APARELHAMENTO EVANGÉLICO

Bolsonarismo captura conselho de direitos humanos

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A procuradora Deborah Duprat é conhecida por defender os direitos humanos e o respeito às minorias. Sua independência honra o Ministério Público, mas tem incomodado o governo Bolsonaro.

Nos últimos meses, Duprat se opôs a medidas como a liberação do porte de armas, a nomeação de militares para a Comissão de Anistia e a ordem para comemorar o golpe de 1964 nos quartéis. Foi retaliada com ataques e tentativas de intimidação.

Em abril, sete deputados do PSL se organizaram para torpedeá-la na Câmara. Em agosto, um deles pediu a abertura de processo disciplinar contra a procuradora. Alegou que ela exerceria “atividade político-partidária” ao emitir notas técnicas contra projetos que considera inconstitucionais.

Na segunda-feira, Duprat levou uma rasteira em sua própria instituição. Sem aviso, o procurador-geral Augusto Aras decidiu removê-la do Conselho Nacional dos Direitos Humanos (CNDH). Nomeou para seu lugar o procurador Ailton Benedito, que se notabilizou pela militância bolsonarista nas redes.

A troca surpreendeu as organizações da sociedade civis que integram o conselho. Em nota, 176 entidades acusaram Aras de praticar um “ato autoritário”. “Não é natural extinguir conselhos de participação, não é natural cassar mandatos de conselheiros, não é natural nomear presidentes biônicos”, afirma o documento.

O procurador-geral não agiu sozinho. Articulou a manobra com a ministra Damares Alves, que representa a bancada evangélica no governo. Duprat assumiria a presidência do CNDH em janeiro. Com seu afastamento, o cargo deverá ser entregue a um aliado do Planalto.

“Há uma intenção clara de ferir a autonomia do conselho. O que parece é que o procurador-geral da República está a serviço do governo”, diz o atual presidente do órgão, Leonardo Pinho.

Com a tomada do CNDH, o bolsonarismo dá mais um passo para esvaziar e capturar os órgãos de controle. Sem freios, o governo segue a cartilha dos regimes autocratas. Desta vez, com a ajuda do chefe do Ministério Público Federal.*

(*) Bernardo Mello Franco – O Globo

CAPITÃO DO MATO

Justiça suspende nomeação de presidente da Fundação Palmares

Nomeação de Sérgio Camargo ‘põe em sério risco os princípios da equidade, da valorização do negro e da proteção da cultura afro-brasileira’, diz juiz

 

O juiz Emanuel José Matias Guerra, da 18ª Vara Federal do Ceará, acatou a Ação Popular proposta contra a decisão do governo de Jair Bolsonaro de nomear Sérgio Camargo presidente da Fundação Palmares. Em despacho de nove páginas assinado nesta quarta, o magistrado suspende o ato do ministro da Casa Civil, Onyx Lorenzoni, que colocou Camargo no cargo.Ao fundamentar a decisão, o juiz Guerra argumenta que a detida análise das publicações juntadas pelo autor da ação civil, Helio de Sousa Costa, “aponta para a existência de excessos” em declarações do chefe da Fundação Palmares. “Não serão aqui repetidos alguns dos termos expostos nas declarações em frontal ataque as minorias cuja defesa, diga-se, é razão de existir da instituição que por ele é presidida”, registra o juiz.

O magistrado registra, porém, a “título ilustrativo”, declarações de Sérgio Camargo. “Se refere a Angela Davis como ‘comunista e mocreia assustadora’, em que diz nada ter a ver com ‘a África, seus costumes e religião’, que sugere medalha a ‘branco que meter um preto militante na cadeia por crime de racismo’, que diz que ‘é preciso que Mariele morra. Só assim ela deixará de encher o saco’, ou que entende que ‘Se você é africano e acha que o Brasil é racista, a porta da rua é serventia da casa’”.*

(*) Robson Bonin – veja.com

NEGÓCIO DA CHINA, É?

‘Nem chineses estão dispostos a pagar preço da carne’, diz CNA

Os preços médios da carne bovina importada pela China saíram de US$ 4.600 por US$ 5.200 por tonelada

 

BRASÍLIA – O preço da carne bovina chegou a um patamar que até mesmo os chineses não estão dispostos a pagar, o que deve provocar um recuo no valor, inclusive no Brasil, segundo a Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA).

Os preços médios da carne bovina importada pela China saíram de US$ 4.600 por tonelada para US$ 5.200 por tonelada, com picos próximos aos US$ 6 mil por tonelada. “São valores recordes que nem os chineses estão dipostos a pagar. Por isso, haverá o ajuste”, disse o superintendente técnico da CNA, Bruno Lucchi.

Mas o presidente da CNA, João Martins, alertou que os preços não voltarão aos patamares passados. “Ninguém espera que voltem os preços de 60 dias atrás”, disse Martins em evento de balanço anual da entidade, em Brasília. A própria ministra da Agricultura, Tereza Cristina, disse ao Estado que o preço da carne não volta ao patamar anterior.

Carne
Aumento das exportações para a China contribuiu para o aumento da carne vermelha no último mês. Foto: Nilton Fukuda/Estadão
No período citado por Martins, a arroba do boi em São Paulo subiu cerca de 45%, de uma média de R$ 160 para R$ 230, e boa parte desse reajuste chegou ao varejo. A disparada ocorreu depois do aumento das importações chinesas, da redução na oferta brasileira e do crescimento do consumo no mercado interno.

De acordo com o presidente da CNA, o ajuste será feito pelo consumidor e pelo mercado. Ele lembrou que o avanço favorece os pecuaristas, já que os preços estavam “achatados e custo de produção em alta”.  Além do aumento nas importações chinesas, a redução na oferta brasileira e o crescimento do consumo no mercado interno motivaram a disparada no preço da carne bovina.

Lucchi afirmou que não há possibilidade de falta de carne no mercado interno, pois o volume exportado do produto em novembro, pico das vendas, correspondeu a 22% a 23% da oferta total. “Se tomarmos esse volume como base, vamos exportar 28% da produção em 2020. Mas a capacidade de reação do pecuarista é grande e vamos ter aumento na oferta”, explicou.

Este ano houve um aumento de 39,5% das exportações da carne bovina brasileira para a China, mercado que representa 24,6% de todas as vendas do produto brasileiro. As vendas de suínos cresceram 49% para a China e as de frango avançaram 27,7%.

Segundo Lucchi, as carnes suína e de frango seguiram os aumentos “não tão proporcionais como o da bovina” e a entidade acredita que no início de 2020 haverá o ajuste também nesses produtos. “Normalmente, o consumo interno cai no início de cada ano. Isso está bem equalizado, porque a capacidade de resposta do setor produtivo é enorme.”

Ásia: o grande mercado
A CNA avalia que a Ásia continuará como “um importante parceiro do agronegócio brasileiro” em 2020, com aumento de exportações e inclusão de novos produtos na pauta de comércio, como frutas, lácteos, produtos apícolas, cafés especiais e pescados. Dos principais destinos de exportação do setor em 2019, três são asiáticos – China, Japão e Irã – e os outros são Estados Unidos e União Europeia. Esses cinco mercados responderam por 63% das vendas externas do setor.

O maior aumento observado foi para o Japão. De janeiro e outubro de 2019, o país importou do Brasil US$ 913,9 milhões a mais do que no mesmo período de 2018. Outro destaque é a China, principal importador de carnes de frango, bovina e suína do Brasil. O país asiático enfrentou problemas de abastecimento, com a peste suína africana, e foi obrigado a importar proteínas animais de vários outras nações, principalmente do Brasil.

Em 2019, a soja em grão liderou o ranking das exportações brasileiras, com US$ 23,2 bilhões em vendas. Em seguida vieram celulose (US$ 6,56 bilhões), milho (US$ 5,92 bilhões), carne de frango in natura (US$ 5,5 bilhões), e carne bovina in natura (US$ 4,98 bilhões).*

(*) Gustavo Porto, O Estado de S.Paulo

SÓ DE QUATRO…

Bolsonaro sobre Trump: não é porque um amigo falou grosso que vou dar as costas

Norte-americano disse no Twitter que vai retomar tarifa sobre aço e alumínio do Brasil; Bolsonaro disse que espera chegar a um ‘bom termo’ com os EUA

BRASÍLIA – O presidente Jair Bolsonaro disse nesta quarta-feira, 4, que não está decepcionado com o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, pois o aumento de tarifa sobre aço e alumínio ainda não se concretizou.

“Não tem decepção porque não bateu o martelo ainda. Não é porque um amigo meu falou grosso numa situação qualquer que eu já vou dar as costas para ele”, disse Bolsonaro em frente ao Palácio da Alvorada.

Bolsonaro disse acreditar em Trump e esperar chegar em um “bom termo”. “Não tenho uma idolatria por ninguém. Tenho uma amizade… não vou falar amizade, não frequento a casa dele, nem ele a minha, mas temos um acordo, com contato bastante cordial”, declarou.

Trump escreveu no Twitter na última segunda-feira, 2, sobre a intenção de aumentar tarifas sobre aço e alumínio de Brasil e Argentina, como forma de compensar a desvalorização da moeda desses países. A proximidade com Trump é frequentemente apontada pelo governo brasileiro como uma conquista da gestão Bolsonaro.

Bolsonaro não respondeu se já ligou para Trump. “Vou dar uma dica para você: se eu já liguei para ele ou não, você não vai ficar sabendo. Tem certas questões que são de Estado, não adianta eu dar uma de pavão misterioso aqui, liguei, não liguei, falei não falei”, afirmou Bolsonaro. Na segunda-feira, 2, o presidente disse que tinha “canal aberto” com Trump.

“Vejo com certo exagero o que está acontecendo”, disse Bolsonaro, sem deixar claro se se referia ao tuíte de Trump ou à repercussão do caso. “Por enquanto não foi sobretaxado nada, só tem a promessa dele no Twitter.”

Bolsonaro negou que o País esteja desvalorizando artificialmente o real. “O mundo está globalizado, a própria briga comercial (entre) Estados Unidos e China influencia o preço do dólar aqui.”

“Agora, somos pobres na história. Não sei quantas vezes a economia deles é maior do que a nossa, várias vezes. Nós estamos com bodoque, estilingue, os caras estão com uma 50, tá certo?”, declarou Bolsonaro.

O real foi a quarta moeda que mais perdeu valor em relação ao dólar no mês de novembro, segundo levantamento da Austin Rating que compara as variações de 121 moedas no mundo. O real se desvalorizou 5,2% frente ao dólar em novembro, ficando atrás somente do bolívar soberano, da Venezuela (-36,1%), do kwacha, da Zâmbia (-9,3%), e do peso do Chile (-8,1%).*

(*) Mateus Vargas, O Estado de S.Paulo

A VITÓRIA DA BOÇALIDADE

Novo presidente da Biblioteca Nacional será guardião de obras feitas na fase da ‘Terra plana’

Acervo tem peças que datam do século 11; nomeação de Rafael Nogueira é mais um capítulo na vasta história de descaso vivida pela instituição

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BRASÍLIA – O desconhecido professor Rafael Nogueira, escolhido para chefiar a Biblioteca Nacional, poderá ler no novo emprego um número expressivo de obras do tempo em que a ciência ainda considerava a Terra plana. É um deleite para seguidores do escritor Olavo de Carvalho. Afinal, o guru da família Bolsonaro lhes ensinou a questionar imagens do universo produzidas pela Nasa. No velho centro do Rio, o prédio da biblioteca guarda uma das maiores coleções de incunábulos – livros dos primórdios da imprensa – e pergaminhos de ovelhas feitos séculos antes de Nicolau Copérnico apresentar a teoria de que o planeta girava em torno do sol, alguns com mil anos de existência.

A nomeação de Nogueira é mais um capítulo de uma história de descaso vivido pela biblioteca, com relatos de corredores inundados por chuva e problemas de um sistema ineficaz contra incêndios. Recentemente, a casa passou por uma reforma orçada em R$ 10 milhões, valor inferior ao de muitos livros guardados em suas estantes de aço e jacarandá. O acervo enfrenta a falta de investimentos de atualização e preservação. Com rosto redondo, baixinho e atarracado, características físicas semelhantes à figura de Dom João VI, o rei que trouxe a biblioteca para o Brasil e tem um busto no salão de entrada, o professor terá o desafio de operar um esquema complexo para impedir o roubo de obras visadas pelo crime internacional de arte, que chegam a valer milhões de dólares.

É pouco dizer que a Biblioteca Nacional guarda a história do Brasil. A instituição, aberta a partir de alguns milhares de livros da Biblioteca Real, de Lisboa, e que hoje chega a nove milhões de obras, preserva uma memória da humanidade. Muitas joias estão reunidas num mesmo espaço. Um manuscrito grego dos evangelhos do século 11. O livro Divina Proporção, do padre italiano Luca Pacioli, ilustrado pelo amigo dele Leonardo da Vinci, de 1509. As primeiras edições de Os Lusíadas, de Camões, da Arte da Gramática, do Padre Anchieta, do século 16, e dos romances de Machado de Assis, dos séculos 19 e 20. Os volumes da Encyclopedie Française, referência nos estudos da revolução de 1789.

Sem experiência em preservação e acervo, o professor ficará com as chaves de um cofre que guarda duas Bíblias de Mongúcia. Os livros começaram a ser editados por Gutenberg e foram terminados por seus sócios, em 1462, na Alemanha. Até agora, só deixaram o cofre com escolta da Polícia Federal e holofotes, como presas de operação judicial. Um exemplar de 1455 da Bíblia do pai da imprensa apareceu em leilão, pela última vez, há 20 anos, quando foi arrematada por US$ 12 milhões.

O imponente prédio da Cinelândia guarda ainda o primeiro livro de caça-palavras, escrito por Hrabunus Maurus, em 1605, o melhor da literatura erótica do século XIX, os mapas pioneiros das Américas, o mais amplo conjunto de imagens do País, com gravuras de Goya e Piranesi, fotografias colecionadas pela imperatriz Tereza Cristina e retratos de polacas e italianas que viviam no mercado do sexo e fascinavam o Rio no começo da República. Lá ainda estão obras de escritores de diferentes tempos, de Sérgio Porto, o autor do Febeapá, o festival de besteira que assola o país, a Manoel Antonio de Almeida, do Memórias de um Sargento de Milícias, escritores de temas atuais como hipocrisia e malandragem.

Foi a República criticada em aulas do professor Rafael Nogueira, um monarquista convicto, que construiu, entre 1905 e 1910, o atual prédio da biblioteca. São quatro andares de obras censuradas e censuráveis em tempos de intolerância política e religiosa. Muitas escaparam da inquisição em Portugal. Preservadas pela própria realeza que apoiava os padres, esses livros sobreviveram na instituição. Menos sorte tiveram jornais comunistas que, num tempo mais recente e não menos obscuro, na ditadura militar (1964-1985), foram escondidos por funcionários no porão e acabaram destruídos pela autoritária umidade. Por falar em intolerância, as estantes expõem livros de viajantes do século 19 que registraram costumes dos índios, mapas de quilombos e navios negreiros, livros homoeróticos e romances escritos por mulheres ainda no século 18.

A hemeroteca da instituição é, possivelmente, a mais robusta máquina brasileira e lusitana do tempo, com força para atravessar cada dia do século 20. Ali estão jornais e revistas da época em que cidades como Rio e São Paulo rodavam mais de 15 publicações diárias.

Os visitantes da biblioteca costumam se dividir em dois grupos: o dos pesquisadores, com seus blocos de papel e lápis e o dos turistas e dos atraídos pelas colunas e vitrais da fachada. Mesmo quem aparece com frequência no setor de obras raras, no pavimento superior, prefere usar a tortuosa escadaria com tapete vermelho aos elevadores. É o caminho mais rápido na viagem de contemplação do tempo.

Entre 2004 e 2005, na presidência do colecionador Pedro Corrêa do Lago, a biblioteca sofreu roubos investigados até hoje. Litogravuras foram parar no acervo do Itaú. O banco negociou um acordo e devolveu os desenhos. Mas, desde os terremotos em Lisboa, em 1755, e a fuga da família real portuguesa para o Brasil, em 1808, quando os livros raros foram abandonados no porto do reino e só depois embarcados nos porões dos navios, um dos acervos culturais mais importantes do mundo não enfrentava momento tão difícil como agora.*

(*) Leonencio Nossa, O Estado de S. Paulo

ÁVIDA GANÂNCIA

Congresso articula para dobrar fundo eleitoral para R$ 3,8 bi e contraria equipe econômica

Charge do Fred (cuiabaemrevista.com.br)

 

Integrantes da equipe econômica viram com preocupação o movimento do Congresso Nacional para ampliar o fundo eleitoral para R$ 3,8 bilhões. Os recursos são destinados a financiar as campanhas municipais de 2020.

O valor defendido por parlamentares é quase o dobro dos R$ 2 bilhões propostos pelo governo. Ao invés de o Congresso discutir formas de baratear gastos de campanha em plena era digital, o Legislativo se coloca na contramão de movimentos que apostam cada vez mais na internet.

APOIO – A proposta de aumentar o valor do fundo eleitoral é do relator do Orçamento, o deputado Domingos Neto (PSD-CE), e tem o apoio das principais legendas do Congresso. Apenas Cidadania, Novo, Rede, Podemos e PSOL se posicionaram contra o aumento. O texto precisa ser aprovado na Comissão Mista de Orçamento (CMO) e no plenário do Congresso.

A CMO tem sessão marcada para a tarde desta quarta-feira, dia 4, e pode votar a ampliação do fundo. Ao G1, Domingos Neto afirmou que o valor do fundo poderá aumentar porque houve revisão na estimativa de receitas da União e no montante destinado às emendas de bancada. Mas, esta não é a avaliação da equipe econômica.

SEM JUSTIFICATIVA – “O Orçamento não dobrou para justificar esse aumento de quase 100% no fundo eleitoral”, disse ao Blog um integrante do governo, ressaltando que este é um momento de restrição orçamentária e com um valor muito baixo destinado para investimento no país. “Todo mundo tem que dar uma cota de sacrifício”, completou.

Recentemente, o Congresso deu exemplo de responsabilidade fiscal ao aprovar a reforma da Previdência. Por isso, para integrantes da equipe econômica, é preciso bom senso para compreender que está faltando dinheiro áreas importantes do país.*

(*) Gerson Camarotti
G1 – Brasília

OUTRO PERSEGUIDO

STF aceita denúncia e Renan Calheiros se torna réu na Lava Jato por corrupção e lavagem de dinheiro

(Arquivo do Google)

 

Por maioria de 3 votos a 2, a Segunda Turma do Supremo Tribunal Federal (STF) decidiu aceitar uma denúncia contra o senador Renan Calheiros (MDB-AL) e abrir um processo penal contra o parlamentar por suspeitas de envolvimento em um esquema de corrupção na Transpetro, subsidiária de logística e transporte da Petrobras. Com a decisão, Renan se torna réu pela primeira vez na Operação Lava Jato.

Nessa etapa do processo, com o recebimento da denúncia é aberta uma ação penal contra o senador e ele se torna réu. Somente depois da fase de investigação com o trâmite da ação é que Renan será julgado pelos ministros da Segunda Turma.

VOTOS – Votaram a favor da instauração do processo os ministros Edson Fachin, relator da Lava Jato no STF, Celso de Mello e Cármen Lúcia. Os ministros Ricardo Lewandowski e Gilmar Mendes votaram pelo arquivamento da denúncia. O senador foi denunciado pela  Procuradoria-Geral da República (PGR) por suspeitas dos crimes de corrupção e lavagem de dinheiro ligados ao suposto esquema na Transpetro.

Renan foi acusado de solicitar propina ao então presidente da Transpetro Sérgio Machado, entre 2008 e 2010, na forma de doações eleitorais a aliados políticos. Segundo a denúncia, a pedido do senador, diretórios regionais do MDB receberam doações eleitorais oficiais das empresas NM Engenharia e NM Serviços. Em troca, a Transpetro direcionava licitações e contratações para beneficiar as empresas.

PROVAS – Em seu voto, Fachin afirmou que o inquérito reuniu provas suficientes para a abertura do processo. “Ao contrário do que sustenta a defesa técnica do acusado, a denúncia não está amparada apenas em depoimentos prestados em colaboração premiada”, disse o ministro.

“Como consignado, há acervo indiciário que reforça as declarações prestadas pelos colaboradores, tais como dados telemáticos e bancários, registros manuscritos, termos de depoimento, informações ministeriais e policiais, e documentos, o que basta neste momento de cognição sumária, em que não se exige juízo de certeza acerca de culpa”, afirmou Fachin.

FATOS SUSPEITOS – A denúncia narra três fatos suspeitos contra Renan: o repasse de R$ 150 mil ao diretório do MDB de Aracaju, o repasse de R$ 100 mil ao PSDB de Alagoas e o repasse de R$ 150 mil ao MDB de Tocantins.

Em seu voto, Fachin afirmou que só há provas suficientes para que sejam investigadas na ação penal as suspeitas sobre as doações ao MDB de Tocantins. O ministro votou pela rejeição das outras duas suspeitas ligadas às doações a supostos aliados em Aracaju e Alagoas. Segundo voto a favor da abertura do processo, o ministro Celso de Mello classificou como graves as suspeitas de que o esquema tenha se valido de doações oficiais a partidos para dar aparência de legalidade à propina.

“GRAVÍSSIMA OFENSA” – “Esse comportamento constitui gravíssima ofensa à legislação penal da República. Agentes da República, valendo-se de doações a partido, conferem aparência de legitimidade a recursos financeiros manchados pela nota da delituosidade”, afirmou Celso de Mello.

Os ministros Ricardo Lewandowski e Gilmar Mendes votaram pelo arquivamento da denúncia, por entenderem que a acusação não trouxe provas contra o senador. Para Lewandowski, a Procuradoria não apontou elementos independentes de prova que corroborassem as declarações dos delatores.

“Não encontrei nos presentes autos elementos externos seguros de corroboração que confirmem de forma independente e autônoma as informações prestadas pelos delatores, razão pela qual entendo que não é possível imputar ao senador Renan Calheiros, para além de qualquer dúvida razoável, a prática dos delitos em apreço”, afirmou Lewandowski.

“SURREAL”- Gilmar criticou o fato de a denúncia apontar como prova da participação de Renan no suposto esquema da Transpetro doações feitas a um adversário político dele em Alagoas. “Está-se num cenário surrealista”, afirmou o ministro.

“É tão evidente que a denúncia não descreve a conduta praticada pelo acusado e não aponta para os concretos elementos de prova que indiquem a ciência e aquiescência do acusado para a solicitação [de propina]. Nenhuma prova, nenhuma mensagem, nada”, disse Gilmar Mendes.

DEFESA – O advogado de Renan, Luís Henrique Machado, afirma que não há provas contra o senador e ressalta que dos três capítulos da denúncia, dois foram rejeitados pelo relator do processo no STF.

“Em relação ao fato remanescente, o próprio delator [Sérgio Machado, da Transpetro] disse não se recordar de ter pedido doação eleitoral aos doadores, o que demonstra a fragilidade da acusação. Além disso, a Polícia Federal ressaltou que as supostas provas são desencontradas e não se comunicam entre si”, disse.

INQUÉRITO – O inquérito foi instaurado em 2017 e investigava também outras oito pessoas, entre políticos e empresários, por participação no suposto esquema na Transpetro. Em fevereiro, o ministro Edson Fachin determinou que os acusados sem foro fossem julgados pela primeira instância. Com isso, apenas a denúncia contra Renan continuou a ser analisada pelo STF.

Na primeira instância estão sendo julgados os ex-senadores do MDB Romero Jucá (RR) e Valdir Raupp (RO), além do delator Sérgio Machado. Outros três executivos de empresas investigadas também tiveram o processo remetido à primeira instância.

O ex-presidente José Sarney e o ex-senador Garibaldi Alves, ambos do MDB, também denunciados, foram excluídos do processo pelo reconhecimento de que os crimes dos quais eram acusados já estariam prescritos.*

(*) Felipe Amorim
Folha de São Paulo

FOI ELE, NÃO FOI ELE…

Fracasso! Caso das gravações do The Intercept pode terminar sem descobrir quem pagou aos hackers

Com a decisão do juiz Vallisney de Souza Oliveira, da 10ª Vara da Justiça Federal em Brasília, que homologou a delação premiada de Luiz Henrique Molição, de 19 anos, integrante do grupo de hackers que invadiu celulares de procuradores da Lava Jato e do então juiz federal Sergio Moro antes de assumir como ministro da Justiça, as investigações da Polícia Federal dão mais um passo, mas ainda estão longe de chegarem a bom termo, por que falta descobrir o principal – quem foi o mandante e pagou aos hackers para tentar destruir a Lava Jato.

Molição é um dos presos na Operação Spoofing, da Polícia Federal. Foi apontado como cúmplice de Walter Delgatti Neto, o Vermelho, considerado o mentor do esquema de invasão dos celulares para desestabilizar a Lava Jato.

GREENWALD NÃO PAGOU – Molição é acusado de armazenar parte das mensagens capturadas nas contas do aplicativo Telegram e feito contatos com o jornalista Glenn Greenwald, do site The Intercept Brasil.

Em depoimento prestado em setembro, Molição declarou que Delgatti tentou vender as mensagens que gravou ao jornalista norte-americano Glenn Greenwald, mas ele se recusou a pagar por elas.

Nos termo da delação, homologada na noite de segunda-feira (dia 2), Molição se comprometeu a identificar mais três pessoas que teriam participado dos ataques virtuais. Além disso, prometeu entregar conversas privadas que estariam armazenadas em servidores fora do país e o celular que usava para vazar dados roubados.

SEM RASTROS – O fato concreto é que a Polícia Federal depende das investigações sobre esses três cúmplices que teriam participado das gravações e que ainda não foram presos.

O material colhido até agora não permitiu identificar o mandante (ou os mandantes) das gravações criminosas, porque o chefe da quadrilha, Walter Delgatti Neto, o Vermelho, é muito ardiloso e não deixou rastros que pudessem identificar os autores dos pagamentos.

O problema é que o tempo está passando, sem que a Polícia Federal possa concluir o inquérito.

PRAZO FATAL – Ao homologar a delação do cúmplice de Vermelho, o juiz da 10ª Vara fixou um prazo de 15 dias, contados da última quinta-feira (28), para que a Polícia Federal conclua o inquérito e o remeta ao Ministério Público Federal, que decidirá se denuncia ou não os envolvidos.

Em tradução simultânea, dificilmente a equipe da PF conseguirá fechar as investigações com o nome do mandante (ou mandantes) da interceptação dos celulares, circunstância que enfraquecerá bastante a denúncia.

E como a legislação brasileira é ainda carente nesse tipo de crime cibernético, isso significa que em breve os envolvidos estão em liberdade, pois as penas são leves e eles até já cumpriram mais de um sexto delas.*

(*) Carlos Newton – Tribuna na Internet

E NOS ESCOMBROS DO TITANIC…

Nome do problema é analfabetismo governamental

O Pisa, programa internacional de avaliação de estudantes, expõe a raiz do atraso nacional. Quatro em cada dez alunos brasileiros na faixa dos 15 anos não entendem o que leem, não sabem fazer contas básicas e não compreendem conceitos elementares de ciência. Não se chega a um desastre desse tamanho por acaso. O teste mostra que o Brasil se acostumou com o vexame.

O país caiu no abismo educacional e não esboça a intenção de sair dele. Os indicadores estão estagnados há uma década. Repetindo: faz dez anos que a educação do Brasil está exposta na vitrine do Pisa de ponta-cabeça. E fica por isso mesmo. Num ranking de 79 países, o teste fechado em 2018 coloca os alunos brasileiros nas 20 piores posições em leitura, em matemática e em ciências.

Ignorar não é um bom remédio contra a patologia da ignorância. Então, é preciso enxergar o que está por trás do problema. Quem olha por cima dos indicadores enxerga a verdadeira causa da encrenca: o analfabetismo governamental. É como se os gestores públicos lessem os dados e não compreendessem o significado. Não é que as pessoas não conseguem ver a solução. Elas não enxergam o problema.

Seria necessário implantar na área educacional políticas públicas capazes de sobreviver aos governos. Falta uma iniciativa de Estado, que possa ter continuidade ao longo do tempo. Mas isso não está sobre a mesa. O ministro Abram Weintraub, atual gestor da pasta da Educação, deu uma entrevista. Preocupou-se em enfatizar dois pontos: 1) O Pisa de 2018, não trata do governo Bolsonaro, que começou em 2019. 2) A culpa é 100% do PT e de sua “doutrinação esquerdófila”. Faltou dizer para onde as teorias direitófilas do ministro levarão a edicação. A experiência mostra que, nesse ramo, a ideologia é o caminho mais longo entre um projeto e a sua realização.*

(*) Blog do Josias de Souza