A INVOLUÇÃO DA RAÇA

Ministro da Educação imita senhoras católicas de 1964

O ministro e as senhoras de 1964

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O novo ministro da Educação, Abraham Weintraub, quer banir os livros de Paulo Freire e reprimir a “balbúrdia” nas universidades. O discurso não é exatamente novo. Já estava na boca das senhoras católicas que bradavam contra o comunismo em 1964.

Em entrevista ao jornal “O Estado de S. Paulo”, o ministro olavete descreveu as universidades como locais de “bagunça” e “arruaça”. Ele também protestou contra a suposta presença de “gente pelada”, como se os campi fossem praias de nudismo.

A imaginação de Weintraub parece ser fértil. A das ativistas católicas também era. A exemplo do ministro, elas acreditavam que os comunistas estavam em toda parte. Atrás da banca de jornal, no ponto de ônibus, debaixo da cama ou dentro do guarda-roupa, como ironizava o cronista Stanislaw Ponte Preta.

Em Belo Horizonte, as senhoras se uniram na Liga da Mulher Democrata (Limde). De rosário em punho, promoveram passeatas a favor do golpe militar e elegeram a Universidade Federal de Minas Gerais como alvo número um. Suas peripécias estão no livro “Campus UFMG”, que a historiadora Heloisa Starling lança no dia 11 pela editora Conceito.

Em abril de 1964, a Limde intimou o Ministério da Educação a intervir na UFMG para garantir “o afastamento definitivo de professores, livros e funcionários comunistas do convívio com os estudantes”.

Pouco depois, as ativistas reivindicaram a imediata proibição, em todo o país, do método Paulo Freire. Para elas, a técnica do educador para combater o analfabetismo era perigosa e subversiva.

Em 1965, a Limde organizou um abaixo-assinado pela “extinção da carreira de sociólogo”. O manifesto afirmava que era preciso evitar a formação de “agitadores comunistas”. Os sociólogos só conseguiriam habilitação formal em 1980, no fim da ditadura.

As senhoras mineiras eram ousadas. Um dia, indignadas com a realização de um encontro sindical em BH, reuniram a imprensa e prometeram deitar na pista do Aeroporto da Pampulha para impedir a aterrissagem de aviões.

Fica a dica para o ministro Weintraub.*

(*) Bernardo Franco Mell0, 0 Globo

E LA NAVE VA

“Quem ganha, quem perde”

Quem se diz aliado nem sempre o é. Na Venezuela, é melhor esperar mais para errar menos

Guaidó, apoiado por Brasil, Estados Unidos e todos os países próximos, ou Maduro, apoiado por Cuba, Rússia e Bolívia? Para os venezuelanos, neste momento, tanto faz: se Maduro continua, mantém sua política maluca, que conseguiu a façanha de transformar um dos maiores produtores mundiais de petróleo num país onde falta tudo; se Guaidó o derruba, mesmo que melhore dramaticamente o desempenho do Governo, levará bom tempo para reerguer a economia, e nesse tempo terá de enfrentar a desconfiança da população, na qual despertou esperanças que em curto prazo não serão satisfeitas.

E o confronto, quem ganha? Este colunista não se atreve a fazer qualquer previsão: se Maduro se manteve até agora no poder, apesar da calamitosa administração, é porque tem apoiadores fiéis; se Guaidó está solto, embora se tenha proclamado presidente da República, é porque tem apoio suficiente para que Maduro não consiga prendê-lo. A qualquer momento pode ocorrer um desfecho (ou não); não adiantaria sequer consultar uma lista de chefes militares, porque, conforme evolui a situação, muda a posição de cada chefe. Em 1964, o presidente João Goulart tinha a lealdade pétrea do general Amaury Kruel, seu amigo de longa data; e foi Kruel, em decisão de última hora, quem derrubou seu Governo (a notícia era tão improvável que os jornais a confirmaram várias vezes antes de publicá-la). Quem se diz aliado nem sempre o é. Na Venezuela, é melhor esperar mais para errar menos.

 

Um dia de sossego

O fim de semana marcou, no Brasil, um raro momento de trégua entre os aliados do presidente Bolsonaro. Embora Rodrigo Maia tenha falado mal do 02 e 03 ─ chamou Eduardo 03 de deslumbrado e Carlos 02 de radical ─ ele e Bolsonaro estão de bem. Segundo Onyx Lorenzoni, da Casa Civil, “daqui para a frente é vida nova, os dois reabriram um canal direto”. Bolsonaro disse que respeita Maia, os dois almoçaram juntos no sábado, e o presidente, além de chamar a conversa de “maravilhosa”, garantiu que está namorando o presidente da Câmara. Com o namoro, a reforma da Previdência se acelera.

 

Os filhos do capitão

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Eduardo e Carlos, criticados por Rodrigo Maia, tuitaram louvores à reforma, sem ataques. Ambos pensam em afastar o general Santos Cruz do Governo, mas isso até agora não gerou crise. Por enquanto, o clima é de paz.

 

O caminho das pedras

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Quanto mais se acelerar a reforma melhor é para o Governo. O peculiar ritmo de andamento dos projetos na Câmara exige alguém experiente e com poder, como Rodrigo Maia, para buscar os atalhos. Um exemplo: a partir de ontem, começa a correr o prazo de 40 sessões da Câmara para a entrega do relatório da comissão especial. Mas ontem não é ontem: é terça que vem, dia 7, porque, graças ao Dia do Trabalho, a primeira sessão da Câmara ocorre só naquele dia. Seria possível, mesmo assim, votar a reforma da Previdência até 15 de julho, antes do recesso do meio do ano, mas junho é um mês ruim: um grande número de parlamentares volta para seus Estados para participar das festas juninas. Se a reforma ficar para depois das férias, vai levar mais uns dois meses ─ e se aproximar das festas de fim de ano, quando para tudo.

 

É mas não é

Normalmente não daria para votar nada antes do finzinho do ano. Mas, se os parlamentares acharem que vale a pena ficar com Bolsonaro, aí é possível.

 

Problema na exportação

Na Apex, Agência de Promoção das Exportações, o terceiro diretor de Gestão Corporativa do Governo Bolsonaro acaba de cair. O primeiro durou nove dias, e saiu por não ser fluente em inglês; o segundo, embaixador com experiência na área, caiu não se sabe bem por que, mas dizem que não se entendia com Letícia Catelani, diretora de Negócios e bolsonarista de primeira hora. O terceiro é próximo de Leda e do chanceler Ernesto Araújo, e saiu não se sabe o motivo. O próximo deve ser Sérgio Segóvia, um contra-almirante, que ao que se saiba não tem experiência em comércio exterior.

 

Exemplo de cima

O país enfrentava um gigantesco buraco nas contas públicas? O Supremo se deu um bom aumento, que repercute em todo o funcionalismo. O Supremo vem sendo criticado? Pois abriu concorrência para banquetes de luxo, com medalhões de lagosta na manteiga queimada, vinhos com tipo seleto de uva, envelhecidos em barris de carvalho francês ou americano, que tenham ganho ao menos quatro prêmios internacionais, espumantes também premiados e elaborados pelo método “champenois”; o mesmo desenvolvido há uns três séculos pelo abade D. Pérignon. Método Charmat, outra possibilidade? Nem pensar! E pratos como arroz de pato, moqueca de camarão, baiana ou capixaba, pato assado, salada Waldorf com camarão, tudo de bom. Preço máximo, R$ 1,1 milhão, conforme o número de banquetes ofertado pelo STF.

Exemplo? E quem está disposto a dar um exemplo de economia?*

(*) Coluna de Carlos Brickmann

SE CORRER O BICHO PEGA, SE FICAR…

Governo Bolsonaro prioriza agenda de costumes, enquanto a economia afunda

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Enquanto o novo governo procura se preocupar mais com a questão de costumes da população, a economia patina feio. O desemprego voltou a subir com força diante da desconfiança de empresários e de consumidores em relação à capacidade do governo de reativar a atividade econômica do país. A taxa de desocupação no primeiro trimestre de 2019 saltou para 12,7%, conforme dados divulgados nesta terça-feira (30/04) pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). No último trimestre de 2018, essa taxa era de 11,6%.

A piora nos dados de emprego reflete a paralisia na indústria e no comércio e as incertezas em relação ao avanço das reformas, principalmente, a da Previdência.

CRESCIMENTO? – Não por acaso, os especialistas já falam em queda do Produto Interno Bruto (PIB) no primeiro trimestre e crescimento inferior a 1% no acumulado de 2019. Esse desastre, reforçam, é reflexo da opção do presidente Jair Bolsonaro em priorizar a agenda de costumes em vez de ações concretas para estimular a produção, os investimentos, o emprego e o aumento da renda.

Foram registrados 13,4 milhões de desempregados de janeiro a março, dado que cresceu 10,2% (mais 1,2 milhão de pessoas) frente ao trimestre de outubro a dezembro de 2018 (de 12,2 milhões). O número de pessoas subutilizadas também cresceu no mesmo período, somando 28,3% milhões, alta de 5,6% na mesma base de comparação, de acordo com o IBGE. A taxa de subutilização da força de trabalho, de 25% no primeiro trimestre do ano, é recorde da série histórica iniciada em 2012, com alta de 1,2%.

PESSIMISMO – “Os dados do emprego divulgados pelo IBGE confirmam o cenário mais pessimista em relação ao PIB do primeiro trimestre”, afirmou André Perfeito, economista-chefe da Necton. Ele prevê estagnação no PIB dos primeiros três meses do ano e de apenas 0,9% no acumulado no ano.

O economista Alberto Ramos, do Goldman Sachs, destacou que o desemprego continua elevado porque o cenário de crescimento e de investimento no país é medíocre. Ele avaliou que a composição dos novos empregos “continua sendo de baixa qualidade”, pois o emprego formal está crescendo muito pouco, 0,2% e o informal aumentou 4,4%.  Pelas contas de Ramos, 1,59 milhão de novos postos de trabalho criados a partir do ano passado foram impulsionados, em grande parte, por aqueles que trabalham no setor informal (466 mil) e autônomos (879 mil).*

(*) Rosana Hessel
Correio Braziliense

A AMIGA DO AMIGO

Lula pressionou OAS a ajudar Rosemary, a ‘segunda-dama’ da República, diz delator

Em 2012, ela foi alvo da Operação Porto Seguro, que investigou um esquema de venda de pareceres de órgãos públicos a empresas privadas. Na ocasião, Rosemary era chefe de gabinete da Presidência da República em São Paulo.

EMPRESA DO MARIDO – Léo Pinheiro afirmou em sua delação que, em 2012, o executivo Ricardo Flores, então presidente da Previ (fundo de pensão do Banco do Brasil), lhe pediu para que a OAS contratasse a New Talent Construtora, empresa de João Vasconcelos, marido de Rosemary Noronha, para obras da Invepar, empresa controlada pela construtora baiana. A Previ era sócia da OAS na Invepar.

O ex-presidente da OAS disse que repassou a orientação para Carlos Henrique Lemos, então superintendente da empreiteira em São Paulo. A New Talent Construtora foi contratada para as obras de duplicação da rodovia Raposo Tavares, feitas pela Cart (Concessionária Autoestrada Raposo Tavares). A Cart pertence à Invepar, que reúne os investimentos da OAS na área de transportes. Os serviços realmente foram prestados pela New Talent Construtora.

Em 2014, segundo Léo Pinheiro, o presidente do Instituto Lula, Paulo Okamoto, disse a ele que a New Talent havia tido prejuízo no contrato com a OAS e por isso pediu que a construtora desse uma nova oportunidade para a empresa do marido de Rosemary Noronha.

DEMOROU – Léo Pinheiro disse, em depoimento, que novamente conversou com o diretor Carlos Henrique Lemos para que a New Talent fosse mais uma vez contratada pela OAS. Mas a contratação demorou.

O ex-presidente da OAS disse que em outubro de 2014, num encontro com Lula e Okamoto no Instituto Lula, ele foi pressionado pelo ex-presidente da República, que teria se mostrado profundamente irritado com a demora na contratação e disse para que esquecessem o pleito.

Carlos Henrique Lemos foi cobrado novamente por Léo Pinheiro, segundo a delação, sobre a nova contratação da New Talent. Em 5 de novembro de 2014, o então presidente da OAS reuniu-se com Rosemary Noronha e João Vasconcelos para garantir que as pendências seriam resolvidas.

NOVO CONTRATO – Antes do ano chegar ao fim, a New Talent assinou contratos com a companhia baiana para realizar obras num empreendimento de revitalização da favela do Real Parque, na zona sul da capital paulista. A Folha apurou que a New Talent recebeu da OAS mais de R$ 1,8 milhão pelos contratos.

Léo Pinheiro foi preso pela primeira vez em 14 de novembro de 2014, pela Operação Lava Jato. Em abril de 2015, a Segunda Turma do STF (Supremo Tribunal Federal) concedeu a ele prisão domiciliar. O ex-juiz Sergio Moro, no entanto, voltou determinar sua prisão em setembro de 2016, acusando-o de obstrução de Justiça.

Em dezembro de 2018, Léo Pinheiro assinou acordo de delação premiada com a Procuradoria-Geral da República. O acordo espera a homologação do ministro Edson Fachin, responsável pelos processos da Lava Jato no STF (Supremo Tribunal Federal).

LULA E LÉO – Na semana passada, em sua primeira na prisão, concedida à Folha e ao El País, o ex-presidente falou sobre Léo Pinheiro, que também o delatou no caso do tríplex.

“O Léo [Pinheiro] passou três anos dizendo uma coisa [que o ex-presidente não estava envolvido em irregularidades]. Depois mudou o discurso. Meu advogado perguntou por que ele tinha mudado e ele disse que era orientação do advogado dele. Ele falou que o Lula sabia [da reforma no apartamento paga pela construtora]. Agora, o que está provado? A OAS gastou R$ 6 milhões para pagar funcionários dela para uniformizar o discurso dos funcionários na delação. Como eu posso levar a sério isso?”, afirmou.

A defesa de Lula afirmou que não conhece o teor do novo depoimento e que o petista não praticou qualquer ato ilícito antes, durante ou após ter deixado o cargo de presidente. “Depoimentos prestados por delatores não têm qualquer valor probatório segundo a lei e, na prática, têm servido apenas como instrumento de perseguição contra pessoas pré-estabelecidas”, disse.*

(*) Wálter Nunes
Folha de São Paulo

AVISO AOS NAVEGANTES

AUTOPROCLAMADA RUÍNA

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“Declaro o meu repúdio à ideia de suprimir sociologia, antropologia e outras disciplinas dos saberes humanos das salas de aula. Sem elas, corremos o risco de criar um mundo no qual uma fulgurante irracionalidade (que já envolve o governo Bolsonaro) vai se acasalar com uma profunda ignorância de nós mesmos. O resultado é a burrice – essa matéria-prima das censuras.”*

(*) Roberto DaMatta, antropólogo, Estadão

BANDIDOS UNIDOS JAMAIS SERÃO VENCIDOS?

“Não tem como um ministro interferir no Coaf”

Os investigados da Lava Jato querem tirar o Coaf de Sergio Moro.

Roberto Leonel, que preside o órgão, é contrário.

Em entrevista para o Estadão, ele confirmou que a iniciativa de transferir o Coaf para Sergio Moro foi de Paulo Guedes:

Daria para utilizar a máxima futebolística de que em time que está ganhando não se mexe?

Sim, é isso. O Coaf sempre atuou como órgão de Estado. A independência e a autonomia dele continuam. Não tem como um ministro interferir em um processo de trabalho.

Quando o senhor foi convidado para ser presidente?

Foi no começo de novembro, logo depois que ele (Moro) confirmou publicamente.

Já estava definido que o Coaf iria para a Justiça?

Sim, o doutor Moro tinha comentado naquela oportunidade e eu sabia que, como ele reforçou esses dias na imprensa, o Coaf foi oferecido a ele pelo futuro ministro, na época, Paulo Guedes, e ele, de bom grado, aceitou.*

(*) O Antagonista

AVACALHADOR GERAL

Com 120 dias, Bolsonaro ainda não entendeu o cargo que ocupa
Não é possível cobrar resultados ainda; um mínimo de compostura, sim


Jair Bolsonaro completa 120 dias de governo. Um tempo curtíssimo para qualquer cobrança de resultados —menos de 10% do mandato—, mas suficiente para a constatação do misto de despreparo com condutas equivocadas que ganhou abrigo no Palácio do Planalto.

Cem por cento das fichas foram apostadas em uma reforma propagandeada como a chegada à Atlântida e em um pacote de mudanças legislativas bancado pela Lava Jato. Contente com que os adultos cuidem disso, o presidente junta-se aos amiguinhos alucinados e vai brincar na sua Disneylândia particular.

Lá, nesse mundo fantástico de gurus improváveis e vilões imaginários, penas voam para todo lado, a toda hora, em um desabrochar de sentimentos inspirados na rainha Vitória ou na rainha Maria.

Seria muito engraçado, e às vezes é mesmo, não fosse o inconveniente de que ali se ruminam ideias que mais parecem saídas de um parque de diversões mal-assombrado.

Como o estímulo à homofobia e ao turismo sexual, prática que sobrevive em vários casos da asquerosa exploração de meninas do Norte e Nordeste. Turismo gay não, mas gringo de boa cepa vir pra cá catar mulher, aí o presidente curte —até porque no seu particular mundo neandertal mulheres não fazem turismo.

No comercial do Banco do Brasil tirado do ar, jovens, a maioria negros, alguns tatuados, dançam e tiram selfies sob uma narração feminina de sotaque nordestino. Se todos fossem homens brancos heterossexuais e o narrador tivesse sotaque paranaense, estaria ok?

Nesta segunda o presidente defendeu que “cidadãos de bem” que assassinem invasores de terras —mulheres e crianças geralmente integram esses movimentos— não sejam punidos. Uma outra declaração afetou ações do Banco do Brasil. Horas depois auxiliares disseram que era só brincadeira. O tempo ainda não permite cobrar resultados, mas é mais do que suficiente para que o presidente saia do playground e tenha um mínimo de compostura.*
(*) Ranier Bragon
Repórter especial em Brasília, Folha de São Paulo

ALGUMA DÚVIDA?

Golpe ou revolução?

O caso da Venezuela é suficientemente ambíguo

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Enquanto a situação na Venezuela não se define, e torcendo para que o embate não degenere em guerra civil, podemos nos perguntar se o movimento deflagrado por Juan Guaidó deve ser classificado como tentativa de golpe ou como revolução para pôr fim a uma usurpação. A imprensa mundial se dividiu sobre a designação, e não apenas segundo as linhas ideológicas esperadas.

A definição menos polêmica de golpe, como ruptura institucional, em geral pela força, funciona bem até a página 1. Quando temos um governo legítimo que tem seu funcionamento suspenso de forma não prevista em lei, estamos inegavelmente diante de um golpe. É o caso da deposição de João Goulart em 1964.

É raro, porém, que o mundo nos presenteie com situações tão claras. Ora, nem todo governo é legítimo, mas todo governo impõe uma ordem jurídica passível de violação. Se nos centrarmos no critério formal, teríamos de considerar golpista, por exemplo, a resistência francesa ao nazismo, que, ao fim e ao cabo, agia contra a lei vigente com o objetivo de depor o regime.

O caso da Venezuela é suficientemente ambíguo, pois, embora os partidários de Guaidó tenham buscado uma ruptura, dá para afirmar que o governo de Nicolás Maduro tornara-se ilegítimo seja quando se utilizou de uma artimanha não prevista em lei para esvaziar os poderes da Assembleia Nacional em 2017 ou, de modo mais polêmico, quando fraudou o pleito que o reelegeu em 2018. Se aceitamos isso, faz sentido enquadrar Guaidó não como golpista, mas como resistente.

A moral da história é que não estamos diante de questões que possamos decidir por meio de formalismos jurídicos. Não há como escapar à tarefa bem mais difícil de fazer juízos morais sobre as posições dos contendores.

Minha avaliação pessoal é a de que, com Maduro, a Venezuela não tem futuro, daí que, na melhor tradição consequencialista, é melhor para o país livrar-se dele.

(*) Hélio Schwartsman, editor de Opinião, Folha de São Paulo

SEMPRE NA VANGUARDA, DO ATRASO

PT se pronuncia “contra tentativa de golpe” na Venezuela

Confronto entre manifestantes da oposição e soldados leais ao ditador Nicolás Maduro após tropas se juntarem à campanha do presidente interino Juan Guaidó, nos arredores da base militar La Carlota em Caracas, 30 de abril. Foto: Federico Parra / AFP
O Partido dos Trabalhadores divulgou um comunicado afirmando que condena “a recente tentativa de golpe na Venezuela, levada a cabo pela oposição da direita golpista e antichavista”, como diz a nota.

O texto afirma ainda que grupos opositores tentam há anos derrubar o “governo democraticamente eleito do Partido Socialista Unido da Venezuela”.

“Não aceitamos atitudes antidemocráticas como estas. A solução dos problemas venezuelanos passa por levantar o embargo econômico internacional de que o país e, principalmente, sua população, são vítimas”, afirma o comunicado, assinado pela presidente do partido, Gleisi Hoffmann; o líder no Senado, Humberto Costa; o líder na Câmara, Paulo Pimento; e a secretária de Relações Internacionais, Monica Valente.

As manifestações se intensificaram na Venezuela nesta terça-feira (30), após Juan Guaidó anunciar o apoio de unidades das Forças Armadas do país.

A declaração desencadeou um conflito entre militares que agora apoiam Guaidó, identificados com uma faixa azul no braço, e as forças ainda leais ao ditador Nicolás Maduro no leste de Caracas, capital da Venezuela.*

(*) Gazeta do Povo