IDADE DAS TREVAS

Alunos de colégios militares são proibidos pelo Exército de participar de Olimpíada de História
Estudantes atribuem a proibição à tentativa de evitar que eles tenham contato com questões que façam alusão à Ditadura Militar. Competição é organizada pela Unicamp


BRASÍLIA – Os 14 mil alunos do Sistema Colégio Militar foram proibidos de participar da 11.ª Olimpíada Nacional de História do Brasil. O Departamento de Educação e Cultura do Exército atribuiu a decisão ao fato de a o evento “não atender ao interesse da proposta pedagógica do Sistema Colégio Militar”. Representantes tiveram acesso ao conteúdo  de algumas questões e consideraram inadequado para seus alunos.

O Sistema Colégio Militar informou, em nota,  que “devido ao conteúdo apresentado em algumas questões, optou-se pela não participação no evento, por não atender ao interessa da proposta pedagógica [das suas unidades]”. No entanto, não informou quais questões ou conteúdos não considerou adequado.

A competição é coordenada pelo Departamento de História da Universidade Estadual de Campinas, com o apoio do Ministério da Ciência, Tecnologia, Inovação e Comunicações e do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico Tecnológico. São várias etapas de prova, até a disputa final, programada para o segundo semestre, em Campinas.

O Estado apurou que, entre os pontos que desagradaram militares estava o uso de palavrões em textos das questões. A proibição  provocou indignação de estudantes. Eles ressaltaram que a medida destoa da conduta adotada nos colégios do sistema, que sempre foi o de incentivo à participação nesse tipo de competição.

Alunos atribuem a proibição à tentativa do departamento de evitarem que alunos do sistema tenham contato com questões que façam alusão ao período da Ditadura Militar. Professores foram encarregados de transmitir o comunicado da proibição para os alunos. Não foi informada qual a punição para aqueles que desrespeitarem a proibição e participarem das etapas de seleção.

A coordenação da olimpíada informou que a proposta da competição “tem auxiliado a milhares de estudantes em seu desempenho escolar, no Exame Nacional do Ensino Médio (ENEM), em vestibulares e concursos”. Segundo a coordenação, as equipes dos colégios militares participam do evento desde a primeira edição, em 2009, “com brilhantismo, tendo já obtido inúmeras medalhas”.

A coordenação também destacou que a participação é opcional e que não possui nenhuma ingerência sobre as decisões pedagógicas das escolas participantes. Ressaltou ainda que o objetivo principal do projeto é “incentivar o desenvolvimento da análise crítica e discussões sobre os mais variados temas”. Informou que as questões e atividades “são elaboradas com base nas Diretrizes Curriculares Nacionais, Base Nacional Comum Curricular (BNCC) e Parâmetros Curriculares Nacionais (PCNs)”.

De acordo com a coordenação, neste ano, 73 mil alunos e professores se inscreveram na competição, o que corresponde a 18,5 mil equipes. Desse total, 16,6 mil grupos seguiram para a segunda fase, que teve início na segunda-feira, 13.*

(*) Lígia Formenti , O Estado de S.Paulo

SÓ BOLA FORA

Nos EUA, Bolsonaro mira base ideológica, mas volta de malas vazias
Em Dallas, presidente prestou continência à bandeira americana, criticou a imprensa e o PT, mas não levou nenhuma conquista econômica ou diplomática


Mais de mil empresários tiraram do bolso ao menos US$ 1,5 mil para encontrar Jair Bolsonaro em jantar de gala em Nova York. Os ingressos para festas e palestras se esgotaram em tempo recorde. Mas empresários e investidores ficaram a ver navios. A maior cidade dos EUA é símbolo de diversidade e ativistas organizaram um boicote ao presidente em razão de suas posições sobre raça, gênero e meio ambiente. A novidade é que foram reverberadas por Bill de Blasio, prefeito de Nova York. O boicote fez a homenagem mudar de lugar e perder o glamour de ter uma ossada de baleia como cenário, no tradicional Museu de História Natural.

Bolsonaro desistiu de Nova York, mas De Blasio continuou provocando. Ele chamou Bolsonaro de “valentão que não aguenta uma briga”. A Câmara de Comércio Brasil-EUA, que escolheu Bolsonaro como “pessoa do ano”, tentou colocar panos quentes e o Itamaraty buscou uma saída. Havia consenso que Bolsonaro deveria receber o prêmio “em solo americano”. E foi assim que ele chegou a Dallas, no conservador Estado do Texas. Não que o prefeito da cidade concorde com Bolsonaro, mas ele não se opôs.

Em uma semana, o governo brasileiro improvisou uma agenda com dois compromissos: um almoço com 100 empresários, para receber o pêmio, e um encontro com o ex-presidente George W. Bush. Outras duas reuniões foram sendo confirmadas no meio da viagem, que durou pouco mais de 30 horas. Enquanto isso, em Nova York, Rodrigo Maia, Davi Alcolumbre e Dias Toffoli sinalizavam para investidores que a articulação com o Planalto melhorou (como você lê nessa entrevista), que a reforma da previdência será aprovada e os Poderes estão em harmonia. O otismismo durou até Bolsonaro desembarcar no Texas.

Em Dallas, com declarações destemperadas, segundo esta análise, o presidente deu força às ondas que criavam o seu próprio tsunami. Primeiro, chamou os manifestantes contra o arrocho na educação de “idiotas úteis”. Esse link ajuda a entender o que causou protestos em 240 cidades do Brasil. Depois, frente ao avanço das investigações a Flávio Bolsonaro, ele desafiou: “Venham para cima de mim”. Este editorial critica o fato de Bolsonaro transformar “debates importantes em brigas de rua”.

Enquanto isso, o governador de São Paulo, João Doria, assumiu o protagonismo – saiba aqui como foi a homeangem à “pessoa do ano” sem a pessoa do ano. Circulando em meio ao grupo de apoiadores que acampavam no hotel de Bolsonaro, ministros faziam questão de dizer que a visita ao Texas tirou a má impressão do imbróglio de Nova York.

Em Dallas, Bolsonaro prestou continência à bandeira americana, dialogou com sua base ideológica, fez campanha contra a candidatura de Cristina Kirchner na Argentina, criticou a imprensa e o PT. Mas, na bagagem de volta, não levou conquistas econômicas ou diplomáticas. E, com o dólar acima de R$ 4, provavelmente, também não levou nenhuma compra.*

(*) Beatriz Bulla, Estadão

REMEMBER COLLOR?

Texto de Bolsonaro é chamamento para a rua em favor do filho Flávio

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A explicação do presidente Jair Bolsonaro para ter distribuído um texto não assinado, em que afirma que o país “é ingovernável” fora dos conchavos, serve como uma pista para onde ele quer chegar.

Releia (grifo do blog]:

“Venho colocando todo meu esforço para governar o Brasil. Infelizmente os desafios são inúmeros e a mudança na forma de governar não agrada àqueles grupos que no passado se beneficiavam das relações pouco republicanas. Quero contar com a sociedade para juntos revertermos essa situação e colocarmos o país de volta ao trilho do futuro promissor. Que Deus nos ajude!”

Entendeu? Explico: Nas redes sociais, os seguidores de Bolsonaro estão convocando uma manifestação em apoio ao governo para o próximo dia 26. “Quero contar com a sociedade” é um chamamento em conjunto com as redes sociais bolsonaristas.

E ocorre no mesmo momento em que o presidente se vê acossado por acusações contra seu filho senador, Flávio Bolsonaro (PSL-RJ).

O Ministério Público Federal pediu nesta semana o rompimento do sigilo do filho “Zero um” do presidente e seus funcionários quando deputado estadual.

Segundo os procuradores, Flávio montou um esquema de lavagem de dinheiro em seu gabinete no Rio de Janeiro e abocanhou parte dos salários dos funcionários. A famosa “rachadinha”.

“Quebraram o sigilo bancário dele desde o ano passado e agora, para dar um verniz de legalidade, quebraram oficialmente o sigilo dele. Mais, se eu não me engano, 93 pessoas (…) O objetivo: querem me atingir”, reagiu assim o presidente na quinta-feira (16) que soube da quebra de sigilo.

Tudo junto e misturado:

O filho acossado; os bolsonaristas nas redes para convocar apoiadores em passeatas;

o presidente divulga texto em que se diz cercado pela “velha política”;

e Bolsonaro chama os apoiadores –”Quero contar com a sociedade”….

Foi mais ou menos o que fez o ex-presidente Fernando Collor de Mello quando seu irmão Pedro denunciou a corrupção do Palácio.

Collor pediu apoio da sociedade e rogou para que seus defensores fossem às ruas vestindo verde-e-amarelo.

O final da história todos sabem. As ruas vestiram-se de preto e o luto abriu alas para o impeachment.*

(*) Blog do Tales Faria, UOL.

UM PAÍS DA FUZARCA

A hora do vendaval
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É uma das maiores investigações financeiras de nossa História: por ordem do juiz Flávio Nicolau, do Tribunal de Justiça do Rio, foi quebrado o sigilo bancário e fiscal do senador Flávio Bolsonaro, o filho 01 do presidente da República, de sua esposa e filho, da empresa em que é sócio da esposa, de 88 ex-funcionários, de seu ex-assessor Fabrício Queiroz, esposa e filhas. O sigilo fiscal está quebrado de 2008 a 2018 e o bancário de 2007 a 2018.

Flávio Bolsonaro diz que a quebra dos sigilos servirá para explicar um vazamento ilegal já ocorrido; e que o objetivo é atacar seu pai. A explicação oficial é investigar a movimentação de R$ 1,2 milhão por Fabrício Queiroz, em um ano (em três anos, R$ 7 milhões). Há um depósito de Queiroz na conta de Michele, esposa de Bolsonaro; e Queiroz disse que pedia parte do salário do pessoal do gabinete para contratar, sem registro, mais assessores. Há 48 depósitos de R$ 2 mil cada na conta de Flávio Bolsonaro. A suspeita é de que houvesse entrega ao chefe de parte do salário de cada funcionário.

É investigação para durar muito tempo: pesquisar contas bancárias de mais de dez anos, de 95 pessoas, é exaustivo. Não deve haver surpresas enquanto as investigações evoluem. Mas haver investigações contribui para a piora do clima político, e talvez leve parlamentares de hábitos flexíveis a exigir mais do Governo em troca de seu apoio e de seus votos. Em bom português, haverá quem exija tratamento mais generoso por seu apoio.

Coincidência

A investigação sobre Flávio Bolsonaro acontece na ocasião em que está próxima a votação da reforma da Previdência. Acontece também, ao mesmo tempo, a delação premiada de Henrique Constantino, um dos donos da empresa aérea Gol, em que cita propinas que teria pago a Rodrigo Maia, hoje presidente da Câmara e principal articulador da votação da reforma. No Governo anterior, faltavam poucos dias para a votação quando explodiu a delação premiada de Joesley Batista, que gravou conversa com o presidente Michel Temer (com isso, a reforma da Previdência ficou para o Governo seguinte).

Mas, afinal de contas, coincidência é coincidência. Acontece, não?

Temer livre

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Como de hábito, haverá choro e ranger de dentes. Mas a libertação de Michel Temer nos tribunais superiores era inevitável. Isso não quer dizer que não tenha cometido os atos de que o acusam, ou que não possa, mais à frente, vir a ser considerado culpado (e, aí sim, receba uma sentença de prisão). Mas estava preso sem julgamento. Prisão preventiva não é antecipação de pena e pode ser aplicada em circunstâncias específicas: destruição de provas, por exemplo, perturbação da ordem pública, ameaça de fuga… bom, se Temer não destruiu provas como presidente, iria fazê-lo agora? Nunca tentou buscar asilo ou sair do país. Portanto, que espere o julgamento em liberdade. Se condenado, a coisa muda. Enquanto não for condenado, fica livre.

O cerco a Perillo

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O ex-governador de Goiás, Marconi Perillo, do PSDB, derrotado amplamente nas eleições, vê apertar-se o cerco do Ministério Público sobre ele. Na semana passada, o MP moveu-lhe mais uma ação civil pública por improbidade administrativa (servidores eram contratados sem concurso público). Há 17 ações do MP contra Perillo, desde junho de 2018. Incluem de contratação de funcionário fantasma até irregularidades na aprovação de leis. Perillo viu seu candidato a governador ser batido por Ronaldo Caiado, não conseguiu se eleger senador, embora houvesse duas vagas, e na eleição presidencial foi o coordenador da candidatura tucana de Geraldo Alckmin.

O caminho de Moro

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O presidente Jair Bolsonaro criou um problema para seu superministro da Justiça, Sérgio Moro: garantiu que ele será indicado para o Supremo tão logo surja uma vaga, e deixou entrever que houve um compromisso seu com Moro para indicá-lo. Moro rapidamente disse que não houve acordo algum e que, quando houver alguma vaga no STF, Bolsonaro poderá ou não indicá-lo e ele poderá ou não aceitar um eventual convite.

Mas abriu-se campo para que políticos como Gleisi Hoffmann, presidente nacional do PT, voltassem ao tema de que Moro condenou Lula a pedido de Bolsonaro. A tese é falsa: primeiro, porque Moro condenou Lula pela primeira vez quando ninguém imaginava que a candidatura Bolsonaro cresceria como cresceu: segundo, porque todas as sentenças de Moro foram confirmadas pela segunda instância, no Tribunal Regional Federal de Porto Alegre, e os recursos de Lula foram seguidamente recusados nos tribunais superiores.

O trabalho de Moro

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Quando Moro assumiu, Bolsonaro sabia que ele era indemissível. Mas o trabalho que desenvolve ainda não apareceu para o público. Até seu pacote anticorrupção está sendo analisado junto com um anterior, de Alexandre de Moraes, e a tendência é unificá-los. Moro não é unanimidade em Brasília.*

(*) Coluna Carlos Brickmann

METENDO O NARIZ ONDE NÃO É CHAMADO

“Não se esqueçam da nossa Argentina”, diz Bolsonaro nos EUA

No discurso em Dallas durante pelo prêmio de personalidade do ano, Jair Bolsonaro alertou para a possibilidade de Cristina Kirchner voltar à presidência da Argentina.

“Não se esqueçam da nossa Argentina. Está indo para um caminho bastante complicado. Com problemas estruturais em seu país, meu amigo Macri enfrenta dificuldades e vê crescer a possibilidade de uma presidente última voltar ao poder. Essa que era amiga do PT no Brasil, Chávez, de Maduro, entre outros, além de Fidel Castro, que tinham mais que um sonho, a vontade e a determinação de mais do que roubar o nosso país, roubar a liberdade de todos nós.”*

(*) Pela Globo News

ISSO NÃO TEM PREÇO

TRF-4 NEGA RECURSO DE DIRCEU E ELE PODE VOLTAR À PRISÃO
 
 
O TRF-4 negou recurso de José Dirceu, que pedia prescrição da pena de 8 anos e 10 meses na segunda condenação dele na Lava Jato, em julgamento na sua 4ª Seção hoje.
Após a decisão, unânime, foi solicitado “imediato ofício para início do cumprimento da pena ao juízo de primeiro grau”, em Curitiba, no Paraná. Com isso, o ex-ministro de Lula pode voltar a ser preso.
 

A PROPÓSITO

 
PRISÃO IMEDIATA PARA DIRCEU
 
Com o esgotamento do último recurso na segunda instância, A execução da pena é imediata. Um novo mandado de prisão para José Dirceu está sendo expedido.*
 
(*) Cláudio Dantas, O Antagonista

“AS VOZES ROUCAS DAS RUAS”

Com caixa-preta de Flávio, estudantes podem implodir Bolsonaro
Genial como sempre, presidente atiça protestos que podem ameaçar seu governo


Ao chamar de idiotas os estudantes que fizeram o primeiro grande ato contra seu governo, Jair Bolsonaro talvez tenha comprado a pior briga possível contra a sua breve e precária administração.

Ela poderá transformar um protesto que seria apenas legítimo e corriqueiro em uma onda de repúdio ao presidente e à reforma da Previdência, sem a qual Bolsonaro certamente será um tremendo fracasso.

Estudantes não só têm muita energia como tempo de sobra para se engajar em algo que pode virar rotina.

Quem já participou desse tipo de movimento sabe como é interessante o engajamento político, muitas vezes o primeiro da vida, e como ele se transforma em oportunidade para pensar e socializar entre os jovens.

Foi algo que o ex-governador Geraldo Alckmin (PSDB) sentiu na pele em São Paulo durante protestos em 2015, quando estudantes ocuparam 196 escolas no estado, além de protestar seguidamente na capital, obrigando-o a recuar numa reorganização do ensino.

Os caras-pintadas que ajudaram a derrubar Fernando Collor em 1992 também seguiram lógica parecida, de um protesto inicial a uma rotina de crescentes manifestações. Deu no que deu.

Agora, diante da agressividade mal educada do presidente, talvez não reste nada melhor aos estudantes e seus simpatizantes do que protestar bravamente contra um governo que se posiciona quase sempre de maneira ofensiva contra o intelectualismo, a diversidade e a liberdade de expressão.

Até que demorou. Mas, genial como sempre, o próprio Bolsonaro acabou dando a deixa —e justamente quando a economia desanda.

Para completar o senso de oportunidade do presidente, as declarações que inflamaram os estudantes vêm na sequência da abertura da caixa-preta de Flávio Bolsonaro e de mais de 90 investigados no Rio, entre eles suspeitos de corrupção no Estado e milicianos próximos.

Dependendo do que sair daí, ter xingado estudante de idiota terá sido a maior estupidez.*

(*) Fernando Canzian, Folha de São Paulo

TSUNAMI FAMILIAR

Quem é o juiz que quebrou o sigilo do filho do
presidente e, aos gritos, enquadrou a esquerda

 

A imagem pode conter: montanha, nuvem, oceano, céu, ar livre, água e texto

Juiz que quebrou o sigilo de Flávio Bolsonaro (foto) já foi alvo de manifestações de deputados de partidos de esquerda.| Foto: Pedro França/Agência Senado

Em uma audiência na sala da 27ª Vara Criminal do Rio de Janeiro, em dezembro de 2014, três ativistas acusados de associação criminosa e corrupção de menores levantaram as algemas e gritaram a colegas: “Não passarão!”. Imediatamente, eles foram recriminados pelo juiz que quebrou o sigilo de Flávio Bolsonaro: seu nome é Flávio Itabaiana de Oliveira Nicolau.

Na oportunidade, ele disse aos ativistas Caio Silva, Fábio Raposo e Igor Mendes : “Vocês não estão na rua. Quem manda aqui sou eu”, gritou o juiz Flávio Itabaiana. Aquele era o auge das rusgas entre o magistrado e ativistas das manifestações de junho de 2013 acusados de associação criminosa e corrupção de menores.

Os atritos começaram seis meses antes, quando Itabaiana mandou prender preventivamente 23 membros do grupo, sendo a mais conhecida a produtora Elisa Quadros, a Sininho.

Juiz que quebrou sigilo de Flávio foi alvo da esquerda

Aquela decisão tornou o magistrado alvo de partidos de esquerda. Os deputados federais Jandira Feghali (PC do B), Ivan Valente, Jean Wyllys e Chico Alencar (todos do PSOL) fizeram reclamação formal ao CNJ (Conselho Nacional de Justiça) em razão da determinação daquelas prisões preventivas.

À época, para aqueles parlamentares, o magistrado abusou de seu poder para “reprimir delitos imaginários forjados pelos aparatos da repressão governamental”.

A resposta de Itabaiana foi a seguinte: “O objetivo claro dessa ação é me intimidar. Aliás, está para nascer homem que irá me intimidar”, afirmou ele à época, em nota. O caso acabou arquivado no CNJ.

O magistrado considerado fechado e direto nos corredores do Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro agora é a esperança da esquerda para abalar a família do presidente Jair Bolsonaro.

É de Itabaiana a autorização para a quebra de sigilo bancário e fiscal do senador Flávio Bolsonaro (PSL-RJ) e de seu ex-assessor, Fabrício Queiroz.

A decisão, do dia 24 de abril, é o primeiro passo judicial da investigação sobre Queiroz após 500 dias do relatório do Coaf apontar uma movimentação atípica de R$ 1,2 milhão na conta bancária do ex-assessor de Flávio na Assembleia Legislativa do Rio.

Quem é o juiz Itabaiana

O juiz da 27ª Vara Criminal entrou no Tribunal de Justiça em 1995. Segundo seu currículo publicado na plataforma Lattes, ele se formou em direito em 1989 na Universidade Cândido Mendes – mesma faculdade que Flávio Bolsonaro cursaria anos depois.

Antes, graduou-se em engenharia elétrica pela Universidade Santa Úrsula. A opção pelo direito, segundo magistrados ouvidos pela reportagem, foi natural. Ele tem parentes ex-magistrados.

Itabaiana teve uma carreira discreta até o entrevero com os manifestantes de 2013. Entre os casos que julgou está o de falsidade ideológica da ex-atleta Rebeca Gusmão -no qual foi absolvida- e do ex-diretor da Petrobras Jorge Zelada por fraude em licitação –ele foi condenado a quatro anos de prisão.

A condução das investigações sobre os manifestantes foi o que mais lhe rendeu notoriedade e dor de cabeça. Os tribunais superiores decidiram anular parte das provas validadas por Itabaiana durante as investigações.

O STJ (Superior Tribunal de Justiça) derrubou em 2015 a ordem judicial que autorizava quebra de sigilo telefônico de duas advogadas de Sininho. Já o STF (Supremo Tribunal Federal) trancou a ação penal contra os ativistas em fevereiro deste ano ao decidir anular as provas obtidas por um policial militar infiltrado sem autorização judicial nas manifestações.

“Esse tipo de atuação exige sim autorização judicial. O Poder Judiciário é o guardião último dos direitos e garantias fundamentais. E aqui ficou claramente caracterizada essa hipótese. Um agente policial infiltrou-se em organização determinada sem autorização judicial. Portanto provas e depoimentos colhidos devem ser declarados ilícitos”, afirmou o ministro Gilmar Mendes, relator do caso no STF.

Itabaiana condenou em julho do ano passado os 23 ativistas, na maior parte dos casos, a sete anos de prisão. Ele autorizou que os réus recorressem em liberdade. O magistrado processou os deputados por calúnia, em razão da representação no CNJ, mas perdeu a causa.

Procurado pela reportagem, o juiz não quis se manifestar.*

(*) Gazeta do Povo

AS RUAS ARDEM

A fogueira do capitão

E assim, 2019 anos depois do nascimento do Senhor, o Rabi de Nazaré, transcorridos apenas 135 dias desde a posse do ex-capitão Jair Messias Bolsonaro na presidência da República Federativa do Brasil, o eixo da política sofreu forte mudança nesta terra onde se plantando corre-se o risco de colher o inesperado.

Se a Era PT no governo se divide entre antes e depois de junho de 2013 quando multidões sem comando ocuparam as ruas para protestar indistintamente contra tudo e contra todos, dê-se por estabelecido que a Era do Mito será no futuro estudada pelos historiadores levando-se em conta o antes e o depois da data de ontem.

A ninguém foi dado o dom de antecipar que as manifestações contra os cortes de verbas para a Educação atrairiam cerca de 1 milhão de pessoas predominantemente jovens às ruas de todas as capitais e grandes cidades do país – nem mesmo à Agência Brasileira de Informações (ABIN), uma espécie de Serviço Secreto do governo.

Estimava-se que elas seriam se tanto de médio porte, concentradas nas capitais, e destinadas a reclamarem por mais dinheiro para a Educação. Pois bem: multidões desfilaram em mais de 200 cidades de todos os Estados. E até em municípios pequenos como Felipe Guerra, no Rio Grande do Norte, com menos de 6 mil habitantes.

A Educação serviu de espoleta para levar às ruas estudantes, professores e pais de alunos não só das universidades públicas como das particulares. Sem falar de estudantes secundaristas preocupados com o que poderá acontecer nos próximos anos. Para o governo, melhor seria que tivesse sido só a Educação o motivo de tudo.

Mas não. Lembra-se de um cartaz de junho de 2013 que dizia “não é somente por 20 centavos”? Referia-se ao aumento no preço das passagens de ônibus no Rio e em São Paulo. Não foi só pelo corte de 30% do dinheiro que banca despesas de custeio das universidades com luz e água, segurança e limpeza que as ruas se encheram de gente.

Foi também por causa da reforma da Previdência, da política de armamento da população, do acesso facilitado ao porte de armas e da falta de reação da economia a todos os estímulos que recebe para que cresça. Políticos e militantes de esquerda tentaram pegar carona nas manifestações. O governo preferiu hostilizar os manifestantes.

Se a presidente Dilma Rousseff, em junho de 2013, saudou, perplexa, o que viu e acenou com providências jamais tomadas para amenizar a insatisfação geral, o presidente Jair Bolsonaro, dos Estados Unidos onde se encontrava atrás de um prêmio, fez justo o contrário. Chamou os manifestantes de imbecis e de “idiotas úteis”.

Aqui, o ministro Onyx Lorenzoni, da Casa Civil, comparou o corte na Educação ao corte do churrasco e da cervejinha do fim de semana pelo chefe de família que perdeu o emprego. E o Delegado Waldir, líder do PSL na Câmara, disse que os manifestantes representavam uma minoria de “baderneiros” e de fumadores de maconha”.

O capitão acendeu a fogueira que pode incinerar o seu governo.*

(*) Blog do Ricardo Noblat