APERTEM OS CINTOS, O PILOTO SUMIU

Suave fracasso

Não chego a afirmar que o Brasil seja um caso perdido, mas corremos esse risco

A democracia é o pior regime que existe, salvo todos os demais. E um de seus problemas é que ela frequentemente dá ao povo aquilo que ele quer. Assim, se o conjunto dos eleitores de um país decide caminhar voluntariamente para o precipício, não há como impedir que a nação vá para o abismo.

Não chego a afirmar que o Brasil seja um caso perdido, mas corremos esse risco. A situação por que passa o país é gravíssima. Já a partir do ano que vem, quem quer que venha a ser o governante não terá espaço orçamentário para fazer muito mais do que pagar as despesas obrigatórias (aposentadorias, salários, verbas carimbadas).

Pior, com as pressões da demografia, se nada for feito, a Previdência irá morder um naco cada vez maior do Orçamento, comprimindo ainda mais os gastos constitucionalmente não obrigatórios, como investimentos, manutenção, segurança e parte do custeio da saúde e da educação.

Mesmo que, por um milagre, o próximo presidente consiga dar um jeito nas ameaças fiscais mais prementes, nossa situação estrutural é bem pouco animadora. O bônus demográfico já praticamente se fechou. Com isso, nossa melhor esperança de criar um país mais próspero seria o aumento da produtividade. O problema é que ela não cresce de forma significativa há décadas, entre outras razões porque a qualidade da educação básica oferecida à população é muito ruim. E, se a educação deixa a desejar, ficam muito reduzidas as esperanças de o país dar certo.

Minha situação pessoal está mais ou menos resolvida. Como países levam décadas para fracassar, os piores efeitos da encrenca em que nos metemos ficam para além dos meus horizontes. Quanto a meus filhos, tenho procurado dar-lhes uma educação que os habilita para, se quiserem, fazer carreira no exterior. Eu seria um mau pai se, podendo, não lhes desse essa opção. Mas é sempre um péssimo sinal quando aqueles que recebem uma educação de boa qualidade desistem do país.

(*) Hélio Schwartsman – Folha de São Paulo