NOVOS TEMPOS

A moral e a ordem são primas, mas jamais irmãs gêmeas

Moral é a infantaria das quedas de regimes


Mas ordem foi quem sempre fincou a bandeira

Há de entrar para os livros de sociologia e de história talvez o evento simbólico mais importante de nosso tempo, a era da crise moral. Ouso propor até mesmo um nome para o incidente: “O desencontro do aeroporto JK”.

Relembro aos leitores: no dia 30 de março de 2017, o símbolo da moral dos nossos tempos, o juiz Sérgio Moro, estava no mesmo aeroporto em Brasília em que iria embarcar o símbolo da ordem contemporâneo, o ex-capitão e deputado federal Jair Bolsonaro.

O símbolo da ordem, acompanhado por um cinegrafista, viu o valor simbólico de se associar ao juiz. Foi até sua direção. Estendeu a mão, mas não recebeu o cumprimento.

Visto assim, como pequena história, foi apenas mais um episódio banal da crônica do cotidiano político. Colocado agora sob a perspectiva histórica e da grande angular do tempo, agora com Jair Messias Bolsonaro com a dimensão colossal que assumiu, a diatribe tácita do aeroporto JK é um gesto cheio de significados e com inúmeros precedentes.

O fato é que naquele dia a ordem foi cumprimentar a moral. E a moral, perdoem o jogo de palavras, não deu muita moral à ordem. Não é a primeira vez que ordem e moral se esbarram e reagem de maneira impulsiva e hostil, uma à outra.

Nas vésperas da quebra institucional de 1964, a moral surfava na onda e Carlos Lacerda e sua UDN (União Democrática Nacional) tocavam a banda de música que encantava os ouvidos da classe média, ao mesmo tempo que revirava seus estômagos contra os desmandos, a corrupção que “toma conta do país” (os motes nunca mudam). O que aconteceu? O regime colapsou e as Forças Armadas assumiram o país em nome da ordem, em nome primeiro dela, mas também em defesa da moral. Com o tempo, a ordem foi cassando os adversários do regime, inclusive Lacerda e alguns porta-vozes da moral.

Aí é que está: a ordem e a moral são primas em primeiro grau, mas não são irmãs gêmeas univitelinas. São muito, muito parecidas. O povo em geral acha uma a cara da outra. Só que não. Existia ordem por exemplo nos campos de concentração: afinal, é preciso disciplina rigorosa para fazer uma indústria da morte como aquela funcionar. Mas ali não havia moral: matar um semelhante é imoral. Então, pode existir ordem onde não existe moral. Há muita ordem na Igreja Católica, mas os escândalos de abusos sexuais recentes mostram que faltou moralidade. Pode haver ordem nos canteiros de flor, nas filas aprumadas dos desfiles das ditaduras, mas existirá moral?

O mesmo ocorre com a moral. Pode existir moral e desordem. Pode haver a intenção genuína de impor o rigor de valores morais, mas abusar de poderes em nome disso é desordem. Pode haver desordem na determinação de certas obrigações legais, inspiradas no moralismo, mas que representam escárnio público contra alguém, excesso de autoridade, desprezo às garantias. Ou seja, um atentado à ordem legal.

No Brasil, historicamente, a moral é a infantaria das quedas de regimes ou das viradas de estação na política. Mas quem sempre fincou a bandeira e conquistou o território, até hoje, foi a ordem. A ordem parece muito com a moral, mas não é. Então, o “Desencontro do Aeroporto JK” entre o símbolo da moral e o símbolo da ordem hoje tem uma dimensão, redundarei, simbólica: jamais nos confundam! Não somos a mesma coisa! Foi isso que esbravejou a moral, diante da ordem que tentava se aproximar.

De certa forma, eu arriscaria dizer que a moral e a ordem são adversárias políticas viscerais. O grande inimigo político da moral não é o imoral, assim como o da ordem não é a desordem. Derrotados os imorais e os desordeiros, moral e ordem sabem que travarão o último combate. O povo sempre chama a moral, mas normalmente recebe a ordem como troco e se da por satisfeito. E a ordem sempre tem entrado em campo como a favorita. Quer ver? De uma olhadinha em nossa bandeira: tá escrito lá Moral e Progresso?*

(*) Mário Rosa  – jornalista, Poder360