PULANDO QUE NEM SAPO

Crivado de acusações, Temer recompõe ministério com prepostos do rebotalho

 

 Considerando-se que sete em cada dez brasileiros rejeitam Michel Temer, interesse público é algo que poucos ainda acreditam que ele tenha. E o presidente, sempre que pode, demonstra que realmente não tem. Crivado de denúncias e inquéritos, Temer compõe uma nova equipe ministerial com os velhos suspeitos de sempre. O rebotalho continua dando as cartas.

 

O Ministério da Saúde permanece com o PP, agora rebatizado, veja você, de Progressitas. Trata-se da mesma velha legenda, campeã no ranking de enrolados na Lava Jato. Para o lugar do deputado Ricardo Barros vai Gilberto Occhi, atual presidente da Caixa Econômica Federal. Em condições normais, a troca seria um rebaixamento para Occhi. Mas é preciso enxergar o que está por trás da anormalidade.

A Caixa está sendo varejada pela Procuradoria e pela Polícia Federal. Depondo como delator premiado, o doleiro Lúcio Funaro, operador de propinas de gente como Eduardo Cunha, iluminou negócios trançados nos porões da instituição. Difícil saber até onde as investigações vão subir.

Na dúvida, alojou-se Occhi num cargo que oferece foro privilegiado. Ali, o personagem estará a salvo dos rigores da primeira instância. Com uma vantagem: o Progressistas (pode me chamar de ex-PP) mantém sob seu jugo o comando da Caixa, pois indicou para a vaga de Occhi o atual vice-presidente de Habitação da casa bancária estatal: Nelson Antônio de Souza.

No Ministério dos Transportes, continua reinando o PR do ex-presidiário do mensalão Valdemar Costa Neto. Era assim com Lula. Continuou na gestão Dilma. E nada mudou sob Temer, exceto pela elevação do nível de desfaçatez. Sai Maurício Quintella, que disputará uma cadeira no Senado na representação de Alagoas. Entra Valter Casimiro Silveira.

Valter Casimiro foi deslocado da direção-geral de um dos órgãos públicos que mais frequentam escândalos de corrupção desde a chegada das caravelas. No passado, chamava-se DNER. Hoje, atende pelo nome de DNIT, Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes. A promoção do chefe dessa repartição a ministro de Estado foi um pedido de Valdemar Costa Neto —que para Temer vale como uma ordem.

Neste domingo, Temer reúne seu staff político para definir novas mudanças na equipe ministerial. Precisa preencher algo como uma dezena de vagas de auxiliares que deixam a Esplanada para tentar a sorte nas urnas. Serão dez oportunidades para Temer confirmar as expectivas dos brasileiros que não esperam nada dele.

Num gesto de ousadia, o presidente deve deslocar o atual ministro do Planejamento, Dyogo Oliveira, para a presidência do BNDES. Com isso, entregará as chaves de um dos mais importantes cofres da República nas mãos de um apadrinhado do multi-investigado líder do governo no Senado, Romero Jucá, presidente do (P)MDB.

O governo de Michel Temer deixou de ser imprevisível. Tornou-se uma administração tristemente previsível.*

(*) Blog do Josias de Souza

SE SEGURA, MALANDRO!

Prisão de amigos foi recado para Temer

Aproxime-se para lá…

Nem só de aflições vivem os amigos do presidente Michel Temer, embora alguns deles não vivam de outra coisa há muitos meses desde que se meteram a fazer o que a lei proíbe.

Geddel, Henrique Eduardo, Eduardo Cunha e Rocha Loures, por exemplo, mofam em celas ou não podem sair de casa. Em compensação, o coronel Lima, o advogado José Yunes e outros foram presos e soltos vapt-vupt.

O coronel Lima , o faz tudo de Temer há 40 anos, entrou e saiu sem sequer ser ouvido. Simplesmente recusou-se a falar. Há mais de um ano que foge de prestar depoimento.

Fica a suspeita de que as prisões eram dispensáveis ou que sua revogação foi apressada. Mas cabe também outra leitura: foram feitas para servir de recado a Temer. Do tipo: temos munição de sobra para incinerá-lo.

Se entender o recado, Temer recolherá os flaps, esquecerá o projeto de ser candidato e se conformará em tomar cafezinho frio até seu último dia no Palácio do Planalto.*

(*) Blog do Ricardo Noblat

A POLÍTICA DOS INSENSATOS

Lula e Bolsonaro sujeitaram o discurso tucano à sua lógica política

“Petistas da direita”, eis uma alcunha apropriada para os arruaceiros que perseguiram Lula

“O povo não é bobo, abaixo a Rede Globo!”, gritavam os partidários de Bolsonaro no Paraná, plagiando o antigo bordão dos fiéis lulistas para expressar sua repulsa ao jornalismo, em geral, e à Globo, em especial. Mais surpreendente, talvez, foi outro paralelismo registrado em meio aos ataques à caravana de Lula no Sul. “Lula quis transformar o Brasil num galinheiro; agora está colhendo os ovos”, declarou Bolsonaro. “Estão colhendo o que plantaram”, declarou Alckmin. Por que eles não articulam uma chapa única —a coligação “Pau, Pedra, Ovo e Tiro”?

Nas emboscadas à caravana eleitoral lulista, queimaram-se pneus. Quantas vezes os movimentos que orbitam ao redor do PT incendiaram pneus para atingir objetivos partidários simulando protestar em nome de reivindicações sociais? Enquanto, no Sul, a baderna envolvia os militantes lulistas, no Nordeste o MST invadia uma fábrica de Flávio Rocha, recém-declarado candidato presidencial. As milícias que se coordenaram contra a caravana evidenciam a força da pedagogia da intimidação. “Petistas da direita”, eis uma alcunha apropriada para os arruaceiros que perseguiram Lula. Quando Alckmin pronuncia seu elogio implícito da violência política, está dizendo que, ganhando ou perdendo as eleições, o PT venceu —isto é, que não há mais espaço para a divergência democrática no Brasil.

A política da intimidação nasce da pulsão totalitária. “As ruas são nossas” —a ideia de expulsar os rivais da praça pública sempre foi um traço comum aos partidos fascistas e comunistas. O PT não é uma coisa nem a outra, mas assimilou as práticas do castrismo, fonte mítica de inspiração para suas principais correntes. Daí, os “atos de repúdio” contra “inimigos do povo”, a vandalização de debates acadêmicos ou eventos de lançamento de livros, as invasões políticas de propriedades patrocinadas pelo MST (o “exército do Stédile”, que opera como milícia de Lula), as agressões a concorrentes em atos eleitorais. O Alckmin que justifica os petistas da direita está, de fato, celebrando os petistas do PT.

O pilar central da democracia é o princípio do pluralismo: a crença compartilhada de que nenhum partido singular tem o monopólio da verdade. A política da intimidação equivale a uma insurreição contra a democracia. É essa a chave para interpretar o cerco dos milicianos à caravana de Lula.

Na hora do impeachment, um clamor pela cassação do registro do PT escorreu dos arautos de uma “nova direita” avessa ao pluralismo. A causa da abolição do PT fracassou, assim como se desvaneceram as esperanças na simples desaparição do partido. O projeto liberticida mudou de alvo: trilhando um longo desvio para atingir a mesma meta, eles empenham-se em forçar a prisão de Lula. Os ovos, pedras, paus e tiros desferidos contra a caravana devem ser entendidos como instrumentos de persuasão dos ministros do STF. No Sul, mirava-se o julgamento de 4 de abril.

João Doria entendeu isso, explicitando a demanda dos milicianos. Depois de repetir Alckmin (“o PT sempre utilizou da violência; agora sofreu da própria violência”), Doria esclareceu o que se pretende: “Não recomendo ovos, e sim prisão para ele”. As lideranças petistas habituaram-se a ameaçar juízes com o espectro da convulsão social, na hipótese da prisão de Lula. O porta-voz voluntário dos petistas da direita produziu uma ameaça simétrica: a convulsão social seria o fruto do habeas corpus para Lula. A política da intimidação eleva-se a um patamar inédito quando aderem a ela os candidatos tucanos ao Planalto e ao Bandeirantes.

Fogueiras de pneus pertencem ao universo dos petistas —os de esquerda ou os de direita. Lula e Bolsonaro triunfaram, juntos, na Batalha do Sul. Eles configuraram o noticiário e sujeitaram o discurso tucano à sua lógica política. Aos vencedores, irmãos-inimigos, uma chuva de ovos.*

(*) Demétrio Magnoli –  Folha de São Paulo

É doutor em geografia humana e especialista em política internacional.

É O FIM DA PICADA

GLOBO testa funcionamento de compra de curtidas nas redes sociais

Reportagem criou postagem e adquiriu pacote de 2 mil ‘likes’ de uma empresa virtual

‘Vote em José Silva’
Como é fácil comprar ‘simpatia’ na rede
R$ 109,90
256 curtidas
O GLOBO criou um post e usou o serviço de um site que oferece a venda de curtidas. Das 2 mil contratadas, 256 foram entregues nas 48 horas prometidas. O perfil foi criado somente para o experimento e já foi apagado.
VIRAM
A postagem
O perfil
As curtidas
Algumas das curtidas entregues

RIO — Uma operação simples, que pode ser feita com cartão de crédito, é o suficiente para transformar uma publicação ou perfil irrelevantes em sucesso na internet. No inflado mercado das redes sociais, dinheiro vale curtidas e seguidores.

Mais repercussão pode resultar em retorno financeiro ainda maior para quem compra — ou apenas um alcance amplo de uma ideia, a depender do objetivo. Nesse ciclo, as falsas aparências tornam-se histórias verdadeiras para milhões de pessoas impactadas.

Nas últimas semanas, O GLOBO pesquisou dezenas de sites brasileiros e estrangeiros que oferecem vários tipos de serviço: venda de seguidores no Twitter ou Instagram, visualizações de vídeos no YouTube, curtidas em páginas ou publicações no Facebook e até comentários em postagens. Por trás da operação, estão estruturas conhecidas como farms— fazendas, em inglês, referência à criação e cultivo de milhões de perfis falsos.

“Por que você está aqui? Já sei. Você busca ter sucesso nas redes sociais. Não perca tempo e se torne uma celebridade digital”, diz o vídeo promocional de uma das empresas.

Na quarta-feira, O GLOBO testou o funcionamento de um desses sites e criou perfis no Twitter e no Facebook — os dois endereços foram usados apenas na apuração. Por R$ 109,90, um pacote que dá direito a 2 mil curtidas em um post no Facebook foi comprado. Essa postagem foi feita dentro de uma página também criada especialmente para reportagem. Com mais R$ 239,90, foi possível “investir” num lote de 10 mil seguidores no Twitter. Para preservar a experimento, tanto o perfil quanto a página publicaram apenas uma mensagem — “Vote em José Silva 2018” — e não fizeram atividade que pudesse atrair interesse orgânico. Os perfis e a página foram apagados ontem.

Até as 18h de sexta-feira, fim do prazo estipulado pela empresa para a entrega do falso volume de engajamento, a publicação no Facebook alcançou 256 curtidas — um número alto para a insignificância do conteúdo, mas pouco acima de 10% do que foi prometido. No Twitter, nenhum dos dez mil seguidores foi entregue. A diferença entre promessa e realidade expõe outro fator do mercado do falso engajamento: a quem recorrer quando o serviço adquirido opera na fronteira entre o antiético e o ilegal?

— Esse mercado de venda de robôs (perfis falsos e com publicação automatizada) e cliques existe na internet antes mesmo das redes sociais. Muitas empresas querem passar a impressão de que o produto é um sucesso, que usuários reais estão compartilhando aquilo ali. Até políticos. As pessoas pensam: “Se esse político tem muitos seguidores nas redes sociais, tem muita gente apoiando”. Uma empresa pode atrair um cliente, um potencial parceiro. Se parte da importância das redes vêm das métricas, há uma demanda por esse mercado de manipulação dos números — aponta o professor de Ciência da Computação Fabrício Benevenuto, da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG).

As contas que curtiram a publicação no Facebook tinham características diversas. Algumas pareciam pertencer a pessoas reais, com postagens sobre assuntos variados e fotos com amigos e familiares. Outras claramente eram falsas: sem foto de perfil, amigos e nomes como “Habbig Htl”, “Henr Mathias”. A maior parte parecia pertencer a crianças e adolescentes, indicando que, em algum momento, podem ter autorizado de forma involuntária o uso automático do perfil para esse tipo de serviço. Foram enviadas mensagens para perfis escolhidos aleatoriamente, mas não houve respostas.

ATÉ PERFIS PRONTOS ESTÃO À VENDA

Em outro ramo do mercado, também é possível comprar no Instagram perfis já prontos e com muitos seguidores. Depois, basta trocar o nome e a foto para construir uma conta que já surge com uma base ampla. A reportagem identificou um perfil com 57 mil seguidores à venda por R$ 500 — havia também um anúncio no Mercado Livre, em outro exemplo da busca por influência nas redes a qualquer custo.

— Em 2013, fizemos um robô no Twitter ficar mais influente que a Oprah Winfrey. Na época, escrevi artigo falando quanto isso poderia ser usado em eleições, sobre como uma falsa importância poderia ser criada. A influência era medida por retuítes e número de pessoas que seguem de volta. O robô seguia e deixava de seguir pessoas, dormia oito horas, comentava nas postagens de outras pessoas. Simulava comportamento humano. Publicamos artigo expondo esse escândalo. O objetivo era de mostrar que esse ambiente é fácil de manipular. Alguns anos depois estou vendo empresas serem especializadas em manipular métricas — acrescenta Benevenuto.

Internet tem mercado de compra de curtidas nas redes sociais – Editoria de Arte

 

ENQUANTO O STF INVESTE PELA CONTRAMÃO

Mais de 2 mil procuradores e juízes defendem a prisão após 2ª instância

Até este sábado, dia 31, mais de 1,5 mil promotores, procuradores e juízes de todo o País já haviam assinado a nota técnica. Esta é a maior ofensiva dos membros do Ministério Público e do Judiciário pela prisão em 2ª instância. Segundo os organizadores, como a lista está em constante atualização, alguns nomes estão repetidos.

Já subscreveram o manifesto o coordenador da força-tarefa da Operação Lava Jato, no Paraná, procurador Deltan Dallagnol, as procuradoras da Lava Jato, em São Paulo, Thaméa Danelon e Anamara Osorio, a procuradora regional da República, Ana Paula Mantovani, o promotor de Justiça, em Brasília, Renato Varalda, além dos procuradores-gerais de Justiça de Goiás (Benedito Torres), do Alagoas (Alfredo Mendonça) e do Rio (Eduardo Gussem) e, ainda, o procurador do Ministério Público do Tribunal de Contas de União, Julio Cesar Marcelo de Oliveira.

“Nada justifica que o STF revise o que vem decidindo no sentido de que juridicamente adequado à Constituição da República o início do cumprimento da sanção penal a partir da decisão condenatória de 2ª instância. A mudança da jurisprudência, nesse caso, implicará a liberação de inúmeros condenados, seja por crimes de corrupção, seja por delitos violentos, tais como estupro, roubo, homicídio etc.”, afirma o abaixo assinado.*

(*) Fausto Macedo e Julia Affonso
Estadão

ESCÂNDALOS SEM FIM

Dia da Marmota

STF é maior fonte de incerteza num País que não consegue acordar das repetições de suas mazelas


O Brasil parece viver, sem perspectiva de acordar, uma versão nada engraçada do Dia da Marmota vivido por Bill Murray no filme “O Feitiço do Tempo”. Quando se pensava que avanços no combate à corrupção, algum crescimento econômico e a perspectiva de eleições logo ali seriam a fórmula mágica para fazer o País acordar da repetição infindável de suas mazelas, eis que um conjunto de acontecimentos faz com que abramos os olhos de volta praticamente à estaca zero.

Há quatro anos, a Lava Jato desnudou o maior e mais abrangente esquema de corrupção da história do País, capitaneado por PT, MDB e seus sócios minoritários, com tal força e amplitude que, de quebra, estourou também esquemas passados e paralelos de PSDB e adjacências. O STF, então, deu em 2016 uma contribuição decisiva para esse enredo, ao decidir que o cumprimento da pena de prisão deve se dar após a condenação em segunda instância. Agora, o retrocesso se avizinha com a grande probabilidade de a mesma Corte, dois anos depois, rever a jurisprudência.

Quando parecia que Michel Temer tinha conseguido, à custa de doses cavalares de fisiologia e um trânsito político melhor que o de Dilma Rousseff, adiar seu encontro com a Justiça para depois de concluir seu mandato, eis que estamos de volta a 2017, com um presidente da República prestes a enfrentar mais uma denúncia do Ministério Público por crimes como corrupção, lavagem de dinheiro e organização criminosa. A terceira no intervalo de menos de um ano.

Num País que insiste em reviver seus pesadelos, a economia, que dava sinais de reação depois de anos de desvario dilmista, já vê seus agentes pisarem no freio e as projeções de crescimento ou recuperação do emprego recuarem.

O Brasil é um país que se acostumou a viver num stop and go em que mais para do que anda, em todas as esferas.

E de onde partem, hoje, as maiores razões de incerteza institucional a impedir que o País acorde de vez do Dia da Marmota?

Justamente do Supremo Tribunal Federal, uma Corte cujo nome é no singular, mas a ação se dá num plural desconjuntado que atordoa uma sociedade enfastiada de um presente eterno em que a regra é a impunidade e nunca se vira a página.

A briga entre Gilmar Mendes e Luís Roberto Barroso e o adiamento do julgamento do habeas corpus de Lula foram a demonstração pública, televisionada, de um tribunal cindido em dois grupos. A discussão sobre a prisão após segunda instância é o ponto mais sensível dessa divisão, e a exacerbação da tensão em torno do assunto foi contribuição decisiva da presidente, Cármen Lúcia, que sonegou a discussão de mérito definitiva do tema de modo a fazer com que, agora, ela se confunda com a decisão sobre a prisão ou não de Lula.

O petista foi condenado em duas instâncias, e teve seus embargos recusados por unanimidade em minutos. Se o Brasil fosse um País disposto a seguir em frente, já teria de haver uma regra clara, e uniforme, a determinar a partir de quando cumprirá sua pena. Regra esta que valeria para ele e para todos. Mas não há, e a culpa dessa total insegurança jurídica e política é do STF.

Enquanto uma ala da corte parece agir pra frear a velocidade do trem da Lava Jato, a outra trata de acelerá-lo, como seu viu nesta semana com a operação que levou para atrás das grades os amigos de Temer.

A Suprema Corte tem de falar por último em momentos capitais da vida de uma nação. Que os ministros se odeiem e tenham suas simpatias políticas, o problema é deles. Mas urge que se dispam de suas vaidades e preferências, vistam suas togas e ajam com a responsabilidade e a unidade que seus cargos exigem. E que indiquem qual o caminho para fazer o Brasil acordar do pesadelo regressivo a que está preso.*
(*) Vera Magalhães, O Estado de S.Paulo

TOFFOLI, SEMPRE ELE A NOS ENVERGONHAR

“Strike” de Toffoli

Ministro livrou Demóstenes, Maluf e Picciani para justificar HC de Lula?


No recesso branco da semana passada, o Supremo fez um “strike” ao libertar condenados que, há tempos, são arroz de festa e símbolos no noticiário da corrupção. Aplainou, assim, o caminho para o habeas corpus (HC) a favor do ex-presidente Lula na próxima quarta-feira e para a revisão da prisão em segunda instância mais adiante.

O procurador e ex-senador Demóstenes Torres, uma espécie de funcionário de luxo do bicheiro Carlinhos Cachoeira no Congresso, foi cassado, condenado e estava inelegível até 2023, mas obteve uma liminar para disputar as eleições deste ano. Um espanto!

O ex-presidente da Assembleia Legislativa do Rio Jorge Picciani, conhecidíssimo há décadas por suspeitas de corrupção e tráfico de influência, ganhou um HC para sair da cadeia de Benfica e curtir sua condenação no lar, doce lar, da Barra da Tijuca, sem tornozeleira. Uma mudança e tanto.

Na quarta-feira, o (ainda) deputado Paulo Maluf, que frequenta o noticiário policial desde os anos 1980 e foi condenado por crimes de quando era prefeito de São Paulo – de 1993 a 1996! –, passou mal de madrugada e ganhou um presentão no início da tarde: um HC para sair da Papuda, pegar uma UTI móvel e pousar anteontem na sua mansão dos Jardins, em São Paulo. Também sem tornozeleira.

Picciani, 62, tirou um câncer e tem sequelas importantes. Maluf, 86, tem problemas cardíacos e diabetes. Mas por que eles estavam presos nessas condições? Porque usaram de seus cargos, de suas fortunas ou de uma infinidade de recursos para não serem presos quando deveriam ter sido. Agora, quando são, alegam que não podem mais ser…

Por trás das decisões a favor de Demóstenes, Picciani e Maluf, o mesmo ministro, com a mesma caneta: José Antonio Dias Toffoli, que não tinha doutorado nem mestrado, tinha levado duas bombas para juiz e só virou ministro da mais alta corte porque Lula quis. Ex-advogado do PT e advogado geral da União no governo Lula, ele pode até ser uma boa figura, mas lhe faltavam predicados para o Supremo.

Nos HCs de Picciani e Maluf, Toffoli foi contra a posição do relator da Lava Jato, Edson Fachin. Especificamente no de Maluf, foi além: desautorizou uma decisão em sentido contrário dada em dezembro por Fachin, o que não chega a ser inédito, mas também está longe de ser trivial. Fachin mandou prender Maluf, Toffoli mandou soltar três meses depois.

Essa onda de bondades de Toffoli gerou projeções. A primeira é sobre o HC preventivo que pode livrar Lula da prisão na quarta-feira. Decisão difícil: o réu é Lula, a prisão em segunda instância passou por 6 a 5 em 2016, há pressões de todos os lados e 1,5 mil juízes e procuradores entregam manifesto amanhã à corte na linha de Sérgio Moro: contra a mudança.

Ao beneficiar Demóstenes, Picciani e Maluf, o ex-advogado do PT Dias Toffoli estava aplainando o terreno para amenizar o impacto de uma decisão pró Lula? Sem falar que ele é da segunda turma do STF, que livrou o líder do governo, Romero Jucá, e o empresário Jorge Gerdau no inquérito da operação Zelotes. Em seu voto, Toffoli acusou a denúncia da PGR de tentativa de “criminalizar a política”.

A outra projeção é sobre o STF após setembro, quando Toffoli substituirá Cármen Lúcia na presidência, num momento crucial para a Lava Jato e para políticos com mandato, do PT, PSDB, PMDB, PP, PTB…. Aliás, o mesmo Toffoli tinha pedido vistas do fim do foro privilegiado e o tema voltará à pauta em maio.

O foco estava em Cármen, Gilmar, Barroso e Rosa Weber, mas é Toffoli quem agora atrai todos os holofotes, a meses das eleições e quando está em jogo o destino do padrinho Lula. Audácia o ministro mostrou que tem. Até ao assumir uma vaga no Supremo Tribunal Federal, apesar de tudo.*
(*) Eliane Cantanhêde, O Estado de S.Paulo