FRACASSO PRECOCE

Bolsonaro pede socorro

(Arte de Antônio Lucena)
A que serve o texto de Paulo Portinho, 46 anos, professor de finanças e filiado no Rio de Janeiro ao partido NOVO, compartilhado ontem nas redes sociais pelo presidente Jair Bolsonaro?

Serve para justificar o fracasso do governo Bolsonaro até aqui. E para culpar pelo fracasso as corporações, o Congresso, os partidos políticos e até Supremo Tribunal Federal.

Foi por isso que Bolsonaro o distribuiu aos cuidados de quem pudesse interessar, delegando mais tarde ao seu porta-voz oficial a tarefa de ler uma explicação que ele ofereceu para ter feito o que fez:

“Venho colocando todo o meu esforço para governar o Brasil. Os desafios são inúmeros e a mudança na forma de governar não agrada àqueles grupos que no passado se beneficiavam das relações pouco republicanas. Quero contar com a sociedade para juntos revertermos essa situação e colocarmos o país de volta ao trilho do futuro promissor. Que Deus nos ajude”.

Em resumo, Bolsonaro endossa o que Portinho escreveu e pede diretamente à sociedade que o ajude a reverter a situação para pôr o país de “volta ao trilho do futuro promissor”.

É um pedido de socorro justo quando ele está acuado por derrotas colhidas no Congresso, a falta de dinheiro para fazer qualquer coisa, o ronco das ruas insatisfeitas e os rolos do seu filho Flávio.

Como candidato a presidente, Bolsonaro se disse disposto, caso fosse eleito, a quebrar “o sistema”. Como presidente, acusa “o sistema” de querer quebrá-lo, inviabilizando o seu governo.

De fato, o maior responsável por sua desgraça é ele mesmo. Candidatou-se só para ajudar à eleição dos filhos. A facada e a fraqueza dos demais candidatos o empurraram para o alto. E aí…

Aí o resto é história conhecida. Não estava pronto para ser presidente. Não tinha um projeto para o país. Carecia de nomes para compor o governo. E não queria, como não quer, compartilhar o poder.

A política não admite vácuo. Na ausência de um governo que saiba o que fazer, o Congresso se prepara para funcionar como uma espécie de governo paralelo, impondo sua agenda à falta de outra.

No que vai dar tudo isso? Numa crise institucional? Em mais um impeachment? Na renúncia forçada ou voluntária de um presidente sem condições para tocar suas tarefas? Em conflitos de ruas?

Desde antes da posse de Bolsonaro houve um esforço considerável de todas as partes envolvidas no jogo do poder para normalizá-lo como se isso fosse possível. Não deu certo até agora. Dará? Ninguém sabe.

Segue o baile, como costuma repetir o vice-presidente Hamilton Mourão.*

(*) Blog do Ricardo Noblat

OH, DÚVIDA CRUEL!!!

Promotoria não acredita que Queiroz possa ser o líder da organização criminosa

De acordo com a Promotoria, ‘não parece crível a insinuação da defesa de que a liderança da organização criminosa caberia ao próprio Queiroz, um assessor subalterno, que teria agido sem conhecimento de seus superiores hierárquicos durante tantos anos’.

IDENTIFICAÇÃO – O Ministério Público diz que ainda está pendente a identificação das lideranças do núcleo político e outros possíveis integrantes dos núcleos operacional e executivo, bem como a descoberta do destino final dos recursos desviados’.

Nos autos da investigação, Queiroz afirmou, por meio de seus advogados, ter conhecido Flávio na década de 1980, e foi convidado a exercer o cargo em 2007.

Ele justifica que, em razão de o parlamentar ter tido uma ‘margem pequena de votos’ nas eleições de 2006, teve a ideia de construir uma ‘aproximação maior com a base eleitoral nos setores de segurança pública e forças armadas’, acrescentando que, apesar de o chefe de gabinete oficial da reserva da Força Aérea Brasileira e já cuidar da relação superior e institucional da base eleitoral, coube a Fabrício Queiroz ‘gerenciar as questões relacionadas à atuação dos assessores fora do gabinete do deputado, ou seja, em caráter externo, trabalhando para ‘expandir as redes de contato e de colaboradores do deputado’.

RACHADINHA? – Queiroz diz que acertou com os comissionados que, para trabalharem no gabinete de Flávio, teriam de entregar parte dos vencimentos para que ele repassasse a outras pessoas que atuariam como assistentes informais da base eleitoral do deputado estadual.

Antes ainda de se manifestar por meio de defensores, Queiroz havia dado outra versão, em entrevista ao SBT na qual afirmou ter obtido o dinheiro com revenda de carros usados. “Sou muito bom de negócio”.

Para os promotores, as afirmações não são factíveis. “As declarações de Fabrício Queiroz, com nítido objetivo de tentar assumir sozinho a responsabilidade penal e desviar o foco da investigação que também recai sobre o ex-deputado estadual que nomeou os assessores envolvidos no esquema criminoso, não foram acompanhadas por nenhum momento de prova e pecam por diversas fragilidades e contradições”.

SEM NOMES – A Promotoria ressalta que a defesa ‘nem sequer indicou os nomes desses supostos assessores ‘externos’ ou apresentou a contabilidade de tais pagamentos’.

“Ora, caso a destinação dos recursos desviados realmente tivesse a finalidade alegada pela defesa, Fabrício Queiroz não teria dificuldades de indicar os dados qualificativos e a quantia que cada pessoa teria recebido, já que se intitulou como gerente dos ‘assessores’ de fora do gabinete”.

“Não se pode sequer alegar que não houve tempo de providenciar a relação dos destinatários dos recursos, pois a defesa técnica do investigado já teve acesso aos autos há mais de três meses e mesmo assim não juntou qualquer comprovação material de suas alegações”, afirmam os promotores.

SEM DOCUMENTOS – Eles destacam que, ’além de não ter sido fornecido pela defesa técnica nenhum documento com a identificação das pessoas e a contabilização dos recursos repassados aos supostos assessores, pela argumentação defensiva tampouco haveria qualquer controle sobre as atividades externas, supostamente desenvolvidas por essas pessoas’.

“Ou seja, não há evidências de que quaisquer pessoas tenham sido remuneradas pelos valores desviados para a conta de Fabrício Queiroz, nem de que quaisquer valores lhes tenham sido repassados, nem de que quaisquer atividades tenham sido desempenhadas pelas mesmas, inexistindo qualquer elemento de corroboração a indicar que tal alegação seja algo diverso do que uma conveniente obra de ficção.”

INCOMPATÍVEL – Segundo os promotores, a versão de Queiroz também não é compatível com os relatórios de inteligência financeira do Coaf, que mostram que ele ‘acolheu como vencimentos da Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro o valor de R$ 81 mil, enquanto os pagamentos de títulos bancários, despesas eminentemente pessoais, superam seus vencimentos, alcançando o valor de R$ 101 mil, de onde é possível concluir que, no mínimo, Fabrício Queiroz se apropriava de parte dos valores desviados dos salários dos assessores depositados em sua conta bancária para pagar despesas pessoais que superavam sua capacidade financeira’.

“Outro ponto que fragiliza sobremaneira a tese defensiva é a existência de centenas de milhares de reais movimentados através de depósitos e saques fracionados em espécie na conta de Fabrício Queiroz ao lado de transferências bancárias identificadas envolvendo outros assessores”, afirmam os promotores.

INEXPLICÁVEL – “Ora, se o investigado entendia ser lícita a conduta de exigir parte dos salários dos assessores e transferir para terceiros, por que ao invés de transferir diretamente os recursos para as contas dos destinatários realizava vários depósitos e saques em espécie de forma fracionada, em notória tentativa de burlar os mecanismos de identificação do Coaf?”, indagam.

Os promotores ainda questionam. “E por que o advogado do investigado, mais de três meses depois de ter tido acesso aos autos da investigação, ainda não sabe informar a relação das pessoas que teriam sido beneficiadas pelas contratações informais?”

E exemplificam. “Mais uma circunstância que torna incoerente a tese defensiva é o fato de o policial militar Jorge Luís de Souza, também assessor do ex-deputado estadual Flávio Bolsonaro, ter depositado a expressiva quantia de R$ 90 mil em uma única transação, em espécie, na conta bancária de sua mãe”.

MEDIDA CAUTELAR – “Portanto, todas essas circunstâncias levantam suspeitas de que os valores transferidos ou sacados em espécie pelos assessores não eram destinados para a contratação de assistentes informais como afirma a defesa de Queiroz.

Ao revés, as informações de inteligência financeira sugerem que as quantias desviadas do orçamento da Alerj eram distribuídas entre as principais lideranças do Gabinete Parlamentar, razão pela qual se justifica a presente medida cautelar para aprofundamento das investigações”, concluem.

DIZ O SENADOR – O senador Flávio Bolsonaro defende-se por meio de nota divulgada por sua assessoria dizendo que ‘não são verdadeiras as informações vazadas acerca de meu patrimônio’. Ele afirmou que continua sendo ‘vítima de seguidos e constantes vazamentos de informações contidas em processo que está em segredo de justiça’.

E o advogado Paulo Klein, defensor da família Queiroz, também rebateu as acusações. “O que dizer do MP que depois de um ano e cinco meses não tem indícios mínimos de prática criminosa? Tanto é que não existe denúncia até agora.”*

(*) Luiz Vassallo e Fausto Macedo
Estadão

ATÉ NOVO “HABEAS CORPUS DE OFÍCIO”?

José Dirceu está confiante em que vai ser solto de novo pelo STJ ou pelo Supremo

Na sede da PF na capital paranaense também está preso desde 7 de abril de 2018 o ex-presidente Lula, cumprindo pena inicial de 12 anos e um mês de reclusão – imposta pelo Tribunal Regional Federal da 4.ª Região (TRF-4), o Tribunal da Lava Jato -, e reduzida para 8 anos e dez meses pelo Superior Tribunal de Justiça.

JURISPRUDÊNCIA – A prisão do ex-ministro foi decretada pelo TRF-4, sediado em Porto Alegre, na sessão desta quinta-feira, 16. Os desembargadores negaram embargos de Dirceu e mandaram prendê-lo, seguindo jurisprudência do Supremo que autoriza execução provisória de pena de condenados em segunda instância.

O ex-ministro foi condenado em primeira instância pelo então juiz Sérgio Moro. A Lava Jato sustenta que Zé Dirceu pegou propinas em contrato superfaturado da Petrobrás com a empresa Apolo Tubulars, fornecedora de tubos para a estatal, entre 2009 e 2012, quando o petista, então réu em outra ação penal, a do Mensalão, já não ocupava cargo no governo Lula.

A força-tarefa do Ministério Público Federal revela que parte dos valores do contrato da Petrobrás, que chegaram a R$ 7.147.425,70, foi repassada a Renato Duque, ex-diretor da área de Serviços da Petrobrás, e parte a Zé Dirceu.

DE JATINHO – Para disfarçar o caminho do dinheiro, o ex-ministro e seu irmão, Luiz Eduardo de Oliveira e Silva, teriam usado a empresa Credencial para receber R$ 700 mil – o restante teria sido usado para bancar despesas com uso de aeronaves em mais de 100 vôos realizados pelo ex-ministro.

Em outra ação penal da Lava Jato, Zé Dirceu está condenado a uma pena mais grave ainda, 30 anos, 9 meses e dez dias de reclusão, pelos crimes de corrupção passiva, lavagem de dinheiro e pertinência à organização criminosa.*

(*)  Estadão

A NOVA VELHA POLÍTICA

Bolsonaro tenta fazer o que imploraram a ele

Não ceder ao Congresso. A lógica disso e os riscos

Aqui e ali ouvem-se lamentos pelo desprestígio da dita arte da articulação política. Ou da habilidade política, na versão miniaturizada. Mas até os cachorros do Pavlov aprenderam a salivar conforme os estímulos certos, e é compreensível o presidente desconfiar da receita.

Dos dois governantes experts recentes, um já completou o primeiro aniversário na prisão e o outro anda num entra e sai. Atenção: não discuto a justeza dos castigos impostos a Lula e Temer. Apenas constato.

O bonapartismo de Bolsonaro é produto de três décadas de esculacho e achincalhe da (articulação) política. Quando José Sarney lutava por votos que evitassem ele ser deposto na Constituinte, o sarneyzista Roberto Cardoso Alves explicou: “É dando que se recebe”.

A  política é assim desde que o mundo é mundo, mas foi a senha para o Robertão virar alvo dos milicianos recrutados pela opinião pública, na cruzada contra o pecado rotulado de fisiologismo. E desde então pede-se ao presidente da hora que governe sem os políticos.

Ou contra eles.

E  a coisa veio vindo assim, aos trancos e barrancos, até a Lava-Jato aparecer para pescar no tanque. Quando toda contribuição eleitoral, declarada ou não, fica suspeita se o beneficiado defende algum interesse do doador, o MP se diverte num pesque-e-pague.

Mas também isso é produto de um trabalho de anos. O eleito defender interesses de quem o ajudou com dinheiro na campanha virou de repente grave violação ética. E aí, naturalmente, o financiamento eleitoral deslizou para as sombras e a clandestinidade.

A clandestinidade é um caldo de cultura ótimo para o crime. E aconteceu. Os operadores clandestinos de recursos eleitorais passaram a querer, e pegar, um naco no negócio. E aí todo o sistema político foi contaminado e ficou vulnerável para valer.

E aí veio a recessão de 2015, e foi dito ao povo que dinheiro tinha, mas infelizmente estava sendo desviado pela corrupção e pelo desperdício. No Brasil tem muito dos dois, mas se ambos desaparecessem agora o problema fiscal continuaria praticamente do mesmo tamanho.

Mas vá você argumentar, depois de anos de lavagem cerebral. O Brasil está convencido: um governo que não roube será capaz de prover serviços púbicos de qualidade e manter as contas organizadas, algo essencial para o desenvolvimento. E isso sem aumentar impostos.

Então, dada a situação econômica ruim -e provavelmente vai piorar, antes de talvez melhorar-, se o presidente deixar-se enredar numa teia política e for acusado de ser o responsável pelo sofrimento do povo, por ter cedido à velha política, ele estará a caminho da guilhotina.

O que não será um grande problema para a elite e a opinião pública, desde que Bolsonaro já tenha entregue a mercadoria, a reforma da previdência. O ex-mito seria descartado a um custo quase zero, e outros abocanhariam a máquina rumo a 2022.

É razoável Bolsonaro não achar graça nisso, pois é humano que queira continuar com a cabeça politicamente grudada no pescoço. E é natural ele imaginar que se sobreviver aos primeiros quatro anos poderá ganhar mais quatro. Tem sido a lógica desde que a reeleição foi introduzida.

Daí o presidente resistir à divisão de poder com o Congresso. É mais saboroso ter tudo para si. E seria arriscadíssimo aparecer daqui a pouco como sócio de alguma confusão. Já bastam as dele e do entorno vindas do passado. Mas nestas ele não pode nem ser investigado.

E o Legislativo tampouco vai conseguir achar saídas fáceis. Não tem clima social ou político para pautas-bomba. A última ameaça do dito centrão é votar uma reforma da previdência da lavra dos congressistas. E impor ao governo uma agenda econômica pró-mercado mas nascida no Legislativo.

E lá são ameaças? Não

será isso exatamente o que o governo quer? Um parâmetro sempre importante da política é a resposta à pergunta “se nada acontecer, acontece o quê?”. Se nada acontecer, é provável que alguma reforma da previdência passe? Sim.

Ou seja, a relação custo-benefício de se meter agora numa negociação de divisão de poder com o Congresso seria péssima para o presidente da República. Mas a condição para o plano andar é outros fazerem o serviço legislativo. Ou virá a narrativa de que a confusão está atrapalhando a economia.

O presidente parece acreditar que o Congresso não tem saída a não ser aprovar a pauta do mercado.

Na dúvida, o governo vai tratar de reocupar a rua. Depois das maciças manifestações do dia 15, precisa restabelecer o equilíbrio. E assim pressionar o Congresso de fora para dentro. Temia-se isso da esquerda. Mas quem está fazendo é a direita. Comum acontecer.

Pode dar errado? Só se a esquerda topar juntar com a direita ex-bolsonarista para levar ao poder alguém “de centro”. Improvável. Ou se vier uma ruptura intestina. Mas isso ainda não está no horizonte próximo.*

(*) Alon Feuerwerker é jornalista e analista político/FSB Comunicação,  no blog do Ricardo Noblat

DANÇANDO NA PROA DO TITANIC

O contingenciamento da razão

Existem notícias, existem notícias falsas e existem notícias alternativas. O governo é especialista em fabricar as últimas. A polêmica em torno do contingenciamento de verbas destinadas ao MEC é, pra variar, mais uma dessas notícias alternativas. Tudo depende de como se encaixam os chocolatinhos na história: 3,5% do todo ou 30% da parte?

De acordo com o ministro da Educação, a economia incide sobre a reduzida parcela discricionária do orçamento. A maior parte não será nem poderia ser tocada: é folha de pagamento, dívidas, benefícios. Esse é o ponto: não pode haver contingenciamento no orçamento fixo. A poupança recai na volátil quantia destinada à pesquisa e à estrutura; sobre a parte, não sobre o todo, mas é justo sobre a parte que interessa na discussão – e é esse o cálculo que importa. São legítimas as preocupações de professores e estudantes.

Assim, a verdade é que a imprensa não mentiu nem distorceu coisíssima nenhuma. Tão somente fez o desagradável papel de imprensa – que é diferente daquele exercido pela assessoria de imprensa. (Muita gente distraída tem confundido as atividades e trocado uma pela outra.) Nem por isso deixo de reconhecer que o governo precisa reduzir o investimento público por certo período para cumprir a meta fiscal. Outros governos fizeram o mesmo, Dilma inclusive. Fique registrado nos autos aos desmemoriados seletivos.

Registre-se também que Abraham Weintraub errou quando quis associar o corte orçamentário à balbúrdia de estudantes em algumas universidades e, em seguida, quando tergiversou a respeito de cursos de filosofia e sociologia. Errou porque só depois de muito samba atravessado se dispôs a tratar da necessidade técnica de reservar parte do dinheiro. Devia ter começado pelo fim. O governo erra até quando acerta.

Resultado da bagunça? Democracia, aquela chatice. Manifestações volumosas contra a medida e, para não perder a viagem, contra o governo que a propõe. Por mais que tenham sido organizadas por sindicalistas, petistas, antibolsonaristas e espécimes semelhantes, é inegável que a quantidade de gente insatisfeita envia sinal de alerta: os “idiotas úteis” são em número maior do que o esperado. Há mais coisas em jogo, só não vê quem não quer, o asfalto está quente. Quem com a rua fere, com a rua será ferido.

Bolsonaro se elegeu dançando sobre o caos, sem chão político sobre o qual pisar. Seu partido é um saco-de-gatos, suas alianças são de ocasião, sua agenda foi arranjada às pressas, sua habilidade de negociar é nenhuma. Aproveitou o vácuo deixado pela Lava Jato, apresentou como nova uma candidatura velha e, depois de sonhos intranquilos, acordou metamorfoseado num terrível presidente.

Duvido que ele acreditasse em si mesmo. Acontece que ganhar é fácil, governar é difícil, e o mesmo caos que o elegeu pode devorá-lo. Dizia Nietzsche: quando você olha para o abismo, o abismo olha para você. Em períodos recessivos, o contingenciamento se justifica. Menos o contingenciamento da razão.*

(*) Gustavo Nogy, Gazeta do Povo

 

IDADE DAS TREVAS

Alunos de colégios militares são proibidos pelo Exército de participar de Olimpíada de História
Estudantes atribuem a proibição à tentativa de evitar que eles tenham contato com questões que façam alusão à Ditadura Militar. Competição é organizada pela Unicamp


BRASÍLIA – Os 14 mil alunos do Sistema Colégio Militar foram proibidos de participar da 11.ª Olimpíada Nacional de História do Brasil. O Departamento de Educação e Cultura do Exército atribuiu a decisão ao fato de a o evento “não atender ao interesse da proposta pedagógica do Sistema Colégio Militar”. Representantes tiveram acesso ao conteúdo  de algumas questões e consideraram inadequado para seus alunos.

O Sistema Colégio Militar informou, em nota,  que “devido ao conteúdo apresentado em algumas questões, optou-se pela não participação no evento, por não atender ao interessa da proposta pedagógica [das suas unidades]”. No entanto, não informou quais questões ou conteúdos não considerou adequado.

A competição é coordenada pelo Departamento de História da Universidade Estadual de Campinas, com o apoio do Ministério da Ciência, Tecnologia, Inovação e Comunicações e do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico Tecnológico. São várias etapas de prova, até a disputa final, programada para o segundo semestre, em Campinas.

O Estado apurou que, entre os pontos que desagradaram militares estava o uso de palavrões em textos das questões. A proibição  provocou indignação de estudantes. Eles ressaltaram que a medida destoa da conduta adotada nos colégios do sistema, que sempre foi o de incentivo à participação nesse tipo de competição.

Alunos atribuem a proibição à tentativa do departamento de evitarem que alunos do sistema tenham contato com questões que façam alusão ao período da Ditadura Militar. Professores foram encarregados de transmitir o comunicado da proibição para os alunos. Não foi informada qual a punição para aqueles que desrespeitarem a proibição e participarem das etapas de seleção.

A coordenação da olimpíada informou que a proposta da competição “tem auxiliado a milhares de estudantes em seu desempenho escolar, no Exame Nacional do Ensino Médio (ENEM), em vestibulares e concursos”. Segundo a coordenação, as equipes dos colégios militares participam do evento desde a primeira edição, em 2009, “com brilhantismo, tendo já obtido inúmeras medalhas”.

A coordenação também destacou que a participação é opcional e que não possui nenhuma ingerência sobre as decisões pedagógicas das escolas participantes. Ressaltou ainda que o objetivo principal do projeto é “incentivar o desenvolvimento da análise crítica e discussões sobre os mais variados temas”. Informou que as questões e atividades “são elaboradas com base nas Diretrizes Curriculares Nacionais, Base Nacional Comum Curricular (BNCC) e Parâmetros Curriculares Nacionais (PCNs)”.

De acordo com a coordenação, neste ano, 73 mil alunos e professores se inscreveram na competição, o que corresponde a 18,5 mil equipes. Desse total, 16,6 mil grupos seguiram para a segunda fase, que teve início na segunda-feira, 13.*

(*) Lígia Formenti , O Estado de S.Paulo

SÓ BOLA FORA

Nos EUA, Bolsonaro mira base ideológica, mas volta de malas vazias
Em Dallas, presidente prestou continência à bandeira americana, criticou a imprensa e o PT, mas não levou nenhuma conquista econômica ou diplomática


Mais de mil empresários tiraram do bolso ao menos US$ 1,5 mil para encontrar Jair Bolsonaro em jantar de gala em Nova York. Os ingressos para festas e palestras se esgotaram em tempo recorde. Mas empresários e investidores ficaram a ver navios. A maior cidade dos EUA é símbolo de diversidade e ativistas organizaram um boicote ao presidente em razão de suas posições sobre raça, gênero e meio ambiente. A novidade é que foram reverberadas por Bill de Blasio, prefeito de Nova York. O boicote fez a homenagem mudar de lugar e perder o glamour de ter uma ossada de baleia como cenário, no tradicional Museu de História Natural.

Bolsonaro desistiu de Nova York, mas De Blasio continuou provocando. Ele chamou Bolsonaro de “valentão que não aguenta uma briga”. A Câmara de Comércio Brasil-EUA, que escolheu Bolsonaro como “pessoa do ano”, tentou colocar panos quentes e o Itamaraty buscou uma saída. Havia consenso que Bolsonaro deveria receber o prêmio “em solo americano”. E foi assim que ele chegou a Dallas, no conservador Estado do Texas. Não que o prefeito da cidade concorde com Bolsonaro, mas ele não se opôs.

Em uma semana, o governo brasileiro improvisou uma agenda com dois compromissos: um almoço com 100 empresários, para receber o pêmio, e um encontro com o ex-presidente George W. Bush. Outras duas reuniões foram sendo confirmadas no meio da viagem, que durou pouco mais de 30 horas. Enquanto isso, em Nova York, Rodrigo Maia, Davi Alcolumbre e Dias Toffoli sinalizavam para investidores que a articulação com o Planalto melhorou (como você lê nessa entrevista), que a reforma da previdência será aprovada e os Poderes estão em harmonia. O otismismo durou até Bolsonaro desembarcar no Texas.

Em Dallas, com declarações destemperadas, segundo esta análise, o presidente deu força às ondas que criavam o seu próprio tsunami. Primeiro, chamou os manifestantes contra o arrocho na educação de “idiotas úteis”. Esse link ajuda a entender o que causou protestos em 240 cidades do Brasil. Depois, frente ao avanço das investigações a Flávio Bolsonaro, ele desafiou: “Venham para cima de mim”. Este editorial critica o fato de Bolsonaro transformar “debates importantes em brigas de rua”.

Enquanto isso, o governador de São Paulo, João Doria, assumiu o protagonismo – saiba aqui como foi a homeangem à “pessoa do ano” sem a pessoa do ano. Circulando em meio ao grupo de apoiadores que acampavam no hotel de Bolsonaro, ministros faziam questão de dizer que a visita ao Texas tirou a má impressão do imbróglio de Nova York.

Em Dallas, Bolsonaro prestou continência à bandeira americana, dialogou com sua base ideológica, fez campanha contra a candidatura de Cristina Kirchner na Argentina, criticou a imprensa e o PT. Mas, na bagagem de volta, não levou conquistas econômicas ou diplomáticas. E, com o dólar acima de R$ 4, provavelmente, também não levou nenhuma compra.*

(*) Beatriz Bulla, Estadão

REMEMBER COLLOR?

Texto de Bolsonaro é chamamento para a rua em favor do filho Flávio

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A explicação do presidente Jair Bolsonaro para ter distribuído um texto não assinado, em que afirma que o país “é ingovernável” fora dos conchavos, serve como uma pista para onde ele quer chegar.

Releia (grifo do blog]:

“Venho colocando todo meu esforço para governar o Brasil. Infelizmente os desafios são inúmeros e a mudança na forma de governar não agrada àqueles grupos que no passado se beneficiavam das relações pouco republicanas. Quero contar com a sociedade para juntos revertermos essa situação e colocarmos o país de volta ao trilho do futuro promissor. Que Deus nos ajude!”

Entendeu? Explico: Nas redes sociais, os seguidores de Bolsonaro estão convocando uma manifestação em apoio ao governo para o próximo dia 26. “Quero contar com a sociedade” é um chamamento em conjunto com as redes sociais bolsonaristas.

E ocorre no mesmo momento em que o presidente se vê acossado por acusações contra seu filho senador, Flávio Bolsonaro (PSL-RJ).

O Ministério Público Federal pediu nesta semana o rompimento do sigilo do filho “Zero um” do presidente e seus funcionários quando deputado estadual.

Segundo os procuradores, Flávio montou um esquema de lavagem de dinheiro em seu gabinete no Rio de Janeiro e abocanhou parte dos salários dos funcionários. A famosa “rachadinha”.

“Quebraram o sigilo bancário dele desde o ano passado e agora, para dar um verniz de legalidade, quebraram oficialmente o sigilo dele. Mais, se eu não me engano, 93 pessoas (…) O objetivo: querem me atingir”, reagiu assim o presidente na quinta-feira (16) que soube da quebra de sigilo.

Tudo junto e misturado:

O filho acossado; os bolsonaristas nas redes para convocar apoiadores em passeatas;

o presidente divulga texto em que se diz cercado pela “velha política”;

e Bolsonaro chama os apoiadores –”Quero contar com a sociedade”….

Foi mais ou menos o que fez o ex-presidente Fernando Collor de Mello quando seu irmão Pedro denunciou a corrupção do Palácio.

Collor pediu apoio da sociedade e rogou para que seus defensores fossem às ruas vestindo verde-e-amarelo.

O final da história todos sabem. As ruas vestiram-se de preto e o luto abriu alas para o impeachment.*

(*) Blog do Tales Faria, UOL.

UM PAÍS DA FUZARCA

A hora do vendaval
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É uma das maiores investigações financeiras de nossa História: por ordem do juiz Flávio Nicolau, do Tribunal de Justiça do Rio, foi quebrado o sigilo bancário e fiscal do senador Flávio Bolsonaro, o filho 01 do presidente da República, de sua esposa e filho, da empresa em que é sócio da esposa, de 88 ex-funcionários, de seu ex-assessor Fabrício Queiroz, esposa e filhas. O sigilo fiscal está quebrado de 2008 a 2018 e o bancário de 2007 a 2018.

Flávio Bolsonaro diz que a quebra dos sigilos servirá para explicar um vazamento ilegal já ocorrido; e que o objetivo é atacar seu pai. A explicação oficial é investigar a movimentação de R$ 1,2 milhão por Fabrício Queiroz, em um ano (em três anos, R$ 7 milhões). Há um depósito de Queiroz na conta de Michele, esposa de Bolsonaro; e Queiroz disse que pedia parte do salário do pessoal do gabinete para contratar, sem registro, mais assessores. Há 48 depósitos de R$ 2 mil cada na conta de Flávio Bolsonaro. A suspeita é de que houvesse entrega ao chefe de parte do salário de cada funcionário.

É investigação para durar muito tempo: pesquisar contas bancárias de mais de dez anos, de 95 pessoas, é exaustivo. Não deve haver surpresas enquanto as investigações evoluem. Mas haver investigações contribui para a piora do clima político, e talvez leve parlamentares de hábitos flexíveis a exigir mais do Governo em troca de seu apoio e de seus votos. Em bom português, haverá quem exija tratamento mais generoso por seu apoio.

Coincidência

A investigação sobre Flávio Bolsonaro acontece na ocasião em que está próxima a votação da reforma da Previdência. Acontece também, ao mesmo tempo, a delação premiada de Henrique Constantino, um dos donos da empresa aérea Gol, em que cita propinas que teria pago a Rodrigo Maia, hoje presidente da Câmara e principal articulador da votação da reforma. No Governo anterior, faltavam poucos dias para a votação quando explodiu a delação premiada de Joesley Batista, que gravou conversa com o presidente Michel Temer (com isso, a reforma da Previdência ficou para o Governo seguinte).

Mas, afinal de contas, coincidência é coincidência. Acontece, não?

Temer livre

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Como de hábito, haverá choro e ranger de dentes. Mas a libertação de Michel Temer nos tribunais superiores era inevitável. Isso não quer dizer que não tenha cometido os atos de que o acusam, ou que não possa, mais à frente, vir a ser considerado culpado (e, aí sim, receba uma sentença de prisão). Mas estava preso sem julgamento. Prisão preventiva não é antecipação de pena e pode ser aplicada em circunstâncias específicas: destruição de provas, por exemplo, perturbação da ordem pública, ameaça de fuga… bom, se Temer não destruiu provas como presidente, iria fazê-lo agora? Nunca tentou buscar asilo ou sair do país. Portanto, que espere o julgamento em liberdade. Se condenado, a coisa muda. Enquanto não for condenado, fica livre.

O cerco a Perillo

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O ex-governador de Goiás, Marconi Perillo, do PSDB, derrotado amplamente nas eleições, vê apertar-se o cerco do Ministério Público sobre ele. Na semana passada, o MP moveu-lhe mais uma ação civil pública por improbidade administrativa (servidores eram contratados sem concurso público). Há 17 ações do MP contra Perillo, desde junho de 2018. Incluem de contratação de funcionário fantasma até irregularidades na aprovação de leis. Perillo viu seu candidato a governador ser batido por Ronaldo Caiado, não conseguiu se eleger senador, embora houvesse duas vagas, e na eleição presidencial foi o coordenador da candidatura tucana de Geraldo Alckmin.

O caminho de Moro

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O presidente Jair Bolsonaro criou um problema para seu superministro da Justiça, Sérgio Moro: garantiu que ele será indicado para o Supremo tão logo surja uma vaga, e deixou entrever que houve um compromisso seu com Moro para indicá-lo. Moro rapidamente disse que não houve acordo algum e que, quando houver alguma vaga no STF, Bolsonaro poderá ou não indicá-lo e ele poderá ou não aceitar um eventual convite.

Mas abriu-se campo para que políticos como Gleisi Hoffmann, presidente nacional do PT, voltassem ao tema de que Moro condenou Lula a pedido de Bolsonaro. A tese é falsa: primeiro, porque Moro condenou Lula pela primeira vez quando ninguém imaginava que a candidatura Bolsonaro cresceria como cresceu: segundo, porque todas as sentenças de Moro foram confirmadas pela segunda instância, no Tribunal Regional Federal de Porto Alegre, e os recursos de Lula foram seguidamente recusados nos tribunais superiores.

O trabalho de Moro

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Quando Moro assumiu, Bolsonaro sabia que ele era indemissível. Mas o trabalho que desenvolve ainda não apareceu para o público. Até seu pacote anticorrupção está sendo analisado junto com um anterior, de Alexandre de Moraes, e a tendência é unificá-los. Moro não é unanimidade em Brasília.*

(*) Coluna Carlos Brickmann