LEGADO DA COPA

‘Pessimismo que antecedeu a Copa
agora afeta economia’

000 - Pessimismo é inadmissível.

A presidente Dilma Rousseff (PT) afirmou que o mesmo clima de ‘pessimismo inadmissível’ que antecedeu a Copa também afeta hoje a economia. ‘Isso é muito grave. É uma especulação contra o país’, afirmou a petista durante sabatina da Folha, UOL, SBT e rádio Jovem Pan.

 

A presidente Dilma Rousseff apresentou o conjunto de argumentos que deverá usar ao longo de sua campanha pela reeleição para se defender das críticas em relação à inflação e ao fraco desempenho da economia brasileira nos últimos anos.Aos jornalistas que a entrevistaram no Palácio do Alvorada, Dilma deu muita ênfase à ideia de que o mundo passa por uma grave crise internacional ­-uma dificuldade até maior que a inicialmente imaginada-, mas que o Brasil a enfrenta “de forma corajosa”, sem produzir desemprego e sem descontrole da inflação.

Dilma chegou a admitir que o ex-presidente Lula cometeu um equívoco ao dizer que a crise internacional iniciada em 2008 chegaria no Brasil como uma “marolinha”. Ao jornalista que perguntou se seu antecessor havia errado, ela respondeu: “Todos nós erramos. Sabe por que? Porque [ninguém] tinha ideia do grau de descontrole que o sistema financeiro internacional tinha atingido”, disse. “Não fomos só nós que erramos, o mundo errou”, completou.

Lembrando que a inflação é tradicionalmente mais alta no primeiro semestre do que no segundo, a presidente afirmou ainda o índice deste ano deverá ficar no teto do intervalo estabelecido no programa de meta.

E, mais de uma vez, reclamou do que chamou de “jogo de pessimismo” no país, criticando as previsões não confirmadas de uma grande crise cambial, do risco de descontrole inflacionário e da possibilidade de racionamento de energia. Chegou a comparar essas análises com as previsões pessimistas que alguns faziam antes em relação à organização da Copa do Mundo no Brasil.

“O mesmo pessimismo que tinha em relação à Copa está havendo em relação á economia brasileira. E no caso da economia é mais grave, porque a economia é feira de expectativa”, disse.

Dilma classificou como “lamentável” o conteúdo de um texto do banco Santander enviado recentemente aos seus clientes com renda mensal superior a R$ 10 mil. No documento, um informe anexado ao extrato bancário, a instituição afirmou que, se Dilma subir nas pesquisas de intenção de voto, os juros tendem a subir, o cambio a se desvalorizar e a bolsa a cair.Lembrando das especulações em relação à vitória de Lula em 2002, Dilma disse que é “inadmissível” aceitar qualquer tipo de interferência de instituições financeiras no processo eleitoral. Ela confirmou que recebeu um pedido de desculpa do banco em relação ao episódio, mas deu a entender que não ficou satisfeita com isso pois a retratação era apenas “protocolar”.

Repetindo não saber quem foi a pessoa que escreveu o documento, afirmou que irá tomar uma atitude “bastante clara” sobre o assunto. Não quis antecipar, porém, se estuda ou se já decidiu processar a instituição financeira. Afirmou que conhece bem o CEO do banco e que, se tiver agenda, pretende falar com ele sobre esse assunto.

No domingo, o presidente mundial do Santander, Emilio Botín, disse que o referido informe não foi feito pelo banco, mas por um analista que o tomou a iniciativa sem consultar. Sem especificar prazo, a direção do banco no Brasil chegou a dizer que todos os envolvidos com a elaboração e a aprovação do texto serão demitidos.

Para a presidente Dilma houve discrepância da investigação entre o caso do mensalão do PT, que resultou na condenação de 25 réus por parte do STF (Supremo Tribunal Federal), e o mensalão tucano, que foi remetido para a Justiça de Minas Gerais, onde aguarda julgamento.“Nessa história da relação [do tema corrupção] com o PT tem dois pesos e umas 19 medidas”, afirmou. “Por que? Porque o mensalão [petista] foi investigado. Agora, o mensalão mineiro [do PSDB], não”, completou.

Quando o jornalista Josias de Souza a corrigiu, lembrando que o mensalão tucano foi investigado, sim, mas a diferença era o fato de ter sido remetido à primeira instância e ainda não ter sido julgado, Dilma respondeu com uma pergunta em tom de ironia, insinuando que haverá engavetamento: “E o que vai acontecer, hein Josias? O que vai acontecer?”

Em outro trecho sobre o tema corrupção, Dilma defendeu a recente substituição de César Borges por Sérgio Passos no ministério dos Transportes a pedido do PR, operação que no meio político foi interpretada como condição para o apoio da sigla à sua campanha. “Só aceito ministros que eu tenho em alta conta”, afirmou ela. “Não tem nenhum fato que desabone o Paulo Sérgio. Pelo contrário: ele foi um grande ajudante [quando ocupou o mesmo ministério pela primeira vez]”.

A presidente também falou da crise envolvendo a compra da refinaria de Passadena (EUA) por parte da Petrobras em 2006, quando ela era do Conselho de Administração da estatal. Para alguns, foi um mal negócio, que gerou prejuízos ao país. Dilma entende que não sofreu desgaste com isso. “Pelo contrário, eu acho que Pasadena mostra que sempre tive uma conduta muito decente nos cargos públicos”, afirmou, lembrando que acabou excluída do processo do TCU (Tribunal de Contas da União), que cobra ressarcimento de US$ 792 milhões.

A presidente lembrou que, entre seus colegas no conselho da Petrobras, estavam experientes empresários, que também aprovaram o negócio. Citou Jorge Gerdau (Gerdau), Fábio Barbosa (Editora Abril) e Cláudio Haddad (Insper). “Não tivemos todos os dados”, repetiu.

Para Dilma, não é correto afirmar que os recentes ataques de Israel aos palestinos na Faixa de Gaza são um “genocídio”. No seu entendimento, trata-se de “um massacre”.

A expressão foi usada por ele depois de afirmar que tem grande apreço por Israel e lembrar que o Brasil foi o primeiro país a reconhecê-lo como Estado.

“Não á genocídio, mas ação desproporcional”, reforçou. “Tem de acabar com aquela história de matar os três jovens israelenses. Mas não é possível matar crianças e mulheres [palestinas] de jeito nenhum.”

Na semana passada, o Brasil divulgou um documento oficial condenando a violência promovida por militares israelenses na Faixa de Gaza e, num gesto diplomático de reprovação, chamou de volta o embaixador brasileiro em Tel Aviv, Henrique Pinto. Em resposta, uma autoridade diplomática israelense afirmou que o Brasil é um “anão diplomático”.

Apesar de lamentar as palavras do porta-voz de Israel (“elas produzem um clima muito ruim”), Dilma acenou com um abrandamento da relação. Garantiu que não há ruptura e que o embaixador brasileiro “oportunamente” voltará para seu posto original.

Para Dilma, as críticas do senador e presidenciável Aécio Neves (PSDB-MG) em relação ao emprego de cubanos no programa Mais Médicos é um “despropósito”, fruto de uma visão “fundamentalista” sobre a ilha.

Na sabatina com Aécio no último dia 17, o tucano afirmou que, caso seja eleito, fará alterações no sistema de remuneração e nas regras para ingresso de profissionais no programa. Defendeu que é preciso rever o acordo do governo com a OPAS (Organização Panamericana da Saúde) para a contratação de cubanos, que hoje são cerca de 80% dos participantes, lembrando que o governo cubano retém a maior parte da remuneração desses profissionais.

Depois de lembrar que todos os países da América Latina condenam o bloqueio econômicos promovido pelos Estados Unidos contra Cuba, Dilma defendeu o programa e a parceria com os cubanos citando estatísticas a respeito do déficit de médicos no Norte e no Nordeste, em regiões do interior e na periferia dos grandes centros.

A presidente afirmou que os cubanos recebem R$ 3 mil por mês no Brasil, auxílio-alimentação, auxílio-moradia e, nos lugares mais distantes, auxílio-transporte. E que uma outra parte da remuneração é depositada para eles em Cuba. Profissionais brasileiros e de outras nacionalidades recebem R$ 10 mil no Brasil.*

(*) Folha de São Paulo