ESCOLHER PALAVRAS

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Há um ruído na comunicação que pode provocar constrangimentos: o uso de uma palavra no lugar de outra, sobretudo quando se trata de parônimos, isto é, de palavras que se parecem na forma ou no som, mas diferem (e muito) no sentido, como, por exemplo, tráfico e tráfego, velhote e velhaco, docente e discente, vultoso e vultuoso, entre outros.

Entre os problemas da má seleção lexical, isto é, da má seleção de palavras, está o uso hoje generalizado, mesmo entre professores de português e linguistas de boa reputação, do nome gênero para designar sexo. É comum falar-se em gênero masculino quando se quer designar o sexo masculino. Acredito que esse vício de linguagem se deva à tradução literal do inglês gender, que pode significar tanto gênero quanto sexo. Ora, gênero é uma distinção gramatical, e sexo é uma distinção semântica. Um nome pode pertencer ao gênero masculino e designar alguém do sexo feminino, como mulherão, por exemplo, que, apesar de masculino, designa uma mulher extremamente feminina.  Também pode ocorrer que um nome  feminino designe alguém do sexo masculino, como sentinela, criança, vítima, testemunha, por exemplo. Não há razão para essa confusão entre gênero e sexo, nem há nenhum argumento que possa defender o uso de um pelo outro. Se esse erro se generalizar, cedo ouviremos falar de “relações genéricas” em lugar de “relações sexuais” e  de “sexo lírico e dramático” em lugar de “gênero lírico e dramático”. Um transexual viraria um transgenérico? Um remédio genérico nas farmácias viraria remédio sexual?

Inventou-se recentemente a palavra pedólatra (não dicionarizada) que, por sua formação, deveria designar aquele que adora crianças, como  um sinônimo não estigmatizado de pedófilo. Ocorre, no entanto, que a formação dessa palavra desrespeitou a sua origem etimológica e provocou confusão, porque seu uso se generalizou com o sentido de “aquele que adora pés” (podófilo ou podólatra). A confusão é tanta que um escritor chamado Miguel Dias ganhou o primeiro lugar num dos concursos “Talentos da Maturidade”, do Banco Real e teve seu conto “O pé de Júlia” publicado no livro Todas as estações, prefaciado por Deonísio da Silva, e publicado pela Editora Fundação Peirópolis, de São Paulo, em 2002. Diz ele, nas páginas 38-39: “Que não se confunda o pedólatra com o pedófilo. Condenável é a pedofilia (…). Menos grave é um indivíduo que adora pés (…).” O autor quis dar uma lição de semântica sem entender do riscado…

Outro erro de seleção lexical é o neologismo chocólatra, que é usado para designar aquele que adora chocolate, mas, pela sua má-formação, designa o adorador do choco, nome que em Portugal designa um molusco da família do polvo, conhecido no Brasil como siba. O adorador de chocolate deveria chamar-se chocolatólatra e não chocólatra.

Há também o adjetivo julinas, formado por analogia com juninas e usado para designar as festas de julho. Ocorre que as festas realizadas em julho são festas julianas. O nome julinas simplesmente não existe.

Um vereador (já falecido) queixou-se do salário dizendo que era um salário “pingue”. Por uma questão de sinestesia, achou que, por causa da tônica em i, pingue significaria “magro”, ou “diminuto”. Na verdade, pingue significa exatamente “gordo, abundante”. Se o salário era pingue, o vereador deveria dar-se por satisfeito..

Numa crônica intitulada  “Uma volta ao Caparaó”, publicada em A Gazeta, no dia 09-12-08, o cronista Francisco Aurélio Ribeiro escreveu: “…a bela, limpa e simpática cidade serrana do Caparaó se engalana, numa noite imemorável de cultura e arte.” – Eis aí outro erro de seleção lexical. O adjetivo imemorável é sinônimo de “imemorial”. Significa: “de que não há ou não pode haver memória, por causa de sua extraordinária antiguidade”. O adjetivo memorável é que significa “digno de permanecer na memória”, o que certamente terá querido dizer o cronista…

A língua, às vezes, prega armadilhas a quem escreve ou diz uma palavra sem saber exatamente o que ela significa…

(*) José Augusto Carvalho é mestre em Linguística pela Unicamp, doutor em Letras pela USP, e autor de um Pequeno Manual de Pontuação em Português (1ª edição, Bom Texto, do Rio de Janeiro, 2010, 2ª edição,  Thesaurus, de Brasília, 2013) e de uma Gramática Superior da Língua Portuguesa (1ª edição, Univ. Federal do ES,  2007; 2ª edição, Thesaurus, de Brasília,  2011.

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FARINHA DO MESMO SACO – PODRE!

Executivo afirma que Serra sugeriu acordo em licitação

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O ex-governador de São Paulo José Serra (PSDB) sugeriu à multinacional alemã Siemens um acordo em 2008 para evitar que uma disputa empresarial travasse uma licitação da CPTM, de acordo com um e-mail enviado por um executivo da Siemens a seus superiores na época.

A mensagem relata uma conversa que um diretor da Siemens, Nelson Branco Marchetti, diz ter mantido com Serra e seu secretário de Transportes Metropolitanos, José Luiz Portella, durante congresso do setor ferroviário em Amsterdã, na Holanda.

Na época, a Siemens disputava com a espanhola CAF uma licitação milionária aberta pela CPTM para aquisição de 40 novos trens, e ameaçava questionar na Justiça o resultado da concorrência se não saísse vitoriosa.

A Siemens apresentou a segunda melhor proposta da licitação, mas esperava ficar com o contrato se conseguisse desqualificar a rival espanhola, que apresentara a proposta com preço mais baixo.

De acordo com a mensagem do executivo da Siemens, Serra avisou que a licitação seria cancelada se a CAF fosse desqualificada, mas disse que ele e Portella “considerariam” outras soluções para evitar que a disputa empresarial provocasse atraso na entrega dos trens.

Segundo o e-mail, uma das saídas discutidas seria a CAF dividir a encomenda com a Siemens, subcontratando a empresa alemã para a execução de 30% do contrato, o equivalente a 12 dos 40 trens previstos. Outra possibilidade seria encomendar à Siemens componentes dos trens.

Serra disse à Folha que não se encontrou com executivos das empresas interessadas no contrato da CPTM e afirmou que a licitação foi limpa, com vitória da empresa que ofereceu menor preço.

O ex-secretário Portella disse que as acusações são absurdas e que não houve irregularidades na licitação.

O e-mail examinado pela Folha faz parte da vasta documentação recolhida pelo Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade), do Ministério da Justiça, na investigação aberta para examinar a prática de cartel em licitações da CPTM e do Metrô de São Paulo de 1998 a 2008.

Os documentos examinados pela Folha não contêm indícios de que Serra tenha cometido irregularidades, mas sugerem que o governo estadual acompanhou de perto as negociações entre a Siemens e suas concorrentes.

Em outra mensagem de Marchetti, de setembro de 2007, o executivo diz que o governo paulista “gostaria de ver a Siemens contemplada com pelo menos 1/3 do pacote” da CPTM, em “parceria” com as outras empresas.

Os documentos foram entregues ao Cade pela própria Siemens, que fez um acordo com as autoridades brasileiras para colaborar com as investigações e assim evitar as punições previstas pela legislação para a prática de cartel.

Procurado pela Folha, o Cade informou que o caso está sob sigilo e nenhuma informação sobre o assunto poderia ser repassada à imprensa.

Na licitação dos trens, as negociações da Siemens com a CAF não deram resultado. A Siemens apresentou recursos administrativos e foi à Justiça contra a rival, mas seus pedidos foram rejeitados.

A CAF venceu a licitação e assinou em 2009 o contrato com a CPTM. A empresa espanhola executou o contrato sozinha, sem subcontratar a Siemens ou outras empresas.

A francesa Alstom também participou dessa concorrência. De acordo com os documentos entregues pela Siemens, a empresa tinha um acordo com a rival francesa para dividir o contrato se uma das duas vencesse a disputa.

Os documentos obtidos pelas autoridades brasileiras mostram também que, mais tarde, ao mesmo tempo em que negociava com a CAF, a Siemens discutiu a possibilidade de uma aliança com outra rival, a coreana Hyundai, contra os espanhóis da CAF.

(*) FLÁVIO FERREIRA, DE SÃO PAULO; CATIA SEABRA E JULIANNA SOFIA, DE BRASÍLIA – FOLHA DE SÃO PAULO

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POBRE PAÍS!!!

Dilma usa Lula como escudo

00rs0801b - volta, lula !!!

Quem de direito governa este país?

Dilma Rousseff, naturalmente. Porque foi eleita. E a Justiça reconheceu sua eleição como legítima.

Quem de fato governa este país?

Uma vez mais a resposta é Dilma. É ela é quem despacha no Palácio do Planalto e mora no Palácio do Alvorada. Reúne-se com ministros quando quer. E assina papéis.

Lula não influencia as decisões que ela toma? Principalmente as mais importantes?

É claro que sim. Mas se Lula mandasse tanto em Dilma como parece, é possível que o governo dela pedisse menos reparos.

Dilma não desobedece a Lula por mal. Nem por birra. Nem porque queira provar que é ela quem governa. Dilma, apenas, não consegue fazer tudo o que Lula sugere. E do jeito que ele sugere.

Na campanha eleitoral de 2010, Lula apresentou Dilma como melhor gestora do que ele. Disse que por isso deveria ser eleita.

Comprovou-se que Lula foi melhor gestor do que ela. Dilma é uma gestora medíocre. Por sinal não é gestora: é uma gerentona. São coisas diferentes.

Embora reconhecesse o temperamento um tanto áspero de Dilma e sua dificuldade em se relacionar bem com os políticos, Lula garantiu que no fim tudo daria certo.

Não deu – embora o fim ainda não tenha chegado.

É cômodo para Dilma que Lula aparente conduzi-la – e ao seu governo. Só assim ela pode compartilhar com ele os bons e maus resultados.

O compartilhamento dos maus resultados a protege um pouco.

Em entrevista à Folha de S. Paulo, Dilma se viu diante da seguinte pergunta:

– O que acha do movimento “Volta, Lula” em 2014?

A resposta:

– Querida [quando ela trata alguém por “querida” ou “querido” significa que está aborrecida], olha, vou te falar uma coisa: eu e o Lula somos indissociáveis. Então esse tipo de coisa, entre nós, não gruda, não cola. Agora, falar volta Lula e tal… Eu acho que o Lula não vai voltar porque ele não foi. Ele não saiu. Ele disse outro dia: “Vou morrer fazendo política. Podem fazer o que quiser. Vou estar velhinho e fazendo política”.

“Eu e Lula somos indissociáveis”, destacou Dilma. E teve razão para fazê-lo.

Se fossem dissociáveis ela não teria sido eleita. A maioria das pessoas votou “na mulher de Lula”. Raras as que tinham condições de avaliar se Dilma merecia seu voto. Lula pediu. Deram.

Se Lula e Dilma fossem dissociáveis, a essa altura ela estaria ainda mais próxima do fundo do poço. A verdade é essa.

“Eu acho que o Lula não vai voltar porque ele não foi. Ele não saiu”, afirmou Dilma.

Cortesia com Lula?

Sim, mas não somente. Aqui Dilma foi esperta.

Ao ressaltar que Lula não voltará ao governo ou ao poder porque jamais o deixou, Dilma aumenta a ligação dele com ela. Dilma vale-se de Lula como um escudo.

Se essa não foi sua intenção, esse é o resultado.

Dará certo valer-se de Lula como escudo?

Sabe-se lá!

Talvez constranja Lula e o PT. Talvez os levem a tentar salvá-la de todos os modos.

Foram eles que pariram Dilma. Ela não pediu para chegar onde chegou.

Eles, portanto, que a embalem.*

 

(*) Blog do Ricardo Noblat

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UMA HISTÓRIA INFANTIL NADA INFANTIL

000- a coluna do Joauca - 500

Era uma vez uma criança a quem chamavam de Maria Doida, entre outros nomes que o povo lhe dava. Ninguém sabia qual era o seu nome certo: Teresa Biruta, Joana a Louca, Antônia Sandice, Branca Maluca, Ana Saloia, Mela o Bico, Pirulito a Menos… Maria Doida tinha mais nomes que o céu estrelas. Por todos se conheciam seus muitos nomes, mas o de batismo, o verdadeiro nome dela, de ninguém se soube.

Maria Doida tinha seis anos quando ganhou muitos nomes. Como toda gente, Maria Doida tinha pai e mãe e morava no alto do morro, num topo de escadaria.

Todos os dias, às seis da tarde, a menina Maria descia as escadas, à espera do pai que vinha do trabalho. Sentava-se lá embaixo, no último degrau, de banho tomado, de roupa limpinha, até que o pai apontasse na esquina, por volta das seis e meia. E ela corria até ele, para beijá-lo e abraçá-lo, e o pai subia as escadas, levando-a ao pescoço, às cavalitas, a cantar cantigas de roda, a contar histórias, para enganar o cansaço de tantos degraus.

Um dia, porém, o pai de Maria Doida não mais voltou. Dizem alguns que morreu num repente, mas do enterro ninguém tem notícia. E a menina Maria de nada soube ou não quis saber. E todos os dias, às seis da tarde, de banho tomado, de roupa limpinha, descia as escadas para esperar o pai, sentada, sozinha, no primeiro degrau. E só bem de noite, sua mãe a vinha buscar, levando-a no colo, adormecida, direto para a cama, sem reza e sem ceia.

E durante muitos e muitos anos, já morta a mãe, a velha Maria Doida ainda descia as escadas, à mesma hora, de banho tomado, de roupa limpinha, e adormecia, sozinha, sentada no primeiro degrau. E, como ninguém mais a levasse adormecida pra cima, ela passava a noite ali mesmo, e só voltava para casa aos primeiros claros do dia, ou ao primeiro canto do galo. E toda gente se habituou a isso: os desocupados e aposentados, que viviam na praça a jogar damas ou dominó, sabiam a hora de voltar a casa, quando viam Maria Doida descer para o primeiro degrau da escadaria: “Já são seis horas! Mela o Bico assinou o ponto!” E nem precisavam de relógio pra terminar o jogo ou para as despedidas.

E quando Maria Doida morreu, o governo mandou colocar um relógio na praça, deu o nome de um político à praça e à escadaria. E toda a gente se esqueceu de Maria Doida. E entrou pela perna do pato e saiu pela perna do pinto, e quem quiser que me conte outras cinco.

E ninguém foi feliz para sempre.

(Historinha retirada das páginas 21-22 do meu romance Candaína, publicado em 1984.)

(*) José Augusto Carvalho é mestre em Linguística pela Unicamp, doutor em Letras pela USP, e autor de um Pequeno Manual de Pontuação em Português (1ª edição, Bom Texto, do Rio de Janeiro, 2010, 2ª edição,  Thesaurus, de Brasília, 2013) e de uma Gramática Superior da Língua Portuguesa (1ª edição, Univ. Federal do ES,  2007; 2ª edição, Thesaurus, de Brasília,  2011.

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MODUS OPERANDI

Dilma decide pagar emendas a prestação para acalmar base aliada  

Modus operandi

Presidente discutiu estratégia com 10 ministros nesta terça; repasses de R$ 2 bilhões serão feitos em agosto, setembro e novembro  

BRASÍLIA – Pressionada por aliados e antevendo nova rebelião no Congresso a partir da próxima semana, quando deputados e senadores voltam das férias, a presidente Dilma Rousseff decidiu abrir o cofre. Em reunião com dez ministros, nesta terça-feira, 30, no Palácio da Alvorada, Dilma determinou a liberação de três lotes de emendas parlamentares até o fim do ano, em parcelas, totalizando R$ 6 bilhões. Na tentativa de driblar dificuldades previstas em votações importantes para o governo, a presidente pediu aos ministros uma lista dos principais projetos contidos nas emendas paradas em cada pasta. Embora o governo tenha anunciado corte adicional de R$ 10 bilhões no Orçamento, para cumprir a meta fiscal e recuperar a confiança do mercado na política econômica, Dilma decidiu manter a reserva para pagar emendas.

(*) Vera Rosa e Débora Bergamasco – O Estado de S. Paulo

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CHAMA O SÍNDICO

SOS Lula

__ACIR0604B - Lula barrigudo

O ex-presidente Lula está sendo estimulado por petistas graúdos a intervir no PT. Estes consideram que o partido perdeu o rumo diante dos protestos recentes.

Avaliam que os petistas estão com medo de enfrentar as próximas eleições e procuram um salvador da pátria. Lula tem feito reuniões, mas reclama que muitas versões dessas conversas distorcem suas posições.

Os segmentos esquerdistas do PT, e até mesmo alguns moderados, estão fazendo uma dura crítica ao ex-presidente Lula. Aturdidos pelas recentes mobilizações, eles não o acusam diretamente, mas atacam sua política de alianças e a responsabilizam pelas mazelas dos governos petistas.

Esses petistas querem romper o que chamam de “institucionalidade conservadora”. A confusão é tanta que, mesmo criticando a política de alianças que sustentou o governo Lula, principalmente na crise do mensalão, pregam o “Volta, Lula”.

Esses petistas acreditam que, mesmo sem maioria no Congresso e na sociedade, o PT deveria mandar os aliados às favas e governar só.*

(*) IIimar Franco – O Globo.

 

A PROPÓSITO

__acir0701a - dILMA SE MANDANDO

“A Dilma não é uma má pessoa. É uma pessoa decente, trabalhadora. Ela é meio arrogante e muito inexperiente. Muito, muito, muito inexperiente. Ou seja: isso já tava dito. Eu cansei de falar muitas vezes… e cercada de gente de quinta categoria. Esse é o grande problema. Pilotando uma aliança que é assentada na base da putaria”.

(*) Ciro Gomes, ex-ministro de Lula, em entrevista a uma emissora de rádio de Fortaleza.

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BOLA FORA

Discurso errado na hora errada

POPE/

BRASÍLIA – O encontro com o papa Francisco no Rio foi a grande chance de Dilma Rousseff aparecer bem desde que a economia derrubou 8 pontos de sua popularidade e as manifestações lhe roubaram outros 27. No mínimo, ela ganhou uma excelente foto, num dia em que as pessoas foram às ruas felizes por receber o papa –e não só para reclamar.

Nesse momento de profunda descrença nos partidos e muita crença na chegada de um papa que simboliza ruptura e humildade, o contraste só pode ter sido proposital: com o mesmo voluntarismo de sempre, Dilma não foi à reunião do diretório do PT por um motivo pueril, numa clara provocação, e foi ao papa com um discurso político e fora de lugar.

Digamos que Francisco foi Francisco, Dilma foi Dilma. Um foi o papa despretensioso, que dispensa ouro, capas de veludo e pompas para se colocar cada vez mais próximo do povo. A outra foi a presidente de expressão arrogante, num momento em que está acuada, precisa se justificar e luta bravamente para recuperar a popularidade perdida.

Enquanto a fala do papa foi essencialmente religiosa e despojada, num português agradável e cheia de adjetivos gentis para o Brasil e para os jovens, Dilma recorreu a todos os chavões lulistas, enalteceu as mudanças “que inauguramos dez anos atrás” e amplificou a versão de Lula no “New York Times”, definindo as manifestações que atingiram em cheio seus índices nas pesquisas não como a derrota que foi, mas como uma vitória sua e de Lula.

No discurso da presidente, pulularam autoelogios ao Brasil e à era petista, além de chavões de palanque: direitos, justiça social, solidariedade, fome, desigualdade, ética, transparência. Eis a dúvida: para quem Dilma estava falando? Para o papa ou para o eleitor? Para o milhão e meio da Jornada Mundial da Juventude ou para o milhão e meio de pessoas nas ruas exigindo dignidade, fim da corrupção, serviços decentes?

Valeu pela foto, não pela fala.*

(*) Eliane Cantanhêde, Folha de São Paulo.

 

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NA TERRA DOS CORONÉIS

Surto de diarreia já matou 48 pessoas em Alagoas

_acir0305a - RENAN CALHEIROS

Água, distribuída em carros-pipa, é suspeita de provocar doença; em 27 cidades, caso é tratado como epidemia

ARAPIRACA (AL) — Há uma semana, Camila, de 3 anos, está com diarreia. As dores e o sangue fizeram a mãe procurar o Hospital Regional de Arapiraca, a 125 km de Maceió. — Doía demais. Aí a gente procurou (o médico), ela recebeu o remédio e vai melhorar — disse a dona de casa Luzinira Maria da Conceição, mãe de Camila. A preocupação tem motivos: a diarreia já matou, em Alagoas, 48 pessoas desde 15 de maio; a última morte foi anteontem. Em 27 cidades alagoanas, é tratada como epidemia pela Secretaria estadual de Saúde. Outros 40 municípios estão em alerta. Segundo o Ministério Público, a maioria dos casos acontece em cidades no entorno de Arapiraca. O pico da doença foi entre 15 de maio e o final do mês de junho. No Hospital Regional, metade dos atendimentos diários era por causa da doença: — Agora, está tranquilo porque as pessoas recebem orientação. As pessoas chegavam aqui agoniadas com os sintomas e pelo que viam na TV. Tinham medo — disse o médico Ulisses Pereira. Promotores do interior de Alagoas se reuniram anteontem em Arapiraca para discutir como auxiliar na apuração das causas do surto. Os promotores vão agir em conjunto com os secretários municipais de Saúde. — Não existe ainda uma causa da diarreia. Acreditamos em alguns fatores, como a água distribuída em caminhões-pipa. Essa água é distribuída sem análise — explicou Micheline Tenório, promotora do Núcleo da Saúde do MP. Para ela, a seca pode ajudar a explicar o grande número de mortes. Segundo o governo federal, esta é a pior seca no sertão nordestino nos últimos 50 anos. O calor forte evapora ainda mais rápido a água em açudes e barreiros, onde o líquido é misturado na lama. As cisternas também podem ser foco de disseminação da diarreia. E a falta de água é constante não só no sertão. Arapiraca é uma cidade do agreste. Na sede do MP, onde acontecia a reunião, as torneiras estavam secas. Em Alagoas, as autoridades descartam um surto de cólera, doença erradicada no Brasil desde a década de 90: — Nossa preocupação é orientar. Alguns casos da diarreia estão entre crianças de 1 a 10 anos de idade ou pessoas mais velhas. Acreditamos que ações mais pragmáticas trarão mais conforto para a população — disse o procurador de Justiça Geraldo Majella.

(*) ODILON RIOS, ESPECIAL PARA O GLOBO

 

A PROPÓSITO

Mexendo no problema errado

__acir0720b - Dilna - atolada na merda

Não é questão de nacionalidade: um dos maiores médicos do Brasil foi um ucraniano, Noel Nutels, que levou a saúde pública às áreas indígenas da Amazônia. A questão é outra: é que o Governo criou uma enorme polêmica por achar que Saúde é Medicina. E não é: Medicina é a última etapa na luta pela Saúde.

A Saúde começa pela engenharia – saneamento básico. A água potável e os esgotos reduzem o número de doentes (e derrubam a mortalidade infantil). Educação é o segundo passo: quem lava as mãos e cuida da higiene básica, mantém o mosquito da dengue à distância, assegura a limpeza dos animais domésticos e cuida de seu lixo tem mais condições de evitar doenças. Condições de vida são importantes: roupas e calçados minimamente adequados, alimentação suficiente, moradia saudável fazem milagres. Se uma pessoa educada, com acesso a saneamento básico, alimentação e moradia, devidamente vacinada, mesmo assim fica doente, então cabe à Medicina cumprir seu nobre e insubstituível papel de cura.

Em resumo, não adianta trazer grandes especialistas mundiais sem que a população tenha condições adequadas de vida. Tem? Não, não tem. E não falemos de periferias: Guarulhos, na Grande São Paulo, segunda maior cidade do Estado, 13ª do país, com 1,2 milhão de habitantes, onde está o maior aeroporto internacional do país, não trata nem metade dos esgotos que lança no rio Tietê.

A propósito: sem seringas, termômetro, um medidor de pressão, um medidor de glicemia, alguns remédios, que é que se espera de um médico? Milagres? *

(*) Coluna Carlos Brickmann, na Internet.

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ACORDA, BRASIL!

Um ruidoso silêncio

00rs0712a - pesado penteado

A voz das ruas às vezes é tão rouca que fica difícil entendê-la.

Com exceção dos últimos atos de vandalismo no Leblon, perto da casa do governador do Rio, Sérgio Cabral, o resto do Brasil parece ter entrado numa espécie de compasso de espera, entre o rumor da conquista da Copa das Confederações e a expectativa da visita do papa.

O resultado prático das manifestações foi manter o preço das passagens do transporte coletivo paradas por mais algum tempo (o que segundo alguns prefeitos ameaça cidades de falência, mas ninguém se comove com isso) e mostrar que o País das Maravilhas de Alice só existia na cabeça de João Santana e sua trupe de animadores de auditório.

A verdade é que o país permanece essencialmente o mesmo, ainda que vitimado por algumas gritantes barbeiragens gerenciais, mas a percepção sobre ele mudou do dia para a noite, sem que ninguém consiga avançar sobre a essência do problema.

Ontem estávamos às portas do Paraíso, hoje vislumbramos o inferno cada vez mais próximo.

As condições econômicas objetivas do mundo mudaram bastante, em nosso prejuízo, e não existe ninguém disposto a bancar a ideia de que tudo não passa de uma “marolinha”, pois quem fez isso no passado sabe muito bem que hoje estamos sofrendo as consequências da irresponsabilidade e da leviandade de ontem.

Num texto escrito para o jornal “Valor Econômico” e debatido na Feira Literária de Paraty, o economista André Lara Rezende, um dos pais do Plano Real, resumiu com uma frase aquilo que estamos sentindo, mas não sabemos explicitar com clareza: o “mal estar contemporâneo”.

Ele deixa claro que esse mal estar não é o mesmo das praças árabes, nem do Occupy Wall Street, nem dos desempregados da crise europeia.

É alguma coisa especificamente brasileira e que a classe política que nos dirige, com sua rudimentar insensibilidade e seu primarismo pragmático, não soube nem de longe decifrar ou traduzir e menos ainda administrar.

As tentativas de solução que apareceram, como um arremedo ridículo de reforma política, a proposta de reforma constitucional exclusiva ou de plebiscito limitado, não tangenciam nem de longe os problemas do mal estar.

O governo, em sua turrona insistência em dizer que tudo vai bem quando tudo ameaça desandar, mostra sua falta de grandeza e a sua miopia estratégica, guiada exclusivamente pelo faro das urnas, deixando claro que seu projeto de transformação da sociedade não passa de um projeto de manter-se no poder a qualquer custo.

A oposição não é muito melhor do que isso. A diferença é que seu projeto envolve outros nomes.

No intervalo entre o clamor da vitória no futebol e a visita do papa, há um estranho silêncio pairando no ar, quebrado apenas pelo fragor dos vândalos do Leblon.

As ruas parecem ter mais algo a dizer. O que será?*

 

(*) Sandro Vaia é jornalista. Foi repórter, redator e editor do Jornal da Tarde, diretor de Redação da revista Afinal, diretor de Informação da Agência Estado e diretor de Redação de “O Estado de S.Paulo”. É autor do livro “A Ilha Roubada”, (editora Barcarolla) sobre a blogueira cubana Yoani Sanchez, no blog do Noblat.

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