O governo sabia que viriam, tanto que operou (desastrosamente) para esconder a presidente-candidata dos olhos do público. Mas, na acusação desvairada de Cantalice, os nove malditos figuram como causa original da hostilidade da plateia do Itaquerão contra Dilma!

O ditador egípcio Hosni Mubarak atribuiu a revolução popular que o destronou a “potências estrangeiras”. Vladimir Putin disse que o dedo de Washington mobilizou um milhão de ucranianos para derrubar o governo cleptocrático de Viktor Yanukovich. O PT bate o recorde universal do ridículo quando culpa nove comentaristas pela recepção hostil a Dilma.

Quanto aos xingamentos, o exemplo nasce em casa. Lula qualificou o então presidente José Sarney como “ladrão” e, dias atrás, disse que FHC “comprou” a reeleição (uma acusação que, nos oito anos do Planalto, jamais levou à Justiça). O que gritaria o presidente de facto no anonimato da multidão de um estádio?

Na TV Estadão, critiquei o candidato presidencial José Serra por pregar, na hora da proclamação do triunfo eleitoral de Dilma Rousseff, a “resistência” na “trincheira democrática”.

A presidente eleita, disse na ocasião, é a presidente de todos os brasileiros — inclusive dos que nela não votaram. Dois anos mais tarde, escrevi uma coluna intitulada “O PT não é uma quadrilha”, publicada nos jornais O GLOBO e “O Estado de S. Paulo” (25/10/2012), para enfatizar que “o PT é a representação partidária de uma parcela significativa dos cidadãos brasileiros” e fazer o seguinte alerta às oposições: “Na democracia, não se acusa um dos principais partidos políticos do país de ser uma quadrilha.”

A diferença crucial que me separa dos Cantalices do PT não se encontra em nossas opiniões sobre cotas raciais, “conselhos participativos” ou Copa do Mundo. Nós divergimos, essencialmente, sobre o valor da liberdade política e da convivência democrática.

Se, de fato, como sugere o texto acusatório do PT, o que mais importa é a “imagem do país no exterior”, o “inimigo da pátria” chama-se Cantalice. Nem mesmo os black blocs, as violências policiais ou a corrupção sistemática são piores para a imagem de uma democracia que uma “lista negra” semioficial de críticos do governo.*

(*) Demétrio Magnoli, O Globo

ISSO PODE, ARNALDO?

Em ano eleitoral,Dilma

turbina gasto com publicidade

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Montante até maio é 61,84% superior ao valor desembolsado no mesmo período de 2013. Gastança segue alta: em junho, até dia 17, conta ficou em R$ 28,1 mi

No ano em que a presidente Dilma Rousseff disputa a reeleição, o Palácio do Planalto acelerou seus gastos com autopromoção: de janeiro a maio, a Presidência da República desembolsou 92,3 milhões de reais em publicidade institucional. O montante representa um salto de 61,84% em relação ao mesmo período em 2013, quando mais de 57 milhões de reais foram pagos, segundo levantamento feito pela ONG Contas Abertas a pedido do site de VEJA. Em relação a 2011, quando 39,7 milhões de reais foram usados de janeiro a maio para promover ações da Presidência, o aumento foi de 132,51%.

O valor planejado pelo Planalto para a publicidade institucional é ainda maior: 201,2 milhões de reais. A cifra se refere ao montante empenhado (jargão orçamentário para um compromisso de gasto) até maio. Os 92,3 milhões de reais referem-se, portanto, àquilo que foi realmente pago pela Presidência. O levantamento do Contas Abertas leva em conta apenas os gastos da Presidência, excluindo-se ministérios.

O levantamento indica ainda que os gastos seguem a todo vapor. No mês de junho, até o dia 17, o Planalto gastou 28,1 milhões de reais em publicidade institucional. O valor é 77,8% superior ao montante gasto nos trinta dias de junho do ano passado – 15,8 milhões de reais. A cifra desembolsada até a segunda quinzena deste mês já supera os montantes gastos em cada um dos meses anteriores. Junho não é apenas o mês em que começou a Copa do Mundo no país – evento celebrado repetidamente em propagandas oficiais e discursos de Dilma –, como também o último em que a publicidade institucional é liberada pela legislação eleitoral. Esse tipo de publicidade é vetado nos três meses anteriores ao pleito.

Preparação – Também pela lei, o governo só pode gastar em publicidade em ano eleitoral aquilo que já foi gasto no ano anterior. Tamanha elevação das despesas com publicidade em 2014 é, portanto, um reflexo da corda que Dilma começou esticar no passado, quando desembolsou 186,2 milhões de reais com publicidade institucional – e 952,2 milhões de reais no total, se somada a de utilidade pública.

Na terça-feira da semana passada, Dilma utilizou-se de um pronunciamento nacional e rádio e televisão para emitir um discurso eleitoreiro. A pretexto de comemorar o início da Copa do Mundo, que ocorreria dali a dois dias, a presidente deu lugar à candidata e, por dez minutos, promoveu seu governo e atacou os críticos, que chamou de “pessimistas”. O mesmo discurso – com dados inflados pelo governo – foi repetido em um palanque em Salvador e no programa semanal de rádio da Presidência, que foi ao ar nesta segunda-feira. Dilma só vai oficializar sua candidatura neste sábado, em convenção do PT. Mas a promoção de sua imagem por meio das prerrogativas do cargo já está a todo vapor.

Padilha – A publicidade institucional tem o objetivo de divulgar informações sobre atos, obras, programas, metas e resultados de governo. Já a publicidade de utilidade pública tem a função de informar, orientar, prevenir e alertar a população sobre temas específicos. Nesse quesito, o campeão de gastos é o Ministério da Saúde, comandado até o final de janeiro por Alexandre Padilha, que deixou o cargo para concorrer ao governo de São Paulo pelo PT. A pasta foi a campeã de gastos com publicidade entre todos os ministérios em 2013: 226,8 milhões de reais. E se mantém à frente também em 2014 – 103,8 milhões de reais até 17 de junho.

Em janeiro, prestes a deixar o comando da Saúde, Padilha usou uma campanha de vacinação contra o HPV como pretexto para fazer propaganda eleitoral antecipada em cadeia de rádio e televisão. Ele falou durante quatro minutos em horário nobre e não deixou de lado sequer a gravata vermelha. Em tom eleitoral, Padilha não se restringiu à vacina. Falou do programa Saúde Não Tem Preço, que distribui medicamentos gratuitamente, e destacou o Mais Médicos, principal bandeira de sua futura campanha eleitoral.*

(*) Carolina Farina – VEJA

REJEIÇÃO, O GRANDE LEGADO DA COPA

LEGADOS DA COPA

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O primeiro legado da Copa: 64 anos depois repetiram-se as touradas de Madrid e a Espanha voltou para casa com seu revolucionário futebol de posse de bola enferrujado e humilhado.

Por coincidência, ao mesmo tempo, a dinastia dos Bourbon que reina na Espanha desde 1713 mudou de guarda: o rei Juan Carlos, artífice da transição democrática pós-franquismo, alquebrado pela saúde e desmoralizado por alguns escândalos e alguns safaris, cedeu o lugar ao filho Felipe 6º, uma cara mais nova que a do técnico Del Bosque e mais confiável que a do premiê Mariano Rajoy.

Esse foi o evento mais ruidoso e escandaloso dentro de campo. Fora do campo, onde hordas de turistas misturam a alegria natural de forasteiros que andam em grupos, produzem um carnaval temporão, cada um com a sua ginga própria e seu senso de humor particular.

Enquanto nós esperamos que a seleção de Felipão se solte um pouco mais, os olhos do País estão divididos entre o futebol e a política, pois afinal de contas quando as emoções do espetáculo do futebol se esvaírem, voltaremos à rotina da mediocridade técnica mas apaixonante do nosso Brasileirão e as especulações sobre o futuro do País.

No nosso contencioso em suspenso, estão a incapacidade de crescimento mais robusto e sustentável do país e a irresistível compulsão do governo de controlar, tanto as variáveis econômicas como a opinião alheia.

Está também no contencioso o decreto 8.243, que cria uma hegemonia forçada e superposta à democracia representativa por conselhos habitados por “movimentos sociais”, que se chocam claramente com o conceito republicano de “um homem e um voto” e com a soberania do Legislativo e o princípio da separação e independência de Poderes consagrada em todas as democracias do mundo.

O partido que comanda a aliança que está no poder, abalado com a perda de consistência de sua candidata à reeleição nas pesquisas de intenção de voto, e indignado com a vaia que ela tomou no Itaquerão no jogo de abertura da Copa do Mundo, tentou orquestradamente jogar a culpa pela manifestação incivilizada pelo exagero dos palavrões nas costas de uma suposta “elite branca”, no que foi desmentida pelo seu mais representativo porta voz na especialidade de puxar briga, o ministro Gilberto Carvalho.

E então a coordenação da campanha de Dilma reuniu-se, com Lula à frente, para estudar estratégias que possam reverter as tendências demonstradas pelo eleitorado ingrato, que nao sabe reconhecer as benesses que o governo lhe propiciou. Além de Lula, participaram da reunião Ruy Falcão, o presidente do PT, o tesoureiro da campanha Edinho Silva, o ex-ministro Franklin Martins e o marqueteiro João Santana.

Nem a candidata nem o seu braço direito Giles Azevedo foram convidados para a reunião. Foi a primeira derrota por W.O nesta Copa.*

(*) Sandro Vaia, no blog do Noblat.

BRAZIL…ZIL…ZIL…

Show de bola

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Os estádios estão lindos e cheios, os jogos de ótimo nível, com muitos gols e surpresas, as torcidas animadas e pacíficas, as ruas fervilhando de gringos e de alegria. Independentemente da performance da seleção brasileira, a Copa é um sucesso. Quem ama o futebol está feliz.

Assaltos, arrastões, tiroteios, roubos e furtos, achaques policiais, saidinhas de banco, sequestros-relâmpago — o habitual cotidiano urbano brasileiro — sumiram dos noticiários e, aparentemente, das ruas. Com o Congresso em recesso futebolístico, cessam temporariamente as negociatas vergonhosas, as tenebrosas transações políticas e as propostas indecentes que prejudicam o país. Quem ama o Brasil está feliz.

Todo mundo que ama futebol e já foi a um estádio sabe que nada se compara a ver um jogo ao vivo, no meio do calor da torcida. Mesmo com todos os fabulosos recursos da televisão, o espetáculo no estádio ainda é insuperável. Enquanto a câmera apenas segue a bola, da arquibancada se vê a totalidade do campo e a movimentação dos jogadores, as manobras táticas e as possibilidades de jogadas e lançamentos, que são parte importante da emoção do futebol.

Agora que se pode assistir ao jogo no estádio ouvindo rádio e conferindo no celular os replays e os detalhes da transmissão da televisão — e ainda comentando cada lance com os amigos, um dos maiores prazeres do futebol, pelas redes — é show de bola.

Quem não deve estar tão feliz é Lula, que trabalhou tanto pela Copa e ajudou o seu Corinthians a construir um estádio, que adora futebol, mas não vai assistir a nenhum jogo porque tem medo de ser vaiado, como nos Jogos Pan-Americanos de 2007, embora atribua a vaia a uma conspiração de Cesar Maia, que teria até treinado milhares de militantes da prefeitura para vaiá-lo… rsrs.

Pobre Lula, que imaginou desfrutar da “sua” Copa na Tribuna de Honra, assistindo à vitória da seleção brasileira e ovacionado pela multidão, vendo televisão em São Bernardo com dona Marisa. Para quem adora futebol não pode haver pior castigo.

A vaidade vai vencer a paixão? O que é uma vaiazinha diante de um jogão? Vai, Lula, vai!*

(*) Nelson Motta, O Globo.

CAINDO PELAS TABELAS

DILMA E A ESPANHA

Dilma e a Espanha tem algo a ver. Os espanhóis chegaram ao  Brasil certos de ser os favoritos, campeões do mundo na última copa  e detentores de um fabuloso elenco. Esbanjaram empáfia e soberba. Dilma, com quatro anos na presidência da República, nadava de braçada rumo ao segundo mandato. Pois a “fúria” acaba de ser desclassificada e a presidente cai de forma permanente nas pesquisas eleitorais.

Há outras semelhanças. Lá, o rei acaba  de abdicar. Aqui, Sua  Majestade Lula, primeiro e único,  dá sinais de que a sucessora não vai bem, na economia e nas consultas populares, parecendo conformar-se com o segundo turno.  Acresce que Juan  Carlos deixou o trono mas permanece alerta: caso o filho fracasse, poderá voltar, ao tempo em que o Lula mantém o apoio a Dilma, como veremos amanhã, na convenção do PT, mas não afasta a hipótese de, à beira da perda do poder, poderem os companheiros logo reconduzi-lo à condição de candidato.

Política e futebol desenvolvem-se por linhas tortas. Um ano atrás muita gente duvidava de que Aécio Neves e Eduardo Campos poderiam apresentar-se, sabendo previamente do malogro.  O que mais se ouvia era estarem encenando o ensaio-geral em 2014 para a apresentação da peça em 2018.  Agora, disputam lugar no segundo turno.

Montes de Iniestas, Sergios Ramos e Xavis Alonso pululavam em torno da presidente, fazendo planos para a conquista do campeonato, ou seja, de olho na composição do segundo governo e dos lugares do futuro ministério. Pouco a pouco os partidos da base de apoio de Dilma foram saltando de banda, com outros  preparando a fuga ainda não concretizada mas já idealizada.

Pergunta-se como essas mutações podem acontecer, contrariando  a lógica,  e a  resposta surge clara: a presunção, quando é demais, engole os presunçosos. Tanto nos gramados quanto nos palácios.*

(*) Carlos Chagas, Tribuna da Imprensa Online