JÁ ERA, MADAME!

Dilma tenta se comunicar e negociar, mas talvez seja tarde

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Propostas e projetos importantes não podem ser apresentados sem negociações e arranjos prévios. Na vida corporativa essa regra é uma espécie de “cláusula pétrea”. Antes de levar o assunto para o debate da reunião, o responsável pela defesa da ideia deverá procurar o máximo de participantes que puder e tentar, em conversas particulares, afastar as resistências.

A conversa reservada permite que opiniões divergentes sejam expostas de maneira mais tranquila, sem as atitudes emocionais tão comuns nos embates das reuniões. As explicações particulares podem ser percebidas como consideração especial. Permitem aos envolvidos no processo a avaliação um pouco mais desarmada dos mais diferentes aspectos do projeto ou da proposta.

Se essa negociação prévia é uma regra importante na vida corporativa, na política é ainda mais relevante e decisiva. Ou será que alguém é tão ingênuo a ponto de achar que as grandes decisões são tomadas apenas a partir da exposição clara, lógica e eloquente de um deputado ou senador? Assuntos importantes são acertados em conversas reservadas entre os políticos.

Dilma: negociando com água até o pescoço

Conversar, explicar, ponderar fazem parte da atividade política. Essa não foi, entretanto, uma preocupação da presidente Dilma Rousseff na sua cartilha da arte de governar. Com os políticos do seu partido e os da base aliada nas mãos, praticamente todos os projetos de interesse do governo foram aprovados com relativa facilidade.

Nesse segundo mandato, com a economia fora de controle e a base aliada mostrando claros sinais de rebeldia, a arte de negociar passou a ser artigo de primeira necessidade. Sem se dar conta de que a situação sofrera profundas mudanças, Dilma continuou tentando resolver os problemas na base da canetada, ou usando a frágil influência dos seus ministros.

Após sucessivas derrotas e vendo a água subir próximo do pescoço, resolveu dar uma guinada nesse processo de negociação com os políticos. Pela primeira vez, procurou pôr em prática a arte de fazer política. Acostumada a se fechar no seubunker e quase sempre a ver os políticos como personagens que atrapalham seus planos, sentiu que precisava mudar.

Situação política é exemplo para estratégias de comunicação

Se você pensa como mais de 80% dos brasileiros, deve ficar arrepiado só de ouvir falar no nome de Dilma. Por isso, procure interpretar o que estou dizendo como forma de estudar as estratégias da comunicação. Poderia ter usado outro exemplo, mas a presidente protagoniza um episódio atual e muito adequado a essa análise.

De um lado, está o presidente da Câmara dos Deputados, Eduardo Cunha, que fechou questão e não quer que o PMDB participe mais do governo. De outro, o líder do PMDB, o deputado Leonardo Picciani, que gostaria de ver seu partido participando de maneira mais efetiva da administração do país. E Michel Temer, que tem interesse na história. Dilma não pode errar. Se não for a última, é das últimas balas na agulha.

Essa é uma briga de cachorro grande. Embora Picciani seja o líder do partido, parece não ter tanto poder assim sobre os liderados. Eduardo Cunha, que o apoiou para chegar à posição atual, se não chega a ser um desafeto, está em lado oposto nessa história de respaldar o governo Dilma.

Estrategicamente, a presidente deixou para anunciar as mudanças ministeriais depois que voltar da Conferência da ONU, realizada no último domingo em Nova York (EUA). Há pendências a resolver. Mesmo dizendo que Dilma deve decidir sozinha quem serão os novos ministros, Michel Temer tem amigos que gostaria de ver mantidos, como Eliseu Padilha, no Ministério da Aviação Civil. Picciani parece não concordar.

Pois é, a carta na manga de Dilma no momento é a reforma ministerial. Para dar certo, precisa avaliar bem se vale a pena contrariar Michel Temer e atender aos interesses de Picciani. Sem contar que, de uma forma ou de outra, Eduardo Cunha continuará a ser uma pedra no sapato. E tudo isso terá que ser arranjado na base da conversa e da negociação.

Se, com as mudanças ministeriais, conseguir agradar à ala do PMDB liderada por Leonardo Picciani, e ele contar mesmo com um número de políticos que forme um grupo influente,Dilma terá a chance, ainda que remota, de garantir o cargo e a capacidade de governar. Tudo muito na base do “se”.

Será que a mudança de Dilma vai funcionar?

Não é garantia de sucesso. Em política, nunca se sabe para onde se dirigem os furacões. Talvez Dilma tenha demorado a tomar a iniciativa de se comunicar e negociar. Se tivesse exercitado essa habilidade quando a situação era mais favorável, hoje estaria mais bem preparada para esses embates.

Falar, discursar, negociar não são atributos da presidente. Por outro lado, não há nada na vida que não possa ser aprendido pelo menos em seus princípios mais rudimentares. Como a necessidade é a porta de entrada das mudanças e das superações, esse momento desesperador de Dilma quem sabe possa promover um milagre. *

(*) Reinaldo Polito – UOL Economia