PODRES PODERES

‘Dirceu me levou a Chávez e o dinheiro

começou a sair’, diz empresário do PR

Pedro Ladeira – 4.nov.14/Folhapress
O ex-ministro José Dirceu
O ex-ministro José Dirceu

No segundo semestre de 2011, o dono da Consilux Tecnologia, Aldo Vendramin, bateu à porta do ex-ministro José Dirceu para ganhar acesso privilegiado ao gabinete do então presidente Hugo Chávez (1954-2013) e tentar evitar os recorrentes atrasos de pagamento do governo venezuelano.

Sediada em Curitiba (PR), a empresa ganhou contratos e aditivos de US$ 416 milhões para construir casas populares numa versão do Minha Casa, Minha Vida na Venezuela. Entre 2011 e 2013, a Consilux pagou R$ 1,22 milhão para o petista desatar o nó político na república bolivariana.

“O José Dirceu me levou três vezes para conversar com o Chávez pessoalmente e depois disso o dinheiro começou a sair mais rápido”, diz o empresário.

As atividades de Dirceu entraram no radar da Operação Lava Jato por suspeitas de que pagamentos feitos à a JD Assessoria e Consultoria Ltda., sua empresa, seriam, na verdade, uma forma disfarçada de propina por empreiteiras citadas no esquema de corrupção da Petrobras.

Com a quebra de sigilo autorizada pela Justiça, Receita Federal concluiu que a empresa de consultoria do ex-ministro, recebeu R$ 29,3 milhões entre 2006 e 2013. Em nota, José Dirceu afirmou ter prospectado negócios para seus clientes no exterior e negou ter tratado de qualquer assunto relacionado à Petrobras.

FOLHA – Que serviço a JD Assessoria e Consultoria prestou para a Consilux?

ALDO VENDRAMIN – Trabalhar na Venezuela não é simples. Estamos na Venezuela desde 2006 construindo casas populares, mas trabalhar lá não é simples. Tivemos bastante problema com fluxo de caixa, pagamentos que atrasavam e contratamos a consultoria do ex-ministro.

Para fazer o quê exatamente?

O José Dirceu nos aproximou do governo [do então presidente Hugo] Chávez. Ele tinha um trânsito muito grande com ministros e com o próprio presidente. Ele conhece todo mundo e a gente estava numa situação complicada com os atrasos de pagamento. Às vezes, faziam a medição e levavam muito tempo para liberar o pagamento. Ele foi muito eficiente.

Como?

Ele me levou três vezes para conversar com o Chávez, e depois disso o dinheiro começou a sair mais rápido. Continuaram atrasando, mas menos. Antes destas conversas, o governo levava seis, oito meses para pagar. Depois que o Dirceu entrou no circuito, isso caiu pra dois, três meses.

Um lobby, então.

O que o ministro [Dirceu] me disse quando começou com a gente foi: “estou defendendo uma empresa brasileira no exterior”. Algumas pessoas vieram me questionar, por causa dos problemas judiciais dele [à época, réu no mensalão], por que eu não contratava um outro escritório de advogado. Mas, com o sucesso que ele teve lá, você contrataria outro?

A consultoria também ajudou a ganhar os contratos?

Não, os contratos nós já tínhamos de antes. Em 2005, o [então governador do Paraná, Roberto] Requião levou uma comitiva de empresários para Caracas. Foi quando a gente viu a oportunidade de entrar no ramo de casas populares.

Mas a Consilux é uma empresa de tecnologia de trânsito, radares, lombadas no Brasil.

É, mas vimos a oportunidade de diversificar e entramos bem no mercado venezuelano de habitação. Conseguimos depois dessa essa viagem com o Requião. O Dirceu não teve nada a ver com a nossa entrada lá. Só nos atendeu muito depois, a partir do final de 2011.

Como o sr. encarou o vazamento da lista dos clientes da JD durante a investigação da Lava Jato?

Não tenho nada a ver com Lava Jato. O ex-ministro apenas nos atendeu num caso específico e foi muito bem.*

(*) GRACILIANO ROCHA – FOLHA DE SÃO PAULO

NO MATO SEM CACHORRO

UMA EQUAÇÃO INCONCLUSA

000 - A CH

A equação continua inconclusa, mesmo com a demissão de Cid Gomes do ministério da Educação. Ou por conta dela? Porque quando num encontro privado, mas sendo ministro, ele agrediu o Congresso, admitia-se que a presidente Dilma fosse demiti-lo. Não o fez. Pelo contrário, nos corredores do palácio do Planalto ouvia-se estar a chefe do Executivo feliz e satisfeita, porque um de seus auxiliares havia saído em sua defesa, no confronto com o Congresso.

Convocado pela Câmara, e depois da mal explicada bronquite que o prendeu a um hospital paulista, Cid Gomes compareceu na quarta-feira ao plenário. Nenhuma instrução recebeu de Dilma e manteve seus mal-educados conceitos. Até ofendeu pessoalmente o presidente Eduardo Cunha. Em seguida reagiu diante das palavras virulentas de alguns deputados, mesmo alertado para a impossibilidade de interromper os oradores. Emocionado, tomou o rumo do gabinete de Dilma, imagina-se que já disposto a demitir-se.

O resto são dúvidas, ou seja: a presidente o recebeu? Dialogou com ele? Elogiou sua performance ou admoestou-o? Foi delicada ou grosseira, se é que conversaram?

Mas tem mais: tratou-se todo o grotesco episódio de uma operação milimetricamente engendrada ou desenvolveu-se emocionalmente? O que levou o chefe da Casa Civil, Aloízio Mercadante, a telefonar para o deputado Eduardo Cunha, informando-o da demissão? Deitar água na fervura ou acirrar ainda mais os ânimos?

A AMEAÇA DO PMDB

A maior questão, porém, exprime-se pela evidência dos fatos: em meio à ebulição, o líder do PMDB declarou que seu partido abandonaria a base parlamentar do governo se o ministro não fosse imediatamente demitido. Falava por ele ou por Eduardo Cunha? Sua ameaça chegou à mesa de Dilma na mesma hora, levando-a a ceder à chantagem e decidir pela demissão do ex-governador do Ceará? Seria do temperamento da presidente curvar-se a uma hipótese inviável, já que o partido teria que ser consultado, quando mil outros fatores servem para formar bases de apoio parlamentar?

Vale repetir, de tudo, a evidência de uma equação ainda inconclusa. Daqui por diante, pressões do PMDB e de seu líder inconteste, Eduardo Cunha, derrubarão mais ministros? Estará o governo presidencialista refém de um Legislativo parlamentarista? Cid Gomes teria passado por momentos de desequilíbrio?

GOVERNO EM FRANGALHOS

Junto com as investigações da Operação Lavajato, que a cada dia revelam mais sujeira, em meio ao estranho episódio da queda do ministro da Educação, levanta-se outra tempestade. No caso, o relatório do ministro da Comunicação Social, Thomas Traumman, um verdadeiro libelo sobre a incompetência do governo, a começar pela dele própria. E com a peculiaridade de o personagem haver feito vazar o documento e viajado horas depois para os Estados Unidos, de férias. Continua ministro? Deixou carta de demissão? Esteve com a presidente Dilma, que há pouco o afastara de seu convívio? A conclusão é de estar o governo em frangalhos.*

(*) Carlos Chagas – Tribuna na Internet

 

DOLEIROBRÁS

OUTRAS ESTATAIS TAMBÉM PAGAVAM

POLÍTICOS, DIZ DOLEIRO

Políticos que serão investigados por suspeita de envolvimento com o esquema de corrupção na Petrobras também receberam propina para facilitar negócios com outras estatais do governo federal, de acordo com o doleiro Alberto Youssef, um dos principais operadores do esquema.

Detalhes dos depoimentos de Youssef vieram a público na sexta-feira, após o Supremo Tribunal Federal divulgar a relação de inquéritos abertos para investigar os políticos supostamente envolvidos.

Há menções a pagamentos milionários a políticos provenientes de contratos de órgãos como o Denatran, ligado ao Ministério das Cidades, as estatais CBTU e Furnas, além de fundos de pensão dos Correios, da Petrobras e de alguns Estados e municípios.

No caso do Denatran, dois ex-deputados do PP –João Pizzolatti (SC) e Pedro Correia (PE)– serão investigados pela suspeita de terem recebido propina de R$ 20 milhões.

IBOPE ESTAVA NA JOGADA

Segundo o relato de Youssef, o Dentran fez um convênio com a Federação Nacional das Empresas de Seguros Privados e de Capitalização para a instituição passar a fazer um registro específico dos veículos nacionais. Sem concorrência, a Fenaseg contratou a empresa GRF para realizar o serviço.

Segundo consta no inquérito, a GRF era de Carlos Augusto Montenegro, presidente do instituto de pesquisa Ibope, que seria responsável pelo pagamento da propina.

“O negócio teria rendido cerca de R$ 20 milhões em comissões para o PP, montante que seria pago em vinte parcelas”, disse Youssef ao depor. “As parcelas eram pagas por um empresário de nome Montenegro, dono do Ibope.”

PROPINA DO SENADOR

O doleiro acusa o ex-presidente da CBTU, estatal federal de trens urbanos, Francisco Colombo, de ter repassado R$ 106 mil apreendidos em 2012 pela Polícia Federal no Aeroporto de Congonhas (SP) com o funcionário da Câmara Jaymerson de Amorim.

Segundo o depoimento, o dinheiro foi pego por Colombo com Youssef dias antes e era destinado ao senador Benedito de Lira (PP-AL) e ao deputado Artur Lira (PP-AL).

ESQUEMA EM FURNAS

Youssef relatou ter informações de que havia um esquema de pagamento de suborno em Furnas, estatal do setor elétrico, que teria funcionado entre 1994 e 2001, durante o governo do tucano Fernando Henrique Cardoso. O doleiro contou que nessa época atuava como operador financeiro do ex-deputado do PP José Janene, morto em 2010.

Segundo ele, Janene recebia propina de duas empresas contratadas por Furnas. Youssef disse que presenciou Janene receber suborno de uma destas empresas e que, de 1996 a “2000 ou 2001″, a empresa repassou US$ 100 mil por mês ao PP.

O doleiro afirmou que Janene lhe disse que “dividia uma diretoria de Furnas” com o senador Aécio Neves (PSDB-MG), que na época era deputado federal. Youssef disse ter “ouvido dizer” que Aécio também recebia propina. O Ministério Público não abriu inquérito contra o tucano.

A Folha procurou a CBTU, a assessoria do Ministério das Cidades, o presidente do Ibope e a assessoria do PP, mas não obteve retorno até a conclusão desta edição.*

(*)  Folha de São Paulo

LITERALMENTE SEM PALAVRAS

UEM, DESTA VEZ, NOS LIVRARÁ DO

REACIONARISMO E DO POPULISMO?

000000000000000literalmente sem palavras

Começo estas linhas com dois conceitos do senador José Serra, constantes do seu livro “Cinquenta Anos Esta Noite – O Golpe, a Ditadura e o Exílio”, que poderiam servir para encerrá-las: “Os países se tornam estáveis quando mudam com prudência e conservam com coragem. A saudável tensão entre esses dois impulsos livra as nações dos desastres do reacionarismo e do populismo – duas forças que têm um longo passado no Brasil, mas não oferecem futuro”. E não são essas as forças que, no presente, novamente se apresentam e se digladiam?

Lembrei-me do senador tucano (e candidato derrotado duas vezes à Presidência da República) depois que ouvi, atentamente, no último domingo, os deploráveis pronunciamentos dos ministros José Eduardo Cardozo (Justiça) e Miguel Rossetto (Secretaria Geral da Presidência da República). Ao término do repetitivo falatório, cheguei definitivamente à conclusão de que a presidente Dilma, dona de desastrosa inapetência política, se continuar no mesmo diapasão, antes “auxiliada” pelo seu ministro-chefe da Casa Civil, Aloizio Mercadante, e, agora, por mais dois trapalhões, acabará levando o país à maior crise institucional da nossa história – política, econômica, social e ética.

Para coroar esse time, só falta a presença do ministro Ricardo Berzoini (Comunicações), que, em matéria de habilidade política, dispõe de uma única proposta: a imposição já, no país, da censura à imprensa, por meio do que ele e o PT chamam de “regulamento da mídia”.

DUAS AMEAÇAS

Com esses atores, que desrespeitam a inteligência dos brasileiros, as instituições democráticas, depois de 30 anos de relativa segurança, correm o risco de ser novamente destruídas por uma das duas ameaças a que se refere o senador José Serra – ou sucumbem ao reacionarismo, ou ao populismo.

Desta vez, porém, o risco de descermos o desfiladeiro está nas mãos do PT – um partido político radical, que insiste em dividir o país. E a presidente, sua maior expressão, por prepotência ou soberba, não se sentiu nada obrigada a conceder uma palavrinha aos milhões de brasileiros que, em todo o país, e com total desprendimento, foram às ruas para protestar por um Brasil mais justo e mais ético. Numa decisão equivocada, preferiu nomear auxiliares despreparados para se dirigirem à nação, obedientes, sempre, à mesma lenga-lenga por ela repetida antes, durante e depois das últimas eleições.

Por motivos ideológicos, obviamente contrários ao regime democrático, embora sempre se considerem seus arautos, nem a presidente, nem seus principais auxiliares são capazes de reconhecer que estão errados na condução do país. Querem, na verdade, apartá-lo entre ricos e pobres e não conseguem mostrar nada senão isso, vítimas que são (ou serão autores?) de uma esquerda autoritária e retrógrada.

IMPEACHMENT

A mentira como tática e a defesa intransigente de uma esquerda autoritária poderão levar a maioria da sociedade brasileira à aceitação do impeachment (que é, repito, um instrumento legítimo e de autodefesa do regime democrático), mas sem, hoje, as condições jurídicas necessárias, advertiu o ex-ministro (do STF) Carlos Ayres Brito.

Presidente: não entregue (só) a Deus o nosso destino. Convoque não apenas o país, mas, sobretudo, auxiliares competentes e comprometidos com a liberdade, e antes que a despachem para casa… E, depois, reze, como, aliás, farão todos os que têm juízo.

O Brasil é muito maior do que todos nós!*

(*) Acílio Lara Resende – O Tempo

JÁ FOI PRO BELELEU

A VOLTA DE UMA SENHORA MUITO

IDOSA CHAMADA INFLAÇÃO

000 - a   dois neurônios

A prévia da inflação oficial, Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo-15 ( IPCA-15), subiu 1,24% em março e desacelerou 0,09 ponto percentual em relação à taxa de a 1,33%, de fevereiro. No acumulado em 12 meses, o indicador subiu 7,90%, o maior valor desde maio de 2005 (8,19%).

A principal alta dos preços ocorreu nas contas de energia elétrica, no preços dos alimentos e combustíveis, que foram responsáveis por 77,42% do IPCA do mês. A energia elétrica teve elevação de 10,91% e liderou o ranking dos principais impactos, com 0,35pp. Nesse caso, a capital que mais sofreu reajuste nos preços foi Curitiba, que teve uma variação no mês de 14,89% e reajuste extraordinário de 31,86%.

Brasília registrou alta de 9,95% no mês e um reajuste extraordinário 21,98%. Essa forte alta ocorreu por conta dos reajustes e da bandeira tarifaria vigente, a vermelha, que passou de R$ 3 para R$ 5,5 a mais a cada 100 quilowatts-hora (kWh).

CEBOLA E TOMATE

Entre os alimentos, o item que mais pressionou foi a cebola, com alta de 19,07%, seguido pela cenoura (18,32%). O tomate ficou em terceiro lugar 13,04%. Os combustíveis, que subiram 6,25% no mês, exerceram impacto de 0,31 ponto percentual no índice e a gasolina, cujos preços subiram 6,68%, contribuíram sozinhos 0,26pp do IPCA do mês. Recife foi a cidade que mais teve variação do produto, com alta de até 9,22%.

Entre as capitais com maior aumento do custo de vida, o destaque ficou para Curitiba, com elevação de 1,72% em março e 8,29% no acumulado em 12 meses. Brasília ficou em penúltimo lugar, das 11 cidades pesquisadas pelo IBGE, com variação no mês de 0,82% e 6,71 no acumulado em 12 meses.

Apesar de ficar em quarto lugar na variação mensal, com alta de 1,34%, a cidade de Goiânia teve a maior alta acumulada em 12 meses, de 9,33%.*

(*) Rosana Hessel – Correio Braziliense

ROUBOBRÁS

Dilma pode terceirizar o governo.

Não a Lava-Jato

000 - A CORRUP

Quando o ministro do Trabalho considera boa a notícia do fechamento de 2,4 mil empregos com carteira, não precisa dizer mais nada. Mas ele ainda disse que a crise não é extrema como se fala por aí.

Não é extrema porque o país não vai acabar, claro, mas, para o governo e para a presidente Dilma, é uma situação quase sem saída.

As 2,4 mil vagas foram fechadas em fevereiro, número assim qualificado:

— O resultado é bem pior do que esperavam os analistas;

— É muito pior do que fevereiro do ano passado, quando foram criados 260 mil postos;

— Em todo o ano passado, foram criados quase 400 mil empregos com carteira;

— Nos 12 meses encerrados em fevereiro último, foram fechadas 47 mil vagas;

— A região com o maior fechamento de vagas em fevereiro foi o Nordeste, com perda de 27,5 mil.

O Datafolha divulgado ontem informa que cresceu expressivamente o medo de perder o emprego. Diz ainda que apenas 16% dos eleitores nordestinos aprovam o governo Dilma.

Juntando as coisas: a geração de emprego era a única coisa positiva que resistia até o ano passado. Cada vez mais fraca, mas ainda positiva. O Nordeste foi onde a presidente obteve seu melhor resultado na eleição de outubro. Ou seja, o governo e a presidente estão perdendo seus maiores trunfos.

Como uma notícia dessa pode ser boa? Só tem um jeito: o ministro devia estar esperando coisa pior.

Ou acha, como parece achar todo o governo, a julgar pelas primeiras reações pós-manifestações, que dá para virar o jogo no grito, quer dizer, na comunicação.

Mesmo nesse departamento, contudo, o governo começou mal. Anunciar com toda a pompa, incluindo Hino Nacional para uma plateia de autoridades convocadas, um velho e requentado pacote de medidas anticorrupção, no dia mesmo em que se revelava a conexão Petrobras-Vaccari, só serve para estimular mais panelaços.

E como ficamos?

No nosso regime, o presidente não cai assim tão fácil. A Constituição coloca restrições ao impeachment para preservar a estabilidade a longo prazo. Mas os governos caem — ministros, líderes parlamentares e porta-vozes podem ser substituídos para dar uma nova direção à gestão. Ainda que indecisa e contrariada, parece que a presidente vai por aí. Já há ministros caindo.

E para quem ela pode terceirizar o governo? O pessoal do PMDB, do lado político e administrativo, Joaquim Levy do lado da economia.

Não deve ser por acaso que as modificações no programa de ajuste estão sendo negocias por Levy com os presidentes do Senado, Renan Calheiros, e da Câmara, Eduardo Cunha.

A política econômica é, no essencial, correta. Na verdade, a única saída para o momento. Mas é um ajuste, um arrocho — ou seja, as coisas vão piorar antes de melhorar, com mais inflação e mais desemprego, os dois piores fantasmas a assombrar a vida das famílias. E das famílias das classes médias, incluindo a nova, eleitora preferencial de Dilma. De todo modo, ganhando-se tempo, a política econômica se acomoda.

Na política propriamente dita, parece claro que Michel Temer, Calheiros e Cunha, com o pessoal do velho PMDB, são muito mais competentes que a presidente e sua turma.

A variável que ameaça essa construção é menos a deterioração das condições econômicas, um processo lento, e mais a Lava-Jato. Na sua décima fase — a “Que país é este?” — atingiu pesadamente o PT e se aproximou mais do núcleo dirigente. E já está bem perto de políticos do PMDB, justamente os encarregados de refazer o governo.

Também não custa lembrar que, na mesma pesquisa Datafolha de ontem, apenas 9% dos entrevistados fizeram avaliação positiva dos deputados e senadores. E 50% os consideraram ruins e/ou péssimos.

No positivo, perderam para Dilma, que fez 13%. No negativo, ganharam dos 62% de ruim/péssimo da presidente. No agregado, um empate muito feio.

À medida que avançam as investigações, o valor das delações vai declinando. Claro, os promotores e o juiz Moro já sabem muito do que o pessoal pode contar.

Mas ainda faltam peças importantes, especialmente fatos concretos, como número de contas, extratos de transações, datas de reuniões e movimentações financeiras, identificação dos verdadeiros donos de contas no exterior.

E falta também, segundo fontes próximas ao processo, uma especial delação, a de Ricardo Pessoa, da UTC. E não é nem para falar do cartel das empreiteiras, mas de doações que teriam sido feitas para o tesoureiro da última campanha da presidente Dilma.

A presidente sempre pode trocar ministros e políticos, mas se aquela for mesmo a última delação, como a presidente poderá fazer com ela mesmo?

A política econômica é, no essencial, correta. Mas é um ajuste, um arrocho — ou seja, as coisas vão

piorar antes de melhorar.*

(*) Carlos Alberto Sardenberg é jornalista – O Globo

QUARTA-FEIRA, 18 DE MARÇO DE 2015

A plateia do Petrolão saúda a chegada de Dirceu e exige a entrada em cena da dupla que modernizou o faroeste à brasileira

 

Arte: Tiago Maricate

Arte: Tiago Maricate

Em meados do século 20, auge do faroeste americano, nunca faltaram serviço e dinheiro a atores que, embora esbanjassem talento em qualquer papel, pareciam ter acabado de chegar de um círculo de carroções sitiado por índios, de uma perseguição a cavalo nas pradarias do Wyoming, de um tiroteio no saloon de Abilene ou de um assalto ao banco de Kansas City. Como em obras de ficção ninguém morre ou continua na cadeia, faziam um filme atrás do outro.

Todo clássico do gênero inclui no elenco integrantes dessa tropa de elite. Em Sete Homens e um Destino (The Magnificent Seven, 1960), por exemplo, lá estão Steven McQueen, James Coburn, Charles Bronson e Eli Wallach. Hoje é impossível imaginá-los fora da história. Sem o quarteto, pareceriam desfalcados tanto o grupo de pistoleiros que se juntam para livrar do inferno um vilarejo mexicano quanto o bando de vilões que o inferniza.

Neste início de século, auge do faroeste à brasileira, sobram serviço e dinheiro a personagens nascidos e criados para o papel de bandido na vida real. Esses meliantes vocacionais atuam com o desembaraço de quem começou roubando chupetas no berçário, atravessou a adolescência esvaziando o cofrinho da avó e virou PhD em assalto a cofres públicos com vinte e poucos anos. Para os delinquentes de estimação do governo lulopetista, é tão longa a vida quanto curto o castigo ─ quando acontece.

É compreensível que a elite desse clube dos cafajestes protagonize uma safadeza atrás da outra ─ e  que os donos dos prontuários mais notáveis apareçam num escândalo como o Petrolão, que transformou a maior estatal do país na mais produtiva usina de maracutaias do mundo. Até esta terça-feira, faltava no elenco do grande momento do faroeste à brasileira o imprescindível José Dirceu. A ilustração inspirada no inesquecível faroeste americano atesta que o destino enfim completou o grupo de sete pecadores envolvidos na maior ladroagem desde o Descobrimento.

Graças à devassa da movimentação financeira das empreiteiras do petrolão e da JD Assessoria e Consultoria, controlada pelo ex-chefe da Casa Civil, Dirceu entrou no script encarnando um consultor especializado em negociatas bilionárias. Entre 2006, já despejado do Planalto, e 2013, quando passou a hospedar-se na Papuda por decisão do STF, o ex-capitão do time do Lula faturou 29,2 milhões de reais. A Justiça e o Ministério Público Federal descobriram que boa parte dessa bolada lhe foi repassada pelos saqueadores da Petrobras.

Em 2012, já acossado pelo julgamento do Mensalão, o consultor embolsou 7 milhões de reais. Em 2013, condenado por corrupção a sete anos e onze meses de prisão, amealhou outros 4,159 milhões de reais sem sair da cela. Não é pouca coisa. Mas a façanha não surpreendeu quem acompanha de perto a carreira do artista. À promissora estreia no cult que revelou Carlinhos Cachoeira e Valdomiro Diniz seguiu-se a extraordinária performance como chefe da quadrilha de mensaleiros. Dirceu vai brilhar no Petrolão. E tem tudo para encarnar mais de um personagem relevante.

Como tudo no moderno faroeste à brasileira, o Petrolão é coisa de Lula e Dilma Rousseff. Produtor, roteirista e diretor, o ex-presidente faz de conta que também desta vez não sabe de nada. Melhor perguntar a Dilma, sugere. A assistente de produção finge que a obra lhe caiu no colo pronta e acabada ─ e jura que não tem nada de extraordinário. A plateia discorda. Neste domingo, quase 2 milhões de brasileiros gritaram nas ruas os nomes dos dois realizadores que insistem em manter distância dos holofotes.

Logo o país inteiro saberá que o mais repulsivo dos escândalos não teria existido sem Lula e Dilma. Os espectadores saudarão a entrada em cena da dupla com uma vaia do tamanho do Petrolão. *

(*) Blog do Augusto Nunes

PEÇA AJUDA AOS UNIVERSITÁRIOS

Imagem de Dilma foi à UTI,

informa o Datafolha

Editoria de ARte/Folha

Nos seus primeiros quatro anos como presidente, Dilma Rousseff não conseguiu vincular sua sisuda figura a uma simbologia, uma marca. Iniciado o segundo reinado, ela precisou de apenas 77 dias para grudar na própria testa o signo da ruína. O Datafolha informa que a imagem da ex-supergerente foi internada pelos brasileiros na UTI. A recuperação vai requerer tratamento de choque.

Dilma já é considerada ruim ou péssima por 62% dos brasileiros. Aproxima-se perigosamente de Fernando Collor, que arrostava taxa de rejeição de 68% em setembro de 1992, às vésperas de ser escorraçado do Planalto pelo impeachment. Uma aversão desse tamanho não passa com pomadinhas anticorrupção e curativos ministeriais. Exige, de saída, a grandeza de uma autocrítica genoína.

Depois de perder a pose e o asfalto, a presidente perde o pouco que lhe restava de discurso. O lero-lero segundo o qual apenas os eleitores de Aécio Neves fazem cara de nojo para Dilma perdeu completamente o nexo. Dilma tanto fez que definha também em seus próprios redutos. Mesmo entre os beneficiários das políticas sociais, a rejeição disparou.

Dilma tornou-se uma presidente minoritária. Sua aprovação aproxima-se da casa de um dígito. Apenas 13% dos patrícios classificam-na como ótima ou boa. Nesse ponto, madame igualou-se a FHC, sua eterna e mais querida referência. Em setembro de 1999, acusado de estelionato eleitoral por ter desvalorizado o Real após reeleger-se, FHC também amargou os mesmos 13% de rejeição.

O pessimismo do eleitorado completa a atmosfera de borrasca que se acercou de Dilma. De cada dez brasileiros, seis apostam que a economia vai piorar. A grossa maioria acha que a inflação e o desemprego subirão 77% e 69%, respectivamente. Nessa seara, Dilma não tem boas notícias a fornecer neste ano de 2015, talvez nem em 2016.

Como se fosse pouco, os desdobramentos do petrolão são acompanhados com um interesse de novela: 73% tomaram conhecimento da “lista do Janot”, com os nomes de autoridades e congressistas encrencados. O escândalo é de fácil apreensão. Numa fase em que sobra mês no fim do salário, o brasileiro revolta-se com as milionárias cifras entesouradas na Suíça.

Apegada ao manual petista de administração de crises, Dilma vem reagindo à ruína de forma previsivelmente acanhada e convencional. É fácil, muito fácil prever o seu próximo erro: vai chamar João Santana para uma conversa. A crise não pede mais embromação publicitária. Em vez dar ouvidos ao marqueteiro, Dilma deveria escutar o seu instinto de sobrevivência.*

(*) Blog do Josias de Souza

FALOU E DISSE

‘As lições do dia em que o PT perdeu o controle das ruas e o povo insultou Lula como jamais o fizera’

000 - falou e disse

Lição número um do domingo histórico de 15 de março de 2015, quando o Brasil celebrou com maturidade, coragem e alegria os 30 anos do fim da ditadura de 1964 e do início da redemocratização: o PT perdeu o controle das ruas.

De fato começara a perder desde que a corrupção passou a corroê-lo por dentro em 2005 – portanto, há exatos 10 anos –, tão logo o escândalo do mensalão fez o primeiro governo Lula tremer. Não caiu, é verdade. Mas perdeu a pose e nunca mais a recuperou.

Lição número 2 de um domingo histórico: Lula deixou de ser intocável. Em nenhum ato público de grande porte até aqui, manifestantes haviam ousado, em coro e por muito tempo, ofender Lula com palavras de ordem.

Os que tentaram em outras ocasiões não foram bem-sucedidos. Mas ontem foram sim. “Lula cachaceiro, devolve meu dinheiro” foi uma das agressivas palavras de ordem. Estamos longe da cultura nórdica que cobra boa educação a qualquer hora.

Infelizmente é assim e sempre será neste país abençoado por Deus e bonito por natureza. Não foi  assim quando Dilma acabou insultada no jogo de abertura da Copa do Mundo, no ano passado? Não devemos nos julgar inferiores por isso.

Quantos países, de pouca experiência democrática como o nosso, seriam capazes de pôr mais de dois milhões de pessoas nas ruas pacificamente? Isso é quase metade da população da Noruega. É sete vezes mais do que a população da Islândia.

Atravessamos apenas 30 anos ininterruptos de Estado Democrático de Direito. A democracia por aqui está mais no papel do que na realidade das pessoas. Temos liberdade. Não temos rede de esgoto. E liberdade sem rede de esgoto não melhora a vida de ninguém.

Agravou-se a situação da presidente Dilma. Ela não pode falar ao país por meio de rede nacional de rádio e de televisão porque seria recepcionada por um panelaço. Não pode circular por aí para não ser vaiada. Muito menos confraternizar com seu povo sem medo.

À crise econômica somou-se a crise política. Roguemos para que disso não resulte uma crise institucional. No momento, Dilma nada tem a dizer aos brasileiros – nada de novo, nada que mude sua situação. E os brasileiros não desejam ouvi-la. Simples.

Como restabelecer o diálogo sem o qual o país entrará em uma das fases mais delicadas de sua história recente? O governo carece de líderes. Os partidos, idem. Por espontâneas e desorganizadas, as manifestações não têm quem as guie. E não admitem ser guiadas.

A solução não está no impeachment. Presidente só pode ser deposto se cometer um dos oito crimes de responsabilidades previstos na Constituição. Dilma não cometeu nenhum deles. O que fazer então? Eu não sei. De outras vezes pensei que sabia. Desta, não.*

(*) Blog do Ricardo Noblat

E QUEM É O CHEFE DO GALINHEIRO?

Delator diz que Vaccari, ainda hoje tesoureiro do PT, pediu propina por meio de doações oficiais

CODINOME MOCH - João Vaccari: homem de confiança do ex-presidente Lula, o tesoureiro era o elo financeiro entre os corruptos e os corruptores que atuavam na Petrobras (Foto: VEJA.com)

CODINOME MOCH – João Vaccari: homem de confiança do ex-presidente Lula, o tesoureiro era o elo financeiro entre os corruptos e os corruptores que atuavam na Petrobras (Foto: VEJA.com)

Eduardo Leite, vice-presidente comercial da Camargo Corrêa, afirmou em delação premiada que João Vaccari Neto sugeriu que ‘propina atrasada’ fosse depositada em contas de campanha

000 - filho teu não foge à luta

No ano de 2010, o vice-presidente comercial da construtora Camargo Corrêa, Eduardo Leite, foi apresentado ao tesoureiro nacional do PT, João Vaccari Neto. Estavam em um restaurante quando o petista aproveitou o encontro para marcar uma reunião sobre “assuntos de interesse comum”. Dias depois, Vaccari colocava a fatura da propina sobre a mesa de um jantar com Leite, apelidado de “Leitoso” na quadrilha do doleiro Alberto Youssef.

Num restaurante em Moema, na Zona Sul de São Paulo, Vaccari foi direto ao assunto: a Camargo Corrêa estava “atrasada” com os pagamentos de propina em contratos da Petrobras.

O relato consta em depoimento prestado na última sexta-feira, 13, na carceragem da Polícia Federal em Curitiba (PR), onde está preso o executivo da Camargo Corrêa. Leite fechou acordo de delação premiada e se comprometeu a colaborar com as investigações em troca de possível punição mais branda da Justiça.

“João Vaccari questionou o depoente se não haveria interesse em liquidar esses pagamentos mediante doações eleitorais oficiais”, diz o depoimento de Leite, tomado pelo delegado Felipe Hayashi na presença do advogado Marlus Arns.

Leite contou que foi cobrada uma dívida de propina superior a 10 milhões de reais. “O valor certamente era superior a 10 milhões de reais”, diz o depoimento.

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O tesoureiro fez a cobrança e logo apresentou a solução: os pagamentos poderiam ser feitos na forma de doações oficiais. O depoimento de Leite foi essencial para convencer os investigadores da Operação Lava Jato de que Vaccari atuava pessoalmente na coleta de propina. O suborno era cobrado, várias vezes, na forma de contribuições oficiais, como tentativa de dar uma aparência legítima ao dinheiro desviado do esquema de corrupção da Petrobras.

De acordo com o executivo, o tesoureiro chegou a ser recebido na sede da construtora em São Paulo, onde Leite “deixou a solicitação de Vaccari para ser resolvida por Marcelo Bisordi [vice-presidente da área institucional]“. A partir daí, o tesoureiro passou a ter mais contato com Bisordi, de acordo com Leite, para tratar das doações eleitorais.

Mas Vaccari e Leite continuaram a se encontrar. O tesoureiro chegou a ser convidado e marcou presença na festa de 15 anos da filha do vice-presidente comercial.*

(*)  Por Daniel Haidar, de Curitiba, para VEJA.com