ACORDA, BRASIL!

Sua tia não é fascista nem está sendo manipulada

A vida pode ficar infinitamente mais desgraçada quando abrimos mão dos parentes e amigos

Apesar de eu ser ateia, Deus é bom e gosta de mim: no sábado pego um avião, vou para Atlanta, de lá para São Francisco e de lá para Seul, na Coreia do Sul. É muito chão, muito céu, muito espaço. Vou a trabalho, com uma agenda milimetricamente calculada, com diversas visitas a laboratórios de pesquisa e desenvolvimento de tecnologia. Vou mergulhar num mundo de conhecimento e de respeito intelectual, muito distante destas eleições apocalípticas. É possível que, em algum momento, até me esqueça que o Brasil existe — e que, aqui, pessoas que até ontem eram amigas e se amavam andam com tanto ódio umas das outras.

É como se, subitamente, houvéssemos nos tornado todos horríveis uns para os outros, insuportáveis, pessoas nefastas e inconsequentes; em vez de sermos todos brasileiros, náufragos num mesmo barco à deriva.

Se nada fora do comum acontecer, Bolsonaro já está eleito. Uma péssima surpresa espera por seus eleitores, que tanta fé põem numa ruptura com o sistema: para além das declarações incompatíveis com o cargo, o deputado não tem nem projetos nem competência e, o que é pior, sequer tem conexões que garantam um mínimo de eficiência ao seu governo.

Quem espera o pior não vai se desapontar. “Quanto pior, melhor” é um jogo de palavras bobo que encobre a sinistra verdade de que nada é tão ruim que não possa piorar. Quanto pior, pior mesmo.

A esta altura, deveríamos estar pensando juntos em como lidar com o futuro. Deveríamos estar cobrando propostas reais, exigindo respostas concretas e nos fortalecendo como sociedade civil, em vez de trocar mensagens insultuosas pelas redes sociais e nos distanciarmos cada vez mais uns dos outros.

A vida pode ser péssima sob um péssimo governo, mas fica infinitamente mais desgraçada quando abrimos mão das redes de segurança e de afeto que nos oferecem os parentes e amigos. No entanto, é para isso que nos encaminhamos — um tempo de desgoverno agravado pelo ódio que plantamos entre nós mesmos, incentivados por políticos canalhas que, amanhã, vão conviver faceiros pelos corredores ricamente atapetados dos palácios de governo, como se nada houvesse acontecido.

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“As pessoas estão sendo manipuladas” é o novo “O povo não sabe votar”. As duas frases pressupõem uma casta de iluminados à prova de políticos populistas, e são igualmente arrogantes e elitistas. Elas embutem uma carga imensa de discriminação contra gente pobre e sem instrução, como se apenas estudantes de ciências sociais e pós-graduados em marketing estivessem aptos a entender as verdades ocultas da política.

O meme “A sua tia não é fascista, ela está sendo manipulada”, que tem circulado pela internet em todas as formas, e que é oferecido como uma espécie de salvo-conduto condescendente a parentes bolsonaristas, agrega ainda uma dose asquerosa de ageismo, aquele preconceito contra idosos que todos nós, que já passamos de uma certa idade, enfrentamos diariamente.

A sua tia não é fascista nem está sendo manipulada. Ela apenas fez uma opção diferente da sua. A isso se chama democracia.*

(*) Cora Rónai – O Globo

Leia mais: https://oglobo.globo.com/cultura/sua-tia-nao-fascista-nem-esta-sendo-manipulada-23163073#ixzz5UKD9bcSy
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UM NOVO RECORDE

Toalha jogada

No alto comando da campanha de Fernando Haddad (PT) dá-se como certa a sua derrota no próximo dia 28. Ali não se espera boas notícias quando forem divulgados esta noite os resultados da nova pesquisa do instituto Datafolha.

O empenho agora é para que a derrota não seja tão acachapante como se anuncia. Que pelo menos Jair Bolsonaro (PSL) não ultrapasse a marca dos 62% dos votos válidos obtidos por Lula na eleição de 2002. Até isso está difícil.*

(*) Blog do Ricardo Noblat

E COMO IAM DIZENDO…

O abismo é outro

Diante do que vem aí, vencer as eleições foi só o mais fácil


Pergunta que começa com “se” não tem resposta. Por isso pode parecer inútil perguntar como teria sido a corrida eleitoral de 2018 se não tivesse ocorrido o atentado contra Jair Bolsonaro, se Lula não tivesse destruído a possibilidade de uma união inicial das esquerdas, se as forças ao “centro” do espectro político tivessem identificado lá atrás qual o eixo em torno do qual se alinhou a grande maioria do eleitorado (o repúdio ao sistema e o antipetismo).

Ocorre que o exercício do contrafactual (“o que teria sido se”) é útil, sim. Antes de mais nada, serve para demonstrar que não existe o “inevitável”. Que a política é, por definição, o terreno do imponderável e do acaso. E que escolhas feitas por agentes políticos – por Lula, Bolsonaro, Fernando Henrique, Ciro, ou quem você quiser – têm a condição de alterar o rumo das coisas dentro dos grandes limites impostos, por exemplo, pela herança do passado.

Sendo enorme a probabilidade de que o tsunami político que empurrou Bolsonaro o elegerá presidente, essa onda, “inevitavelmente”, nos conduzirá até onde? Parece evidente que esse fenômeno social e cultural (o embate político tem as características da “guerra cultural” de valores, não importa se a gente aplaude ou repudia o que Bolsonaro e o PT dizem) alterou fundamentalmente nossa paisagem política, dando cara e voz a um nutrido eleitorado antes disperso e desorganizado (estou evitando colocar rótulos).

É um eleitorado que desconfia da imprensa, da Justiça, da política e que tem medo, sente-se órfão das instituições, acha que seu esforço individual é torpedeado pelo Estado, pelos impostos, pela burocracia e por “eles” em Brasília, e encontrou uma resposta (se você gosta ou não, é outra conversa) na figura de Bolsonaro. O que eu algumas semanas atrás chamava de “choque de placas tectônicas” entre o desejo de mudança e a velha política parece ter produzido o rompimento de um dique político e abriu uma enorme avenida de oportunidade ao mesmo tempo em que levanta um ponto de interrogação igualmente enorme.

Pois sendo coerente com os princípios acima, nem está “garantido” que essa onda produza os resultados que Bolsonaro simboliza neste momento e nem sabemos que capacidade de articulação e liderança políticas ele será capaz de demonstrar – diante dos desafios e das encruzilhadas nos quais o País se encontra, vencer as eleições terá sido apenas a mais fácil de todas as tarefas.

Derrotar o petismo como agremiação política não significa derrotar as ideias que o partido defende e que, na minha opinião, estão na raiz do fato de o Brasil se encontrar perigosamente preso na armadilha dos países de renda média, ter sido complacente com corrupção, atraso e taxas horrendas de criminalidade. Essas características de mentalidade não foram inventadas pelo PT, que deve grande parte de seus sucessos eleitorais justamente por representá-las tão bem.

Essa mentalidade é o que chamei no fim do segundo parágrafo deste texto de limites impostos pela herança do passado. É neste ponto – na capacidade de rebelar-se contra os limites reconhecidos – que se destacam os verdadeiros agentes políticos da mudança e das transformações capazes de alterar o rumo de acontecimentos.

Do jeito que as coisas estão, o Brasil está à beira do perigosíssimo abismo da estagnação, paralisia e mediocridade.

Não é inevitável cair nesse abismo. Depende de escolhas humanas além daquelas que já parecem ter sido feitas pelos eleitores.*
(*) William Waack, O Estado de S.Paulo

A HORA DA VERDADE

Moro diz que não ‘inventou’ depoimento de Palocci e avisa que delação é ‘mais contundente’

Em resposta ao CNJ, juiz da Lava Jato diz que Lula, alvo de denúncias de Antônio Palocci, não é candidato, e que ‘retardar a publicidade do depoimento para depois das eleições poderia ser considerado tão inapropriado como a sua divulgação no período anterior’

Em resposta ao Conselho Nacional de Justiça (CNJ) – que pediu explicações suas a partir de representação do PT -, o juiz federal Sérgio Moro afirmou que não ‘inventou’ o depoimento do ex-ministro Antonio Palocci (Fazenda/Casa Civil-Governo Lula e Dilma) e que não houve de sua parte ‘qualquer intenção de influenciar as eleições gerais de 2018’. O corregedor nacional de Justiça, ministro Humberto Martins, havia pedido informações ao juiz da Operação Lava Jato, em 4 de outubro, pela retirada do sigilo de trecho da delação premiada de Palocci.

Parte da delação de Palocci foi tornada pública por Moro no dia 1.º de outubro nos autos do processo sobre supostas propinas da Odebrecht ao ex-presidente – um terreno que abrigaria o Instituto Lula e um apartamento vizinho ao do petista em São Bernardo do Campo. Quando deu publicidade ao Anexo 1 da delação de Palocci, Moro anotou que não via ‘riscos às investigações’.

Palocci incriminou Lula e sua sucessora, Dilma Rousseff, revelou suposto esquema de arrecadação de ‘propinas explícitas’ pelo ex-presidente na construção de navios-sonda do pré-sal e ainda detalhou ‘negócios ilícitos’ na África.

O ex-ministro está preso desde setembro de 2016, quando foi pego na Operação Omertà, desdobramento da Lava Jato. Moro o condenou em uma primeira ação penal a 12 anos e dois meses de reclusão.

O PT e três deputados da sigla representaram contra Moro no CNJ por causa da liberação do Anexo 1.

Ao CNJ, Moro afirmou que ‘não pode interromper os seus trabalhos apenas porque há uma eleição em curso’. Segundo o magistrado, tirar o sigilo de parte da delação era uma medida ‘necessária pois caso haja condenação terá este Juízo, na sentença, que dimensionar benefícios decorrentes da colaboração para Antônio Palocci Filho’.

“Foi promovida a juntada apenas de cópia do acordo, da decisão de homologação e do termo de depoimento da colaboração n.º 1, uma vez que, após análise, constatou este Juízo que a sua publicidade não prejudicaria as investigações em curso. Há outros depoimentos, alguns mais contundentes”, apontou.

Moro relatou que as peças não haviam sido juntadas anteriormente, porque ‘apenas em 24 de setembro de 2018, a autoridade policial peticionou ao Juízo apresentando elementos de corroboração acerca das declarações de Antônio Palocci Filho’.

“Então, este julgador aguardou esse momento processual para prevenir que a divulgação prematura do depoimento comprometesse a colheita da prova de corroboração. Apesar do alegado pelos Requerentes, o Partido dos Trabalhadores e os Deputados Federais Paulo Roberto Severo Pimenta, Wadih Damous e Luiz Paulo Teixeira Ferreira, não houve da parte deste juiz qualquer intenção de influenciar as eleições gerais de 2018”, anotou.

“Oportuno lembrar que Antônio Palocci Filho, no depoimento divulgado, reporta-se principalmente a supostos crimes praticados pelo ex-Presidente Luiz Inácio Lula da Silva e que, condenado e preso por corrupção e lavagem de dinheiro, não é sequer candidato nas eleições de 2018. Não há no depoimento qualquer referência ao atual candidato à Presidência pelo Partido dos Trabalhadores.”

O juiz da Lava Jato afirmou ainda ao CNJ que ‘caso fosse intenção influenciar nas eleições teria divulgado a gravação em vídeo do depoimento, muito mais contundente do que as declarações escritas e que seria muito mais amplamente aproveitada para divulgação na imprensa televisiva ou na rede mundial de computadores’.

“O fato é que o Juízo não pode interromper os seus trabalhos apenas porque há uma eleição em curso”, registrou.

“Não foi, ademais, o Juízo quem inventou o depoimento de Antônio Palocci Filho ou os fatos nele descritos. Publicidade e transparência são fundamentais para a ação da Justiça e não deve o juiz atuar como guardião de segredos sombrios de agentes políticos suspeitos de corrupção. Retardar a publicidade do depoimento para depois das eleições poderia ser considerado tão inapropriado como a sua divulgação no período anterior. Se o depoimento, por hipótese, tem alguma influência nas eleições, ocultar a sua existência representa igual interferência a sua divulgação.”

No documento, o juiz afirma ainda que ‘o conteúdo do depoimento sequer se revestiu de grande novidade’.

“O próprio Antônio Palocci Filho já havia, ainda em 2017, divulgado carta pessoal na qual teria afirmado seu desejo de colaboração e admitido a prática de crimes pelo ex-presidente da República”, relatou.

O magistrado apontou ainda ao Conselho uma ‘linha adotada por alguns agentes do Partido dos Trabalhadores de buscarem criminalizar a atividade jurisdicional’ e também ‘de buscarem cercear a atuação independente da Justiça através de ofensas, mentiras e representações disciplinares junto ao Conselho Nacional de Justiça’. Moro destacou que já foi ‘demandado em queixa-crime (rejeitada por unanimidade e com trânsito em julgado pelo Tribunal Regional Federal da 4ª Região, pelo Superior Tribunal de Justiça e pelo Supremo Tribunal Federal)’.

“Antecipando-se a um desejado ‘controle social da Administração da Justiça’, o que quer que isso signifique, buscam, estes mesmos agentes políticos, através de provocação ao Conselho Nacional de Justiça (cuja composição desejam, aliás, alterar), cercear decisões da Justiça que contrariam os seus

interesses partidários, mesmo às custas da aplicação da lei a crimes de corrupção”, assinala o magistrado.*

(*) Julia Affonso, Ricardo Brandt e Fausto Macedo – Estadão

APARELHAMENTO GERAL E IRRESTRITO

Onyx Lorenzoni exagera ao prometer cortar 25 mil cargos “no primeiro dia”?

O número, no entanto, é superior aos atuais 23.070 cargos comissionados do Poder Executivo, segundo dados do Ministério do Planejamento relativos ao mês de agosto.

CARGOS DEMAIS — “Hoje são quase 30 mil cargos em comissão. Eu propus que sejam extintos 25 mil no primeiro dia, assim como todo e qualquer privilégio, cartão corporativo, acabar tudo — disse Lorenzoni, em entrevista ontem ao Globo, baseando-se em um número total de comissionados maior do que o informado pelo governo.

Onyx não detalhou como fazer o corte sem paralisar a maquina pública. Os atuais 23.070 cargos comissionados incluem DAS (Direção e Assessoramento Superior) e também FCPE (Funções Comissionadas do Poder Executivo), que só podem ser exercidos por servidores concursados. Em 2017, o governo fez uma reforma administrativa na qual foram extintos 4.184 cargos comissionados, o que gerou uma economia de R$ 193,5 milhões para os cofres públicos.

PACOTE – Segundo o ministeriável, a proposta faz parte de um pacote a ser adotado em um possível governo Bolsonaro para aplicar o que eles têm chamado do “plano de governo conceitual”, sem propostas concretas, mas com linhas gerais que devem nortear o Executivo.

— Ele vai ser o presidente diferente e vai governar pelo exemplo. Ele é o primeiro que vai reduzir o seu próprio poder, dar espaço para a sociedade brasileira avançar. O plano de governo dele é conceitual — disse o parlamentar na casa do empresário Paulo Marinho, no Jardim Botânico, na Zona Sul do Rio, ponto de encontro da cúpula da campanha de Bolsonaro.

APOIAR MAIA? – Embora diga que só começará atuar após a eleição, Lorenzoni já atua nos bastidores para construir a base do governo Bolsonaro no Congresso. Oficialmente, recusa-se a responder se apoiará o colega de legenda Rodrigo Maia para se manter na Presidência da Câmara, como vem sendo defendido por partidos do chamado Centrão. Aliás, o articulador político de Bolsonaro promete negociar com todas as legendas menos as de esquerda.

Apesar de ter admitido ter recebido R$ 100 mil de propina da JBS para a campanha, no ano passado, Lorenzoni afirma que o governo colocará em prática as dez medidas contra a corrupção e reforçará a atuação do Ministério Público e do Judiciário . No braço direito, diz ter tatuado o versículo bíblico que se tornou slogans de Bolsonaro: “E conhecereis a verdade e a verdade vós libertará”. Segundo ele, não se trata de marketing, mas uma coincidência:

— Entre carregar uma mancha e ter uma cicatriz, eu escolhi ter uma cicatriz. Eu errei como qualquer ser humano, pedi desculpa para os eleitores, tatuei para nunca no mais me comprometer.*

(*) Jussara Soares
O Globo

PARTIDO DE UM DONO E ALGUNS FANTOCHES

PSB e PDT avaliam que Haddad se tornou vítima do estilo ‘desagregador’ do PT

Na estratégia de Haddad, o ideal seria o engajamento de Joaquim Barbosa, Ciro Gomes e FHC por meio de declarações públicas a favor do petista e gravações para o programa eleitoral. Até agora, porém, Haddad não teve sucesso na empreitada.

JOAQUIM BARBOSA – Líderes do PSB disseram ao blog que Joaquim Barbosa, durante um encontro que teve com Haddad, disse que votaria no candidato do PT, mas não deixou claro se havia decidido não se envolver pessoalmente na campanha.

Um interlocutor do ex-ministro disse que Barbosa ainda avalia a participação no segundo turno, mas a tendência é não se empenhar fortemente já que a eleição está na reta final.

CIRO GOMES – No caso de Ciro Gomes, depois de o candidato derrotado do PDT ter concedido apenas um apoio crítico, a esperança do PT era de que, na volta da viagem à Europa, Ciro entrasse de “corpo e alma” na campanha de Haddad.

Só que, o que já parecia distante, ficou mais longe depois das críticas do irmão de Ciro, Cid Gomes, ao estilo petista. Senador eleito, ele reclamou que o PT não faz mea culpa e foi responsável pelo surgimento de Jair Bolsonaro.

FHC RELUTA – Em relação ao ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, apesar de ele ter uma relação muito próxima com Fernando Haddad, o tucano já deixou claro que, para o PT obter o apoio dele, teria de modificar profundamente o programa de governo

Isso, na avaliação de amigos de FHC, não será feito. Segundo esses amigos, o ex-presidente pode, no máximo, dar uma declaração de voto a Haddad nesta reta final, sem maior engajamento.

FALTOU ESPAÇO – Para integrantes do PDT e do PSB, o PT nunca foi de ceder espaço. O partido sempre quis, dizem, ser o protagonista das campanhas eleitorais e faz agora um aceno de desespero por correr o risco de perder a eleição.

Um dirigente do PSB, a partir de experiências na relação com o PT, vai além. Segundo ele, o PT não inspira nenhuma confiança quando chega a aventar a promessa de abrir mão de candidaturas à Presidência em favor de aliados no futuro.*

(*) Valdo Cruz
G1 Brasília

NINGUÉM É DE NINGUÉM

Bolsonaro é o preferido por ser o único candidato contra o sistema político

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Charge do Duke (dukechargista.com.br)

O maior problema para o PT não é não ter conseguido formar a tal “frente democrática”, pode até ser que consiga, mas o tempo está curto e os fatos estão atropelando a estratégia. O maior problema é não entender que, mesmo se Fernando Henrique, Ciro Gomes, Marina, Joaquim Barbosa, e outros que tais cerrassem fileiras em torno de Haddad, provavelmente nada aconteceria, pois os eleitores já foram para onde queriam ir, independente da cúpula de seus partidos.

Gestos dramáticos como uma união suprapartidária, ou os eternos abaixo-assinados com milhares de assinaturas de intelectuais, juízes, artistas, professores, simplesmente atingem os convertidos, não mudam o voto de ninguém. E se juntarem todos esses, é capaz de prejudicar mais ainda a candidatura de Haddad, seria música para os ouvidos de Bolsonaro.

DO MESMO SACO… – Bolsonaro dirá que são todos farinha do mesmo saco, que a social-democracia levou o país para o buraco, que PT e PSDB sempre estiveram juntos, mesmo quando brigavam. É isso que a grande maioria de seus eleitores pensa, e a união de todos esses contra Bolsonaro só confirmará que é ele o candidato antisistema, que a maioria dos eleitores quer desmontar, mesmo que o que seja colocado no lugar seja uma incógnita, com altos riscos.

Preferem um possível erro novo que insistir no erro velho, que detectaram muito antes das pesquisas eleitorais. Assim aconteceu com Lula em 2002. Desde 2013, esse sentimento estava latente nas classes média e alta, e se espalhou para as classes populares devido à eclosão da violência e da falta de serviços públicos que atendam razoavelmente às necessidades do dia a dia do cidadão comum. E à controvérsia de valores morais, identificada por muitos como uma marca esquerdista.

FORAM SOTERRADOS – Os políticos tradicionais que foram soterrados pela avalanche de votos que está elegendo Bolsonaro não entenderam nada, e insistiram, como insistem, na velha campanha política que foi atropelada pelas novas mídias, pela difusão de fake news, e também de notícias verdadeiras nos grupos de whattsapp, no contato direto do candidato com os eleitores através dos lives no facebook, das fotos e mensagens no instagram.

Os que decretaram a morte da televisão na campanha eleitoral estão tendo uma surpresa com os programas dos dois candidatos no horário eleitoral gratuito. Ambos levam para as telinhas o ambiente polêmico da internet, ganhando uma nova dimensão de noticiário. Os partidos que, como o PSDB e o PT, se mantiveram no velho esquema político de apelar para teses abstratas em vez de cuidar dos problemas que afligem o cotidiano do cidadão, perderam tempo e dinheiro.

UMA BOA BASE – O PT ainda se salvou no primeiro turno e deve sair com um contingente de cerca de 40% do eleitorado, o que é uma boa base para recomeçar na oposição. Mas tem que se lembrar de que nas últimas quatro eleições o PSDB também saiu da disputa presidencial com cerca de 40% de votos, mais ainda em 2014, e não soube aproveitar essa base para alavancar uma necessária atualização de métodos e hábitos políticos arraigados nos partidos.

É por isso que o PT não deve ter forças para reverter o resultado do segundo turno – em política nunca se sabe, mas tudo indica que a fatura está liquidada. O PT neste segundo turno manteve-se fiel a suas práticas antigas, acreditando que a “luta política” se resolveria nas velhas alianças e nas “frentes democráticas”. Teve uma sobrevida melhor que os outros partidos devido à presença de Lula no imaginário popular, mas essa narrativa épica parece estar chegando ao fim, só combina com um verdadeiro preso político, não com um político preso por corrupção e lavagem de dinheiro.

NÃO HÁ OPÇÃO – Lula não é Mandela, embora muitos, no Brasil e, principalmente, no exterior, alimentem essa lenda, por desconhecimento ou má-fé política. Ingenuidade, talvez. A possibilidade cada vez maior de que um candidato como Bolsonaro chegue ao poder não é razão para que votar no candidato do PT vire uma obrigação moral, mesmo porque o PT não representa uma opção moral superior.

À alternativa de escolher o “menos ruim”, há a opção de anular o voto, votar em branco, ou simplesmente se abster, para os que consideram ambos indignos de seu voto. Decisão política tão expressiva e respeitável quanto outra qualquer. *

(*) Merval Pereira
O Globo

FÁBULAS : O POSTE, O CÃO E O POLICIAL

Haddad diz que Moro errou na sentença a Lula

Em entrevista ao SBT, Fernando Haddad criticou Sergio Moro, ao ser questionado sobre a atuação do juiz na Lava Jato:

“Eu acho que, em geral, ele ajudou. Em relação à sentença do Lula tem um erro que vai ser corrigido pelos tribunais superiores porque não apresentou provas contra o presidente.”

Fernando Lula Haddad deu mais um programa eleitoral de presente a Jair Bolsonaro.*

(*) O Antagonista

VAI VENDO…

A candidatura Jair Bolsonaro padece do mesmo problema que aflige o nacional-populismo mundo afora: a contradição intrínseca entre um programa econômico liberal e seu caráter ideológico nacionalista.

De um lado, temos Paulo Guedes dizendo que quer privatizar tudo, inclusive Petrobras, Eletrobras e Banco do Brasil. De outro, militares próximos a Bolsonaro afirmando que energia e petróleo são setores estratégicos que devem permanecer nas mãos do Estado.

De um lado, o agronegócio e outros setores econômicos que dependem de exportações para China ou Oriente Médio insistem em políticas de abertura comercial que atendam as demandas de ambos. De outro, ideólogos atacam o “poderio chinês” e falam em mudar a embaixada brasileira em Israel para Jerusalém, uma provocação para países árabes.

Claro que não é impossível mediar esse tipo de tensão. Sempre dá para encontrar uma solução de compromisso entre o que querem uns e os outros. O papel de um presidente da República, afinal, é político: moderar os diferentes interesses que o levaram ao poder e o apoiam.

Mesmo assim, persiste a questão: uma vez eleito, quem será Bolsonaro, o liberal ou o nacionalista? Aquele que nada entende de economia e segue o caminho de seu “posto Ipiranga” ou o capitão fiel àquilo que dizem seus ex-colegas da Academia Militar das Agulhas Negras (Aman), cujo espaço num futuro governo cresce a cada dia?

Aquele que diz querer tirar o Estado das costas do empreendedor ou o deputado que foi contra o Plano Real e a privatização da Vale? Aquele que diz querer acabar com os privilégios no setor público ou o corporativista que continuará a manter os militares entre as categorias que usufruem regras especiais na hora da aposentadoria?

De todos os riscos atribuídos a um futuro governo Bolsonaro – incluindo aí o de ruptura no regime democrático –, o mais imediato repousa na contradição entre seu nacionalismo histórico e sua conversão recente ao liberalismo econômico.

O mercado financeiro se encantou com o discurso de alguém que promete resolver os problemas fiscais do Estado, reformar a Previdência e adotar medidas que aperfeiçoem o ambiente de negócios brasileiro. Mas o programa de governo de Bolsonaro é, num leitura generosa, no mínimo vago sobre seus projetos a respeito.

A ausência dos debates, em que suas ideias poderiam ser expostas e submetidas ao escrutínio do público, contribui ainda mais para manter as névoas que obscurecem seu futuro governo. Candidato, Bolsonaro aparece como um borrão de Rorschach, em que cada um enxerga o que quer, projeta seus maiores medos e desejos.

Como estratégia eleitoral, esse recolhimento promete ser infalível. Líder nas pesquisas, Bolsonaro deverá ser eleito com ampla margem sobre Fernando Haddad, a menos que haja algum fato novo de repercussões tectônicas.

Como antecipação das ideias de governo de um candidato que jamais administrou nada, nem dispõe de uma estrutura partidária com quadros técnicos consolidados em diferentes áreas, tal campanha é a pior possível.

Diante de uma opção entre dois pratos indigestos – digamos, dobradinha ou jiló –, a maior parte dos brasileiros tem escolhido não aquele que será obrigado a engolir, mas aquele que rejeita.

É compreensível que se recusem a provar outra vez a dobradinha petista. Mas precisam também entender que tipo de tempero será servido para tornar seu jiló mais palatável, a pimenta liberal ou o viscoso molho nacionalista. Depois, não poderão se arrepender de não ter escolhido um arroz com feijão mais tradicional.*

(*) Helio Gurovitz – G1