TÁ DURO DE LEVAR

A era da insensatez

Depois de lutar séculos por liberdade de expressão, crença e opinião, o mundo parece agora estar condenado a medir tudo o que fala, escreve ou diz

Possivelmente demore anos. Provavelmente décadas. Mas um dia acontece. A poeira sempre baixa. E quando a poeira destes dias baixar, talvez haja poucos motivos para orgulho. É que quase certo que nossos tempos não serão conhecidos como época de equilíbrio e razão.

 Convenhamos que equilíbrio e razão não tem sido as características mais marcantes dos últimos anos. E, pior, provavelmente continuarão ausentes no horizonte previsível. Acostumamos com a irracionalidade e falta de civilidade. E não parece existir ou pelo menos a gente não enxerga, outra maneira.

E parece ter piorado muito com o crescimento das mídias sociais. Todo mundo fala de tolerância, inclusão, respeito, e de muitas outras aspirações. Mas na hora da pratica, abraçamos com entusiasmo os apedrejamentos públicos, coletivos e sumario. Se é que já houve algum dia, não existe espaço para equilíbrio na mídia social.

Espanta a rapidez com que multidões se formam para apedrejar supostos vilões por coisas que talvez tenham feito. Ninguém mais tem tempo para considerar (ou tentar) contexto, fatos, circunstancias.

O julgamento é sempre sumario. Dispensa evidencia, racionalidade ou equilíbrio. Parecer politicamente incorreto é a única exigência para a condenação, as vezes definitiva, mas sempre pública. Uma frase infeliz é o que basta para um bom apedrejamento. Nas mídias sociais, punição e humilhação pública são entretenimento para as massas.

Depois de lutar séculos por liberdade de expressão, crença e opinião, o mundo parece agora estar condenado a medir precisamente tudo o que fala, escreve ou diz. Teclados e línguas devem nestes tempos funcionar como fitas métricas. Sem direto a margem de erro.

Proibir expressão não impede o pensamento. Não se combate intolerância com mais intolerância. Qualquer possibilidade de diálogo ou mudança de opinião desaparece. A razão morre. E o ressentimento floresce, escondido da vista de todos.

E aí mora o perigo. De uma forma ou outra, ressentimento abafado acumulado tende a se manifestar através de decisões sobre as opções disponíveis. E nestes tempos onde as opções disponíveis são questionáveis, o risco da escolha errada é imenso. E talvez inaceitável. Ou mesmo inacreditável. É tudo o que dá para esperar da era da insensatez.*

(*) Elton Simões – veja.com

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JOGANDO GASOLINA NA FOGUEIRA

O risco de uma crise contratada

Lula repete o comportamento de Dilma – com uma diferença. É mais agressivo do que ela na contestação ao devido processo legal


O advogado Cristiano Zanin Martins, que defende Lula em processos da Operação Lava Jato, diz esperar “um julgamento isento” quando o Tribunal Regional Federal da 4ª Região, em Porto Alegre, reunir-se no próximo dia 24 para decidir sobre o caso do tríplex do ex-presidente na praia do Guarujá.

A senadora Gleisi Hoffmann, presidente do PT, diz que “a única solução possível” para o julgamento “do ponto de vista legal é a absolvição”. Uma sentença condenatória simplesmente “não será uma sentença justa”, segundo ela. E por tabela, não deveria ser respeitada por ninguém.

“Se eles fizerem uma coisa dessas, existe a possibilidade de uma rebelião popular”, dispara o senador Lindberg Farias (PT-RJ). Afirma Tarso Genro (PT-RS), ex-ministro da Justiça: “Lula tem a obrigação de submeter-se à soberania popular e contestar as acusações que lhe são feitas”.

Ou seja: “um julgamento isento” e a única solução possível “do ponto de vista legal” seriam aqueles que resultassem na absolvição do ex-presidente. Do contrário, Lula terá a obrigação de disputar as próximas eleições mesmo impedido pela Justiça. E o país correrá o risco de ser palco “de uma rebelião popular”.

Estamos entendidos? Legal e justo para o PT é somente o que o PT aceita como legal e justo – dane-se a Justiça, dane-se o que está escrito nas leis, dane-se o bom senso, e dane-se o que no passado recente disse ou praticou o próprio PT. Ou vai ou racha. Condene-se Lula para ver só uma coisa! (Isso pode, Arnaldo?)

“É preciso derrotar o golpe em todas as suas manifestações e a ofensiva reacionária de parte do Judiciário é uma delas”, conclama nota oficial do PSOL divulgada no último sábado. Curioso! A ser um golpe a possível condenação de Lula, o PT e o ex-presidente não deveriam ter participado dele. Deveriam apenas tê-lo denunciado.

Mas participaram, sim, e continuarão participando até ficarem roucos de tanto gritar que é um golpe, até se resignarem a concorrer às eleições deste ano com outro nome na impossibilidade de Lula ser candidato. Nessa hipótese, o nome seria o do ex-ministro e ex-governador da Bahia Jaques Wagner.

Dilma reconheceu a legitimidade do processo de impeachment ao se defender das acusações em todas as instâncias da Justiça, ao comparecer ao Congresso para ser interrogada pelos senadores, e, por fim, ao se beneficiar do ato criminoso do Senado – esse, sim, um golpe – que preservou seus direitos políticos.

A Constituição manda que, uma vez cassada, a pessoa perca o direito de se candidatar e de exercer cargos públicos por oito anos. Sabe muito bem disso o ministro Ricardo Lewandowisk, que comandou a fase final do processo de impeachment na condição de presidente do Supremo Tribunal Federal. Ou sabia e esqueceu.

Lula repete o comportamento de Dilma – com uma diferença. É mais agressivo do que ela na contestação ao devido processo legal. Não perde uma única oportunidade de avacalhar a Justiça. E como é popular e Dilma nunca foi, vale-se de sua força eleitoral para atrair parte do povo em sua defesa.

Foi uma parte minúscula do povo que atendeu ao convite e que participou dos comícios de Lula promovidos ao arrepio da lei nos últimos meses. Mas nada impede que essa parte possa crescer a depender da consistência, ou da falta dela, do juízo a ser conhecido dentro de nove dias. Haverá dias turbulentos pela frente. Ou meses.

Cabe a Justiça ser rápida para condenar ou absolver Lula. Do contrário teremos uma crise inédita e contratada desde já: a de um ex-presidente, líder nas pesquisas de intenção de voto, impedido de disputar eleições às vésperas das próximas. Ou pior: em meio a uma campanha oficialmente em curso. Seria o pior dos mundos.*

(*) Blog do Noblat

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QUE MICO, HEIN, “AMANTE”?

O fim de semana que Gleisi adoraria esquecer

No mesmo dia, a presidente do PT foi derrotada na Alemanha e fracassou em Maringá

“Show de torcida!!”, começou a mensagem no Twitter reproduzida pelo Antagonista e ilustrada por uma foto de parte da plateia. “Recebi esta imagem, que mostra uma faixa FORZA LULA”, decolou a tuiteira. Analfabeta também em futebol, nem desconfiou que enxergara um segundo L onde havia um C, encoberto pelo corpo de um espectador. Tampouco lhe ocorreu que, se estivessem apoiando Lula, os alemães se expressariam em português. Usaram Forza de vez de Força porque o alvo da homenagem era o italiano Luca Farnesi, 44 anos, gravemente ferido durante uma briga entre torcidas rivais. Confira a derrapagem:

A vigarice difundida por Gleisi já era um notável sucesso de público e um retumbante fracasso de crítica quando foi apagada e trocada por uma sopa de letras que tentou transferir a culpa para a imprensa. Confira:

Derrotada na Alemanha, Gleisi certamente imaginou que iria à revanche no duelo programado para o mesmo sábado no interior do Paraná. Convocados pela presidente do partido, milhares de militantes agrupados nos comitês que fundou transformariam 13 de janeiro no “dia do esquenta nacional das manifestações favoráveis ao ex-presidente Lula”. Os atos de protesto contra a provável condenação do chefão em segunda instância deveriam chegar ao clímax em Maringá, onde nasceu o juiz Sérgio Moro. Milhares de conterrâneos mostrariam publicamente que os crimes atribuídos a Lula não passam de “perseguição política”.

Num vídeo gravado para garantir o êxito da manifestação na terra de Moro, Gleisi capricha no palavrório da grife 171. “Compareça lá, você que defende a democracia e sabe o quanto isso é importante pro nosso país, pra nossa história, pro nosso povo. Vá lá, dê sua força para depois reproduzir esses comitês, não só por Maringá, mas por todos os municípios que nós temos aí, na região norte do Paraná”. Deu tudo errado. Os petistas agrupados no comitê couberam no plenário da Câmara de Vereadores.

Como atesta o vídeo abaixo, bem mais musculosa foi a manifestação que, anabolizada por boatos de que Gleisi e Roberto Requião estariam na cidade, foi às ruas de Maringá para exigir a prisão de Lula e seus quadrilheiros, rechaçar a discurseira malandra do PT e berrar palavras de ordem fortemente críticas aos dois senadores. Nenhum deles deu as caras por lá.

Gleisi pode ter evitado a viagem por cautela. Deve ter visto a foto abaixo, que mostra a reunião inaugural do comitê de Maringá, realizada em 10 de janeiro. Os militantes se reuniram na varanda de uma casa. Caberiam numa van. Forza Gleisi: o que está ruim tem tudo para piorar.*

(*)  Blog do Augusto Nunes

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POR ONDE ANDA A IDELI, HEIN?

Ideli, novo alvo da Lava Jato

Ex-ministra do Governo Dilma será investigada em inquérito instaurado pela Polícia Federal, em Curitiba, com base na delação do ex-presidente da Transpetro Sérgio Machado


Um dos novos inquéritos abertos pela Polícia Federal, na Operação Lava Jato, atinge a ex-senadora e ex-ministra Ideli Salvatti (Governo Dilma). A petista foi citada na delação premiada do ex-presidente da Transpetro Sérgio Machado.

Além desta investigação, a PF abriu outros sete procedimentos. Além de Ideli são alvo da nova ofensiva da Lava Jato, o ex-presidente da Câmara Henrique Eduardo Alves (PMDB), o ex-deputado Cândido Vaccarezza (ex-PT/SP), o ex-deputado Jorge Bittar (PT), ex-deputado Edson Santos (PT), as obras do Estaleiro Rio Tietê e empresas que pagaram propina sobre contratos da subsidiária da Petrobrás.

O ex-presidente da Transpetro relatou, em sua delação, que Ideli era ‘líder de governo e candidata ao governo de Santa Catarina e disse que estavam sendo estudada a possibilidade de estaleiros’ no Estado.

“Ela iria disputar uma eleição ao governo e perguntou, por telefone, se o depoente poderia receber seu chefe de gabinete; que em seguida foi procurado pelo seu chefe de gabinete no hotel Bonaparte em que estava hospedado em Brasília; que ele perguntou se o depoente poderia colaborar na campanha de Ideli Salvatti (2010)”, relatou.

Sérgio Machado afirmou que ‘contatou uma das empresas que pagavam recursos ilícitos oriundos de contratos com a Transpetro (Camargo Corrêa) e foi viabilizado então o apoio via doação oficial’.

“No caso de Ideli Salvatti, foi feito um repasse de R$ 500 mil, pela Camargo Corrêa, no ano de 2010”, afirmou.

A reportagem não conseguiu contato com a Galvão Engenharia.

COM A PALAVRA, IDELI SALVATTI

O advogado Ticiano Figueiredo, que defende Ideli Salvatti, afirmou. “A delação do Sérgio Machado constitui exemplo clássico de colaboração desamparada de base empírica idônea apta a sustenta-la. Assim como aconteceu em outro caso, a defesa está muito segura que uma análise justa e isenta acarretara no arquivamento dessa investigação.”*

(*) Julia Affonso e Ricardo Brandt – Estadão

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QUASE UM PARRICÍDIO

Eike X O Poderoso Thor

Lauro Jardim (O Globo) publica que Eike Batista, ex-bilionário, se desentendeu com o seu filho mais velho, Thor, porque o rapaz resiste a lhe dar dinheiro.

No tempo das vacas gordas, Eike transferiu 130 milhões de reais ao hoje poderoso Thor.

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PT: PARTIDO DOS TRAMBIQUES

PF indicia Haddad e mais seis por uso de caixa dois em campanha para a Prefeitura de SP

A investigação teve início após o Supremo Tribunal Federal homologar a delação premiada do empresário Ricardo Pessoa, sócio da UTC e um dos envolvidos no escândalo de corrupção da Petrobras

A Polícia Federal em São Paulo indiciou o ex-prefeito de São Paulo Fernando Haddad pelo crime de falsidade ideológica eleitoral, conhecido como caixa dois. Além do petista, outros seis foram indiciados. São eles: o ex-tesoureiro do PT João Vaccari Neto, o coordenador de campanha de Haddad para a Prefeitura, Chico Macena, o ex-deputado pelo PT Francisco Carlos de Souza e mais três pessoas ligadas à gráfica que prestou serviços para a campanha eleitoral do ex-prefeito em 2012.

O inquérito que indiciou os sete é um desdobramento da Operação Lava Jato. A investigação teve início após o Supremo Tribunal Federal homologar a delação premiada do empresário Ricardo Pessoa, sócio da UTC e um dos envolvidos no escândalo de corrupção da Petrobras.

O delator disse que após as eleições de 2012, foi procurado por Vaccari, que na época ainda era tesoureiro do PT, e que este teria pedido que o empresário pagasse uma despesa de R$ 3 milhões com uma gráfica de um homem chamado de “Chicão”.

Em depoimento, o ex-diretor financeiro da UTC Walmir Pinheiro afirmou que tentou negociar com Chicão o parcelamento do valor, mas que não foi aceito. A solução na época então foi um pagamento à vista, mas com desconto. O valor final ficou em R$ 2,6 milhões.

Nem Walmir Pinheiro e nem Ricardo Pessoa sabiam dizer quem era Chicão. Mas um número de telefone, fornecido por Alberto Youssef, e um reconhecimento por foto bastaram para que a PF chegasse à sua identidade. Com isso, a Polícia descobriu que se tratava de Francisco Carlos de Souza, ex-deputado estadual pelo PT.

Os delatores da empreiteira entregaram imagens do ex-deputado chegando na UTC para pegar o dinheiro. Segundo a investigação, a ex-mulher de Chicão, Zuleica Lopes maranhão de Souza, e um irmão dele, Gilberto Queiroz de Souza, tinham ligações ou eram donos das gráficas que receberam o valor de R$ 2,6 milhões.

Vale lembrar que em junho de 2017, a campanha do ex-prefeito Fernando Haddad foi alvo da Operação Cifra Oculta, um desdobramento da Lava Jato. Na época, os investigadores solicitaram a condução coercitiva do petista, que foi negada pela Justiça.

O que diz Haddad

Em nota, a assessoria do petista afirma que “não há o mínimo indício de qualquer participação de Fernando Haddad nos atos descritos por um colaborador sem credibilidade, cujas declarações já foram colocadas sob suspeita em outros casos. O uso descuidado do indiciamento sem elementos concretos de prova banaliza o instituto que deveria ser reservado para situações em que ao menos haja indicio de envolvimento de alguém em atos ilícitos”.

Ainda segundo a nota, o delegado “desconsiderou o depoimento do dono da gráfica, o empresário Francisco Carlos de Souza, que negou ter recebido recursos da UTC para quitar dívida de campanha do ex-prefeito Fernando Haddad”.

“O delegado também desconsiderou as provas apresentadas que atestam a suspensão da única obra da UTC na cidade, o túnel da avenida Roberto Marinho, em fevereiro de 2013, data anterior portanto ao suposto pagamento. Da mesma forma que outras ações do delegado João Luiz de Moraes Rosa foram bloqueadas pela Justiça, temos a confiança que está terá o mesmo destino”, finaliza a nota da assessoria do ex-prefeito Fernando Haddad (PT).

Operação Cifra Oculta

A Polícia Federal deflagrou na manhã do dia 1º de junho do ano passado a Operação Cifra Oculta para apurar crimes eleitorais e lavagem de dinheiro relacionados à campanha para a Prefeitura de São Paulo em 2012, do então candidato do PT, Fernando Haddad.

Trinta agentes da PF cumpriram nove mandados de busca e apreensão expedidos pela 1ª Zona Eleitoral de São Paulo, nas cidades de São Paulo, São Caetano e Praia Grande.

O inquérito foi um desmembramento da Operação Lava Jato e teve início em novembro de 2015 após a determinação do Supremo Tribunal Federal para desmembrar o acordo de colaboração premiada de executivos da UTC em anexos para que cada Estado realizasse sua investigação.

Este inquérito apurou o pagamento, por parte da empreiteira, de dívidas de uma das chapas da campanha de 2012 à Prefeitura paulistana, referentes a serviços gráficos na quantia de R$ 2,6 milhões. Segundo as investigações, a gráfica pertencia a familiares de um ex-deputado estadual.

O valor teria sido pago por meio de um doleiro, em transferências bancárias e dinheiro vivo, para empresas. “Uma empresa mencionada na delação aparece como fornecedora de serviços, com valores informados de R$ 354.450,00. Somente consta na prestação de contas ao TSE [Tribunal Superior Eleitoral] outra prestação de serviços gráficos de R$ 252.900,00, valores bem inferiores à soma de R$ 2.600.000,00, que teria sido paga pela empreiteira UTC a gráficas”, dizia a nota da PF à época.*

(*) Jovem Pan

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É PROIBIDO PROIBIR

Proibir carne em certos dias da semana só pode ser ideia de fascista

Muitas vezes você deve ter se perguntado para que serve um deputado estadual no Brasil. Uma resposta que deve vir à sua mente é: para nada. Mas, você pode, infelizmente, estar errado.

Para além da inutilidade estrutural de grande parte dos políticos no Brasil, a organização política do Brasil determina a quase inutilidade dos deputados estaduais porque tudo é decidido em Brasília.

Como disse um amigo meu, se você cometer um crime no Brasil e se esconder na Assembleia Legislativa estadual, provavelmente, o crime prescreverá, porque quase ninguém vai lá.

As coisas sempre podem piorar: alguns entre os muitos inúteis podem resolver “legislar” e aí, a emenda sai pior do que o soneto. Inúteis são menos perigosos quando ficam quietos.

Por incrível que pareça, alguém parece estar tentando proibir restaurantes e bares de vender produtos de carne às segundas-feiras no Estado de São Paulo, em nome da defesa animal.

Temos em Brasília as bancadas da bala, da Bíblia, do boi, e agora, em São Paulo, temos a bancada da rúcula. Para essa bancada, a humanidade de sete bilhões de Sapiens pode sim se alimentar de rúcula com alface, apesar de toda a história da seleção natural dizer o contrário.

Tudo bem, modas são modas, e vivemos uma era de modas ridículas, principalmente entre jovens riquinhos. Veganos de todos os tipos, seguindo o guru Peter Singer e seu “Animal Liberation” de 1975, afirmam que comer animais é “especismo”. O termo é cunhado como analogia a “racismo”. Bicho também é gente.

Partilho da sensibilidade de cuidado com os animais e desconfio de quem maltrata animais. Mas, como seres naturais que somos, precisamos nos alimentar.

Não existe a natureza que os veganos imaginam em suas vidinhas protegidas e cheias de pequenos luxos alimentares presentes em restaurantes descoladinhos. A natureza é uma besta fera que devora tudo.

Câncer é tão natural quanto uma praia maravilhosa e deserta. Entrega um vegano desses pra besta fera que é a natureza e você verá o que acontece: os vermes carnívoros comerão os veganos, assim como comerão os frequentadores de churrascarias. A riqueza material corre o risco de deixar todo mundo abestalhado.

Afora o fato evidente de que as pessoas podem gostar ou não de carne, sentir-se bem comendo carne ou não, ter nojo ou não (e ninguém deve se meter nessa questão de gosto pessoal), a ideia de transformar em lei algo assim (proibir as pessoas de comer carne em locais públicos num dia da semana) só pode passar pela cabeça de algum fascista verde radical. Ou de alguém financiado por algum grupo de interesse em “dinheiro verde”. Ou de um neoidiota contra a carne.

Se leis assim passarem um dia, teremos chegado ao fundo do poço de uma tendência contemporânea que é o fascismo de butique.

O que é fascismo de butique? É gente que transforma suas pequenas manias em pautas universais, do tipo: “A humanidade tem que viver como eu acho que ela deve viver”.

Jovens que vêm de boas famílias, normalmente, compõem o grosso desse fenômeno. Na Europa, como bem dizia o sociólogo Zygmunt Bauman (1925-2017), esse tipo de jovem é produto do Estado de bem-estar social, mas no Brasil e nos EUA são frutos de pais com razoável grana que pagam escolas caras que abraçam árvores.

Eduque seu filho para ser uma “pessoa com outra qualidade de consciência” e terá um idiota pra sempre a ser sustentado em suas manias narcísicas de comportamento “puro”. Nunca se prepararam tão mal os jovens para a vida real como nos últimos anos. Jovens assim não enfrentariam desafios, dos Neandertais a Hitler.

Faça um teste consigo mesmo: se você achar que sabe como as pessoas deviam viver para serem melhores, a chance de você ser um fascista de butique é enorme.

Enfim: alguém quer proibir você de comer um churrasquinho na segunda-feira. Quer ir jantar à noite? Estaria a fim de comer um steak com molho poivre e fritas? A Assembleia Legislativa de São Paulo, do alto da sua infinita utilidade, quer proibir.

A bancada da rúcula vai obrigar a você a comer o que ela quer que você coma. *

(*) Luiz Felipe Ponde, filósofo, Folha de São Paulo

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DEPOIMENTO

Não sou racista, minha obra prova


Se os rapazes que roubaram a imagem da Globo e a vazaram na internet tivessem me abordado, naquela noite de 8 de novembro de 2016, eu teria dito a eles a mesma coisa que direi agora: “Aquilo foi uma piada —idiota, como disse meu amigo Gil Moura—, sem a menor intenção racista, dita em tom de brincadeira, num momento particular. Desculpem-me pela ofensa; não era minha intenção ofender qualquer pessoa, e aqui estendo sinceramente minha mão.”

Sim, existe racismo no Brasil, ao contrário do que alguns pretendem. Sim, em razão da cor da pele, pessoas sofrem discriminações, têm menos oportunidades, são maltratadas e têm de suportar humilhações e perseguições.

Durante toda a minha vida, combati intolerância de qualquer tipo —racial, inclusive—, e minha vida profissional e pessoal é prova eloquente disso. Autorizado por ela, faço aqui uso das palavras da jornalista Glória Maria, que foi bastante perseguida por intolerantes em redes sociais por ter dito em público: “Convivi com o William a vida inteira, e ele não é racista. Aquilo foi piada de português.”

Não digo quais são meus amigos negros, pois não separo amigos segundo a cor da pele. Assim como não vou dizer quais são meus amigos judeus, ou católicos, ou muçulmanos. Igualmente não os distingo segundo a religião —ou pelo que dizem sobre política.

O episódio que me envolve é a expressão de um fenômeno mais abrangente. Em todo o mundo, na era da revolução digital, as empresas da chamada “mídia tradicional” são permanentemente desafiadas por grupos organizados no interior das redes sociais.

Estes se mobilizam para contestar o papel até então inquestionável dos grupos de comunicação: guardiães dos “fatos objetivos”, da “verdade dos fatos” (a expressão vem do termo em inglês “gatekeepers”). Na verdade, é a credibilidade desses guardiães que está sob crescente suspeita.

Entender esse fenômeno parece estar além da capacidade de empresas da dita “mídia tradicional”. Julgam que ceder à gritaria dos grupos organizados ajuda a proteger a própria imagem institucional, ignorando que obtêm o resultado inverso (o interesse comercial inerente a essa preocupação me parece legítimo).

Por falta de visão estratégica ou covardia, ou ambas, tornam-se reféns das redes mobilizadas, parte delas alinhada com o que “donos” de outras agendas políticas definem como “correto”.

Perversamente, acabam contribuindo para a consolidação da percepção de que atores importantes da “mídia tradicional” se tornaram perpetuadores da miséria e da ignorância no país, pois, assim, obteriam vantagens empresariais.

Abraçados a seu deplorável equívoco, esquecem ainda que a imensa maioria dos brasileiros está cansada do radicalismo obtuso e primitivo que hoje é característica inegável do ambiente virtual.

Por ter vivido e trabalhado durante 21 anos fora do Brasil, gosto de afirmar que não conheço outro povo tão irreverente e brincalhão como o brasileiro. É essa parte do nosso caráter nacional que os canalhas do linchamento —nas palavras, nesta Folha, do filósofo Luiz Felipe Pondé— querem nos tirar.

Prostrar-se diante deles significa não só desperdiçar uma oportunidade de elevar o nível de educação política e do debate, mas, pior ainda, contribui para exacerbar o clima de intolerância e cerceamento às liberdades –nas palavras, a quem tanto agradeço, da ministra Cármen Lúcia, em aula na PUC de Belo Horizonte, ao se referir ao episódio.

Aproveito para agradecer o imenso apoio que recebi de muitas pessoas que, mesmo bravas com a piada que fiz, entenderam que disso apenas se tratava, não de uma manifestação racista.

Admito, sim, que piadas podem ser a manifestação irrefletida de um histórico de discriminação e exclusão. Mas constitui um erro grave tomar um gracejo circunstanciado, ainda que infeliz, como expressão de um pensamento.

Até porque não se poderia tomar um pensamento verdadeiramente racista como uma piada.

Termino com um saber consagrado: um homem se conhece por sua obra, assim como se conhece a árvore por seu fruto. Tenho 48 anos de profissão. Não haverá gritaria organizada e oportunismo covarde capazes de mudar essa história: não sou racista. Tenho como prova a minha obra, os meus frutos. Eles são a minha verdade e a verdade do que produzi até aqui.*

 
(*) WILLIAM WAACK, 65, é jornalista profissional desde os 17; trabalhou em algumas das principais redações do país e foi correspondente internacional por 21 anos na Europa e Estados Unidos
Folha de São Paulo

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O BICHO PEGOU GERAL

Gilmar Mendes já não anda nas ruas em paz — nem em Lisboa

O vídeo que circula na internet mostra que as proezas do ministro do Supremo Tribunal Federal atravessaram o Atlântico

Longe de caminhadas por ruas e avenidas brasileiras há bastante tempo, Gilmar Mendes soube no fim de outubro de 2017 que não podia mais refugiar-se nem em camarotes e outros locais vips. Ao aparecer no estádio do Pacaembu, na capital paulista, para assistir a um jogo entre e o São Paulo e o Santos pelo Campeonato Brasileiro, ouviu os torcedores gritarem em coro palavras ofensivas.

Agora, como registra o vídeo que começou a circular em grupos de WhatsApp desde a noite deste sábado, o ministro do Supremo Tribunal Federal descobriu que suas proezas cruzaram o Atlântico. Numa viagem a Lisboa, Gilmar Mendes é abordado por duas mulheres que perguntam: “O senhor não tem vergonha na cara?”

O sorriso amarelo no rosto do magistrado confirma: quanto mais Gilmar Mendes coloca gente na rua sem explicação, mais arriscado será andar nas ruas em paz.*

(*) Branca Nunes, no blog do Augusto Nunes

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