NA TERRA DOS CORONÉIS

Surto de diarreia já matou 48 pessoas em Alagoas

_acir0305a - RENAN CALHEIROS

Água, distribuída em carros-pipa, é suspeita de provocar doença; em 27 cidades, caso é tratado como epidemia

ARAPIRACA (AL) — Há uma semana, Camila, de 3 anos, está com diarreia. As dores e o sangue fizeram a mãe procurar o Hospital Regional de Arapiraca, a 125 km de Maceió. — Doía demais. Aí a gente procurou (o médico), ela recebeu o remédio e vai melhorar — disse a dona de casa Luzinira Maria da Conceição, mãe de Camila. A preocupação tem motivos: a diarreia já matou, em Alagoas, 48 pessoas desde 15 de maio; a última morte foi anteontem. Em 27 cidades alagoanas, é tratada como epidemia pela Secretaria estadual de Saúde. Outros 40 municípios estão em alerta. Segundo o Ministério Público, a maioria dos casos acontece em cidades no entorno de Arapiraca. O pico da doença foi entre 15 de maio e o final do mês de junho. No Hospital Regional, metade dos atendimentos diários era por causa da doença: — Agora, está tranquilo porque as pessoas recebem orientação. As pessoas chegavam aqui agoniadas com os sintomas e pelo que viam na TV. Tinham medo — disse o médico Ulisses Pereira. Promotores do interior de Alagoas se reuniram anteontem em Arapiraca para discutir como auxiliar na apuração das causas do surto. Os promotores vão agir em conjunto com os secretários municipais de Saúde. — Não existe ainda uma causa da diarreia. Acreditamos em alguns fatores, como a água distribuída em caminhões-pipa. Essa água é distribuída sem análise — explicou Micheline Tenório, promotora do Núcleo da Saúde do MP. Para ela, a seca pode ajudar a explicar o grande número de mortes. Segundo o governo federal, esta é a pior seca no sertão nordestino nos últimos 50 anos. O calor forte evapora ainda mais rápido a água em açudes e barreiros, onde o líquido é misturado na lama. As cisternas também podem ser foco de disseminação da diarreia. E a falta de água é constante não só no sertão. Arapiraca é uma cidade do agreste. Na sede do MP, onde acontecia a reunião, as torneiras estavam secas. Em Alagoas, as autoridades descartam um surto de cólera, doença erradicada no Brasil desde a década de 90: — Nossa preocupação é orientar. Alguns casos da diarreia estão entre crianças de 1 a 10 anos de idade ou pessoas mais velhas. Acreditamos que ações mais pragmáticas trarão mais conforto para a população — disse o procurador de Justiça Geraldo Majella.

(*) ODILON RIOS, ESPECIAL PARA O GLOBO

 

A PROPÓSITO

Mexendo no problema errado

__acir0720b - Dilna - atolada na merda

Não é questão de nacionalidade: um dos maiores médicos do Brasil foi um ucraniano, Noel Nutels, que levou a saúde pública às áreas indígenas da Amazônia. A questão é outra: é que o Governo criou uma enorme polêmica por achar que Saúde é Medicina. E não é: Medicina é a última etapa na luta pela Saúde.

A Saúde começa pela engenharia – saneamento básico. A água potável e os esgotos reduzem o número de doentes (e derrubam a mortalidade infantil). Educação é o segundo passo: quem lava as mãos e cuida da higiene básica, mantém o mosquito da dengue à distância, assegura a limpeza dos animais domésticos e cuida de seu lixo tem mais condições de evitar doenças. Condições de vida são importantes: roupas e calçados minimamente adequados, alimentação suficiente, moradia saudável fazem milagres. Se uma pessoa educada, com acesso a saneamento básico, alimentação e moradia, devidamente vacinada, mesmo assim fica doente, então cabe à Medicina cumprir seu nobre e insubstituível papel de cura.

Em resumo, não adianta trazer grandes especialistas mundiais sem que a população tenha condições adequadas de vida. Tem? Não, não tem. E não falemos de periferias: Guarulhos, na Grande São Paulo, segunda maior cidade do Estado, 13ª do país, com 1,2 milhão de habitantes, onde está o maior aeroporto internacional do país, não trata nem metade dos esgotos que lança no rio Tietê.

A propósito: sem seringas, termômetro, um medidor de pressão, um medidor de glicemia, alguns remédios, que é que se espera de um médico? Milagres? *

(*) Coluna Carlos Brickmann, na Internet.

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ACORDA, BRASIL!

Um ruidoso silêncio

00rs0712a - pesado penteado

A voz das ruas às vezes é tão rouca que fica difícil entendê-la.

Com exceção dos últimos atos de vandalismo no Leblon, perto da casa do governador do Rio, Sérgio Cabral, o resto do Brasil parece ter entrado numa espécie de compasso de espera, entre o rumor da conquista da Copa das Confederações e a expectativa da visita do papa.

O resultado prático das manifestações foi manter o preço das passagens do transporte coletivo paradas por mais algum tempo (o que segundo alguns prefeitos ameaça cidades de falência, mas ninguém se comove com isso) e mostrar que o País das Maravilhas de Alice só existia na cabeça de João Santana e sua trupe de animadores de auditório.

A verdade é que o país permanece essencialmente o mesmo, ainda que vitimado por algumas gritantes barbeiragens gerenciais, mas a percepção sobre ele mudou do dia para a noite, sem que ninguém consiga avançar sobre a essência do problema.

Ontem estávamos às portas do Paraíso, hoje vislumbramos o inferno cada vez mais próximo.

As condições econômicas objetivas do mundo mudaram bastante, em nosso prejuízo, e não existe ninguém disposto a bancar a ideia de que tudo não passa de uma “marolinha”, pois quem fez isso no passado sabe muito bem que hoje estamos sofrendo as consequências da irresponsabilidade e da leviandade de ontem.

Num texto escrito para o jornal “Valor Econômico” e debatido na Feira Literária de Paraty, o economista André Lara Rezende, um dos pais do Plano Real, resumiu com uma frase aquilo que estamos sentindo, mas não sabemos explicitar com clareza: o “mal estar contemporâneo”.

Ele deixa claro que esse mal estar não é o mesmo das praças árabes, nem do Occupy Wall Street, nem dos desempregados da crise europeia.

É alguma coisa especificamente brasileira e que a classe política que nos dirige, com sua rudimentar insensibilidade e seu primarismo pragmático, não soube nem de longe decifrar ou traduzir e menos ainda administrar.

As tentativas de solução que apareceram, como um arremedo ridículo de reforma política, a proposta de reforma constitucional exclusiva ou de plebiscito limitado, não tangenciam nem de longe os problemas do mal estar.

O governo, em sua turrona insistência em dizer que tudo vai bem quando tudo ameaça desandar, mostra sua falta de grandeza e a sua miopia estratégica, guiada exclusivamente pelo faro das urnas, deixando claro que seu projeto de transformação da sociedade não passa de um projeto de manter-se no poder a qualquer custo.

A oposição não é muito melhor do que isso. A diferença é que seu projeto envolve outros nomes.

No intervalo entre o clamor da vitória no futebol e a visita do papa, há um estranho silêncio pairando no ar, quebrado apenas pelo fragor dos vândalos do Leblon.

As ruas parecem ter mais algo a dizer. O que será?*

 

(*) Sandro Vaia é jornalista. Foi repórter, redator e editor do Jornal da Tarde, diretor de Redação da revista Afinal, diretor de Informação da Agência Estado e diretor de Redação de “O Estado de S.Paulo”. É autor do livro “A Ilha Roubada”, (editora Barcarolla) sobre a blogueira cubana Yoani Sanchez, no blog do Noblat.

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O ÉTIMO DE BADERNA

000- a coluna do Joauca - 500

O dicionário Houaiss, no verbete “baderna 1”, registra a seguinte informação etimológica: “segundo Antônio Soares, do antr. Marieta Baderna, dançarina it. que esteve no Rio de Janeiro em 1851, provocando “um certo frisson“.” O Dicionário etimológico Nova Fronteira, de Antônio Geraldo da Cunha (Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1982, s.v. “baderna2”) e o Dicionário da Língua Portuguesa Contemporânea, da Academia das Ciências de Lisboa  (Lisboa: Verbo, 2001) também mencionam a bailarina italiana Baderna como étimo, e a mesma data de 1851.

O Dicionário etimológico da língua portuguesa, de Antenor Nascentes (Rio de Janeiro: Acadêmica, São José, Francisco Alves, Livros de Portugal – depositários, 1955, s.v. “baderna”), ensina: “Figueiredo deriva do fr. baderne; Cortesão, do esp. M. Lübke, REW, 875, tira o port., esp. e it. baderna e o fr. baderne, do lat. baderna, de origem desconhecida. Larousse dá como étimo o ingl. bad, mau, e yam, fio.”

O Dictionnaire étymologique et historique, de Albert Dauzat, Jean Dubois e Henri Mitterrand (Paris : Larousse, 1964, s.v. “baderne”) informa que a palavra baderne teria vindo do italiano ou do espanhol baderna, de origem obscura, e data de 1773 a primeira atestação do termo em língua francesa.

A atriz Marietta Baderna, citada pela Houaiss, pela Academia das Ciências de Lisboa e por A.G.Cunha, nasceu em Piacenza, em 1828. Já bailarina de sucesso, veio para o Brasil em 1849, fixando-se no Rio com o pai, o músico Antônio Baderna.  Suas apresentações no Teatro Imperial levaram-na a ganhar muitos admiradores e a perseguição de conservadores e moralistas, para os quais a bailarina representava um perigo e um mau exemplo para os jovens. A plateia costumava bater os pés no chão e interromper os espetáculos durante as apresentações da bailarina. O problema é que a dançarina Baderna nasceu 55 anos depois da atestação do vocábulo baderne em língua francesa, embora com sentido diferente.

O Diccionario critico etimológico de la lengua castellana, de Joan Corominas (Madrid: Gredos,1976, s.v. “baderna”, vol. I, letras A-C), ensina que o termo francês, com abundância de derivados na língua de Oc (occitana),  passou para o italiano baderna em 1813 e para o bretão badern. E acrescenta: “Se suele admitir que es derivado de oc. badar, ‘abrir’, ‘hender’, con el sufijo raro de caverna, porque las badernas se emplean en Francia para revestir mástiles preservándolos del roce, luego sirvem para separar…”

José Pedro Machado, no Dicionário etimológico da língua portuguesa, 2.ed. Lisboa: Confluência,1967, registra abaderna  (talvez por aglutinação do artigo feminino, como em lesione– que deu aleijão, por prótese articular), com atestação de 1813 citando Moraes Silva. O Diccionario da Lingua Portugueza, de Antonio de Moraes Silva (Lisboa: Typographia Lacerdina, 1813), registra abadernas, no plural, designando “ganchos onde se fixam os colhedores e outros cabos, quando se aperta a enxárcia”.

O sentido primitivo de baderne, em francês, é “trança de cordas velhas” (“tresse de vieux cordages”). O sentido atual, pejorativo, constante da expressão “vieille baderne”, é o de uma pessoa aferrada a ideias ou a hábitos de outra época (“personne attachée à des idées ou à des habitudes d’un autre âge”). Em espanhol, baderna é uma “cuerda trenzada y gruesa”. A mudança de sentido em francês pode sugerir também mudança de sentido em português. Daí por que Nascentes apresenta baderna num único verbete, sugerindo que se trata de uma única palavra com vários sentidos.

Ainda que os sentidos de Baderna tenham entrado na língua em diferentes épocas; ainda que o sentido mais atual seja do nome da atriz italiana, o problema é de polissemia e não de homonímia. Baderna, em qualquer sentido, é sempre substantivo feminino, que se flexiona no plural. Não se trata de dois vocábulos iguais (homonímia), mas de um vocábulo só com significações diferentes, o que implica uma única entrada no dicionário. A diferença entre homonímia e polissemia é que a homonímia se refere a dois ou mais vocábulos de igual forma e comportamento gramatical diferente, como são que é a mesma forma para o substantivo são (de santo), para o adjetivo são (que significa sadio) e para o verbo são (v. ser). No caso da polissemia, trata-se de um vocábulo único com sentidos diferentes.       Acredito, portanto, que o termo baderna, em português, não tem absolutamente nada a ver com uma bailarina chamada Marietta Baderna.

(*) José Augusto Carvalho é mestre em Linguística pela Unicamp, doutor em Letras pela USP, e autor de um Pequeno Manual de Pontuação em Português (1ª edição, Bom Texto, do Rio de Janeiro, 2010, 2ª edição,  Thesaurus, de Brasília, 2013) e de uma Gramática Superior da Língua Portuguesa (1ª edição, Univ. Federal do ES,  2007; 2ª edição, Thesaurus, de Brasília,  2011)

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PICARETEX JURAMENTADO

Após pegar verba da Copa, Eike não entrega hotel

e tenta sair do negócio

000 - eike aista - mamando sempre

Após pegar R$ 200 milhões de uma linha de crédito do governo federal com condições especiais para a Copa de 2014 com o intuito de reformar o Hotel Glória, no Rio de Janeiro, o Grupo EBX, do empresário Eike Batista, tenta agora se desfazer do empreendimento sem concluir a obra. Após sucessivos atrasos na previsão de inauguração do hotel, a REX, empresa imobiliária do grupo, afirma que busca uma empresa de hotelaria internacional para assumir a empreitada, e que ajustes no projeto podem atrasar mais uma vez o cronograma de entrega da obra financiada com dinheiro público.

De acordo com o Portal da Transparência do governo federal, a inauguração foi reprogramada para maio de 2015 e apenas 26% da obra estava concluída no início de julho. Do total, ao menos R$ 50 milhões da União já foram liberados para o projeto. Apesar do empréstimo do BNDES ter saído de uma linha de crédito chamada ProCopa Turismo, anunciada em 2010 “com o objetivo de ampliar e modernizar o parque hoteleiro nacional até a Copa do Mundo de 2014”, o banco afirma que o atraso da obra não influi no empréstimo já que, apesar do que o próprio banco disse anteriormente e tudo leva a crer, não há neste tipo de financiamento nenhuma obrigação da obra estar pronta para a Copa de 2014.

Em janeiro deste ano, o UOL Esporte mostrou que o Gloria Palace Hotel, como foi rebatizado o hotel, não estaria completamente pronto para a Copa de 2014, mas o Grupo EBX continuava a afirmar que seria inaugurado no primeiro semestre do ano que vem. Agora, com as obras visivelmente paralisadas, a história é diferente. “A REX vem mantendo conversas com uma bandeira hoteleira internacional de alto padrão para gerenciar o Gloria Palace Hotel”, diz a empresa em nota enviada à reportagem. “Após finalizada a negociação, a REX informará o operador escolhido e possíveis adaptações no cronograma”, diz a nota.

Para quem passa em frente ao hotel, inaugurado em 1922 na Marina na Glória e um dos cartões postais arquitetônicos do Rio de Janeiro, fica claro que os trabalhos ali estão parados. Na semana passada, o CAU-RJ (Conselho de Arquitetura e Urbanismo do Rio de Janeiro) enviou ofício à Secretaria Municipal de Urbanismo da cidade e à REX informem qual o prazo da obra, já que ela está visivelmente parada. “Precisamos saber o que acontece ali”, diz Sydnei Menezes, presidente do CAU-RJ. “É uma situação que se arrasta e envolve um dos edifícios que são ícones do Rio de Janeiro, é preciso haver mais clareza sobre o rumo daquilo ali”, afirma o arquiteto.

Ampliar

O hotel foi comprado pelo Grupo EBX por R$ 80 milhões em 2008, mas o empréstimo do BNDES foi contratado apenas em agosto de 2010, quando começou a reforma. A estimativa inicial era que o hotel estivesse funcionando até o final de 2011. Durante aquele ano, porém, a obra ficou parada por mais de dois meses. A REX, então, passou a anunciar que a obra seria concluída no primeiro semestre de 2013, ainda a tempo de o hotel estar funcionando durante a Copa das Confederações, em junho de 2013.

Meses depois, sem explicar o motivo, a REX passou a dizer que o hotel estaria pronto para a reinauguração no final de 2013. Já no ano passado, uma nova data foi anunciada: o Hotel Glória, rebatizado como Gloria Palace, teria suas obras concluídas “no primeiro semestre de 2014”. Agora, a REX não fala em nova data.

Dinheiro barato

O BNDES afirma que não pode informar quanto dos R$ 200 milhões foram efetivamente liberados para a reforma até o momento, mas diz que o repasse é condicionado ao progresso da obra, e que se ela for paralisada o repasse também é. Apesar disso, o banco diz que não foi informado pela REX da paralisação na obra, e sim da “adoção de um ritmo mais lento nas obras em função da possível entrada de um novo investidor, que deverá reavaliar as especificações do projeto para adequá-lo ao padrão de sua bandeira”.

O ProCopa Turismo do BNDES financia até 80% de obras de hotéis, seja para reforma ou para construção, não havendo um teto para o empréstimo. A reforma do Glória foi inicialmente orçada em R$ 200 milhões, e o BNDES financiou R$ 146 milhões. Posteriormente, o custo foi revisto, e o financiamento estatal passou a ser de R$ 200 milhões. As condições do financiamento são vantajosas para o tomador do empréstimo.

Os prazos de pagamento do financiamento vão de dez a 18 anos, dependendo do tipo de obra e do perfil do demandante. Os juros variam entre 6,9% e 8,8% (incluindo a taxa de risco), dependendo do porte da empresa e do grau de sustentabilidade e eficiência energética do empreendimento. É preciso apresentar garantias de pagamento no valor de até 130% do valor do financiamento.

De acordo com o BNDES, a carteira de empréstimos do ProCopa Turismo já soma R$ 1,46 bilhão: R$ 832,5 milhões já aprovados para empreendimentos e restante em análise.*

(*) Aiuri Rebello e Vinícius Konchinski – UOL

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E NO PAÍS DA PIADA PRONTA…

Para Lula, problema do Brasil é o seu sucesso

00rs0717a 0 o criador

Existem muitas teorias sobre o movimento que levou mais de 1 milhão de pessoas às ruas no outono brasileiro. Mas nenhuma explicação é tão extraordinária quanto a que Lula espôs em artigo distribuído pela agência de notícias do The New York Times. Para ele, o Brasil desceu ao asfalto porque é um país das maravilhas.

Lula atribuiu o tsunami de protestos ao “sucesso econômico, político e social” obtido nos dez anos de inquilinato do PT no Planalto. A pobreza e a desigualdade foram reduzidas, disse ele. Há mais jovens nas universidades. Famílias pobres compraram carro e passaram viajar de avião. E o brasileiro, tomado por uma sensação de incômoda felicidade, foi às ruas para pedir mais.

Lula teorizou: é natural que os jovens desejem mais, especialmente aqueles que têm coisas que seus pais nunca tiveram. Ele realçou: o Brasil não é o Egito nem a Tunísia. Aqui há democracia. O Brasil tampouco é a Espanha ou a Grécia. Aqui o desemprego é baixo. A expansão econômica e social não tem paralelos na história.

No Brasil das maravilhas de Lula, o número de estudantes universitários dobrou. Mas a rapaziada não aprendeu muita coisa. Os jovens não sabem o que foi a repressão da ditadura militar nos anos 60 e 70. Eles não sofreram com a inflação galopante dos anos 80. Não se lembram da estagnação e do desemprego que tisnaram os anos 90. Empunham faixas e cartazes porque o Brasil, antes de conhecer a extrema felicidade, já foi infeliz e eles não sabiam.

Políticos, cientistas e jornalistas torram os miolos em busca das explicações para o que se passou em junho. Com Lula a coisa é bem mais simples. Ele dispensa o estudo aprofundado. Dá de ombros para a exegese de coincidências e fatos obscuros. Lula manuseia verdades religiosas, quase dogmáticas. Além de chegar facilmente às explicações unificadoras, ele se autodispensa de pensar.

Lula contesta os especialistas que enxergam nas ruas uma rejeição à política. Dá-se justamente o contrário, ele acredita. Autoproclamado porta-voz do meio-fio, ele ensina que os manifestantes buscam aprofundar a democracia, incentivando as pessoas a participar do processo.

Até aqui, a participação mais efetiva da rapaziada foi a tomada das bandeiras vermelhas, a expulsão dos militantes partidários das passeatas, e a abertura do fosso que sorveu a popularidade de governantes como Dilma Rousseff. Mas Lula parece antever um futuro promissor e harmonioso.

Até porque, segundo diz, os partidos políticos não podem ser silenciados. Sempre que isso ocorreu, sobrevieram desastres: guerras, ditaduras e perseguições de minorias. Sem partidos, escreveu Lula, não há democracia verdadeira. Ele tem toda razão. Os detratores das legendas deveriam ser processados por atentado contra o regime democrático. O diabo é que os inimigos dos partidos encontram-se dentro deles. E nenhuma agremiação  se animou a processar seus filiados.

Lula não mencionou no artigo a aversão das ruas à corrupção. Natural. Além de não ornar com o excesso de felicidade, o tema mexe com os mortos. Entre eles o PT, defunto mais ilustre da era Lula. O atestado de óbito anota: “suicídio”. Daí, talvez, a dificuldade de Lula de fazer alguma coisa parecida com uma autocrítica.

Já no seu primeiro mandato, o PT adotou uma conduta estranha, algo psicótica. Perdeu a autoestima. Virou um Narciso às avessas. Cuspiu na própria imagem. No Planalto, na Esplanada, nos desvãos de autarquias e estatais, por onde passaram o PT e seus neoaliados fizeram pior o melhor que puderam.

Lula, como já ficou esclarecido, não sabia de nada daquilo que o PT fez. Aliás, coisas como o mensalão ele até hoje não acredita que tenham acontecido. É munido dessa inocência culpada -ou seria culpada inocência?- que o articulista defende a “renovação profunda” do PT. Citou no artigo a conveniência de recuperar a ligação com os movimentos sociais. Para quê? Para “oferecer novas soluções para novos problemas.”

No fundo, o que atrai no artigo de Lula não é a explicação pueril. O que encanta no texto é a simplicidade retórica. O mais extraordinário de tudo é a desobrigação de pensar. Ao falar em “novos problemas”, Lula se exclui da crise. Ele cita Dilma para dar uma “boa notícia”. Qual? Ela já “propôs um plebiscito para realizar a tão necessária reforma política”. Ah, sim, “ela também propôs um pacto para a educação, saúde e transporte público.”

O mundo pode dormir tranquilo, eis a mensagem de Lula. As ruas protestam por causa do excesso de prosperidade. O PT deixará de ser o partido do faturo para retomar saltar da sepultura como o partido do futuro. E o Congresso presidido pelo Renan Calheiros ajudará Dilma a colocar os seus pactos em pé.*

(*) Blog do Josias de Souza.

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NAU À DERIVA

Nova derrota à vista

00rs0716b - vamos que vamos...

A presidente Dilma queria um plebiscito. Em vez disso, a Câmara criou uma nova comissão sobre a reforma política. E, de acordo com levantamento da Consultoria FSB, novas derrotas aguardam o governo Dilma.

Informações baseadas em posições públicas dos integrantes da Comissão mostram que, dos 14 integrantes, oito defendem a manutenção do financiamento privado das eleições, nove são pela realização de um referendo, nove querem o fim da reeleição para cargos no Executivo e nove são pelo fim da coligação nas eleições para o Legislativo.

O governo pode ter retomado a iniciativa política. Mas no conteúdo está perdendo a batalha.*

(*) Ilimar Franco, O Globo

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CURTO-CIRCUITO NO POSTE

Em um mês, intenção de voto em Dilma cai 19 pontos,

diz pesquisa CNT/MDA

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A Confederação Nacional do Transporte (CNT) divulgou, nesta terça-feira (16), os resultados da 114ª pesquisa em parceria com o instituto MDA. Segundo a pesquisa, se as eleições presidenciais de 2014 fossem hoje, a presidente Dilma Rousseff teria 33,4% dos votos, contra 20,7% de Marina Silva (Rede Sustentabilidade); 15,2% do senador Aécio Neves (PSDB-MG) e 7,4% do governador Eduardo Campos (PSB-PE). A queda de Dilma em relação à pesquisa anterior é de 19,4 pontos percentuais e a disputa iria para o segundo turno.

Na pesquisa anterior, de junho, a presidente venceria ainda no primeiro turno. No levantamento anterior, Dilma tinha 52,8% das intenções de voto, contra 17% de Aécio, que também caiu; 12,5% de Marina  e 3,7% de Eduardo Campos.

Os levantamentos das séries nº 112, 113 e 114 da Pesquisa CNT/MDA dão sequência às pesquisas anteriores: CNT/Vox Populi (1 a 28) e CNT/Sensus (29 a 111). Foram entrevistadas 2.002 pessoas, em 134 municípios de 20 Estados, das cinco regiões, entre os dias 7 e 10 de julho de 2013. A margem de erro é de 2,2 pontos percentuais.

Em pouco menos de três semanas, é a segunda pesquisa a detectar queda na popularidade e nas intenções de voto em Dilma. No final de junho, pesquisa Datafolha mostrou que a avaliação positiva do governo da petista caiu 27 pontos em três semanas.

Manifestações e popularidade

A pesquisa mostra que a avaliação do governo Dilma caiu de 54,2% em junho para 31,3% em julho. Os pesquisadores mostram que 38,7% consideram o governo Dilma regular (este índice era de 35,6% em junho) e 29,5% têm avaliação negativa (este percentual era de apenas 9% em junho).

Já a aprovação pessoal de Dilma caiu de 73,7% em junho para 49,3% em julho, segundo a pesquisa.

De acordo com a pesquisa, 84,3% da população aprova as manifestações que têm ocorrido no país desde junho. *

(*) UOL

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ERROS DOS DICIONÁRIOS (2)

000- a coluna do Joauca - 500

No verbete adequar, o Dicionário Aurélio informa que se trata de um verbo defectivo,  conjugável apenas nas formas arrizotônicas, isto é, nas formas em que a acentuação tônica recai nas desinências e não na raiz. Assim, o dicionário conjuga o verbo adequar apenas com duas formas no presente do indicativo: nós adequamos, vós adequais. O Dicionário Houaiss, contrariando bons manuais de conjugação e boas gramáticas, conjuga o verbo adequar em todos os tempos e pessoas: eu adéquo, tu adéquas, etc. Domingos Paschoal Cegalla, em seu Dicionário de Dificuldades da Língua Portuguesa (Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1996, s.v. adequar, adequar-se), ensina que, se adequar não fosse defectivo, sua conjugação deveria ser como a do verbo recuar, com a acentuação tônica no U. E conclui: “Não existem as formas adéqua, adéquam, com e tônico.”

O Aurélio registra o verbete afro como adjetivo, sem indicação de gênero, o que pressupõe tratar-se de adjetivo variável, ou como substantivo  apenas masculino. O Houaiss registra afro como adjetivo e substantivo apenas masculino, e exemplifica: moda afro, cabelo afro, comidas afro (apesar de registrar o plural afros, para designar antigo povo da África).  Essa é  a orientação espúria do Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa (Volp) que também registra afro como adjetivo e substantivo apenas masculino (portanto invariável). O Dicionário da Academia das Ciências de Lisboa registra afro tanto como adjetivo quanto como substantivo variável (afro, afra). O Dicionário de Domingos Paschoal Cegalla, acima mencionado, registra o verbete afro também como adjetivo e substantivo, flexionado, com os seguintes exemplos: carnaval afro, ritos afros, músicas afras.

A propósito do Volp, somos todos reféns de suas imprecisões ou inadequações, sobretudo no que diz respeito ao emprego do hífen, que é um verdadeiro samba do crioulo doido. Nos pares abaixo, de formação idêntica, apenas o primeiro leva hífen; e o segundo, não. Vejamos: pé-de-meia, pé de moleque; para-choque, paraquedas; perde-ganha, vaivém; cachorro-quente, elefante branco (coisa incômoda); infantojuvenil, maníaco-depressivo; ano-novo, ano velho; norma-padrão, desvio padrão; bom-senso, bom gosto; pronto-socorro, pronto atendimento; carne-seca, carne viva… Qual é a lógica? Todas as gramáticas e o Dicionário da Língua Portuguesa Contemporânea, da Academia das Ciências de Lisboa, ensinam que azul-ferrete, como adjetivo, é invariável em gênero e número; como substantivo, só o primeiro elemento se flexiona: azuis-ferrete. Mas neste ponto o Volp inova ao admitir também o plural dos dois elementos, quando a palavra for empregada como substantivo: azuis-ferretes.

Siglas se leem sempre letra por letra e todas se escrevem com maiúsculas: PMDB, PTB, UFRJ, CPMF, etc. Acrônimos, ao contrário, se leem como verdadeiros substantivos da língua (neologismos): se o substantivo é próprio, apenas a primeira letra é maiúscula: Otan, Nasa, Vasp, Ufes, Bradesco, Petrobras, Volp, etc. Se o substantivo é comum, todas as letras são minúsculas: radar (radio detecting and ranging), sonar (sound navigating and ranging), laser (light amplification by stimulated emission of radiation), aids ou sida (síndrome da imunodeficiência adquirida), etc. Se o acrônimo tem três letras, todas se escrevem em versal, mesmo que não sejam nomes próprios: ONU, TAP (Transportes Aéreos Portugueses), ECA (Escola de Comunicação e Artes), LER (lesão por esforço repetido), etc.. Os dicionários definem adequadamente o que é sigla e o que é acrônimo, mas erram nos verbetes que representam acrônimos ou siglas. O Aurélio, embora registre aids, com minúsculas, registra SIDA e UFES; O Houaiss registra apenas sida, com minúsculas, mas, embora defina acrônimo e sigla adequadamente, no verbete sigla registra Petrobrás entre outros exemplos.

A expressão latina statu quo é parte da expressão maior in statu quo ante, que significa “no estado em que (estava) antes”. O correto é statu quo, sem o s final porque se trata do ablativo, como ensina Paulo Rónai no seu belo livro Não perca o seu latim (Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1980, com exemplo de Carlos Drummond de Andrade).. Os dicionários, contudo, só registram a forma inadequada “status quo”. O nominativo, status, com s final, só se usa isoladamente e significa a posição ou a situação de um indivíduo num grupo. Não é de estranhar essa lição esdrúxula, já que o latim é frequentemente mal-empregado na linguagem jurídica. Na literatura jurídica, “a expressão de cujus” é utilizada como sinônimo de  “testador”.O Houaiss e o Aurélio dão-na como sinônimo de “falecido”. Trata-se de parte da frase “de cujus successione agitur”, isto é, “(aquele) de cuja sucessão se trata”. Ora, em latim, cujus é genitivo do pronome relativo qui. Nunca foi substantivo comum. Infelizmente, já é expressão consagrada pela tradição e faz parte da metalinguagem jurídica…

 

(*) José Augusto Carvalho é mestre em Linguística pela Unicamp, doutor em Letras pela USP, e autor de um Pequeno Manual de Pontuação em Português (1ª edição, Bom Texto, do Rio de Janeiro, 2010, 2ª edição,  Thesaurus, de Brasília, 2013) e de uma Gramática Superior da Língua Portuguesa (1ª edição, Univ. Federal do ES,  2007; 2ª edição, Thesaurus, de Brasília,  2011)

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CASA DOS HORRORES

Renan Calheiros supera José Sarney no uso de jatos da FAB

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A cúpula do Congresso Nacional fez 91 viagens nos primeiros seis meses deste ano com aviões da FAB (Força Aérea Brasileira), média de um voo a cada dois dias.

Segundo dados da Aeronáutica obtidos pela Folha, quase um terço do total das viagens foi feito em junho, mês marcado por manifestações em todo o país.

O presidente do Senado, Renan Calheiros (PMDB-AL), solicitou 27 voos desde que assumiu, em fevereiro, até junho. Além de Alagoas, seu reduto político, foi ao Rio, São Paulo, Ceará e Bahia. O antecessor de Renan, José Sarney (PMDB-AP), voou 18 vezes no mesmo período de 2012.

A Presidência da Câmara solicitou 61 voos até junho –47 pedidos pelo presidente, Henrique Eduardo Alves (PMDB-RN), que teve Natal como um dos principais destinos. Nove pedidos partiram do deputado André Vargas (PT-PR), que substituiu Alves em ao menos três ocasiões.

As outras cinco viagens foram feitas em janeiro pelo então presidente da Casa, Marco Maia (PT-RS), que voou 60 vezes de fevereiro a junho do ano passado.

Decreto em vigor estabelece que as autoridades só podem usar as aeronaves oficiais em casos de segurança e emergência médica, viagens a serviço ou deslocamentos para seus locais de residência permanente.

O Painel da Folha revelou no dia 4 de julho que o presidente do Congresso Nacional, senador Renan Calheiros (PMDB-AL), usou o avião da FAB para ir ao casamento da filha do líder do PMDB na Casa, Eduardo Braga (AM), que ocorreu em Trancoso (BA) e reuniu diversas autoridades.

Renan devolveu R$ 32 mil aos cofres públicos relativos ao uso da aeronave oficial no dia 15 de junho entre as cidades de Maceió, Porto Seguro e Brasília para participar do casamento.

No dia 5 de julho, a Folha também revelou que o ministro Garibaldi Alves Filho, da Previdência Social, viajou ao Rio em avião da FAB para ver o jogo do Brasil. No dia 28 de junho, Garibaldi foi a Fortaleza em agenda oficial. Em vez de voltar a Brasília, ele voou para o Rio, onde assistiu à partida no domingo. “Me senti no direito de o avião me deixar onde eu quisesse ficar”, afirmou o ministro.

Garibaldi é primo do presidente da Câmara, Henrique Eduardo Alves (PMDB-RN), que usou outro avião da FAB para ver o jogo da seleção. A Folha revelou no dia 3 de julho que Alves levou sete convidados de Natal para o Rio. Glauber Gentil, que foi para o Rio com Garibaldi, pegou carona com Alves para voltar a Natal.

No mesmo dia, o presidente da Câmara disse que errou ao permitir que sete parentes pegassem carona em um avião da FAB para assistir ao jogo da seleção e devolveu à União R$ 9,7 mil, segundo ele, equivale em bilhetes comerciais à carona dada a parentes em avião oficial.

A Procuradoria da República no Distrito Federal apura se houve irregularidade.

(*) FERNANDA ODILLA, MÁRCIO FALCÃO e RENATA AGOSTINI – FOLHA DE SP

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