ENGANAÇÃO GERAL E IRRESTRITA

PAC 2: Uma a cada três obras de

saneamento só existe no papel

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Das 7.120 obras de saneamento previstas para a segunda etapa do Programa de Aceleração de Crescimento (PAC 2), somente 1.223 foram concluídas, o equivalente a 17,2%. Além disso, o número de iniciativas em fases iniciais é alto: 2.325 empreendimentos estão em contratação, ação preparatória ou licitação, o que corresponde a 32,6% do total.

Esses dados foram colhidos pelo Contas Abertas no último Balanço do PAC 2 e englobam o que foi realizado entre janeiro de 2011 e abril de 2014. A segunda etapa vai ser finalizada em dezembro deste ano.

O Comitê Gestor do PAC informa que pretende-se investir R$ 24,8 bilhões em ações de saneamento e, com isso, beneficiar 7,6 milhões de famílias em todos os estados do país. Entretanto, a quatro meses da entrega do Programa, grande parte das obras planejadas não consegue ultrapassar as barreiras burocráticas.

Dentre as que estão em etapas iniciais, a maioria está no primeiro estágio, isto é, 1.806 iniciativas ainda estão “em contratação”. No mesmo plano de dificuldades para entrar em ação, estão 391 iniciativas em “ação preparatória” e 129 “em licitação”.

Especialista no assunto, o professor do Núcleo de Estudos Ambientais da Universidade de Brasília, Gustavo Souto Maior, explicou que a questão de saneamento no Brasil é muito atrasada e, segundo ele, não é por falta de competência ou verba. “O que falta é vontade de fazer direito. Isso tem muito a ver com a questão política eleitoral, porque fazer uma obra de tratamento de esgoto não traz tantos votos como fazer uma rodovia”, conta ele.

Obras significativas

No balanço, o Comitê pontuou algumas ações como significativas, aquelas consideradas como os principais investimentos por conta de sua materialidade, relevância ou impacto. Os estados que concentram o maior número de ações em saneamento – Minas Gerais, Bahia e Rio Grande de Sul – concentram algumas delas.

Em Minas, com 804 empreendimentos, as obras de tratamento de esgoto na Região Metropolitana de Belo Horizonte são as consideradas significativas. Para elas, programou-se investir R$ 172,1 milhões e, até abril, 85% delas foram concluídas. De todas as iniciativas previstas, apenas uma de implantação de interceptores para despoluição da Baía do Rio São Francisco está em fase de licitação.

Na Bahia, são 645 empreendimentos programados e um considerado significativo, o de despoluição da Baía de Todos os Santos. Prevê-se a ampliação e melhoria dos sistemas de esgotamento sanitário de 12 municípios que a rodeiam, mas, até então, 57% das inciativas foram efetivamente executadas. O Comitê do PAC 2 alegou dificuldades para desapropriar áreas, morosidade na adequação dos projetos e na aprovação das das reprogramações.

O Rio Grande do Sul foi o terceiro estado mais agraciado com obras de saneamento do Programa: foram 596 empreendimentos previstos. Desses, sete inciativas programadas para despoluição dos vales dos rios dos Sinos, Guaíba e Gravataí foram classificadas como emblemáticas. A previsão de investimentos é de R$ 186,1 milhões para se concluir todas as obras, porém quatro delas ainda estão em construção.

Empreendimentos considerados preocupantes

Entre as 13 ações significativas para o Comitê, de acordo com o 10º Balanço, apenas uma está concluída, seis em estágio adequado, quatro em alerta, incluindo a da Baía de Todos os Santos, e duas consideradas preocupantes.

A mais crítica é a de esgotamento sanitário em Guarulhos (SP), em que apenas uma obra foi concluída das cinco previstas para ampliar o sistema de rede de esgoto do município, que possui apenas 77% de coleta de esgoto e nada, 0%, de tratamento, de acordo com o 10º Balanço.

Os problemas apontados para avanço das obras foram a necessidade de se realizar novas licitações para obras remanescentes e pendências de titularidades de áreas utilizadas para as iniciativas. A previsão para conclusão é agosto de 2015 e, sendo assim, já ultrapassa a data de entrega do PAC 2.

Outro empreendimento classificado como preocupante é o de esgotamento sanitário em Aracaju e Barra dos Coqueiros (SE). Possui apenas uma iniciativa prevista, que está em obras, mas necessita de uma nova licitação para conclusão da obra e dos serviços de redes coletoras e ramais.

Assim como Guarulhos, a maioria dos municípios brasileiros não possui sistema de saneamento adequado, que, segundo Souto Maior, abarcam setores como coleta e tratamento de esgoto, tratamento de água, coleta de lixo e drenagem.

“A falta de saneamento afeta diretamente na qualidade de vida dos cidadãos. Uma cidade, quando coleta, e joga o esgoto em rios, inviabiliza o abastecimento de água, o lazer, a pesca e a irrigação”, conclui ele.*

(*) Gabriela Salcedo – Contas Abertas

 

TETAS GORDAS

O PT AINDA NÃO ESTÁ

PREPARADO PARA DEIXAR O PODER…

 

Ouvi uma frase sobre a corrida presidencial que me pareceu perfeita: “Em 2002, achei que o PT estava despreparado para assumir o governo. Mas eu não sabia que o PT estaria agora tão despreparado para deixar o governo”.

É uma avaliação tão cruel quanto verdadeira. Revela também o grau de subdesenvolvimento institucional do país. É claro que não há risco de disrupção, mas parece um pouco incompatível com a regra democrática que um partido entre em desespero frenético apenas porque existe a possibilidade de sair do poder a partir de 1º de janeiro de 2015.

A aparição do ex-presidente Lula, suado e descabelado, fazendo uma manifestação em frente à Petrobras é a síntese do clima atual no PT. E nem está claro que Dilma Rousseff perderá a disputa contra Marina Silva (aliás, a presidente está à frente nas pesquisas). Mas em Brasília é possível respirar um certo pânico no ar.

Só na capital da República há mais de 20 mil cargos de confiança, todos ocupados pelo petismo e adjacências. Uma derrota de Dilma Rousseff obrigará essas pessoas e suas famílias a deixarem a cidade. Por baixo, serão de 40 a 50 mil desamparados. Voltarão a seus Estados para pedir trabalho na iniciativa privada ou em algum governo, prefeitura ou sindicato sob o comando do PT.

DRAMAS PESSOAIS

Serão milhares de dramas pessoais. Em Harvard, nos EUA, a universidade oferece um serviço gratuito de atendimento psicológico a estudantes estrangeiros que passam um tempo por lá e depois têm de retornar para seus países. Dilma poderia pensar no assunto. Uma “bolsa psicólogo” ajudaria a manter mais calmas as pessoas ao seu lado.

Como o problema é estrutural, uma vitória dilmista só atrasará a crise existencial dos petistas. Até porque, em 2018, 2022 ou em outro momento, o partido sairá do poder. Quando esse dia chegar, as farmácias de Brasília terão de reforçar os estoques de Prozac em suas prateleiras.*

(*) Fernando Rodrigues – Folha de São Paulo

DESGOVERNANÇA

Impasse com PT faz Dilma suspender plano de governo

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Partido defende fim do fator previdenciário, mas Planalto não concorda

O candidato do PSDB, Aécio Neves, disse nesta quarta que apresentará seu programa ‘quando ele estiver pronto’

A presidente Dilma Rousseff mandou suspender a divulgação de seu programa de governo após impasse com alas do PT que defendem propostas contrárias à posição do Palácio do Planalto.

No ato de registro da candidatura no TSE (Tribunal Superior Eleitoral), em julho, o comitê de Dilma apresentou uma espécie de esboço como programa de governo.

O objetivo era divulgar ao longo da campanha ideias detalhadas por temas que são debatidos com setores do PT. No entanto, não houve consenso entre o Planalto e alguns desses grupos.

Oficialmente, Dilma disse no final de semana que não iria divulgar seu programa de governo porque suas propostas seriam conhecidas pela televisão e na internet.

Desde o início da corrida presidencial, a petista aproveitou eventos temáticos para lançar propostas em pílulas”. Foram apresentados programas para igualdade racial, mulheres e juventude.

Depois disso, coordenadores da campanha enviaram a assessores presidenciais a proposta sobre trabalho.

O documento propunha, entre outros pontos, avançar na negociação para a redução da jornada de trabalho, o fim do fator previdenciário (que reduz o valor de aposentadorias precoces) e a regulamentação da terceirização.

Apesar de não declarar publicamente, o governo evita há quatro anos que a proposta do fim do fator previdenciário seja votada no Congresso. O Planalto enfrenta pressão das centrais sindicais, mas nunca se comprometeu com a ideia da redução da jornada de trabalho.

Folha apurou que, ao tomar conhecimento por assessores das propostas para trabalho e emprego, Dilma determinou o adiamento da divulgação do programa.

Outro ponto de atrito é a revisão da Lei de Anistia. Dilma já disse, reservadamente, ser pessoalmente a favor, mas não encaminha a medida para não provocar crise com as Forças Armadas.

Coordenadores também admitem que a experiência de Marina Silva (PSB) com o lançamento de seu programa de governo redobrou a preocupação no comitê petista.

O documento, com mais de 200 páginas, gerou repercussões e Marina teve que recuar em algumas propostas.

O próprio PT vivenciou episódio parecido quando substituiu, em 2010, texto do programa de governo de Dilma que citava bandeiras importantes para a esquerda, como a democratização dos meios de comunicação.

PSDB

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O candidato do PSDB ao Planalto, Aécio Neves, disse nesta quarta (17) que apresentará seu programa “quando ele estiver pronto”. Havia a expectativa de que o plano fosse divulgado nesta semana, mas a cúpula da campanha já descarta a hipótese.

Assim como Dilma, Aécio quer evitar que pontos levantados na proposta possam alimentar ataques de adversários num momento em que ele ensaia uma recuperação nas pesquisas.

Desde 2009, a legislação eleitoral exige dos postulantes à Presidência que, ao fazer o pedido de registro da candidatura, protocolem na Justiça as suas “propostas defendidas”. Em tese, aquele que não cumprir a regra pode ter a candidatura barrada.

Mas a lei não estipula nenhum critério para a formulação do documento, o que permite a entrega de textos genéricos ou meras diretrizes.

A OAB e o juiz eleitoral Márlon Reis, um dos fundadores do Movimento de Combate à Corrupção Eleitoral, defendem que candidatos apresentem textos que permitam “discutir ideias e propostas” antes das eleições. Para Reis, a substituição do programa por “diretrizes” é “um problema muito sério”.

Colaboraram RANIER BRAGON, de Brasília, DANIELA LIMA e JOSÉ MARQUES, de São Paulo- FOLHA DE SÃO PAULO

SE ABRIR O BICO…

O ‘homem-bomba’ da Petrobras se cala e CPI vira palanque político

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O ex-diretor acusado de participar de esquema que desviou 10 bilhões da maior empresa do Brasil não responde a nenhum questionamento feito por congressistas

“Me reservo o direito de permanecer calado”. Foi assim que o engenheiro Paulo Roberto Costa, ex-diretor de abastecimento da Petrobras, se dirigiu aos congressistas quando era questionado durante depoimento à Comissão Parlamentar de Inquérito Mista que investiga a maior companhia brasileira, nesta quarta-feira. Acusado de participar de um esquema ilegal que desviou até 10 bilhões de reais de recursos públicos, o engenheiro chegou a Brasília em uma aeronave da Polícia Federal que partiu de Curitiba, no Paraná, onde ele está preso desde junho.

A convocação dele foi feita após a revista Veja divulgar que o engenheirofez um acordo de delação premiada com a Justiça no qual denunciou ao menos 30 políticos que foram beneficiados pelo esquema ilegal do qual ele era um dos líderes. Desde então é considerado um homem-bomba que pode interferir na eleição de diversos políticos brasileiros.

Com o silêncio de Costa, os deputados e senadores aproveitaram os 180 minutos de audiência televisionada para tecer críticas a ele, para atacarem seus adversários políticos e se defenderem de supostas ligações suas e de seus partidos com as irregularidades. Um claro palanque político. A oposição ao governo de Dilma Rousseff (PT) aproveitou para vincular o pagamento de propinas da Petrobras ao escândalo do mensalão petista.

“É o mesmo esquema. Lá atrás o operador do era o Marcos Valério, e agora é o Paulo Roberto Costa”, afirmou o deputado oposicionista Fernando Francischini, do Solidariedade, do Paraná. Valério foi condenado a quase 40 anos de prisão pelo crime de lavagem de dinheiro, enquanto Costa ainda não foi julgado e pode se beneficiar da redução da pena, caso suas denúncias contra os outros membros da quadrilha ajudem na apuração policial.

A tentativa da oposição para que o engenheiro falasse algo que pudesse colaborar com o trabalho da CPI foi a de levar a audiência para uma sessão fechada, na qual nem o público em geral nem a imprensa pudessem acompanhar. Não deu certo. A base aliada do Governo derrubou o pedido de fechamento da audiência por dez votos a oito. Se ele falasse na sessão pública, seu acordo de delação premiada poderia ser invalidado.

Cerca de 30 perguntas foram feitas ao ex-diretor. Em 18 ocasiões, orientado por sua advogada, ele disse que não diria nada. Não respondeu sequer a uma pergunta se ele tinha netos. “Todo bandido que vem a uma CPI usou desse expediente. Estamos diante de um bandido. Não é nem vossa senhoria, nem vossa excelência, é bandido”, atacou o oposicionista Onyx Lorenzoni, do Democratas do Rio Grande do Sul.

O deputado Simplício Araújo, do Solidariedade do Maranhão, afirmou que manter a sessão aberta premiava quem defendia as irregularidades na Petrobras e dificultava a investigação dos parlamentares. “A 20 dias de uma eleição poderia ajudar quem usa de terrorismo para obter mais votos. Está aqui para proteger a sua rabichola. O senhor é uma vergonha para a sua família.”

Membros do PT, como o líder do partido na Câmara, Vicentinho da Silva, rebateram as acusações da oposição e disseram que também gostariam que o delator falasse aos congressistas. “Ao não falar, continua o espetáculo. Continua a campanha enganosa. Ainda bem que isso aqui [a TV Senado] o povo não assiste muito. Nosso povo está feliz porque saiu da miséria. Jovens pobres, negros e índios nas universidades. Emprego pleno, o que é muito bom. Mas, como o depoente não falou, vai continuar terra arrasada com o apoio da grande mídia”.

Um dos inquisidores de Costa foi o deputado federal Eduardo Cunha, do PMDB do Rio de Janeiro, vinculado ao suposto esquema ilícito por outra revista semanal, a IstoÉ. Este parlamentar questionou se o engenheiro poderia negar ou confirmar todos os nomes dos políticos citados pela imprensa. A resposta: nada a declarar.

Outros dois petistas deram claro sinal do que pode acontecer nos próximos dias. O senador pernambucano Humberto Costa lembrou que várias das imagens da sessão desta quarta-feira serão aproveitadas pelos candidatos no horário eleitoral. Já a deputada capixaba Iriny Lopes disse que tudo pode acabar em “pizza”. “Nenhuma CPI realizada em ano eleitoral pode produzir aquilo que o país precisa”, resumiu a parlamentar.

Congressistas vão ao STF por documentos

Como Paulo Roberto Costa, o homem-bomba da Petrobras, calou-se, os congressistas tentarão novamente obter na Justiça os documentos da investigação que vinculam dezenas de políticos ao escândalo criminoso suspeito de desviar dez bilhões de reais dos cofres públicos. Nos próximos dias, uma comissão de senadores e deputados deverão se reunir com dois ministros do Supremo Tribunal Federal (STF) para reiterar o pedido de entrega dos documentos da Operação Lava Jato.

Foi nesta ação da Polícia Federal que descobriu-se um suposto esquema criminoso que consistia no pagamento de políticos da base aliada do Governo petista para continuarem apoiando a gestão de Lula da Silva (2003-2010) e deDilma Rousseff. Os recursos, conforme a revista Veja, provinham de empreiteiras contratadas pela companhia que eram obrigadas a contribuir para um caixa paralelo. As gestões petistas negam a existência do esquema.

Na sessão da CPI desta quarta-feira, os parlamentares também aprovaram a convocação do doleiro Alberto Yousseff, outro suspeito que está preso suspeito de envolvimento no esquema Petrobras, e da contadora dele, Meire Bonfim Poza.*

(*)  , EL PAÍS

LARGANDO A ALÇA DO CAIXÃO

Sarney: Lula já não tem ‘aura de invencibilidade’

Dono de um olfato que lhe rendeu 58 anos de exercício de mandatos eletivos, José Sarney fareja um 2014 áspero para seus aliados do PT. Começa a enxergar o mundo de ponta-cabeça. Acha que a entrada de Marina Silva na disputa sucessória provocou “um tsunami político”. Avalia que “em torno dela se criou uma frente robusta de combate ao PT e ao governo Dilma, abrindo uma possibilidade antes considerada impossível: derrotá-los.”

“Para fugir da ameaça de derrota, pensaram alguns líderes do PT até mesmo em fazer Lula candidato”, constata o morubixaba do PMDB. O calendário já não permite a troca de candidato. Talvez nem adiantasse, insinua Sarney: Lula “parece também ter sido atingido pelo maremoto e ter perdido a aura da invencibilidade, embora mantenha seu carisma e ainda seja a maior liderança política do país.”

As avaliações de Sarney constam de um artigo pendurado nesta quarta-feira (17) no seu site. Publicado originalmente no diário espanhol El País, há uma semana, o texto passara praticamente despercebido. Chama-se ‘O Brasil em um labirinto’. Ecoa em público um pessimismo que os aliados de Dilma só ousam sussurrar em privado.

Na definição de Sarney, os apoiadores que potencializam as chances eleitorais de Marina “são os mais ecléticos”. Na área política, ele inclui pedaços do próprio conglomerado governista. Menciona “alas descontentes do PT e o incalculável número de grupos dos partidos aliados queixosos do tratamento recebido da presidente Dilma e da direção do PT.”

“A sensação dos aliados”, anotou Sarney, é a de que Dilma e o PT “fizeram de tudo para massacrá-los nos Estados, criando confrontações e arestas, e que agora há oportunidade para reagir.” Com rara sinceridade, o coronel do PMDB incluiu seu próprio partido na banda dos revoltados.

“Muito dividido”, qualificou Sarney, o PMDB “só não vota contra Dilma por causa do vínculo de sua participação na chapa” encabeçada pela candidata do PT. “De simples adereço”, escreveu o senador, “Michel Temer passou a ser decisivo para a vitória.” Fora da política, juntaram-se ao redor de Marina, pelas contas de Sarney, quatro forças:

1. “Os indignados que há pouco mais de um ano provocaram um barulho imenso no país”. Alusão aos protestos que lotaram o asfalto em junho de 2013.

2. “Seus até recentemente frustrados seguidores” da Rede Sustentabilidade.

3. “As fortes correntes e igrejas evangélicas, que a têm como representante”.

4. “As classes conservadoras, descontentes com as políticas econômica, externa, energética, agrícola, portuária e fundiária.”

Marina tem declarado que, se eleita, governará “com os melhores de cada partido”. Diz apreciar o PMDB de Pedro Simon e de Jarbas Vasconcelos. E costuma mencionar José Sarney e Renan Calheiros como protótipos da “velha política”, que gostaria de enviar à oposição.

Aboletado no poder desde a chegada das caravelas de Cabral, Sarney não parece cultivar a pretensão de deslizar o seu grupo de apaniguados políticos para dentro de um hipotético governo Marina. Desde logo, ele retribui a antipatia dela: “Marina Silva é uma figura carismática, mística, dogmática, preconceituosa e intransigente.”

Sarney dá a entender que, na Presidência, a antagonista de Dilma seria um salto no escuro. “Marina Silva é uma incógnita. A figura de hoje nada tem a ver com sua radical história de guerreira dos seringais. Senadora por dezesseis anos — em parte dos quais ocupou o Ministério do Meio Ambiente de Lula —, deixou uma marca de radicalismo, como fundamentalista, de capacidade limitada, preferindo sempre a confrontação ao diálogo, e buscando não o entendimento, mas a conversão.”

Na opinião de Sarney, o histórico religioso de Marina interfere negativamente na atuação política dela. “Sua formação é das Comunidades Eclesiais de Base, mas agora é evangélica ortodoxa, considerando que o mundo se reparte entre os destinados à salvação e os condenados à perdição.”

Na noite de terça-feira (16), num comício de Lobão Filho (PMDB), seu candidato ao governo do Maranhão, Sarney disse mais ou menos a mesma coisa, com outras palavras: “A dona Marina, com essa cara de santinha, mas [não tem] ninguém mais radical, mais raivosa, mais com vontade de ódio do que ela. Quando ela fala em diálogo, o que ela chama de diálogo é converter você.” (divirta-se assistindo ao vídeo lá no rodapé)

Sarney parece enxergar em Marina uma dessas evidências de que a palavra “possível” está contida no vocábulo “impossível”. O coronel maranhense anotou em seu artigo: “Em política há uma lei inexorável: o impossível sempre acontece. No Brasil, várias vezes a tragédia teve consequências drásticas, provocando grandes mudanças.”

O cacique foi aos exemplos: “o suicídio de Getúlio Vargas, que, já praticamente deposto, com a bala no peito atinge os adversários; o derrame cerebral e a morte de Costa e Silva, que levam a um golpe dentro do golpe, desaguando numa Junta Militar e numa nova Constituição outorgada; a morte do Presidente Rodrigues Alves, eleito pela segunda vez, atingido pela gripe espanhola; Tancredo Neves, eleito para fazer a redemocratização, adoece no dia da posse e em seguida morre.”

Para Sarney, Marina Silva encarna um desses momentos que prenunciam grandes mudanças. “Sessenta dias antes da eleição, num desastre aéreo, desaparece o candidato a presidente Eduardo Campos. A comoção toma conta do país, mas não é ela a consequência maior. É a ressurreição de Marina Silva, que na eleição anterior obteve 20 milhões de votos.”

Sarney avalia que “a energia inicial” da onda Marina esgotou-se na produção de dois efeitos. Num, a eleição foi empurrada para o segundo turno, provocando “uma disputa acirrada, em que tudo pode acontecer”. Noutro, o PSDB, “maior partido de oposição”, que tem em Aécio Neves um “excelente e talentoso candidato”, terminou “imprensado pela guerra entre as duas candidatas originárias da esquerda.”

Os elogios a Dilma, por escassos, foram confinados num mísero parágrafo do artigo de Sarney. Nele, lê-se que a presidente, “com seu forte caráter de chefia, já conquistou seu espaço como administradora e não é mulher de jogar a toalha ou aceitar humilhação.”

A despeito do ânimo de Dilma, Sarney revela-se um personagem inusualmente inseguro: “A campanha atingiu um alto grau de violência, com ataques rasteiros”, escreveu, sem dar pseudônimo aos bois violentos. “O quadro é de pesquisas nervosas, esquizofrênicas, que indicam que tudo pode acontecer. As sondagens —e são muitas— sempre mostram uma vantagem de Dilma no primeiro turno e a vitória de Marina no segundo turno, que exige maioria absoluta.”

Traduzindo o sentimento que lhe invade a alma, Sarney sentenciou: “A palavra certa para a atual situação brasileira é perplexidade.” Ao trocar seu raciocínio em miúdos, ele esboçou um cenário que é oposto ao que se verificou em 2010, quando Dilma foi alçada da condição de poste para a poltrona de presidente.

“O Brasil perdeu o otimismo, há um alto aquecimento do censo crítico, desapareceu a sacralidade das políticas sociais.” Como se fosse pouco, Sarney insinuou que o patrono de Dilma já não parece disposto a defendê-la a qualquer custo. “O presidente Lula dá sinais de não desejar engajar-se num pacto de morte e se afasta de um duelo fatal. O quadro é de um labirinto. Mistério e imprevisão.”*

(*) Blog do Josias de Souza

Ô COITADO!

Sabe nada e é inocente

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Bem-aventurado é o cidadão comum, que embora tenha poucas possibilidades de reagir sabe muita coisa do que acontece neste país. Acompanha Pasadena, acompanha Abreu e Lima, acompanha o Mensalão, acompanha a gorjetinha. Saber tudo não se sabe, mas até onde nos cabe temos certa informação: alguns nomes já vazaram de político ladrão. É segredo de Justiça a delação premiada, mas há gente interessada em implicar inimigos, para parecer ilibada.

E, como nunca dantes na história desse país, quem não sabe tem certeza de estar mais informado do que um grande gatuno, por medo silenciado.

É só perguntar qualquer coisa a um desses corruptos notórios, com certidão de ficha suja em três vias autenticadas, com firma reconhecida. Por exemplo, como é que, com o dinheiro de seu salário, conseguiu comprar um Rolls-Royce blindado, último tipo, com maçanetas trabalhadas em ouro. Ele tem a resposta na ponta da língua: ganhou de um amigo de infância, amigo mesmo, sujeito bom, trabalhador, que ficou muito bem de vida fazendo faxina em casas de família. Dinheiro desviado? Imagine! Se houve desvio, que seja punido. Mas eu não sabia!

Pois é, o lá de cima, o que tá assim com os hômi, o cumpanhêro dos cumpanhêro, não sabia aquilo que todos nós sabemos. Talvez não tenha tempo de observar as coisas, exercendo sua função de guerreiro do povo brasileiro e obrigado a não se lembrar de eventos que já lhe trouxeram grande prazer. Mas observar para quê? Basta botar a culpa na zelite galeguinha de zóinho azul para sair livre.*

(*) Coluna Carlos Brickmann, na Internet

O ADVÉRBIO “AGORA” E OS TEMPOS NO MUNDO NARRADO

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Imaginemos uma historinha em que se lê: “Era uma vez um rapaz chamado José, que gostava de passear no bosque.  Ele havia recebido conselhos do seu médico para respirar o ar puro da mata. Um dia ele saiu sozinho a caminhar por entre as árvores. Com o passar do tempo e da caminhada,  adentrou-se pela floresta e descobriu-se perdido. E agora? Como faria para voltar?”

Temos aí a ocorrência de quatro tempos verbais: o pretérito imperfeito (era, gostava), que ocupa  um segundo   plano em que se processa a apresentação do personagem, sem que a história tenha começado ainda; o pretérito perfeito , o pretérito mais-que-perfeito composto e o futuro do pretérito. A verdadeira narrativa começa com a primeira ocorrência do pretérito perfeito (saiu). O pretérito mais-que-perfeito (havia recebido) indica um tempo  passado anterior ao início da narrativa. O futuro do pretérito (faria) indica um tempo futuro da narrativa. Os tempos verbais da mininarrativa acima indicam as perpectivas do relato: o pretérito perfeito é de perspectiva zero; é como se fosse o presente dentro do passado; o mais-que-perfeito, de perspectiva retrospectiva; o futuro do pretérito, o de perspectiva prospectiva. O imperfeito indica o segundo plano da narrativa, como se fosse um pano de fundo em que a narrativa se projeta, sem fazer parte dela.

Como entender o sentido de “agora”, na historinha acima? O pretérito perfeito equivale a um tempo zero da narrativa, como se fosse um presente na perspectiva narrativa. Esse “agora”, em relação ao leitor, significa “naquele momento”, mas, em relação à narrativa e ao tempo de perspectiva zero, significa “atualmente, neste momento”. No verbete “agora”, os dicionários dão, entre outros significados, o de “então”, “naquele momento”, junto com o sentido natural, etimológico, de “nesta hora” (“agora” se origina do latim hac hora, isto é, “nesta hora”). Mas o sentido de “naquele momento”, que os dicionários dão ao verbete “agora”, só se entende em função de um exemplo narrativo. Uma narrativa, segundo William Labov e Joshua Waletzky (Narrative analysis: oral versions of personal experience. In: JELM, J. ed. Essays on the verbal and visual arts. American Anthropological Society. Seattle: Univ. of Washington Press, 1967, p. 13 e 20; ver também  LABOV, William. The transformation of experience in narrative syntax. IN: —. Language in the inner city (Studies in the Black English Vernacular). Philadelphia: University of Pennsylvania Press, 1972, p.359 e ss.)  é basicamente uma sucessão de pelo menos dois fatos ligados entre si por um fator ou juntura temporal, de tal forma que a inversão dos fatos leva à feitura de outra narrativa. Entende-se por “juntura temporal” um elemento, ainda que não formal, indicativo de ordenação no tempo dos acontecimentos recapitulados ou apresentados.  Assim, em “Ele escreveu a carta  e morreu” temos uma narrativa, porque a inversão dos fatos (“Ele morreu e escreveu a carta”) se constitui em outra narrativa (num mundo possível, uma pessoa pode morrer e depois escrever, como no romance Memórias Póstumas de Brás Cubas, em que o memorialista é um autor defunto ou um defunto autor). Mas a frase “Ele morreu escrevendo a carta” não é uma narrativa, porque a inversão dos fatos não constitui outra narrativa, porque não estão ligados por uma juntura temporal: “Escrevendo a carta, ele morreu”.

Um gramático, tentando explicar o emprego de “agora” com o imperfeito do indicativo na canção “João e Maria”, de Chico Buarque (“Agora eu era o herói / e o meu cavalo só falava inglês…”), disse, equivocadamente, num olhar desatento aos exemplos narrativos dos dicionários que ele consultou, que o “agora” aí tem o sentido de  “naquele momento”, como se o texto de Chico Buarque fosse uma narrativa (o pretérito imperfeito, como vimos, ocupa um segundo plano e não um primeiro plano numa narrativa).  Na verdade, o pretérito imperfeito no texto do Chico Buarque é um tempo de fantasia, isto é, é um tempo que indica uma hipótese, como no “camonibói” (come on, boy) das brincadeiras infantis: “Agora você era o bandido e eu era o mocinho!”  Trata-se do “imperfeito fabulativo”, no dizer de  Gianni Rodari (Gramática da fantasia. 9.ed. São Paulo: Summus Editorial, 1982, p. 154), “filho legítimo do ‘era uma vez’ que dá início às fábulas” (p. 153).  O “agora”, portanto, na canção de Chico Buarque, significa “neste momento”, “no momento atual” e não “naquele momento”.

Na consulta a um dicionário, é importante atentar para os exemplos, a fim de analisar o contexto em que o verbete tem o sentido que  o dicionário lhe atribui. Ou corre-se o risco de dizer bobagem…

(*) José Augusto Carvalho é mestre em Linguística pela Unicamp, doutor em Letras pela USP, e autor de um Pequeno Manual de Pontuação em Português (1ª edição, Bom Texto, do Rio de Janeiro, 2010, 2ª edição,  Thesaurus, de Brasília, 2013) e de uma Gramática Superior da Língua Portuguesa (1ª edição, Univ. Federal do ES,  2007; 2ª edição, Thesaurus, de Brasília,  2011)