CEGO EM TIROTEIO

Quem manda na oposição

 

O PT enfrenta duas disputas simultâneas. Numa delas, tenta uma reviravolta improvável contra Jair Bolsonaro para eleger Fernando Haddad. A essa altura da campanha, só os mais fanáticos ainda acreditam nisso.

A segundo disputa é mais pé no chão. O partido quer se estabelecer como o principal grupo de oposição. A provável vitória de Bolsonaro não jogará apenas legendas de esquerda para longe do governo. Mas também de centro e centro-esquerda, como PSDB, MDB, PDT e Rede. Por isso, os apoios de Marina Silva, Ciro Gomes e de parte dos tucanos é tão cobiçado pelo PT. E também por isso uma foto com todos eles dando apoio a Haddad no segundo turno se tornou praticamente impossível. Afinal, o jogo político não termina em 2018.*
(*) M.M. – Coluna Estadão

PEGO COM A BOCA NA BOTIJA

Erro de Haddad abala tática petista de culpar ‘fake news’ por desvantagem

Candidado do PT à Presidência repetiu em sabatina acusação equivocada de Geraldo Azevedo, que acusou Mourão de tortura


RIO – Ao repetir sem checar uma acusação grave, e que se provou falsa, Fernando Haddad cometeu um erro que abala sua principal estratégia na reta final do segundo turno. Nos últimos dias, o candidato do PT à Presidência vinha creditando a vantagem de Jair Bolsonaro a uma indústria maciça de “fake news”. A distância de 20 milhões de votos do capitão reformado seria, única e exclusivamente, pelas mentiras espalhadas por seus partidários. Como insistir nisso depois de propagar, ele mesmo, uma notícia falsa?

Agora, toda vez que Haddad reclamar do massacre de notícias falsas contra sua campanha, partidários do adversário do PSL já têm pronta a resposta: quem espalha “fake news” é o petista, que acusou, injustamente, o general Hamilton Mourão de ser um torturador durante a ditadura militar .

O erro estratégico denota, também, o grau de pressão e de exaustão no quartel-general petista. A acusação a Mourão foi deliberada e repetida por Haddad na sabatina promovida pelos jornais O GLOBO, Extra, Valor Econômico e a Revista Época, com o objetivo de obter repercussão: “Deveria estar em todas as primeiras páginas amanhã”, disse o candidato.

Mas bastou uma busca no Google, assim que a frase foi dita, para mostrar a inconsistência da afirmação. Mourão tinha 16 anos à época em que o cantor Geraldo Azevedo foi barbaramente torturado – e as sevícias a que foi submetido são verdades comprovadas, é bom destacar. Uma acusação dessa gravidade, feita por um político que luta contra as fake news, jamais poderia ter sido feita com leviandade.

Em pouco mais de uma hora, a máquina de checagem do jornalismo profissional entrou em ação, e o erro estava esclarecido: Mourão afirmou que ainda estava no colégio, e Geraldo Azevedo disse que se equivocou e pediu desculpas pelo seu erro.

O equívoco do cantor pode ter acontecido de boa fé, ao contrário das fake news clássicas, criadas para desinformar. Mas ao ter sua repercussão ampliada contribuiu ainda mais para quem aposta na confusão de informações.

A situação eleitoral de Haddad antes do episódio já era delicada. As pesquisas praticamente não se alteraram desde o começo do segundo turno, com larga vantagem para Bolsonaro. Sua principal e última aposta dos últimos dias, de creditar a desvantagem a uma tática suja de fake news do adversário, sofreu um enorme baque com o erro da manhã desta terça-feira.*

(*) Pedro Dias Leite – O Globo

SERÁ QUE A MAMATA ACABARÁ?

Midia luta desesperadamente para eleger Haddad e se livrar de Bolsonaro

Charge reproduzida do Arquivo Google

Na democracia, é preciso saber ganhar e saber perder, porque a principal regra é a alternância do poder. Mas na cleptocracia à brasileira, tenta-se ganhar a todo custo, seja nas urnas eletrônicas de baixa confiabilidade, seja no tapetão do Tribunal Superior Eleitoral. Agora, antes mesmo de se realizar o segundo turno, o PT e o PDT já se apressaram em recorrer ao TSE para pedir a cassação da chapa do PSL.

Não há nenhuma prova material, consistente. Sabe-se, com certeza absoluta, que Jair Bolsonaro ou qualquer outro candidato não tem a menor condição de exercer controle sobre as redes sociais de seus admiradores. Mesmo assim, a direção do PDT encaminhou ao TSE, na sexta-feira, um pedido para anular as eleições. Além de não apresentar nenhuma prova material, nada nada, o partido pediu que a Justiça encontre as provas a respeito, vejam que maluquice – as provas para sustentar o processo eleitoral ficarão para depois.

FAKE ESCÂNDALO – O mais incrível é que toda a imprensa entrou na onda do “fake escândalo” criado pela Folha de S.Paulo, possibilitando a ruidosa repercussão de uma denúncia que não tem a menor confirmação e a mídia irresponsavelmente age como se o PT e os demais partidos também não tivessem usado as mesmas armas do PSL.

A imprensa está toda do lado do petista Fernando Haddad, que representa o criador do maior esquema de corrupção político-administrativa da História Universal. E isso acontece  porque todos sabem que vão perder faturamento com Jair Bolsonaro na Presidência w  estão produzindo “fakes escândalos”, uns atrás dos outros. O Estadão é o único que ainda tenta disfarçar, com seguidos editoriais atacando Lula da Silva e o PT. Mas o noticiário do jornal e as matérias distribuídas pela Agência Estado e pelo Estadão Conteúdo batem o tempo todo em Bolsonaro e poupam Haddad, que é sinônimo de faturamento garantido.

BRASIL DITADURA – A campanha difamatória contra Bolsonaro é implacável. No Jornal Nacional da TV Globo, há alguns dias foi divulgada com estardalhaço uma pesquisa indagando se o povo acha possível o Brasil voltar a ter outra ditadura. Diz o Datafolha que  50% dos entrevistados acharam ser possível. Só que, estrategicamente, não foi perguntado se a ditadura seria de direita ou esquerda, para associar diretamente a possibilidade de golpe apenas a um possível governo Bolsonaro…

A imprensa joga duro quando se trata de preservar seu faturamento com recursos púbicos. A crise é devastadora e já levou a Editora Abril à recuperação judicial, que é um codinome da antiga concordata. Outras grandes empresas estão balançando. E nesse clima la nave va, sempre fellinianamente. *

(*) Carlos Newton – Tribuna na Internet

ELE FALOU NO LULA, NO DIRCEU, NO…

Piada do Ano! Haddad defende punição de petistas que enriquecem na política

Definindo-se como constitucionalista, o candidato voltou a defender a conclusão dos processos. Ele disse acreditar que teve gente que usou de caixa 2 para enriquecer.

DOIS CRIMES – “Certamente, teve pessoas que usaram o financiamento de caixa dois, financiamento ilegal de campanha, para enriquecer. São dois crimes: financiamento de caixa dois e o enriquecimento, que ainda é mais grave. Por isso, tem uma pena maior. Acredito que teve gente que se valeu disso para enriquecer. Só a favor de punição exemplar dessas pessoas”

O petista admitiu erros na condução da política econômica do governo Dilma. Ele lembrou, porém, que o Congresso Nacional impediu a reorganização da economia às custas da chamada pauta bomba.

Haddad relatou ter conversado, nesta segunda-feira (22), com o senador tucano Tasso Jereissati (CE). Segundo ele, Tasso repetiu que, mesmo apontando falhas de Dilma, considera um erro o PSDB ter apoiado a pauta bomba liderada pelo ex-presidente da Câmara Eduardo Cunha.

ELOGIO A JK – Questionado, ao final do programa, se tem um ídolo na História do Brasil, Fernando Haddad hesitou e disse que seria difícil citar apenas um nome.

Encorajado a falar mais de um, Haddad limitou-se, porém, a citar o ex-presidente Juscelino Kubitscheck. Ele não falou de Lula, embora tenha dito anteriormente que o petista foi o melhor presidente que o país já teve.*

(*) Catia Seabra
Folha

E O MALACO CONTINUA SONHANDO

Defesa de Lula quer sustar nova ação penal até decisão de comitê da ONU

Os advogados de Lula querem que o caso seja retomado somente após o Comitê de Direitos Humanos da Organização das Nações Unidas (ONU) julgar uma ação em que o petista afirma que seus direitos civis e políticos foram violados por Moro. O processo foi distribuído para o ministro Edson Fachin, relator da Operação Lava-Jato no STF.

INTERFERÊNCIA – A defesa do ex-presidente ainda pediu para o primeiro termo da delação premiada do ex-ministro Antonio Palocci ser retirado do processo, sob a alegação de que o Moro tentou interferir nas eleições presidenciais ao anexar o documento na ação a seis dias do primeiro turno das eleições presidenciais.

Os advogados também querem que o prazo para a apresentação das alegações finais da defesa de Lula só se inicie após a apresentações das alegações finais das defesas dos réus que fizeram delação premiada, como Marcelo Odebrecht.*

(*) André de Souza e Daniel Gullino
O Globo

COM A ELEIÇÃO JÁ DECIDIDA…

Antes mesmo do segundo turno, Temer já costura transição com Bolsonaro

Por outro lado, o presidente Michel Temer designou o ministro Eliseu Padilha (Casa Civil) como interlocutor para discutir a troca de comando no Planalto. E afirmou que pretende estabelecer uma “transição muito tranquila” com o sucessor.

RELATÓRIO – Em um vídeo gravado ontem, em uma reunião com ministros para discutir a sucessão, Temer afirmou que, a partir de hoje, Padilha fará reuniões periódicas para dar forma final a um documento que será entregue ao novo presidente. Será disponibilizada à nova equipe uma versão digital com todos os números e balanços importantes de cada área do governo, e uma versão impressa, em formato reduzido, que Temer deverá entregar pessoalmente a seu sucessor.

Os grupos de trabalho da campanha de Bolsonaro já têm recebido diversas colaborações de integrantes do governo. Dois dos coordenadores de áreas já atuam no Executivo. Marcos Cintra preside a estatal Financiadora de Estudos e Projetos, ligada ao Ministério de Ciência e Tecnologia. Adolfo Sachisida é pesquisador do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA).

PORTAS ABERTAS – As equipes também têm encontrado as portas abertas em diversos órgãos. Quadros do corpo técnico do Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes (Dnit) e da Empresa de Planejamento e Logística (EPL) cooperam com o grupo liderado por generais da reserva, na expectativa de terem mais espaço em um futuro governo.

Há também movimentos de políticos na mesma direção. O ministro de Ciência e Tecnologia, Gilberto Kassab, e o presidente do Sebrae, Guilherme Afif Domingos, ambos do PSD, jantaram dias atrás com Onyx Lorenzoni. O ex-ministro da Educação Mendonça Filho (DEM) também já conversou sobre a área com o coordenador político de Bolsonaro, que mantém a cautela.

— Não, eu não falo em transição. Nós temos que manter o foco e humildade. Nossa equipe é humilde para manter o foco. Nós estamos olhando para o domingo. Depois, de segunda a terça feira a gente começa a falar em transição autorizados por eles, ó (aponta os manifestantes nas rua), que é quem importa: a população brasileira — disse Lorenzoni.

ÁREA RESERVADA – O gabinete de transição será instalado no Centro Cultural do Banco do Brasil (CCBB) de Brasília, em um espaço que estava vazio. A área reservada para a transição governamental tem 2.500 metros quadrados, mais de 20 salas, além do gabinete presidencial, e capacidade para receber 250 pessoas.

As obras no local duraram cerca de dois meses. O espaço e os móveis foram fornecidos pelo Banco do Brasil, que cederá o local para o governo e, portanto, não irá cobrar aluguel. Haverá, no entanto, rateio das contas de luz e água enquanto durar o processo.

DIZ TEMER — “Faremos uma transição muito tranquila em relação ao novo presidente da República” — disse o presidente Temer, que afirmou que a ideia de centralizar as atividades em Padilha é evitar “equívocos” que possam prejudicar o próximo ocupante do Palácio do Planalto:

— Essa centralização é fundamental para que haja um diálogo muito produtivo entre aqueles que chegam ao governo e aqueles que dele sairão. Portanto, mais uma vez, o Padilha ficará às ordens para receber colaborações daqueles que governarão o país a partir do ano que vem.*

(*) Leticia Fernandes, Jussara Soares e Eduardo Bresciani
O Globo

IRRESPONSABILIDADE GERAL E IRRESTRITA

Sem debater crise fiscal, candidatos apostam apenas em propostas populistas

Resultado de imagem para DEFICIT PUBLICO CHARGES

Charge do Kayser (Arquivo Google)

A campanha presidencial deste ano começou com a promessa dos candidatos de discutirem uma solução para a grave crise fiscal. Ficou na promessa. O tema não só foi deixado em segundo plano, como os candidatos partiram para propostas populistas nesta reta final da eleição.

Em busca de avançar no eleitorado nordestino, Jair Bolsonaro (PSL) propôs um 13º para os beneficiários do Bolsa Família. Já Fernando Haddad (PT) prometeu, para reconquistar eleitores perdidos para seu adversário, reajustar em 20% o valor pago pelo mesmo programa. Foi além: disse que, se eleito, o gás de cozinha não custará mais do que R$ 49.

DESEQUILÍBRIO – Enquanto isso, as equipes dos candidatos do PSL e do PT não tratam das medidas que terão de adotar para reduzir o desequilíbrio das contas públicas, que irão registrar no ano que vem o quinto déficit consecutivo. O rombo em 2019 está projetado em R$ 139 bilhões.

Se não for enfrentado, o país não irá retomar o crescimento sustentável, essencial para reduzir o desemprego que atinge mais de 12 milhões de brasileiros.

O Orçamento da União só prevê um total de cerca de R$ 30 bilhões para bancar o pagamento dos benefícios do Bolsa Família.

MAIS GASTOS – A promessa de Jair Bolsonaro vai elevar o orçamento do Bolsa Família em R$ 2,5 bilhões. Ideia lançada em busca de conquistar mais eleitores num território petista, a região Nordeste, única em que o candidato petista bate o do PSL. E a proposta de Fernando Haddad, lançada neste fim de semana na busca de uma reação nesta reta final da campanha, pode custar R$ 6 bilhões.

Enquanto isso, o mercado prefere fingir que não está vendo a onda populista nesta reta final de campanha e vai aguardar o dia depois da eleição para testar as propostas dos candidatos na área econômica. Aposta que vai prevalecer a liberal de Jair Bolsonaro e se dá por satisfeito. A conferir.*

(*) Valdo Cruz
G1 Brasília

NOVOS TEMPOS

A moral e a ordem são primas, mas jamais irmãs gêmeas

Moral é a infantaria das quedas de regimes


Mas ordem foi quem sempre fincou a bandeira

Há de entrar para os livros de sociologia e de história talvez o evento simbólico mais importante de nosso tempo, a era da crise moral. Ouso propor até mesmo um nome para o incidente: “O desencontro do aeroporto JK”.

Relembro aos leitores: no dia 30 de março de 2017, o símbolo da moral dos nossos tempos, o juiz Sérgio Moro, estava no mesmo aeroporto em Brasília em que iria embarcar o símbolo da ordem contemporâneo, o ex-capitão e deputado federal Jair Bolsonaro.

O símbolo da ordem, acompanhado por um cinegrafista, viu o valor simbólico de se associar ao juiz. Foi até sua direção. Estendeu a mão, mas não recebeu o cumprimento.

Visto assim, como pequena história, foi apenas mais um episódio banal da crônica do cotidiano político. Colocado agora sob a perspectiva histórica e da grande angular do tempo, agora com Jair Messias Bolsonaro com a dimensão colossal que assumiu, a diatribe tácita do aeroporto JK é um gesto cheio de significados e com inúmeros precedentes.

O fato é que naquele dia a ordem foi cumprimentar a moral. E a moral, perdoem o jogo de palavras, não deu muita moral à ordem. Não é a primeira vez que ordem e moral se esbarram e reagem de maneira impulsiva e hostil, uma à outra.

Nas vésperas da quebra institucional de 1964, a moral surfava na onda e Carlos Lacerda e sua UDN (União Democrática Nacional) tocavam a banda de música que encantava os ouvidos da classe média, ao mesmo tempo que revirava seus estômagos contra os desmandos, a corrupção que “toma conta do país” (os motes nunca mudam). O que aconteceu? O regime colapsou e as Forças Armadas assumiram o país em nome da ordem, em nome primeiro dela, mas também em defesa da moral. Com o tempo, a ordem foi cassando os adversários do regime, inclusive Lacerda e alguns porta-vozes da moral.

Aí é que está: a ordem e a moral são primas em primeiro grau, mas não são irmãs gêmeas univitelinas. São muito, muito parecidas. O povo em geral acha uma a cara da outra. Só que não. Existia ordem por exemplo nos campos de concentração: afinal, é preciso disciplina rigorosa para fazer uma indústria da morte como aquela funcionar. Mas ali não havia moral: matar um semelhante é imoral. Então, pode existir ordem onde não existe moral. Há muita ordem na Igreja Católica, mas os escândalos de abusos sexuais recentes mostram que faltou moralidade. Pode haver ordem nos canteiros de flor, nas filas aprumadas dos desfiles das ditaduras, mas existirá moral?

O mesmo ocorre com a moral. Pode existir moral e desordem. Pode haver a intenção genuína de impor o rigor de valores morais, mas abusar de poderes em nome disso é desordem. Pode haver desordem na determinação de certas obrigações legais, inspiradas no moralismo, mas que representam escárnio público contra alguém, excesso de autoridade, desprezo às garantias. Ou seja, um atentado à ordem legal.

No Brasil, historicamente, a moral é a infantaria das quedas de regimes ou das viradas de estação na política. Mas quem sempre fincou a bandeira e conquistou o território, até hoje, foi a ordem. A ordem parece muito com a moral, mas não é. Então, o “Desencontro do Aeroporto JK” entre o símbolo da moral e o símbolo da ordem hoje tem uma dimensão, redundarei, simbólica: jamais nos confundam! Não somos a mesma coisa! Foi isso que esbravejou a moral, diante da ordem que tentava se aproximar.

De certa forma, eu arriscaria dizer que a moral e a ordem são adversárias políticas viscerais. O grande inimigo político da moral não é o imoral, assim como o da ordem não é a desordem. Derrotados os imorais e os desordeiros, moral e ordem sabem que travarão o último combate. O povo sempre chama a moral, mas normalmente recebe a ordem como troco e se da por satisfeito. E a ordem sempre tem entrado em campo como a favorita. Quer ver? De uma olhadinha em nossa bandeira: tá escrito lá Moral e Progresso?*

(*) Mário Rosa  – jornalista, Poder360

GRANDE GABEIRA!!!

As prisões mentais

Bolsonaro terá de moderar retórica. E oposição precisa tomar consciência da situação delicada em que o país entra

Lula está preso, meu caro. Repito a frase de Cid Gomes que ecoou na rede, suprimindo a palavra babaca. Não por correção política. A palavra iguala a estupidez à vagina. Apenas para lembrar, com humildade, como certos sentimentos estão arraigados em nossa cultura e emergem de nosso subconsciente.

A líder da direita francesa, Marine Le Pen, afirmou que algumas frases de Bolsonaro são inaceitáveis na França. Mas não o foram no Brasil.

Humildade aqui significa reconhecer que mudanças culturais levam tempo para se consumar. Não são como uma ponte destruída pela chuva que se reergue rapidamente. Nem mesmo uma nova capital que pôde ser construída no Planalto. Às vezes, atravessam gerações.

Lula está preso. É natural que o PT não aceite isso. Mas a forma de recusar foi chocar-se diretamente com a Justiça, tentar dobrá-la com manifestações, apoio externo e uma inesgotável guerra de recursos legais.

Compreendo que isso era visto como uma forma de acumulação de forças. Mas, na verdade, também acumulou rejeição.

Quando Haddad foi lançado, cresceu rapidamente exibindo a máscara de Lula. No segundo turno, a máscara envelheceu como o célebre retrato de Dorian Gray.

Mas o período que se abre agora será de tanto trabalho, que talvez não tenhamos mais tempo para nos patrulharmos. São tempos complexos, que demandam mais humildade ainda.

Num debate em São Paulo, depois do primeiro turno, confessei como o processo me surpreendeu. As pesquisas indicavam uma grande vontade de renovação. Quando os partidos se destinaram quase R$ 2 bilhões para a campanha, concluí que a renovação seria mínima.

Apesar de ter feito algumas campanhas no território digital, minha reflexão ainda se dava no quadro analógico. A renovação, cuja qualidade ainda é discutível, aconteceu. Com R$ 53 milhões, Meirelles teve menos votos do que o Cabo Daciolo, um exemplo de como os velhos parâmetros foram para o espaço.

As próprias pesquisas que tanto critiquei no passado porque achava que favoreciam Sérgio Cabral, hoje as vejo com nostalgia. Existe informação na pergunta clássica em quem você vai votar.

Mas, para detectar tendências, é preciso um oceano de dados e capacidade de análise. As pesquisas envelheceram, sem que muitos se dessem conta. Mas não apenas elas envelhecem, num mundo em que a inteligência artificial avança implacavelmente.

E é nesse mundo que teremos de navegar. A situação econômica internacional não é favorável como no passado. Nos artigos em que trato de alguns de seus aspectos, começo sempre com o paradoxo: os Estados Unidos, que lideraram uma ordem multilateral, decidiram abandoná-la. Será preciso mais do que nunca acertar os passos aqui dentro. Isso significa gastar menos, fazer reformas.

Quando estava na Rússia, os primeiros protestos contra a reforma da Previdência foram abafados pelo oba-oba da Copa do Mundo. Soube que agora a popularidade de Putin caiu 20 pontos precisamente por causa dela. Em outras palavras, a vida não é nada fácil para quem precisa reformar o Estado e fazer um ajuste fiscal.

Nesse futuro tão nebuloso que nos espera, a tese do quanto pior melhor é atraente, no entanto, pode ser também um novo erro de avaliação.

Quando ficamos muito concentrados nos problemas internos, perdemos um pouco de vista nossa inserção internacional. A imagem do Brasil lá fora mudou. O próprio Bolsonaro começará seu mandato como um dos presidentes mais rejeitados pela imprensa planetária. Ele terá de moderar sua retórica. E quem faz oposição precisa tomar consciência da situação delicada em que o país entra.

A sobrevivência da democracia não está ameaçada. Mas algumas escoriações podem empurrá-la para o viés autoritário que hoje cresce no mundo.

As fake news, por exemplo, sempre existiram, mas hoje têm um peso maior, pelo alcance e velocidade. Utilizá-las sem escrúpulos e denunciá-las no adversário apenas confirma o pesadelo moderno da decadência da verdade.

É muito difícil chamar à razão a quem se considera o dono dela. Os intelectuais condenam as escolhas populares, mas, às vezes, não percebem a sede de sinceridade que há por baixo delas. Pena.*

(*) Fernando Gabeira – O Globo