OPERAÇÃO ABAFA

Ataques em série

Intenção é favorecer Lula e esvaziar Moro, ou favorecer todos e esvaziar a Lava Jato?


A Lava Jato enfrenta três ataques frontais: a pressão para revogar a prisão após condenação em segunda instância, a autorização do Supremo para o senador cassado Demóstenes Torres ser candidato em outubro e, agora, a retirada de trechos das delações da Odebrecht da mesa do juiz Sérgio Moro. Aí tem!

São três frentes e três ministros da Segunda Turma do Supremo, Gilmar Mendes, Ricardo Lewandowski e Dias Toffoli, com um aliado atuante na Primeira Turma, Marco Aurélio Mello, que decidiu matar no peito a prisão em segunda instância.

A nova jogada, envolvendo os trechos sobre o ex-presidente Lula nas delações da Odebrecht, gerou perplexidade e uma única certeza até no próprio Supremo: há uma trama não apenas para favorecer Lula e esvaziar Moro, mas para favorecer os demais peixes graúdos fisgados e esvaziar a própria Lava Jato. Só por isso, Gilmar, Lewandowski e Toffoli teriam mudado o voto dado em outubro de 2017.

A partir dessa certeza, acumulam-se dúvidas sobre qual a amplitude da decisão e quais serão os próximos passos. Um ministro do Supremo chegou a encomendar parecer de auxiliares para tentar desvendar o mistério e não ser surpreendido mais adiante.

Até agora, há esforço para tentar minimizar a decisão da Segunda Turma, alegando que foi uma “mera formalidade” e que Moro continua com os inquéritos do sítio de Atibaia e do Instituto Lula, podendo até pedir o compartilhamento de provas (como as delações da Odebrecht), se julgar necessário.

Não é tão simples. Se fosse, os três ministros não mudariam o voto de poucos meses antes, nem passariam por cima de uma constatação óbvia para juristas e leigos: as delações da Odebrecht tratam didática e diretamente das relações triangulares entre Lula, a empreiteira e a Petrobrás. Logo, são parte inquestionável da Lava Jato, que está sob a jurisdição de Moro.

+ Moro diz que processo do sítio de Atibaia deve ficar em Curitiba

Isso é tão óbvio quanto a importância da prisão em segunda instância no combate à impunidade. Ou quanto a irrelevância das revisões no STF e no STJ de julgamentos em tribunais regionais – como, aliás, mostrou o ministro Luís Roberto Barroso com números contundentes. Apesar disso, persistem as tentativas de retrocesso no Supremo e também no Congresso.

E o que dizer da decisão de Toffoli, em liminar, e depois da Segunda Turma, em julgamento, autorizando a candidatura de Demóstenes apesar da cassação pelo Senado? Ou melhor, depois de tudo? Uma ironia que se faz em Brasília é que Toffoli não decidiu assim por morrer de amores por Demóstenes, mas talvez por morrer de amores por outro personagem: Lula, que, hoje, está preso em Curitiba e tecnicamente inelegível pela Lei da Ficha Limpa.

Não custa lembrar que, num mesmo dia, a terça-feira passada, Gilmar admitiu de manhã em São Paulo, em tese, a possibilidade de redução da pena de Lula; à tarde, chegou esbaforido ao STF para votar pelo envio das delações da Odebrecht sobre Lula para a Justiça paulista; à noite, foi se encontrar com o presidente Michel Temer no Palácio Jaburu. A ironia, no caso de Gilmar, é que ele não fez tudo isso por amor a Lula nem por algum personagem específico, mas por vários deles. Além de fazer também por rigor na interpretação da lei, que ninguém lhe nega.

Agora, tenta-se adivinhar os próximos movimentos de Toffoli, Lewandowski e Gilmar na Segunda Turma e de Marco Aurélio correndo por fora, mas com o Ministério Público na cola e a procuradora-geral da República, Raquel Dodge, compartilhando a perplexidade geral e as desconfianças que assolam Brasília.

Meio de brincadeira, meio como provocação: a delação de Antonio Palocci também não tem nada a ver com a Lava Jato? E será retirada de Sérgio Moro? Tudo parece possível.*

(*) Eliane Cantanhêde, O Estado de S.Paulo

FÓSFORO QUEIMADO

Sob Temer, notícia boa é diluída pela perversão

(Arte: Antônio Lucena)

Michel Temer equipou-se durante várias semanas para levar aos brasileiros uma boa notícia: o reajuste dos benefícios do Bolsa Família. Para demonstrar que tudo está dando certo, o presidente programara um reajuste generoso. Coisa de 10%. Alertado para a ausência de caixa, teve de se contentar com alguma coisa acima da inflação do ano passado, de 2,95%. Imaginou que, adicionando esse percentual à percepção de que o pior da crise econômica já passou, ninguém no Brasil deixaria de ficar otimista.

O problema é que, além das crises econômica e moral, há no Brasil uma crise semântica. Falta um consenso quanto ao significado de “dar certo”. O noticiário inspira algumas dúvidas. Por exemplo: o “certo” se mede pelo número de denúncias criminais contra o presidente —há duas na prateleira e uma terceira no forno— ou pelo número de desempregados?

Segundo o IBGE, 13,7 milhões de brasileiros frequentaram o olho da rua no primeiro trimestre de 2018. Isso equivale a 1,4 milhão a mais do que nos últimos três meses 2017. É o suficiente para restaurar o pessimismo ou convém esperar pela demissão de mais uns 500 mil?

Antes de celebrar a notícia de que Temer decidiu parar de apertar o nariz da clientela do Bolsa Família é preciso certificar-se de que todos —governo e sociedade— estão falando a mesma língua. Do contrário, qualquer boa notícia será sempre diluída no melado de perversão que escorre do governo.*

(*) Blog do Josias de Souza

NA GARGANTA DO INFERNO

Que tonto!

Aécio, com seus 51 milhões de votos em 2014, chegou na bica da Presidência, mas, até onde a vista alcança, não terá uma segunda chance

O presidente que nunca o foi mantinha comportamento pessoal digno da nobreza de sua cidade e do solar familiar. O jornalista Elio Gaspari gosta de lembrar do episódio em que Tancredo se arrepiou ao ouvir de um parceiro, ao sair num grupo: “Vocês vêm comigo, e o resto no outro carro”. Corrigiu-o: “O resto não. Os demais…”. Para sua sensibilidade, “o resto”, aplicado a seres humanos, era insulto. Imagine-se o que diria se ouvisse as falas do neto no hoje célebre diálogo com Joesley “Friboi” Batista. “Esses vazamentos, essa po… toda, é uma ilegalidade (…) Temos dois caras frágeis prá cá… nessa história, que é o Eunício Oliveira, presidente da Câmara, e o Rodrigo Maia, presidente do Senado (…) O ministro da Justiça é um bos… do ca… (…) Tem que ser um que a gente mata ele antes de fazer delação (…) Isso vai me dar uma ajuda do ca…”

Nas primeiras linhas tratava-se de estancar a sangria da Lava Jato. Nas duas últimas combinava-se a entrega dos R$ 2 milhões pedidos ao empresário. Na terça-feira passada o Supremo Tribunal Federal aceitou denúncias contra Aécio por obstrução de Justiça e corrupção passiva. Também foram acolhidas as denúncias, por corrupção, contra sua irmã Andrea e contra o primo Fred. Aécio e Andrea eram os netos queridos de Tancredo; os dois cedo se envolveram em política e trabalharam com o avô. Andrea protagonizou, aos 22 anos, um episódio em que desempenhou generoso papel. Chegou tarde para o famoso show de Chico Buarque no Riocentro, em 1981, e viu na entrada um homem ferido que pedia ajuda. Um táxi tinha se recusado a aceitá-lo. Andrea colocou-o em seu carro, todo desnorteado e sangrando, e levou-o ao hospital. O homem seria identificado como o capitão William Machado, um dos dois militares-terroristas que pretendiam levar pânico ao show e acabaram atingindo a si mesmos.

Aécio, com seus 51 milhões de votos, chegou na bica da Presidência, como o avô. O avô, falhando-lhe a tentativa, saiu sem possibilidade de tentar outra vez, pela razão que se sabe. O neto saiu com cacife que lhe favoreceria a segunda chance em condições vantajosas. Até onde a vista alcança, não a terá. Dissipou-a nos descaminhos, pontilhados de um trambique aqui e outro ali, que os políticos vão percorrendo em paralelo às carreiras, conforme prova a Operação Lava Jato. A cronista Cora Rónai, comentando como Sérgio Cabral dissipou a sua, concluiu: “Que bobo!”. Aécio é mais um tonto para a lista.

Do outro lado do córrego do Lenheiro, que corta São João del Rei, fica a mais bonita igreja da cidade, a de São Francisco. A fachada, ladeada por torres arredondadas, apresenta entalhes de pedra do Aleijadinho em torno da porta, das janelas “boca de peixe” e do frontão. Nos fundos fica o pequeno e, vá lá, acolhedor cemitério em que estão enterrados, em túmulos gêmeos, de granito negro, Tancredo e a mulher, Risoleta. No de Tancredo está escrito, “Tancredo Neves, presidente eleito do Brasil, 1910-1985”, e logo abaixo: “Terra amada minha, tu terás meus ossos, o que será a última identificação do meu ser com este rincão abençoado. Tancredo Neves”. No de Risoleta aparecem os anos 1917-2003. Não consta que na terça-feira os túmulos se tenham rachado, ao impacto de mortos a se revirar dentro deles. Túmulos são feitos para proteger os habitantes dos ruídos, das vilanias e da estupidez de gente de fora. Melhor assim.

Que é mais Terceiro Mundo, ter ex-presidente preso ou mantê-lo condenado e solto? A França pode vir em nosso socorro. Vamos lá, franceses, prendam o Sarkozy.*

(*) Roberto Pompeu de Toledo  – veja.com

TEMPOS ESTRANHOS, ESSES.

Teatro do absurdo – Lula, Temer e Aécio candidatos

Em carta à direção do partido, Lula liberou o PT de tê-lo como candidato, mas o PT, por enquanto, não abriu mão de tê-lo como candidato.

 Michel Temer começará a viajar pelo país na condição de aspirante à reeleição pelo PMDB, mas o partido não quer saber dele.

Aécio Neves depôs mais uma vez à Polícia Federal e insiste em concorrer a uma vaga no Senado, mas o PSDB torce para que ele desista.

Sem data marcada para que o pano caia sobre elas, as três peças seguem em cartaz, exemplos notáveis do teatro absurdo da política nacional.

Elas são um fracasso de público – mas quem se importa com isso? Importa ao elenco marcar presença na boca do palco.

Sabe-se lá o que poderá acontecer amanhã… O mundo dá muitas voltas e sempre poderá sobrar uma boquinha para quem permanecer em cena.

O PT trocou o discurso de “eleição sem Lula é fraude” pelo discurso de “Lula livre”. O primeiro só faria sentido se o partido estivesse disposto a ficar de fora das eleições.

O PMDB está à procura de um candidato que concorde em defender o governo de Temer em troca do seu apoio e do seu tempo de propaganda eleitoral no rádio e na televisão.

O PSDB vê aprofundar-se a crise interna mais séria de sua história. Tem um candidato para chamar de seu, mas não se une em torno dele. Depois de 20 anos no poder em São Paulo, irá para a oposição.

A seção mineira do partido rola ladeira a baixo, empurrada por um Aécio cada vez mais encrencado. Sem um palanque forte ali, Geraldo Alckmin não irá a lugar algum, a não ser para Pindamonhangaba.

Tempos estranhos, esses.*

(*) Blog do Ricardo Noblat

CONTA AGORA AQUELA DO PAPAGAIO

Temer esbraveja, mas não explica transações suspeitas

O presidente Michel Temer fez um pronunciamento enfezado para rebater a suspeita de que usou imóveis em nome da família para lavar dinheiro de propina.

Nesta sexta, a “Folha de S.Paulo” informou que a Polícia Federal está investigando o caso. As transações envolvem o advogado José Yunes e o coronel João Baptista Lima, presos na Operação Skala.

Uma testemunha já afirmou que a reforma da casa de Maristela Temer, filha do presidente, foi paga em dinheiro vivo pela mulher de Lima. O Planalto confirmou que uma casa em nome de Marcela Temer, a primeira-dama, foi comprada de Yunes.

Temer evitou citar o nome dos dois amigos no pronunciamento. Também não explicou de onde saiu o dinheiro investido nos imóveis. Preferiu reclamar, como sempre, do vazamento de informações à imprensa.

O presidente chegou a dizer que faria queixa ao ministro da Segurança Pública, Raul Jungmann. A carteirada não responde as perguntas básicas: como explicar os gastos em espécie e o envolvimento dos amigos com suas despesas particulares?

No mês passado, o Supremo quebrou os sigilos bancário e fiscal de Temer no inquérito dos portos. O presidente quis mostrar segurança e informou, em nota oficial, que a imprensa teria “total acesso” aos dados. Depois pensou melhor e deixou a promessa para lá.

Do ponto de vista estratégico, o pronunciamento desta sexta parece ter sido outro tiro no pé. Ao fazer o discurso invocado, o presidente só deu mais visibilidade às suspeitas que envolvem os imóveis da família.

Temer ainda cometeu um ato falho no discurso. “Eu não posso sair daqui da Presidência, não sei quando, para carregar essa pecha irresponsável”, esbravejou. Se não sabe quando, é porque deve desconfiar que o escândalo tem potencial para encurtar o seu mandato.

[Atualização das 16h52: A Secretaria de Comunicação Social da Presidência enviou nota em resposta ao texto. Afirma que Temer “comprovará a licitude de todas aquisições e movimentações financeiras, assim que conseguir fazê-lo dentro do inquérito”. Acrescenta que ele espera não ser colocado num “pelotão de fuzilamento”. O blog prefere que o presidente seja investigado e julgado de acordo com as normas previstas na Constituição e no Código Penal].*

(*)  BLOG DO BERNARDO MELLO FRANCO – O GLOBO

PONTONTOS NOS ‘IS’

A hora de Palocci

A delação premiada do ex-ministro de Lula e Dilma Antonio Palocci parece ser uma bomba de efeito seletivo, e por isso os procuradores de Curitiba não a aceitaram. Mas a Polícia Federal considerou que a seleção, que, por exemplo, evita acusações a pessoas com foro privilegiado, não invalidava as outras denúncias, e agora caberá ao juiz Sérgio Moro decidir se homologa ou não o depoimento.

Um dos principais focos dos procuradores eram as contas que o PT teria escondido em paraísos fiscais, e não está claro se Palocci conseguiu provar a sua existência. Emilio Odebrecht e seu filho Marcelo declararam a Moro que era Palocci quem manejava a conta “amigo”, que se referia ao ex-presidente Lula. E que muitas vezes Palocci fazia saques em nome do presidente.

A disputa entre a Polícia Federal e o Ministério Público é o que de pior poderia acontecer na perspectiva de quem espera que as investigações sobre corrupção no Brasil levem a uma mudança no cenário político nacional.

Mas é tudo o que esperam os que desejam “estancar a sangria”, um desentendimento sobre procedimentos e interpretações que permita desacreditar as delações premiadas e, em decorrência, impossibilite utilizá-las como base para investigações mais aprofundadas.

Na visão da Polícia Federal, por exemplo, acusados de obstrução da Justiça, os políticos são liberados, pois as conversas são vistas apenas como desejos e intenções de políticos dentro de suas atividades parlamentares e similares, nada havendo de criminoso nelas. Os procuradores de Curitiba têm outro entendimento do assunto.

Como os casos de que tratam as investigações da Lava Jato são complexos e de difícil elucidação, é necessário que os órgãos investigadores trabalhem em conjunto de maneira harmônica, e acreditando que os indícios levarão às provas. Se houver uma disputa como a que já ocorreu entre a Polícia Federal e o Ministério Público e parece estar recomeçando agora com o caso de Palocci, as brigas por espaço aumentarão, cada instituição querendo reduzir a importância da outra, e os beneficiados serão os denunciados.

Sempre houve, por parte do Ministério da Justiça, a tentativa de controlar as investigações, e no governo Temer essa tendência consolidou-se.  Desta vez é a Polícia Federal que está à frente da delação que pode ser a mais importante de todas, e o Ministério Público quer exigir mais revelações. Mas Palocci já adiantou temas que não podem estar fora de sua delação, quando, em depoimento ao juiz Sérgio Moro, ofereceu-se para fazer a delação premiada.

A reunião que o ex-presidente Lula teria tido com o presidente da Odebrecht, da qual teria participado a presidente eleita Dilma para acertar a continuidade do relacionamento especial do governo petista, foi confirmada por Lula, que, no entanto, minimizou sua importância, dizendo que não durou nem dez minutos.

Mas pela agenda que Palocci apresentou aos procuradores, no entanto, a reunião foi detalhadíssima, com diversos assuntos elencados, inclusive um item principal: o histórico da parceria. Também “disponibilizaram” apoio no Congresso; fizeram uma exposição sobre a atuação no exterior alinhada com a geopolítica brasileira, ou seja, financiamentos aos governos bolivarianos com o mesmo esquema feito no Brasil, com obras superfaturadas que estão sendo investigadas na América Latina e já levaram à prisão vários presidentes desses países.

Com Lula, houve uma agenda à parte, em que constava o estádio do Corinthians, obras no sítio (de Atibaia), primeira palestra em Angola e Instituto (Lula). É o “pacote de propina” a que aludiu Palocci, registrado na agenda oficial da Presidência, e que certamente foi destrinchado em sua delação.

Em nota divulgada ontem, a ex-presidente Dilma Rousseff diz que “o senhor Antonio Palocci” mente e, ao comentar a notícia de que o ex-ministro assinou acordo de delação, negou ter participado de tal reunião. No depoimento ao juiz Sérgio Moro, o ex-ministro Antonio Palocci afirmou, com imagens fortes para impressionar, que Lula fez um “pacto de sangue” com o presidente da empreiteira, no qual a Odebrecht se comprometeu a pagar R$ 300 milhões em propinas ao PT entre o final do governo do petista e os primeiros anos do governo de sua sucessora.

Há também a afirmação, nas primeiras tratativas para a delação premiada de que o ex-ditador líbio Muamar Kadafi enviou ao Brasil, “secretamente”, US$ 1 milhão para financiar a campanha do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, em 2002. *

(*) MERVAL PEREIRA – O GLOBO

AGORA O TEMPO FECHOU

Palocci aprofunda detalhes sobre esquema de arrecadação do PT

Em delação, ex-ministro narra relação do partido com as empresas investigadas na Lava-Jato

BRASÍLIA – O acordo de delação premiada assinado pelo ex-ministro Antonio Palocci com a Polícia Federal, revelado ontem pelo GLOBO, é uma reunião de fatos que envolvem, em grande parte, o esquema de arrecadação do PT com empreiteiras citadas na Lava-Jato e a atuação dos ex-presidentes Lula e Dilma Rousseff nos crimes apurados pela operação. Por se tratar de uma colaboração negociada na primeira instância, os temas abordados pelo ex-ministro dizem respeito a fatos investigados — ou passíveis de investigação — pela 13ª Vara Federal de Curitiba, comandada pelo juiz Sergio Moro, que terá o papel de homologar o acordo

Palocci está preso em Curitiba desde setembro de 2016. Ele foi condenado por Moro a 12 anos, dois meses e 20 dias de prisão pelos crimes de corrupção passiva e lavagem de dinheiro. Nas últimas semanas, além de fixar as bases dos benefícios concedidos ao ex-ministro — ainda sob sigilo —, os investigadores concluíram a fase de depoimentos. O acordo estaria na fase de homologação por Moro, o que deve acontecer em até duas semanas.

LULA E DILMA NEGAM ACUSAÇÕES

Ao falar de Lula, Palocci detalhou ocasiões em que foi pessoalmente levar pacotes de dinheiro vivo ao ex-presidente e relacionou datas e valores entregues por um de seus principais assessores, Branislav Kontic, na sede do Instituto Lula. Segundo Palocci, os pagamentos a Lula, feitos nos últimos meses de 2010, quando ele se preparava para deixar o Planalto, chegavam a somar R$ 50 mil. Dinheiro que seria usado pelo ex-presidente para bancar despesas pessoais.

Na ocasião das entregas, relata o ex-ministro, ele e Lula combinavam o local de encontro para o pagamento. Como o ex-ministro não dirigia o próprio carro, costumava levar um auxiliar ao volante que agora, na delação, poderá ser chamado a testemunhar sobre o caso. Além do assessor, cuja identidade é mantida em sigilo, Palocci listou datas e horários das entregas de dinheiro a Lula como parte do conteúdo probatório. A partir dessas informações, investigadores teriam condições de atestar encontros, por meio de ligações telefônicas entre Lula e Palocci, e pela posição dos aparelhos celulares no mapa de antenas.

Ao falar da relação de Lula com empreiteiras, o ex-ministro disse que parte do dinheiro entregue nas mãos do ex-presidente e na sede do instituto teria saído diretamente da “conta Amigo”, a reserva de propina atribuída ao petista no Departamento de Operações Estruturadas da Odebrecht. Já ao citar Dilma, Palocci afirmou aos investigadores que ela teria atuado para atrapalhar as investigações da Lava-Jato no episódio da nomeação de Lula para ministro da Casa Civil, em março de 2016.

CONVERSA NO PLANALTO

O ex-ministro narrou ainda pelo menos uma conversa com Lula no Palácio do Planalto na qual teria tratado do esquema envolvendo a construção de sondas para exploração de petróleo em águas profundas. O objetivo da negociação, feita na presença de Dilma, seria levantar dinheiro para bancar a eleição da ex-presidente, em 2010.

Em nota divulgada ontem, Dilma afirmou que “o ex-ministro mente para sair da cadeia e não tem provas para sustentar acusações a ela ou Lula”.

Advogado de Lula, Cristiano Zanin negou envolvimento de seu cliente nos fatos narrados:

— Qualquer afirmação de entrega de dinheiro ao ex-presidente Lula é mentirosa e, por isso mesmo, desacompanhada de qualquer prova. Lula jamais pediu ou recebeu vantagens indevidas.

Em nota, o PT afirmou que Palocci “rendeu-se às chantagens da Lava-Jato” e faz “falsas acusações” contra Lula para receber benefícios.

Além de detalhar os casos de corrupção dos quais participou ou teve conhecimento, o ex-ministro terá de apresentar provas do que diz. Se mentir ou quebrar algumas das cláusulas firmadas, poderá perder os benefícios negociados. Não está claro se Palocci irá apresentar anexos tratando dos casos de corrupção envolvendo clientes de sua consultoria, a Projeto. Também não há sinal de que ele irá citar casos que estão fora da jurisdição de Moro, como o caso dos pagamentos de propina pela J&F ao PT e fatos relacionados a antigas campanhas eleitorais do partido.

Fundador do PT, ex-prefeito de Ribeirão Preto, ex-ministro da Fazenda do governo Lula e ex-chefe da Casa Civil de Dilma, Palocci participou das decisões mais importantes do partido nas últimas duas décadas. O PT sempre negou irregularidades nas doações de campanha do partido.*

(*) JAILTON DE CARVALHO E ROBSON BONIN – O GLOBO

NOVIDADE?

Temer lavou propina em imóveis da família, sugere investigação da PF

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Charge do Nani (nanihumor.com)

Seis meses após o Supremo Tribunal Federal determinar a abertura de inquérito sobre a edição de um decreto para o setor portuário, uma das principais suspeitas de investigadores da Polícia Federal é de que o presidente Michel Temer tenha lavado dinheiro de propina no pagamento de reformas em casas de familiares e dissimulado transações imobiliárias em nomes de terceiros, na tentativa de ocultar bens.  Marcela Temer, sua mulher, e o filho do casal são donos de alguns desses imóveis.

Até agora, a investigação aponta que o presidente recebeu, por meio do coronel João Baptista de Lima Fillho, ao menos R$ 2 milhões de propina em 2014.

REFORMAS – Neste mesmo ano, quando Temer foi reeleito vice-presidente na chapa de Dilma Rousseff, duas reformas foram feitas, em valores semelhantes, em propriedades de familiares do emedebista, da filha Maristela Temer e da sogra, Norma Tedeschi.

Como mostrou a Folha, um dos fornecedores da reforma de Maristela afirmou ter recebido em dinheiro vivo pagamentos pelos produtos, todos das mãos de Maria Rita Fratezi, mulher do coronel Lima.

A origem do dinheiro das obras são, para investigadores, a JBS e uma empresa contratada pela Engevix. Executivos da JBS afirmaram em delação que repassaram R$ 1 milhão a Temer, com intermediação do coronel, em setembro de 2014.

PEDIDO DE LIMA – Um dos sócios da Engevix, José Antunes Sobrinho, em proposta de colaboração, disse ter sido procurado por Lima com um pedido de R$ 1 milhão para a campanha do emedebista, também em 2014.

Pela linha de investigação do inquérito em andamento, o esquema no setor portuário começou há mais de 20 anos e chegou até os dias atuais, ou pelo menos até o mês de maio do ano passado, quando o presidente assinou um decreto prorrogando contratos de concessão e arrendamentos portuários, beneficiando companhias ligadas ao MDB.

O coronel Lima é tido como o principal elo dos supostos esquemas de Temer, por aparecer em casos diferentes que beneficiariam o presidente.

CORONEL CITADO – Em uma conversa gravada na delação da JBS, Lima é citado pelo executivo Ricardo Saud como alguém que já tivesse recebido muita propina.

“Eu já entreguei dinheiro demais para o coronel lá. Nunca deu problema”, afirmou o delator, como consta na decisão de abertura do inquérito. Em seguida, Rodrigo Rocha Loures, ex-assessor de Temer, respondeu: “Esse é o problema… o coronel não pode mais”.

A PF enviou ao Supremo nesta quinta (26) um pedido de prorrogação do prazo do inquérito, por mais 60 dias.

APROFUNDAMENTO– Nesta segunda fase, o objetivo dos investigadores é aprofundar a conexão entre os serviços prestados aos familiares de Temer e concluir a análise de material apreendido com alvos da operação Skala, deflagrada no fim de março.

O depoimento de outro amigo de Temer, José Yunes, também está sendo considerado importante. Ele disse à PF que um dos imóveis vendidos por ele a Temer foi doado ao filho do presidente três ou quatro anos atrás. Afirmou também que a casa que vendeu a Marcela foi paga com valores que pertenciam ao presidente.

Os investigadores vão tentar ainda rastrear a origem dos recursos para as compras de imóveis.*

(*) Camila Mattoso
Folha  de  São Paulo

E NO PAÍS DO FAZ DE CONTA

Propina com carimbo??????

Trio do STF se supera ao tirar as provas das mãos de quem pune os corruptos. Aumenta a insegurança jurídica, testa a calma do povo e desafia a democracia

Ao trio da segunda turma do Supremo que acaba de virar de cabeça pra baixo a Operação Lava Jato, pergunta-se: desde quando corrupção via doação de imóvel, compra de terreno e reforma de sítio vêm com carimbo?

Como assim?

Não é corrupção na Petrobras, então não é da conta da justiça do Paraná?
Remete-se um lá pra Pernambuco (refinaria Abreu e Lima), outro(s) pra São Paulo, por acaso onde a Lava Jato não anda?
Ora bolas: se é assim, por que não inventar outra e, por exemplo, mandar ao Rio os processos da Petrobras, onde fica a sede da empresa?
Se tem argumento pra tudo, tem também pra isso.
Sérgio Moro tira férias. E vai tudo pro colo de Marcelo Brêtas, onde Sérgio Cabral e sua turma lotaram as cadeias faz tempo.
Aposto que os três (você sabe quais: Lewandowski, Toffoli e Gilmar) não “encontrariam” argumentos para aumentar as provas em mãos de Brêtas. Nem nas mãos de Vallisney, o do Distrito Federal que tem Lula entre seus réus.
Tomara que eu esteja enganada, mas parece que eles, em parceria com mais dois ministros ‘você sabe quem’ do STF se dedicam a desafiar a calma do povo brasileiro, pondo em risco a democracia que tanto dizem defender.
Por ora formam apertada minoria no plenário de 11.
Por ora.
Socorro.*

(*)Lillian Witte Fibe