PIADISTA DE PLANTÃO

O sorriso do investigado

(Arte: Antônio Lucena)

No dia em que Maristela Temer depôs à Polícia Federal, seu pai foi visitar uma feira agrícola em Ribeirão Preto. Num esforço para simular normalidade, ele percorreu estandes, tirou foto de chapéu de palha e fingiu pilotar uma colheitadeira. Ao ser questionado sobre a investigação, tentou fazer graça. “Registre o meu sorriso”, ironizou.

A filha do presidente ouviu perguntas sobre a origem dos recursos que pagaram a reforma da sua casa. A polícia suspeita que a obra foi bancada com propina da JBS destinada a Temer. Fornecedores disseram ter recebido em dinheiro vivo, entregue pela mulher do coronel João Baptista Lima.

Preso na Operação Skala, o ex-PM é apontado como arrecadador do peemedebista. O empresário Gonçalo Torrealba confirmou à PF que Lima pedia contribuições em nome do chefe. Seu alvo preferencial eram os operadores do Porto de Santos, velho feudo político de Temer.

O depoimento de ontem é um momento raro na história. Em 1992, outro parente de um presidente em exercício se sentou diante de um delegado. Pedro Collor depôs na antiga sede da PF em São Paulo, o prédio que pegou fogo e desabou na terça-feira. A principal diferença é que o irmão de Fernando Collor não precisou se explicar. Ele procurou a polícia e delatou um esquema do qual não levou um centavo.

O inquérito dos portos agravou a paralisia do governo Temer, que já estava esvaziado pela impopularidade e pela agitação pré-eleitoral. O presidente deveria estar na Ásia, mas cancelou a viagem com a justificativa de que não podia prejudicar “votações importantes”. A versão oficial era furada. As tais votações terminaram na noite de quarta, véspera da data prevista para a decolagem da comitiva.

Depois do passeio na feira agrícola, Temer revelou que foi aconselhado a ter mais contato com os eleitores. “Disseram que eu fico muito no gabinete, que preciso sair mais”, contou. No feriado, ele apareceu no local da tragédia e teve que sair às pressas, sob vaias e palavrões.

O assessor que teve a ideia da visita deve ser o mesmo que providenciou o escudo contra eventuais hostilidades. Quando o clima pesou, o guarda-costas do presidente sacou uma mala preta para protegê-lo. Para igualar a do ex-deputado Rocha Loures, só faltaram as rodinhas.*

(*) BERNARDO MELLO FRANCO – O GLOBO