CARLUXO ESTÁ BEM PARADO

Gabinete de Monica Benício, viúva de Marielle, fica ao lado do de Carlos Bolsonaro

Sorteio pôs rivais políticos na Câmara de Vereadores do Rio divididos por uma parede

Entrada do gabinete de Monica Benicio, na Câmara de Vereadores do Rio: 'Quem matou Marielle?' Foto: Gabriel de Paiva - Agência O Globo

Entrada do gabinete de Monica Benicio, na Câmara de Vereadores do Rio: ‘Quem matou Marielle?’ Foto: Gabriel de Paiva – Agência O Globo

RIO — O destino pregou uma peça na recém-eleita vereadora Monica Benicio (PSOL), viúva de Marielle Franco, parlamentar assassinada há dois anos e 10 meses numa emboscada. Como os 34 vereadores reeleitos podem se manter nos gabinetes, os 17 novatos precisavam participar de um sorteio para evitar que houvesse privilégios na distribuição dos espaços. Monica acabou sorteando o de número 904, passando a ser vizinha de porta de seu rival na política, o vereador Carlos Bolsonaro (PR), instalado no 905.

Lados opostos: Carlos Bolsonaro e viúva de Marielle não se cumprimentam em posse na Câmara de Vereadores

As coincidências não param por aí. O gabinete de Monica fica entre o dele e o antigo espaço ocupado por Marielle, o de número 903, que, pelo sorteio, coube ao vereador Márcio Santos de Araújo (PTB). Além de uma placa de fundo preto com a pergunta escrita na cor amarela “Quem matou Marielle?”, a viúva da parlamentar decidiu encher a porta com dezenas de adesivos com a mesma pergunta. O blog do Ancelmo Gois publicou, na quinta-feira, a informação de que ela havia fixado um adesivo com o questionamento.

— Onde quer que Marielle esteja, ela deve estar rindo de mim. De tantos gabinetes para eu sortear, acabo ficando ao lado do que ela ocupou e vizinha de um outro com pautas bem diferentes das nossas — disse Monica. — Foi uma decisão política não ficar com o 903. Eu não queria ficar com o gabinete dela, porque iria trazer muitas lembranças, principalmente para alguns dos assessores (cinco) que atuaram na mandata (como Marielle, Monica chama o mandato na forma feminina, por causa das bandeiras em defesa dos direitos das mulheres e de integrantes dos movimentos LGBTQI+) e hoje trabalham comigo — explicou Monica, ressaltando que Tarcísio Motta, colega de partido, encontra-se em gabinete no mesmo andar.

O sorteio ocorreu numa solenidade no salão nobre, mesmo local onde o corpo de Marielle foi velado, no fim de dezembro. Os recém-eleitos retiram um papel com o número do gabinete de dentro de uma sacola plástica preta. Ao saber que o gabinete de Monica ficava entre o de Carlos Bolsonaro e o que fora usado pela mulher da vereadora, alguns assessores sugeriram que ela tentasse trocar de número, mas ela preferiu manter o resultado. Os 17 gabinetes sorteados ficam espalhados pelos 10 andares do prédio anexo do Palácio Pedro Ernesto.

— Dentro da Câmara dos Vereadores, que é a casa do povo, espero que a gente (ela e Carlos) se trate com a cordialidade e respeito que a Casa exige de seus parlamentares. Existem divergências políticas entre nós, pois represento o oposto do que ele defende. Tenho muito orgulho de ser oposição. A gente está separado por uma parede, mas as ideias e os ideais são diferentes. Democracia é isso — ponderou a vereadora.

Formada em arquitetura, Monica pretende reestruturar o seu gabinete. Antes dela, o espaço era ocupado pelo vereador Eliseu Kessler (PSD), dotado de isolamento acústico, algo pouco comum no prédio. Kessler deixou para trás dezenas de pôsteres com fotografias dele com aliados, inclusive o ex-prefeito Marcelo Crivella (PR), que chegou a ser preso antes de completar o mandato, no fim de dezembro. Atualmente Crivella cumpre prisão domiciliar e faz uso de tornozeleira eletrônica, por decisão do Superior Tribunal de Justiça (STJ).

Uma das medidas a serem adotadas pela vereadora será preencher a parede externa do gabinete com a pergunta “Quem mandou matar Marielle?”. Prestes a completar três anos no próximo dia 14 de março, a investigação da Delegacia de Homicídios da Capital e do Ministério Público do Rio apontou o policial militar reformado Ronnie Lessa e o ex-PM Élcio de Queiroz como autores do homicídio da parlamentar e de seu motorista Anderson Gomes. No entanto, ainda não há respostas sobre quem mandou matar Marielle, tampouco a motivação do crime.

— Como parlamentar vou continuar cobrando justiça por Marielle e Anderson. Também vou continuar defendendo as bandeiras dela. Estamos preparando um mapeamento com indicadores de violência contra a mulher. A ideia é aprontaramos os locais onde elas sofrem mais estupros e assaltos. Só estudando bem esses pontos poderemos criar políticas públicas em favor delas. Por exemplo, vamos propor que, à noite ou de madrugada, os ônibus possam parar o mais próximo possível das moradias das mulheres, para que elas não fiquem mais tempo vulneráveis nas ruas — anunciou Monica.

Na porta de Carlos Bolsonaro, também há dezenas de adesivos com suas ideias como “Partidos de esquerda incentivam invasões”, além da pergunta “Quem mandou matar Bolsonaro?”. Trata-se de uma referência ao atentado à faca sofrido pelo pai do parlamentar, o presidente Jair Bolsonaro (sem partido), em setembro de 2018, em Juiz de Fora (MG). Apesar de o caso ter sido esclarecido pela Polícia Federal, que apontou Adélio Bispo como autor do crime, o presidente nunca ficou convencido sobre o desfecho.

Parte da parede externa do gabinete do vereador Carlos Bolsonaro tem ainda um tributo ao pai. Nela está colado um papel com o slogan do presidente: “Brasil acima de Tudo, Deus acima de todos”. O GLOBO procurou o vereador para falar sobre a nova vizinhança, mas ele não retornou as ligações.

Mil dias sem Marielle: assista ao documentário que conta a trajetória da vereadora

Carlos e Monica ainda não se esbarraram pelo corredor do nono andar, onde estão localizados seus gabinetes. O único encontro este ano ocorreu no dia 1º, quando houve a cerimônia para empossar os 51 vereadores eleitos. Os dois não se cumprimentaram. O ano legislativo começa no dia 15 de fevereiro.*

(*) Vera Araújo – O Globo

NO POSTO IPIRANGA ACABOU O GÁS

Sobram farrapos da fantasia liberal

O BRASIL TEM QUE SER ESTUDADO – Contra o Vento

Eu conto ou vocês contam ao ministro Paulo Guedes que o projeto dele acabou? Nunca teve viabilidade com o atual presidente, na verdade. Guedes embarcou numa canoa na qual não havia espaço para as ideias liberais. Ele sofre vetos diários às suas propostas e tem engolido em seco. Não privatizou, não reduziu barreiras ao comércio, exceto de armas, não diminuiu o tamanho do Estado. Seus assessores, ou gestores nomeados por ele, de vez em quando ficam no dilema entre a demissão ou ser humilhado pelo presidente Bolsonaro. Tudo o que conseguir agora será prêmio de consolação.

Não interessa mais se o presidente do Banco do Brasil fica ou não. André Brandão já foi informado que não tem qualquer autonomia de gestão, apesar de presidir um banco que tem acionistas privados e que atua num mercado que passa por imensas mudanças e aumento da competição. A Caixa Econômica Federal, que é inteiramente estatal, virou um braço da propaganda política bolsonarista. Pedro Guimarães, com seus 11 revólveres e seus litros de cloroquina, faz qualquer papel que agrade ao chefe. Virou ajudante de lives e animador de auditório. A última agência que abriu foi por ordem do presidente, e não por ser bom ou não para a Caixa. A intervenção na CEF já ocorreu em outros governos, mas agora virou o quintal da presidência. O presidente do Banco Central tentava ontem à tarde convencer o governo de que era preciso segurar Brandão no cargo. Se ficar, terá perdido qualquer liberdade de ação.

Paulo Guedes dá aos interlocutores sempre a mesma resposta quando é perguntado sobre suas derrotas. “O presidente é que foi eleito, ele é que tem os votos.” O ministro, porém, garantiu que este seria um governo liberal na economia. Para acreditar era preciso ignorar tudo o que Bolsonaro havia dito antes. Bolsonaro disse que o presidente Fernando Henrique merecia ser fuzilado por ter privatizado, só para citar um eloquente sinal. O mercado financeiro comprou a tese de que o ministro dobraria o presidente. Ocorreu o oposto.

A lista da intervenção de Bolsonaro nos assuntos do Ministério da Economia é enorme. Nesses dois anos, Bolsonaro vetou propaganda do Banco do Brasil, revogou um aumento da gasolina, avisou que nem a Ceagesp será privatizada, criou e capitalizou estatais militares, sepultou o projeto de fusão dos programas sociais, demitiu o presidente do BNDES, o secretário da Receita Federal. O secretário da Fazenda teve que sumir para não perder o cargo. A reforma administrativa dormiu na gaveta do presidente até ficar bem aguada, irreconhecível.

Na semana passada, o presidente disse que o Brasil havia quebrado e não podia fazer mais nada. Só isso já deveria ser o suficiente para o ministro, que chegou acusando de incompetentes todos os antecessores, pegar o seu boné. Mas ele, que estava de férias, preferiu sair do seu descanso e, mais uma vez, justificar a declaração do presidente.

O Tesouro terá que rolar mais de R$ 600 bilhões de dívida nos primeiros quatro meses. Se o presidente diz que o país está quebrado, o que os financiadores da dívida podem pensar?O ministro, quando tenta justificar tudo o que o presidente diz, erra. Nesse caso ele disse que Bolsonaro só se referia ao setor público. Piorou a declaração.

No Chile de Pinochet, os Chicago Boys impuseram reformas liberais num projeto ditatorial que deixou milhares de mortos. Liberalismo deveria ser o oposto de autoritarismo, mas muitos que se definem como “liberais” não são necessariamente democratas. O grupo que foi ao poder com Bolsonaro nunca se incomodou com a defesa que ele faz da ditadura e da tortura. Nunca se incomodou que ele disse, quando deputado, que a ditadura deveria ter matado 30 mil. Para eles, o importante é que iriam reduzir o tamanho do Estado, abrir a economia, privatizar, vender imóveis públicos, acabar com os subsídios. No 25º mês da administração, tudo o que têm para mostrar é uma reforma da Previdência que foi feita pelo Congresso e na qual o presidente só entrou para defender vantagens corporativas para a sua clientela.

Paulo Guedes já sabe que não deu. Mas tentará terceirizar a culpa para o Congresso, a oposição, Rodrigo Maia, a imprensa, a social-democracia. Vai fazer vistas grossas para todo o autoritarismo do governo. Inclusive na economia.*

(*) Míriam Leitão – O Globo

A FAMIGLIA RACHADINHA

Flávio Bolsonaro diz que caos em Manaus ‘não tem absolutamente nada a ver com a esfera federal’

Para Flávio Bolsonaro, o governo Jair Bolsonaro não tem responsabilidade pelo que ocorre em Manaus.Ao divulgar a “operação logística de emergência” para socorrer a capital do Amazonas, com envio de oxigênio e insumos, disse Flávio nas redes:

— Governo Bolsonaro, mais uma vez, provando que ninguém fica pra trás mesmo quando a responsabilidade pelo problema não tem absolutamente nada a ver com a esfera federal. Povo de Manaus, contem (sic) conosco! *

(*) Amanda Almeida – O Globo

“FACÍNORA” É POUCO!

Bolsonaro aponta atraso de 2 dias de vacina da Índia e anuncia imunizante brasileiro, mas desconhece origem

Gripezinha' testa 'histórico de atleta': Bolsonaro irá recuar após infecção pela COVID-19? - Sputnik Brasil

O presidente Jair Bolsonaro disse nesta sexta-feira, 15, que ainda conta com 2 milhões de doses da vacina AstraZeneca/Oxford, produzidas na Índia, apesar de o país asiático afirmar que ainda é muito cedo para dar respostas sobre o envio para outros países. A campanha de vacinação indiana está apenas começando.

Em entrevista a José Luiz Datena, no Brasil Urgente, Bolsonaro disse que houve apenas um atraso de poucos dias, e prevê que o Brasil receba a vacina em breve.

“Tudo foi acertado para disponibilizar dois milhões de doses, mas está começando a vacinação na Índia, um país com 1,3 bilhão de habitantes. Resolveu-se, não foi decisão nossa, atrasar um ou dois dias. Porque lá [na Índia] também tem pressão política. Em dois ou três dias no máximo nosso avião vai partir e trazer essas 2 milhões de doses”, declarou Bolsonaro.

Uma aeronave brasileira da Azul aguarda em Recife a liberação da vacina para decolar rumo a Mumbai. A companhia, porém, afirmou que a decolagem não acontecerá nesta sexta.

“Não tenho ideia”

Ainda nesta sexta, o Ministério da Saúde solicitou ao Instituto Butantan a entrega imediata das seis milhões de doses da CoronaVac, que já foram importadas e são objeto do pedido de autorização de uso emergencial perante à Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). Na prática, a Coronavac é a única vacina disponível no Brasil.

A vacina chinesa é pivô de uma disputa política entre Bolsonaro e o governador de São Paulo, João Doria, que foi chamado de “moleque”, entre outras ofensas, pelo presidente (veja aqui).

Bolsonaro falou ainda de uma vacina brasileira, que está sendo desenvolvida pelo Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovações.

“O Marcos Pontes [ministro da pasta] está trabalhando em uma vacina brasileira, que ele acha que pode ficar pronta esse ano, na fase experimental ainda, mas pode ficar pronta. Quem sabe até venhamos a usá-la”, contou o presidente.

Questionado sobre o local onde a vacina está sendo desenvolvida, Bolsonaro não soube responder.

“Não tenho ideia”, declarou, indicado Pontes como fonte para a informação.

Em dezembro do ano passado, Pontes afirmou, em entrevista ao Datena, que a vacina em questão está prevista para outubro de 2021 – veja aqui. São 15 vacinas diferentes, sendo três em estado avançado.

“Sobre essas três vacinas: uma delas é de aplicação de spray nasal, outra é vacina dupla influenza/covid-19 e a outra usa um carreador de nanotecnologia dentro do sistema linfático que tem potencial enorme de ter sucesso”, disse Pontes na ocasião. (UOL)

MALUCOS TERRAPLANISTAS

Bolsonaro e Alexandre Garcia usam estudo antigo para defender cloroquina

Facebook

O presidente Jair Bolsonaro (sem partido) publicou em suas redes sociais um vídeo do jornalista Alexandre Garcia falando sobre um estudo publicado em agosto para justificar o uso de cloroquina e outros remédios sem eficácia comprovada como tratamento precoce para covid-19.

Bolsonaro postou em seu Twitter o link para um artigo do volume 134 da revista “The American Journal of Medicine” que fala sobre o “tratamento ambulatorial precoce da infecção por SARS-CoV-2”. Na postagem, ele fala sobre antimaláricos, que são medicamentos para tratar a malária, sendo hidroxicloroquina e cloroquina as principais substâncias incluídas nessa categoria.

Com a postagem, o presidente colocou um vídeo no qual o jornalista Alexandre Garcia, que atua como comentarista na CNN Brasil, diz, sem apresentar provas, que o tratamento precoce é “o que mais está salvando vidas no Brasil”. Garcia é um apoiador de Jair Bolsonaro e já chegou a defender a cloroquina em um seminário na Funag (Fundação Alexandre de Gusmão) — a fundação, ligada ao Itamaraty, já teve vídeo removido da plataforma YouTube por disseminar fake news.

O estudo, porém, foi originalmente publicado no site da revista em 6 de agosto e, desde então, diversos outros estudos já apontaram a ineficácia do uso de medicamentos como hidroxicloroquina, azitromicina e outros.

O artigo, inclusive, não é um estudo clínico randomizado de duplo-cego no qual se analisa a eficácia de um tratamento em comparação com um grupo controle. Por isso, não comprova nada, apenas apresenta argumentos com base em experiências ambulatoriais que justificariam o uso de determinados medicamentos.

O próprio artigo traz em seu resumo que, na época, não havia estudos clínicos sobre o tratamento para covid-19.

“Na ausência de resultados de ensaios clínicos, os médicos devem usar o que foi aprendido sobre a fisiopatologia da infecção por SARS-CoV-2 para determinar o tratamento ambulatorial precoce da doença com o objetivo de prevenir hospitalização ou morte.”

No dia 2 de janeiro o Ministério da Saúde também divulgou uma nota defendendo o estudo como se fosse uma nova “comprovação” de eficácia desses medicamentos. “O renomado The American Journal of Medicine, jornal oficial da Alliance for Academic Internal Medicine, traz em sua primeira edição de 2021 um estudo que comprova a eficácia do tratamento precoce na evolução da Covid-19”, dizia a nota. Cientistas criticaram a postagem.

Revista de pouco prestígio
No ranking de avaliação de revistas científicas feito pela Scimago, que avalia relevância científica, a The American Journal of Medicine aparece na 928º posição. Muito distante da “New England Journal of Medicine” (8ª posição), onde foi publicado um dos primeiros estudos que comprovavam a ineficácia do tratamento com hidroxicloroquina.

O artigo da New England é de fato um estudo randomizado de duplo-cego feito nos Estados Unidos e no Canadá em que um grupo foi tratado com hidroxicloroquina e outro com placebo.

“Após a exposição de alto risco ou risco moderado ao Covid-19, a hidroxicloroquina não preveniu a doença compatível com Covid-19”, concluiu o estudo. O artigo ainda diz ter havido mais efeitos colaterais no grupo que utilizou o medicamento.

Em outubro, um estudo conduzido pela OMS (Organização Mundial da Saúde) também apontou a ineficácia da cloroquina e também do remdesivir.

Manaus
A publicação ganha relevante contorno diante do contexto de falta de oxigênio para pacientes com covid-19 em Manaus, resultando na morte de pessoas. Na última terça-feira (12), a Folha revelou que o Ministério da Saúde estava pressionando a prefeitura de Manaus para utilizar cloroquina em pacientes de covid-19.

Bastante cobrado por políticos e especialistas pela nova crise no sistema público de saúde amazonense, o presidente disse hoje que “nós fizemos a nossa parte” e voltou a defender o uso de medicamentos sem eficácia científica comprovada, a que chama de “tratamento precoce”.*

(*) Do UOL, em São Paulo

BOLSONARO É UM MONSTRO

No auge da pandemia, Brasil precisa de um estadista. Mas só tem Bolsonaro

Há momentos na história de um país em que não se pode abrir mão de ter um estadista no comando da nação. É nas guerras, catástrofes e pandemias que o espírito público de um presidente deve sobressair.

Esse tipo de governante é o que sacrifica quaisquer interesses pessoais em favor do socorro a seus governados. É o líder que demonstra empatia pelos compatriotas nos momentos trágicos.

Em meio à maior pandemia de todos os tempos, era de se esperar que o presidente brasileiro fizesse o máximo possível para salvar os atingidos pela covid-19.

Jair Bolsonaro é o homem que faz o mínimo possível.

Diante de um dos quadros mais dramáticos já vividos por um estado brasileiro, Bolsonaro observa de longe as mortes ocorridas no Amazonas por falta de oxigênio nos hospitais.

Mandou a Manaus seu ministro da Saúde, general Eduardo Pazuello, para manter a absurda prática de defender um inexistente tratamento precoce para o coronavírus. Os amazonenses, no entanto, precisam mesmo é de oxigênio.

Pazuello se mexeu e conseguiu mandar ao Amazonas 5 mil metros cúbicos de oxigênio. A demanda no estado, no entanto, é de 75 mil metros cúbicos.

Mesmo assim, o presidente Bolsonaro considera que sua missão está cumprida. “Fizemos a nossa parte”, disse ele hoje, no mesmo momento em que centenas de paciente de covid-19 corriam o risco de morrer sufocados em Manaus.

Tivéssemos um estadista no governo, Bolsonaro saberia que em tragédias como a que vivemos um presidente não pode jamais achar que fez tudo o que podia. Sempre há algo mais a fazer.

O atual ocupante do Palácio do Planalto não tem esse status — nem deseja ter.

Deve estar mais preocupado em livrar-se dessas atribuições para voltar à sua rotina de xingar os adversários e recitar o discurso de ódio com que inflama as redes sociais bolsonaristas.

Como todos sabem, é disso o que o Brasil mais precisa nesse momento.*

(*) Chico Alves
Colunista do UOL

GOVERNO DESMORALIZADO, FRACASSADO…

Índia diz que não pode atender demanda do Brasil por vacinas agora

Avião da Azul foi adesivado especialmente para a missão de trazer 2 milhões de doses da Índia - Divulgação

Avião da Azul foi adesivado especialmente para a missão de trazer 2 milhões de doses da Índia – Divulgação

O ministro das Relações Exteriores, Ernesto Araújo, fez uma última tentativa em vão para tentar manter o cronograma estabelecido pelo governo federal para trazer 2 milhões de doses da vacina da AstraZeneca/Oxford da Índia para o Brasil. Em contato telefônico com o chanceler indiano Subrahmanyam Jaishankar, Araújo ouviu que não seria possível atender à demanda brasileira neste momento.

Conforme o UOL apurou junto a fontes diplomáticas, Araújo e Jaishankar conversaram e o chanceler indiano deixou claro que há boa vontade em fornecer as doses produzidas pelo Serum Institute. No entanto, questões logísticas no momento impedem o país asiático de cumprir a previsão do governo brasileiro, que era de trazer o avião de volta da Índia com as doses a tempo de iniciar a vacinação contra a covid-19 na próxima quarta (20) ou quinta-feira (21).

O argumento principal é de que a Índia iniciará amanhã a sua própria campanha de vacinação contra a doença causada pelo novo coronavírus. O país conta com a vacina para imunizar sua população porque aprovou o seu uso emergencial no primeiro dia do ano.

Desta maneira, com a negativa da Índia em atender imediatamente o pedido do governo brasileiro, dificilmente será mantido o cronograma de decolagem na noite de hoje do avião da Azul responsável por trazer as doses. A aeronave, que já foi até adesivada especialmente para a missão, está desde ontem no Aeroporto dos Guararapes, no Recife, após sair de Campinas (SP), e tinha previsão de partir rumo à cidade indiana de Mumbai às 23h (de Brasília).

Há uma semana, o presidente Jair Bolsonaro (sem partido) chegou a enviar uma carta para o primeiro-ministro da Índia, Narendra Modi, pedindo a antecipação “com urgência” do fornecimento dos 2 milhões de doses.

A intenção do governo indiano é de atender à demanda brasileira nos próximos dias, mas ainda não há previsão real para isso.

Sem o imunizante da AstraZeneca, mais conhecido como vacina de Oxford, só resta ao Ministério da Saúde contar com a CoronaVac para começar o quanto antes o plano nacional de vacinação. A vacina desenvolvida pelo Instituto Butantan em parceria com o laboratório chinês Sinovac é a única com doses à disposição no Brasil.

Tanto a CoronaVac como a vacina de Oxford, que será produzida depois no Brasil pela Fiocruz (Fundação Oswaldo Cruz), ainda aguardam o aval da Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) para poderem ser aplicadas. A agência federal prometeu uma decisão sobre o pedido de uso emergencial dos dois imunizantes para domingo (17).

Bolsonaro prevê atraso
O próprio presidente da República admitiu hoje que o cronograma de transporte das vacinas terá que ser atrasado em “no máximo” três dias. Bolsonaro lembrou o início da vacinação na Índia e argumentou que o país indiano também tem “pressões políticas”.

“Foi tudo acertado para disponibilizar dois milhões de doses. Só que hoje, nesse exato momento, está começando a vacinação na Índia”, afirmou Bolsonaro em entrevista à TV Bandeirantes, antecipando em um dia a data real de início da imunização no país asiático.

“É um país com 1 bilhão [de habitantes]. Então, resolvesse aí atrasar um ou dois dias até que o povo comece a ser vacinado lá. Porque lá também tem as pressões políticas de um lado e de outro. Isso daí no meu entender, daqui a dois ou três dias no máximo, nosso avião vai partir e vai trazer esses dois milhões de vacinas para cá”, concluiu o presidente.

Bolsonaro ainda alegou que não há disponibilidade de vacinas contra a covid-19 no mercado, e demonstrou que pode apostar na CoronaVac para iniciar a vacinação no Brasil.

“Não tem disponibilidade no mercado. Vamos procurar fazer como está muito bem sendo tratado pelo [ministro da Saúde Eduardo] Pazuello junto ao Butantan, nós fazermos nossa vacina aqui”, disse o presidente, lembrando que a CoronaVac já está sendo envasada e rotulada no Brasil.*

(*) Rafael Bragança e Douglas Porto
Do UOL, em São Paulo

GENOCIDAS!

Bolsonaro e Pazuello mostram insensibilidade e falta de ação em Manaus

Um discurso fora da realidade e ainda eleitoreiro. Foi assim que o presidente Jair Bolsonaro (sem partido) preferiu mais uma vez tratar o agravamento da pandemia do coronavírus.

No mesmo dia em que o país parou para acompanhar os relatos mais inacreditáveis de pessoas morrendo por falta de oxigênio em Manaus (AM), Bolsonaro, ao lado do ministro da Saúde, general Eduardo Pazuello, continuou defendendo o uso de remédios não comprovados, desqualificando as vacinas e praticamente lavando as mãos.

O discurso de tentar se eximir da responsabilidade ganhou mais um capítulo, nesta sexta-feira (15), com presidente reconhecendo a situação terrível em Manaus, mas dizendo que o governo fez a sua parte. Tentar relativizar a responsabilidade do governo e a gravidade da situação é algo inaceitável.

Na live semanal do presidente, nesta quinta-feira (14), a postura de Pazuello também chamou bastante atenção. O ministro, que chegou a visitar o Estado, pregou que as pessoas precisavam “dormir melhor” e ficar de bem com a vida. É claro que a imunidade de qualquer cidadão é melhor com alimentação e sono balanceados, não precisamos discordar neste ponto.

A questão é: como dormir bem vendo os hospitais lotados e pessoas morrendo asfixiadas com falta de oxigênio? Como ficar de bem com a vida se os brasileiros estão morrendo, se o presidente insiste em defender a cloroquina ao invés de incentivar a vacinação?

Se um cidadão comum optar por viver com dogmas negacionistas as consequências já se espalhariam para sua comunidade, já que estamos falando de um vírus que não respeita os limites de um único corpo. Agora, de autoridades, com compromissos públicos devidamente assumidos e jurados, o que se espera no mínimo é responsabilidade e ação.

O preço de tamanha irresponsabilidade (e insensibilidade) infelizmente já é expresso no número de brasileiros mortos, que segue em alta e já ultrapassa os 200 mil.

Agora, é esperar que o tempo traga a fatura, que não será leve, para Bolsonaro e Pazuello.*

(*) Carla Araújo
Do UOL, em Brasília