AMÉRICA LATRINA!

Cada quadrado no seu quadrado
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Um economista que sabe das coisas diz que se você volta à Argentina vinte dias depois de ter saído, vê que tudo mudou. Se volta depois de vinte anos, vê que nada mudou.

Faz uns noventa anos que a Argentina, com raros intervalos, é peronista. Houve até luta armada e sangrenta  entre peronistas de extrema direita e de extrema esquerda. Inimigos, inconciliáveis, mas todos peronistas.

É difícil de entender? Por isso mesmo o presidente Bolsonaro se coloca em má posição ao envolver-se na política interna de los hermanos. Põe em risco, por exemplo, o acordo entre o Mercosul e a União Europeia, importantíssimo para nosso futuro. Ameaça as boas relações com nosso terceiro maior parceiro comercial, que nos rende uns 4 bilhões de dólares ao ano de superavit. Esquece que a Argentina é o país que mais importa carros brasileiros. Não se diga que que lutar contra a esquerda é mais importante do que manter boas relações comerciais e de amizade com nosso vizinho. A China é uma ditadura comunista, que mantém fortes laços com um partido que faz oposição ferrenha a Bolsonaro, o PCdoB, mas com a China ninguém mexe. Será a Argentina mais esquerdista que a China? Não: essa história de fronteiras ideológicas é para boi dormir. Os argentinos são como são. E não querem nem aceitam conselhos.

Cartão amarelo

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Se na eleição argentina se repetir o resultado da prévia, Macri estará derrotado no primeiro turno, e Alberto Fernandez, o poste escolhido por Cristina Kirchner (sua  candidata a vice) será o próximo presidente. Se deixar a raiva de lado, Bolsonaro verá claramente o motivo da fraqueza de Macri: ele era a esperança de reverter o caos econômico do kirchnerismo. E não atendeu as expectativas. Seu liberalismo econômico foi para o brejo na primeira oportunidade: como a inflação não cedia, congelou os preços. E, como de costume, não deu certo. Ruim por ruim, escolheram o passado.

Manda pra nós

As incessantes declarações de Bolsonaro sobre qualquer tema que se apresente são levadas a sério no mundo desenvolvido. Já teve problemas com Noruega e Alemanha; e continua falando. A Alemanha cortou 150 milhões de dólares da ajuda à Amazônia como protesto pelo aumento da derrubada da floresta, e Bolsonaro disse que os alemães deixam de comprar  a Amazônia em prestações e que não precisamos desse dinheiro. Mas é um dinheiro que faz falta, e que vem a fundo perdido: é dado, não emprestado.

Retrato do Brasil

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Os cálculos são da Anefac, Associação Nacional de Executivos de Finanças, Administração e Contabilidade, instituição que há meio século se dedica a fazê-los. De março de 2013 até julho de 2019, considerando-se todas as mudanças na taxa básica Selic, os juros reais baixaram 17,24%, caindo de 7,25% ao ano para 6% ao ano. Já os juros cobrados de pessoas físicas subiram 29,05%, subindo de já espantosos 87,97% ao ano para 117,02%. As pessoas jurídicas também foram esfoladas, mas menos: no seu caso, os juros subiram 11,68%, passando de 43,58% para 48,67% ao ano.

Onde se gasta, e como

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Vale a pena acompanhar a newsletter Don’t LAI to Me – um trocadilho bilingue que mistura o “não minta para mim” à LAI, Lei de Acesso à Informação. Nela estão os gastos dos diversos presidentes da República em seus cartões corporativos. Dá trabalho acompanhar, mas vale a pena. É grátis: basta entrar no Google em Don’t LAI to me e fazer a ficha. É uma fonte de informações inestimável – e tudo com dados oficiais.

Dinheiro não falta

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O presidente do Tribunal de Justiça da Bahia decidiu, no dia 9 último, conceder aposentadoria a um técnico de nível médio, com R$ 30.956,00 mensais. O salário do técnico de nível médio é de R$ 5.767,91 – o restante é penduricalho, tipo vantagem pessoal eficiência, vantagem pessoal AFI símbolo, função gratificada, etc. Como há o teto constitucional para quem recebe vencimentos do Tesouro, o técnico receberá R$ 30.471,10. Mas dá para viver. Reforma da Previdência só vale para nós, não para eles.

Chegando ao destino

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A Reforma da Previdência deve estar pronta para votação na segunda quinzena de outubro. Com isso, o Governo ganha fôlego para investir e, se trabalhar direito, iniciar a recuperação da economia. Já está no forno a medida provisória da liberdade econômica, que reduz a interferência do Governo nas atividades privadas. A reforma tributária, a proposta pelo deputado Baleia Rossi (que se baseou em estudos do economista Bernard Appy), talvez combinada com a de Paulo Guedes, deve rapidamente ser submetida ao Congresso. Pois, como Macri está demonstrando na Argentina, se a economia não andar o Governo perde as eleições.*

(*) Coluna Carlos Brickmann

HAJA SACO PARA ATURAR O MALACO

Supremo julga mais três pedidos para libertar Lula que não têm a menor chance 

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Charge do Duke (dukechargista.com.br)

 

A Segunda Turma do Supremo Tribunal Federal (STF) começa a analisar nesta sexta-feira (16) três pedidos de suspeição apresentados pela defesa do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva contra o ex-juiz e atual ministro da Justiça e Segurança Pública, Sérgio Moro.

O julgamento será realizado no plenário virtual do STF, no qual os ministros registram suas posições de forma remota, pelo computador, sem se reunirem presencialmente para debater e deliberar. A votação eletrônica começa na sexta e termina às 23h59 da próxima quinta-feira, dia 22.

PRIMEIRO A VOTAR– Pelas regras do plenário virtual, o relator – no caso, o ministro Edson Fachin – será o primeiro a inserir o voto no sistema. A partir daí, os outros votam dentro do prazo da votação. Até o fim do julgamento, qualquer ministro pode pedir “destaque” para levar o tema à discussão presencial.

Os pedidos de Lula contestam a atuação de Moro na condução de dois processos que tramitam na 13ª Vara da Justiça Federal em Curitiba.

Dois pedidos estão relacionados às apurações envolvendo suposto repasse de propina pela Odebrecht ao petista na compra de um terreno para o Instituto Lula. Nesse processo, o Ministério Público afirma que a construtora Odebrecht comprou um terreno de R$ 12 milhões para o instituto construir a nova sede.

FEZ PERÍCIA – Os advogados contestam, nesse pedido, a autorização para a realização de perícia em documentos que foram mantidos em sigilo durante o processo, sem que houvesse oportunidade da defesa de contestá-los.

O terceiro pedido de suspeição refere-se ao processo no qual Lula é acusado de receber propina por meio de reformas em um sítio localizado em Atibaia, cuja propriedade é atribuída ao ex-presidente.

Por este processo, Lula foi condenado em primeira instância a 12 anos e 11 meses de prisão por corrupção passiva e lavagem de dinheiro. O caso agora será analisado pelo Tribunal Regional Federal da 4ª Região (TRF-4).

JUIZ PARCIAL – No pedido, a defesa afirmou que há elementos que comprovam “de forma cabal” a perda de imparcialidade do então juiz Sergio Moro para julgar processo do ex-presidente.

Os advogados citam, por exemplo, a autorização, “com fundamentação esdrúxula”, para a condução coercitiva de Lula em 2016, durante a 24ª fase da Operação Lava Jato.

Também questionam o grampeamento de conversas do petista com seus advogados e a revelação de conversas telefônicas de Lula com a então presidente Dilma Rousseff.*

(*) Mariana Oliveira, Luiz Felipe Barbiéri e Rosanne D’Agostino
TV Globo e G1 — Brasília

SÓ BOLA NAS COSTAS…

Deputados do grupo de trabalho que analisam o pacote anticrime apresentado pelo ministro da Justiça, Sergio Moro, agora querem adiar a votação prevista para esta quarta-feira (14) que pode impor uma nova derrota ao ministro, com a retirada de pontos defendidos pelo governo do relatório em discussão.

O deputado Marcelo Freixo (PSOL-RJ), integrante do grupo, disse ao blog que a votação de alguns pontos marcada para esta quarta pode ficar para daqui a duas semanas.

Segundo ele, agora, deputados do grupo defendem apresentar um texto que “proteja os policiais mas não dê licença para matar”.

“Queremos aprovar tudo de uma vez, então. Como estava prevista para hoje a discussão de pontos como excludente de ilicitude e banco de dados, a gente quer aproveitar e votar em duas semana, de uma vez, todo o relatório do Capitão Augusto (PL-SP) – que será rejeitado – e o substitutivo”, disse o deputado.

Sobre a discussão desta quarta, Freixo se refere ao principal ponto que os deputados queriam impor como derrota de Moro: o excludente de ilicitude.

Nos bastidores, no entanto, pesou na verdade a repercussão que provocaria mais uma derrota de Moro no pacote que prevê medidas anticrime e anticorrupção.

Temendo desgaste e para evitar o que deputados chamam de “vitimização” do governo Bolsonaro e do ministro, o grupo de trabalho deve adiar a discussão, a fim de evitar mais uma derrota antes de propor um texto para os agentes de segurança pública.

Na semana passada, o grupo retirou do pacote o chamado “plea bargain”, uma espécie de acordo feito após apresentação de denúncia que envolve a confissão dos crimes pelo acusado em troca de uma pena menor. Antes, já havia retirado a prisão após condenação em segunda instância.*

(*) Andréia Sadi, G1 – Brasília

DUDU É DO BALACOBACO!

“Diplomacia sem armas é como música sem instrumentos”

Ao participar de um seminário sobre as Forças Armadas realizado hoje na Câmara, Eduardo Bolsonaro afirmou que “diplomacia e defesa são faces da mesma moeda”.

O deputado do PSL de São Paulo, que pode ser o próximo embaixador do Brasil nos Estados Unidos, disse também:

“[Diplomacia e defesa são] Instrumentos de exercício da soberania nacional e da garantia da autonomia em nosso relacionamento externo. Não por acaso, esta Casa resolveu unir os temas relacionados à diplomacia e à defesa em uma única comissão que tenho orgulho de presidir. O próprio Frederico II [antigo rei da Prússia] conhecido como O Grande, disse, certa vez: ‘Diplomacia sem armas é como música sem instrumentos’.”*

(*) O ANTAGONISTA

É UM RELES AMADOR…

Zero Três é reprovado no primeiro teste como negociador

Para decepção do pai…

Há meses que o capitão Jair Bolsonaro fizera uma encomenda especial ao seu filho Eduardo, o Zero Três, deputado federal pelo PSL paulista e desde fevereiro presidente da Comissão de Relações Exteriores da Câmara: era preciso apressar a aprovação do acordo entre o Brasil e os Estados Unidos para uso conjunto da base de lançamento de foguetes de Alcântara, no Maranhão.

O acordo fora anunciado por Bolsonaro em sua primeira visita aos Estados Unidos depois de empossado na presidência da República. Os olhos azuis do presidente Donald Trump brilharam de satisfação ao saber que tudo fora resolvido. Retribuiu a notícia dada por Bolsonaro mimando seu filho Eduardo durante uma entrevista coletiva nos jardins da Casa Branca.

Indicado para embaixador do Brasil em Washington, cargo que exige do seu ocupante não só experiência como exímia habilidade para compor interesses contrários, Eduardo decepcionou o pai ao falhar no seu primeiro teste como negociador. Por mais que tenha se esforçado, não conseguiu que a comissão que preside aprovasse, ontem, o acordo prometido a Trump.

A votação do acordo foi empurrada para outra data por deputados de oposição e do chamado Centrão – esses, que ora apoiam o governo, ora não, e ora cobram caro para apoiar. O motivo alegado para o adiamento foi justamente o fato de que a nomeação de Eduardo para embaixador poderia contaminar a votação. O que isso quer dizer não se sabe. Contaminaria a favor ou contra?*

(*) Blog do Ricardo Noblat

CONSERVADORISMO DESVAIRADO

Bolsonaro pega carona em maiorias para silenciar quem incomoda

Governo deturpa conceito de democracia ao tentar impor sua agenda ideológica

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Jair Bolsonaro finge que não entendeu ainda o papel de um governo. Fazendo festa para o público evangélico da Marcha para Jesus, no fim de semana, ele disse que não tem preconceitos e não discrimina ninguém, mas avisou que “as leis existem para proteger as maiorias”.

O presidente fazia uma defesa explícita da pauta conservadora para frear as chances de expansão dos direitos das minorias. “É a única maneira que temos para viver em harmonia”, acrescentou. “O que minoria faz, sem prejudicar a maioria, vai ser feliz. Não podemos admitir leis que firam nossos princípios.”

Bolsonaro sabe que as leis existem para garantir os direitos de todos os cidadãos, não de grupos majoritários. Ainda assim, ele prefere fermentar um conceito deturpado de democracia para impor sua agenda ideológica, receber aplausos de seu eleitorado e expandir seus poderes.

O apelo ao desejo da maioria faz parte do livro dos governantes autoritários. Eles agem como se as vontades dominantes numa sociedade fossem uma justificativa para ultrapassar os limites da lei ou retirar direitos de grupos menores.

É verdade que o processo democrático, em geral, é baseado na manifestação da maioria. Ele traz consigo, porém, a garantia de que todos os cidadãos devem ter acesso a liberdades individuais e aos serviços que são desempenhados pelo Estado.

Se o raciocínio da maioria fosse mesmo absoluto, Bolsonaro deveria defender as invasões de terra. A propriedade privada é um direito que pode ser descrito como uma salvaguarda para elites minoritárias.

A mesma lógica parece pautar o filtro político que o governo quer fazer no cinema. Na semana passada, o porta-voz do Planalto disse que os filmes financiados pela Ancine deveriam estar alinhados a um “sentimento cristão”, que seria o “sentimento da maioria da sociedade”.

Como se vê, o plano não é incentivar uma diversidade que represente cada vez mais brasileiros. A ideia é usar o argumento para a aniquilar o que parece incomodar Bolsonaro.

(*) Bruno Boghossian – Folha de São Paulo
Jornalista, foi repórter da Sucursal de Brasília. É mestre em ciência política pela Universidade Columbia (EUA).

UM LUGAR PARA PROFISSIONAIS

A falta que faz um chanceler

Médici, Geisel e Figueiredo tinham suas opiniões, mas sabiam que deviam ouvir os profissionais


A declaração de Jair Bolsonaro de que a derrota de Mauricio Macri na prévia eleitoral argentina pode significar uma vitória da “esquerdalha” de Dilma Rousseff, Hugo Chávez e Fidel Castro, foi coisa inédita, assombrosa.

Ele pode achar o que quiser, mas não tem mandato para meter o Brasil numa disputa eleitoral argentina.

Falando de questões internas, pode se intitular “Capitão Motosserra” ou expor sua teoria da relação do meio ambiente com o cocô. Bolsonaro é assim e sem dúvida prefere ver os brasileiros discutindo cocô em vez do cheiro de uma recessão na economia.

Bolsonaro não gosta dos governos civis que o antecederam. Tudo bem. Ficando-se com os exemplos que lhe deixaram os militares, salta aos olhos uma lição: falta-lhe um chanceler, ou, pelo menos, um ministro das Relações Exteriores com as qualidades profissionais de Mário Gibson Barboza (governo Médici), Azeredo da Silveira (Geisel) e Ramiro Guerreiro (Figueiredo).

Os três descascaram abacaxis nas relações com a Argentina sem criar atritos. Graças aos dois primeiros, conseguiu-se negociar em relativa harmonia a construção da hidrelétrica de Itaipu.

Médici aguentou um desaforo do general-presidente Agustín Lanusse. Numa visita a Brasília, ele enfiou um caco no discurso que fez no Itamaraty, e sua comitiva chegou à grosseria de cortar do comunicado conjunto uma referência à “inquebrantável amizade” dos dois países. Na costura da calma estava Mário Gibson.

Lanusse foi substituído pelo demagogo larápio Juan Perón. Tinha tudo para acabar em encrenca. Ele vivia exilado na Espanha. Em 1964 tentou descer na Argentina mas foi barrado pelo governo brasileiro no aeroporto do Galeão e teve que voar de volta. Ainda por cima, era amigo do presidente deposto João Goulart e assumiu criando dificuldades para a construção de Itaipu.

O general Ernesto Geisel detestava-o e disse ao embaixador brasileiro em Buenos Aires, Azeredo da Silveira, que não negociaria “com quem está de má-fé, sem honestidade de propósitos”.

O diplomata não havia sido convidado para o ministério e sabia que estava numa sabatina, mas disse ao general: “Mesmo assim, é preciso negociar”. Geisel negociou.

Perón morreu sem que a ditadura brasileira encrencasse com seu governo ou com o de sua substituta, a vice Isabelita, uma ex-dançarina de cabaré panamenho.

Coube a Ramiro Guerreiro, o chanceler de João Figueiredo, o melhor lance da diplomacia dos generais com a Argentina. Em 1982, ela era presidida pelo general Leopoldo Galtieri, um cavalariano chegado ao copo, que mantinha boas relações com Figueiredo.

Com a popularidade em baixa, Galtieri resolveu invadir naquele ano a possessão britânica das ilhas Malvinas. Se dependesse de Figueiredo e dos militares que o cercavam, o Brasil ficaria do lado da Argentina.

Coube a Guerreiro tomar distância. Não podia ficar perto da maluquice de Galtieri, mas também não podia se aproximar da inevitável vitória dos ingleses. Algo como tirar a meia sem descalçar o sapato, e Guerreiro conseguiu.

(Meses depois,  a diplomacia brasileira conduziu uma gestão para que os ingleses devolvessem o capitão Alfredo Astiz, que se rendeu nas Malvinas. Tremenda sorte a de Astiz, pois recebeu o tratamento que merecem os soldados. Ele havia sido um dos maiores assassinos da ditadura militar argentina que sucedeu Isabelita Perón. Era apelidado de Anjo Ruivo da Morte. Está na cadeia.)

Médici, Geisel e Figueiredo tinham suas opiniões, mas sabiam que na Presidência deviam ouvir os profissionais. Por sorte, tiveram Gibson, Silveira e Guerreiro.

(*) Elio Gaspari – Folha de São Paulo

NAS ASAS DA PANAIR

A PANAIR VIVE

Um herdeiro em luta com o passado

ILUSTRAÇÃO: ANDRÉS SANDOVAL_2019

Oempresário Rodolfo da Rocha Miranda tinha 15 anos, em 1965, quando o pai o chamou para uma reunião com todos os irmãos na casa da família em Petrópolis. “Ele disse que havia ocorrido uma coisa que teria repercussão pelo resto das nossas vidas”, contou. “Não chegou a chorar, mas estava abalado por saber que o motivo era político.” Dias antes, o pai, Celso da Rocha Miranda, havia sido informado por telegrama que sua empresa, a Panair do Brasil, acabara de ser fechada – não por causa de dívidas, mas por um decreto assinado pelo então presidente da República, marechal Humberto de Alencar Castelo Branco. “Eu era muito jovem, não dei muita bola. Mas para os funcionários foi uma tragédia. Alguns se mataram. A Panair era uma família.”

Rocha Miranda é um homem magro, alto e solene, de 70 anos, que tem quatro filhos, nove netos e mora numa casa espaçosa na Zona Sul do Rio de Janeiro. O cabelo grisalho penteado para trás, o cavanhaque robusto e os óculos de aro fino lhe dão o aspecto de um personagem de romance antigo. A impressão é endossada pelo seu título profissional, já que Rocha Miranda é o diretor-presidente da Panair, que ainda existe no papel, mas há 54 anos não tira um avião do solo.

A Panair nasceu em 1929, como Nyrba (sigla que resumia o roteiro do voo Nova York-Rio de Janeiro-Buenos Aires), e foi rebatizada no ano seguinte, após ser adquirida pela americana Pan Am. Dominou o mercado brasileiro de aviação nos anos 30 e 40, primeiro com hidroaviões – que pousavam na costa ou em rios largos, como o Amazonas –, e depois com aeronaves de turboélices. A primeira rota nacional, entre Santos e Belém, durava três dias. “Naquela época não tinha radar. Os pilotos voavam olhando o rio, pra ter alguma referência”, afirmou Rocha Miranda. “Eram desbravadores.”

Em 1942, a Panair começou a vender suas ações, e o controle da empresa, que era inteiramente americano, foi sendo transferido aos poucos para os brasileiros. Em 1961, os empresários Mário Wallace Simonsen e Celso da Rocha Miranda tornaram-se acionistas majoritários. Simonsen era dono de uma exportadora de café e da TV Excelsior, que disputava a audiência com a TV Tupi, de Assis Chateaubriand. Miranda era dono da Ajax, então a maior seguradora da América do Sul. Além disso, eram ambos próximos aos presidentes Juscelino Kubitschek e João Goulart. “Quando houve o golpe militar de 1964, a TV Excelsior não mostrou a movimentação das tropas nas ruas. O Mário Simonsen foi chamado de comunista, sendo que tanto ele como meu pai eram capitalistas”, disse Rodolfo da Rocha Miranda.

Ainda em 1964, Simonsen teve cassada sua licença para explorar o café. No ano seguinte, um decreto suspendeu as concessões de linhas nacionais e internacionais outorgadas à Panair. As rotas internacionais foram automaticamente repassadas à Varig, assim como parte dos aviões e das lojas no exterior. “A lei, em 1965, era enfiar a baioneta na sua barriga ou sumir com você”, resumiu Rocha Miranda. “Tivemos que passar oito meses fora do Brasil.”

Das companhias aéreas de então, a Panair era a que tinha a menor dívida. Ainda assim, cinco dias depois do despacho presidencial, um juiz no Rio de Janeiro argumentou que, “sem linhas, a companhia não terá receita”, e decretou a falência da empresa. Cinco mil funcionários foram dispensados. No mês seguinte, Simonsen morreu de infarto, em Paris.

Rodolfo da Rocha Miranda chegou a pilotar aviões, por hobby. “O meu último avião foi um Cessna de seis lugares”, contou. Ele assumiu a negociação da falência da Panair em 1987, um ano após o falecimento do pai. Em 1995, a dívida da empresa com a União foi reduzida para 1,5 milhão de dólares por decisão judicial (o valor dizia respeito a empréstimos adquiridos junto ao BNDES antes da decretação da falência).

Ainda que discordasse da cobrança, Rocha Miranda decidiu pagá-la com o dinheiro que a massa falida tinha em caixa. Ressuscitou assim a pessoa jurídica, assumiu a presidência da Panair e inverteu o jogo, processando o Estado por causa dos bens apreendidos. “Além de ser dona de aviões, a Panair era proprietária de vários aeroportos”, explicou. Em 2007, venceu um processo no valor de 35 milhões de reais, movido em razão da desapropriação do aeroporto de Belém. O dinheiro foi para o caixa da empresa e o pagamento de advogados.

Hoje, além de Rocha Miranda, a Panair do Brasil tem dois funcionários: um diretor jurídico e uma contadora. A empresa ocupa três salas num prédio comercial no Centro do Rio, decoradas com fotos de aviões antigos – um DC-8 singrando o céu, um Constellationno hangar do Aeroporto Santos Dumont. Em quatro estantes, acumulam-se pastas repletas de documentos. “Foi tudo usado na nossa defesa no processo de falência. A ação tinha 120 tomos. Era a maior do Fórum do Rio.”

Rocha Miranda disse frequentar o escritório três vezes por semana, ocasiões em que aproveita para tocar seus outros investimentos – ele é economista e foi dono de uma empresa especializada em fazer mapas a partir de imagens aéreas. Uma vez por ano, organiza um encontro com os acionistas da Panair. “Não vem ninguém, mas eu faço. São 20 mil acionistas, gente da terceira geração, que nem sabe que é dona dos papéis.” Também uma vez por ano publica o balanço da companhia no Diário Oficial do Estado do Rio. O último deles, de abril de 2018, mostrava que a Panair tinha 8,5 milhões de reais em caixa.

Nos últimos meses, Rocha Miranda ajudou um grupo de ex-funcionários da Panair a organizar uma exposição sobre a companhia aérea no Museu Histórico Nacional, no Rio de Janeiro. “Depois, o acervo vai ficar todo com o museu, o que me deixa feliz”, afirmou. Além disso, acompanha a tramitação de dois processos de indenização pela desapropriação dos aeroportos de Recife e Fortaleza, que correm no Superior Tribunal de Justiça, e uma ação na Comissão de Anistia, movida em nome da memória de seu pai. “Nesta última não estou pedindo reparação pecuniária. Quero apenas que o governo admita que essa empresa, que gerou milhares de empregos, foi morta por causa de uma perseguição política tosca.”

Roberto Kaz

ROBERTO KAZ

Repórter da piauí, é autor do Livro dos Bichos, pela Companhia das Letras

DEU…M. – DEU!

Por que não te calas, capitão!

A erupção dos instintos mais primitivos

Se não for pedir demais, roga-se a algum membro sensato do governo, dotado de razoável inteligência e com acesso ao capitão Bolsonaro que explique a ele o risco que corre o Brasil com suas intempestivas declarações a respeito de tudo e de qualquer coisa.

Que o faça, é claro, com cuidado, bons modos e didatismo. Se for o caso, em ambiente no qual ele se sinta seguro e acolhido – de preferência na presença da mulher ou de algum dos filhos. E sem medo de alguma explosão de cólera que venha a provocar.

Pois é admissível que o modo de ser do capitão funcione aqui dentro a seu favor, haja vista que se elegeu com folga e governa apesar da quantidade de absurdos já ditos ou justamente por dizê-los. Mas, lá fora, o estrago tem sido grande e poderá piorar.

Está bem que por ignorância e falta de assessoria à época ele tenha imaginado que ajudaria Maurício Macri a se reeleger indo à Argentina recomendar o voto nele. Lula e Dilma não se meteram em tantas eleições alheias? Por que ele não poderia copiá-los?

E o que dizer da afirmação de Bolsonaro de que a provável eleição do candidato apoiado pela ex-presidente Cristina Kirchner resultará numa fuga em massa de argentinos para o interior do Rio Grande do Sul como aconteceu com venezuelanos em Roraima?

O capitão foi deselegante com o presidente francês e a primeira-ministra alemã Ângela Merkel ao sugerir que não tivera o menor prazer em encontrá-los no Japão durante a reunião dos chefes de Estado das 20 maiores economias do mundo, em janeiro.

O francês e a alemã são figuras chaves para que a comunidade dos países europeus firme um acordo econômico com o Mercosul que se arrasta há 20 anos. O capitão parece pouco ligar para a preocupação deles com a preservação do meio ambiente.

Colheu o que plantou: a Alemanha congelou parte do dinheiro que manda para projetos de defesa da Amazônia. A Noruega, outra doadora de dinheiro com igual finalidade, deverá proceder em breve da mesma maneira. E quem perderá com isso?

Bolsonaro reagiu ao estilo bronco de um capitão, atento acima de tudo aos humores dos seus devotos broncos: querem comprar a Amazônia a prestações, mas ela é nossa. E não precisamos de dinheiro dos outros. (Alô, alô! Como não precisamos cara pálida?)

O mais grave é que como o capitão pensam os generais de pijama que o cercam, batem continência e se contentam em garantir seus empregos, além de generais fardados. O capitão melhor do que ninguém desperta os instintos mais rudes e primitivos da tropa.*

(*) Blog do Ricardo Noblat