O REI DA COCADA PRETA

O capitão bate na mesa

Bolsonaro mostra aos generais quem manda e imobiliza adversários de 2022

Enquanto novas pesquisas de popularidade não vêm, o presidente Jair Bolsonaro bateu na mesa, mostrou aos generais quem manda, manteve seus filhos nomeando pessoas-chave e, engrenando uma segunda, na contramão do que dissera na campanha, deixou claro que vai disputar a reeleição.

Os ambientes e a oportunidade do lançamento à reeleição foram escolhidos a dedo: na cidade onde cresceu, a pequena Eldorado (SP), e na Marcha para Jesus, na capital paulista. Dos 57 milhões de votos que Bolsonaro teve, em torno de 22 milhões são atribuídos aos evangélicos. As imagens só poderiam ser o que foram: festa, aplausos, apoio emocionado.

Quanto à oportunidade: quando o governador João Doria começa a botar as manguinhas de fora, o ministro Sérgio Moro está na palma da mão do presidente e o vice Hamilton Mourão anda quieto como nunca. Detalhe: Bolsonaro falou em reeleição dele, não da chapa dele. Assim, demarcou território, botou os potenciais adversários nos devidos lugares e jogou a isca para seus eleitores e seu rebanho.

Demite um general daqui, outro dali, o capitão presidente está preocupado mesmo é com sua base eleitoral, incluídas as tropas, não os chefes militares. Quando o general Santos Cruz (defenestrado da Secretaria de Governo) acusou o governo de ser “um show de besteiras”, muitos concordaram plenamente, mas Bolsonaro deu de ombros.

Personagem central já na campanha, o também general Augusto Heleno tinha a missão de dar conselhos, segurar os excessos e corrigir erros do presidente como a tal base militar dos EUA. Era assim. Agora, Bolsonaro manda, Heleno escuta. Para completar, Bolsonaro empurrou o general Floriano Peixoto para os Correios e pôs no seu lugar na Secretaria-Geral da Presidência o major PM Jorge Oliveira, amigão da família e ex-assessor do gabinete do “03”, deputado Eduardo Bolsonaro. Trocar um general do Exército por um major da PM na mesma função é esquisito, mas o presidente deu o seu recado: o governo é dele, ele faz o quer.

Outra mudança curiosa foi na articulação política: sai o deputado e chefe da Casa Civil, Onyx Lorenzoni, entra o general de quatro estrelas da ativa Luiz Eduardo Ramos, outro amigão do presidente. Ninguém aposta um tostão furado na permanência de Onyx por muito tempo no Planalto.

O ministro, porém, não tem do que reclamar. Diferentemente do general Juarez Cunha e do economista Joaquim Levy, ele não foi demitido pela imprensa. E, diferentemente dos generais Santos Cruz e Franklimberg de Freitas, ex-Funai, nem mesmo foi demitido. Vai ficando, comemorando a troca da articulação política pelo PPI, o programa de parceria de investimentos, bem estruturado, com cronograma definido e bilhões de reais à mão. A troca foi boa? Há controvérsias.

De toda forma, Onyx se livrou de um abacaxi, porque, seja um deputado, seja um general da reserva, seja um da ativa, não adianta. O problema da articulação política não é do titular, mas no presidente, que passou 28 anos na Câmara, mas se recusa a fazer política, a boa política.

No Congresso, a pergunta que não quer calar é: por que o presidente descarta o “banco de talentos” indicado por parlamentares, mas um só deputado, o “03”, já nomeou o chanceler, o primeiro e o segundo ministro da Educação, o presidente do BNDES e, agora, o secretário-geral da Presidência?

Câmara e Senado trabalham a pleno vapor, como, justiça seja feita, algumas áreas técnicas do governo. Enquanto isso, o presidente está no palanque, com criancinhas no colo, fazendo flexões, envolto por multidões e metido em camisas do Flamengo. Se a economia se recuperar, pode até dar certo. Se não, parece pouco para garantir a reeleição.*

(*) Eliane Cantanhêde, O Estado de S.Paulo

FALSIFICAÇÃO BARATA DA HISTÓRIA

‘Democracia em Vertigem’: o retrato de uma geração verdadeiramente perdida

Resultado de imagem para impeachment de dilma foi golpe - charges

Ao ver os créditos de Democracia em Vertigem, sobre o ocaso de Lula, Dilma e PT, sobre o “golpe”, sobre o inescrupuloso Sergio Moro “treinado nos Estados Unidos”, sobre a ascensão do neofascismo tupiniquim, etc., a vontade que senti foi a de me juntar à Turma do Óbvio e apontar os vários equívocos do documentário. A começar pela voz soporífera da narradora, roteirista, diretora, produtora e pessoa-cheia-de-boas-intenções Petra Costa. Depois, fui tomado pelo desejo de expor toda a hipocrisia da narrativa ao retratar uma esquerda que insiste na vitimização e na exaltação de virtudes que não resistem a um escrutínio.

Muito mais desafiador e interessante, contudo, é ver, analisar e exaltar o lado bom do documentário. E ele tem mais de um. A começar pela narrativa em primeira pessoa da própria cineasta que, com a voz mais humilde possível, tenta se passar por uma pobre filha de nobres e abnegados trabalhadores de classe média transformados em guerrilheiros e que lutaram bravamente contra a ditadura militar para que ele, o líder das massas, o imaculado Luiz Inácio, chegasse ao poder e matasse a fome de todos.

É cena, claro. Petra Costa é filha de uma multimilionária herdeira do Grupo Andrade Gutierrez, Marília Andrade, e, por consequência, neta de Gabriel Andrade, um dos fundadores da empreiteira. Marília, aliás, foi casada com Luis Favre, franco-argentino que ficou famoso por ter sido o pivô da separação de Marta e Eduardo Suplicy, mas cuja atuação na esquerda brasileira remonta aos anos 1980.

Aqui e ali, Petra Costa acaba por confessar sua origem oligárquica, até porque não teria como escondê-la hoje em dia. Mas, como disse, a forma como ela tangencia , deturpa e intencionalmente ignora esses detalhes autobiográficos tem lá seu lado bom. Porque revela como pensam e se veem milhares de ricos militantes petistas que insistem nos velhos ideais do marxismo e que, por inércia, repetem os novos slogans desta ideologia há 150 anos revolucionária e assassina. Do conforto de seus apartamentos em Paris ou Nova York, herdeiros de conglomerados capitalistas se veem como escolhidos capazes de levar a Humanidade a um outro patamar – patamar este que eles mesmos estabelecem e que são por princípio nobres e justos, desde que não ameacem seus luxos. Para essas pessoas, a vida é uma narrativa e a sociedade é um experimento no qual o indivíduo é mero tubo de ensaio.

Não tenho nada contra o fato de Petra Costa ser rica. Muito pelo contrário. Estou entre os que defendem que não seja cobrado qualquer imposto sobre herança ou grandes fortunas, por exemplo. Apenas ressalto aqui o caráter privilegiado da cineasta-narradora para demonstrar algo que, de Mencken a Roberto Campos, passando por Rothbard, Orwell e até Millôr Fernandes, outros já demonstraram com mais talento e profundidade: o socialismo, seja como realização de um projeto seja como narrativa, é um luxo. E, no final das contas, Democracia em Vertigem nada mais é do que lamúria pelo parquinho de diversão perdido. (O parquinho, neste caso, é o Brasil).

Paz e compaixão sincera

Outro lado bom é que Democracia em Vertigem transmite certa paz ao espectador sensato. A paz de perceber que, por ser incapaz de fugir ao pensamento simplista e maniqueísta para o qual a ação humana é determinada por vilões e heróis muito bem delimitados, por não conseguir compreender a menor das nuanças e insistir em ver o mundo como uma luta entre opressores e oprimidos, a esquerda se mostra inapta a aprender com os erros e, por consequência, a reconstruir um ideal que um dia os possa levar de volta ao poder.

Por fim, o terceiro lado bom de se passar duas horas diante da televisão assistindo a Democracia em Vertigem é que o documentário é capaz de exercitar o combalido músculo da compaixão – naqueles que ainda o têm, claro. Não, não estou sendo irônico. O maior mérito do filme é, de fato, substituir no espectador a onipresente e pervasiva raiva por uma sincera compaixão.

Porque Petra Costa, com sua narrativa cheia de lugares-comuns, delírios conspiratórios e pieguice, acaba por explicar como nasce e se desenvolve e se consolida a mente petista-revolucionária. E é um processo inquestionavelmente duro e sofrido, por mais que se tenha apartamentos em Paris e por mais que se receba uma bela mesada pela iniciativa capitalista bem-sucedida do vovô.

O processo todo começa com boas intenções catalisadas por uma ou mais tragédias. No caso de Petra, essa combinação estava nos pais, guerrilheiros marxistas que viram seus mentores serem assassinados pela ditadura. Dessa mistura nasceu a menina já com a estrela vermelha no peito, fadada ao romantismo da causa operária, inabalável em seu bom-mocismo, por mais que paredões e Mensalões provassem o contrário.

Me compadeço, sim. Porque, em Democracia em Vertigem, fica claro que Petra Costa não teve escolha. Muito antes de as redes sociais darem origem a uma legião de zumbis viciados em política, os pais da cineasta já arriscavam a vida em nome dessa coisa intangível e demoníaca, o que, evidentemente, corrompeu para sempre a visão que ela tinha de liberdade. Ela só pôde seguir os passos de seus genitores e acreditar na santidade de um líder popular – a realização de um ideal aprendido nos melhores bancos escolares, com os piores professores.

E este é o verdadeiro drama do documentário. Democracia em Vertigem talvez pretenda, como andei lendo por aí, consolidar uma narrativa mentirosa e até mesmo santificar um líder corrupto. Sem querer, contudo, o filme mostra toda uma geração corrompida por pais, professores e líderes inescrupulosos, levada a acreditar na superioridade do coletivo sobre o indivíduo, do material sobre o espiritual, da igualdade sobre a diferença, etc. Uma geração para a qual a realidade tem que se adaptar a uma história oblíqua contada por uma narradora de voz tão infantil quanto sua percepção de mundo a fim de que nessa realidade se encaixem seus sonhos e frustrações.

Uma geração verdadeiramente perdida.*

(*) Paulo Polzonoff Jr. – Gazeta do Povo

 

FILME ANTIGO

Tesoureiro do PSL lida com disputa por verba

Resultado de imagem para TESOUREIRO DE PARTIDO POLITICO - CHARGES

O PSL que emergiu das urnas vai administrar cerca de R$ 740 milhões de fundos públicos nos próximos quatro anos. Por isso, profissionalizou sua tesouraria. Sob as ordens do deputado federal Luciano Bivar (PE), José Tupinambá Coelho, ex-diretor da seguradora Excelsior, que tem o presidente do partido como acionista, será o dono do dinheiro, informa O Globo. “A administração de uma grande quantidade de recursos é uma desafio para um partido que não tem estrutura. A forma como esse dinheiro será distribuído pode gerar disputas internas de poder”, diz o economista Bruno Carazza, autor do livro Dinheiro, eleições e poder.

E já gera. O deputado federal Julian Lemos, presidente do PSL na Paraíba, já afirmou que o Nordeste precisa da sua parte para levantar o nome do partido na região.*

(*)  Estadão

SÃO TODOS CONTRA A LAVA JATO

Os ancestrais da Lava-Jato

Vale a pena discutir a tese de Luiz Werneck Vianna, que compara operação ao tenentismo nos anos 20

Resultado de imagem para lava jato - sponholz
Por ter sempre defendido a Operação Lava-Jato, sofri algumas críticas por não tê-la condenado agora, com o material divulgado pelo Intercept.

Na verdade, escrevi dois artigos sobre o tema. Provavelmente, não os acham adequados aos tempos de julgamento rápido e linchamento em série que a atmosfera da rede propicia. Há algumas razões para isso. Uma de ordem pessoal: o trabalho — às vezes imerso na Mata Atlântica e em outros biomas — não me permite olhar o telefone de cinco em cinco minutos.

Há também uma razão de ordem prática: o próprio Glenn Greenwald, o jornalista que apresenta as denúncias, anunciou que tem um grande material sobre o tema e que vai divulgá-lo até o fim. Possivelmente, dada a dimensão, talvez compartilhe a análise com outras empresas de comunicação.

Portanto, Greenwald anuncia um jogo longo. Estamos apenas na primeira parada técnica. No final da partida, voltamos a conversar.

No momento, não me importo que me julguem rapidamente, pois esse é o espírito do tempo. Nem que me culpem por apoiar a Lava-Jato. De um modo geral, as pessoas que o fazem são as mesmas que culpo por omitirem os erros da esquerda, sobretudo a colossal roubalheira que tomou conta do país nos últimos anos. Portanto, jogo jogado.

No entanto, vale a pena discutir, por exemplo, a tese do cientista político Luiz Werneck Vianna, que compara o papel da Lava-Jato ao do tenentismo nos anos 20. Na época em que ele lançou essa ideia, por coincidência, eu estava lendo o livro de Pedro Doria sobre o tenentismo. Concorde-se ou não com as teses de Werneck, ele lança um tema que merece ser discutido e estudado porque nos remete a alcance histórico mais longo que a sucessão diária no Twitter.

Werneck tem uma visão crítica da Lava-Jato. Considera que o objetivo dos procuradores é mais corporativo e que se esforçam para concentrar poder e, possivelmente, benefícios.

Mas se examinamos o momento mais tenso do tenentismo, a Revolta dos 18 do Forte, veremos que também eles costumam ser classificados de corporativistas. Em tese, estariam reagindo às criticas oficiais que maculavam a honra dos militares.

O tenentismo repercute por toda a década de 20 em espasmos distintos, inclusive a Coluna Prestes. Muitos dos integrantes do movimento são nome de rua em várias cidades do país.

O tenentismo lutava contra um poder concentrado na oligarquia de Minas e São Paulo, a chamada aliança café com leite. A Lava-Jato já encontra tantos anos depois um sistema mais bem distribuído nacionalmente e atinge quase todos os partidos.

Quando a candidatura de Nilo Peçanha enfrenta a oligarquia, existe uma tentativa de conquista da opinião da classe média para as teses do que se chamava Reação Republicana.

Aqui de novo uma grande diferença. A inspiração da Lava-Jato foi a Operação Mãos Limpas, na Itália. Nela estava contida também a necessidade de convencer a opinião pública.

Os meios de hoje são mais potentes, e a própria opinião pública, mais articulada e desenvolvida. Os tenentes estavam dispostos à ação armada, ainda que em condições dramaticamente desfavoráveis.

A Lava-Jato optou pelo caminho legal. O que realizava na prática era passível de confirmação ou veto pelas instâncias superiores. Havia nela o mesmo fervor dos tenentes que esperavam com ação consertar o Brasil.

Dentro do quadro jurídico, ela sobreviveu até agora. Os julgamentos de seus atos foram públicos.

No momento, sofre um ataque especial. Dificilmente um movimento histórico dessa dimensão não se desgasta com a divulgação de conversas íntimas que se acham protegidas da divulgação.

Lendo o livro sobre o gênio político de Abraham Lincoln, a sensação é de que, se algumas conversas fossem vazadas como hoje, também seriam incômodas. Para abolir a escravatura, foi preciso um toma lá dá com parlamentares, ainda que em número pequeno.

Isso não justifica nada. Apenas reforça a tese de que um julgamento depende de dados, de um contexto e, sobretudo, de verificação de sua autenticidade.

Por que tanta pressa, se garantem que é devastador o material contra a Lava-Jato?*

(*) Fernando Gabeira – O Globo

MOFANDO NO XILINDRÓ

Adiado julgamento da suspeição de Moro

O ministro Gilmar Mendes, do STF, decidiu que não vai devolver para julgamento nesta terça-feira, 25, o processo no qual a defesa do ex-presidente Lula pede anulação da ação penal do caso do triplex do Guarujá (SP) sob argumento de que o então juiz Sérgio Moro não agiu com imparcialidade. Conforme o Estadão, o ministro decidiu tomar essa decisão após a presidente da Turma, a ministra Cármen Lúcia, colocar o julgamento do habeas corpus como 12.º item da pauta. Assim, mesmo que o pedido de vista de Gilmar fosse devolvido, não daria tempo de o caso ser analisado amanhã. A previsão é de que a Segunda Turma da Corte só analise o tema após o recesso do Judiciário, a partir de agosto.

O fato de envolver um réu preso, o que geralmente dá caráter de urgência à análise do habeas corpus, não obriga o Supremo a julgar o tema o quanto antes porque, segundo ministros consultados pelo Estadão, Lula já foi condenado em segundo grau.*

(*) Estadão

BABACA É QUEM NÃO ESTÁ LÁ…

Não tem tonto no Planalto

Bolsonaro não se aproveita só do desgaste de Moro para se posicionar como força eleitoral

Jair Bolsonaro flerta com a reeleição e desfila simpatia nas ruas. No sábado (22), deu uma escapada para comprar xampu em um supermercado. Ao mesmo tempo o ministro da Justiça, Sergio Moro, potencial nome para a disputa presidencial de 2022, está cada vez mais encurralado pelas mensagens comprometedoras trocadas com a Lava Jato.

Bolsonaro não se aproveita só do desgaste de Moro para se posicionar como o nome governista com força eleitoral. Outros fatores têm estimulado o presidente a sair da toca.

Ao aumentar as aparições públicas e o diálogo rotineiro com a imprensa, por exemplo, Bolsonaro busca reagir ao isolamento e às derrotas que o Congresso tenta lhe impor. Não à toa, avisou que não será uma rainha da Inglaterra. Já caiu a ficha.

Bolsonaro diz que Moro é “patrimônio nacional” e tem seu apoio na crise. Cada declaração de respaldo ao ministro, no entanto, é sucedida de uma revelação de diálogos delicados do ex-juiz com Deltan Dallagnol, coordenador da Lava Jato.

No domingo (23), a Folha e o The Intercept Brasil mostraram que Moro e Deltan discutiram detalhes de estratégia envolvendo delações da Odebrecht e o seu rumo no STF.

Moro passou (informalmente) pista para investigadores, sugeriu a troca de uma procuradora nos interrogatórios, deu orientações sobre manifestação do MPF à imprensa, reclamou de demora em nova operação policial e sinalizou certa proteção ao ex-presidente FHC (PSDB).

O ex-juiz diz que não confirma a autenticidade das mensagens, mas não a nega. O seu conteúdo, segundo ele, não configura ilicitude. Moro adotou narrativa peculiar. Não quer ratificar que não fez nada de errado.

No Reino Unido, o conservador Boris Johnson, favorito para virar premiê, está no sal depois da notícia de que a polícia foi chamada por vizinhos para averiguar um bate-boca dele em casa com a namorada. Lá, a régua costuma ser outra. Por aqui, quem levar a sério algo parecido envolvendo político brasileiro corre risco de ser chamado de tonto.*

(*) Leandro Colon, Folha de São Paulo

A FILA ANDOU

Onyx: prestigiado ou queimado?

A saída de Onyx Lorenzoni do dia a dia da articulação política, acompanhada de outras mexidas abruptas no organograma do Palácio do Planalto, com a saída de dois generais do primeiro escalão, suscitou a dúvida sobre se o titular da Casa Civil estaria também entrando no caldeirão de fritura de aliados de Jair Bolsonaro, cada vez maior e mais borbulhante.

A checagem com espectros amplos da política, no entanto, não permite chegar a essa conclusão. Mesmo desafetos históricos de Onyx apontam que, ao ganhar como atribuição coordenar o PPI, antes com o general Santos Cruz, Onyx fica com uma espécie de galinha dos ovos de ouro num governo ainda sem grandes coisas a anunciar. A saída do manejo diário da articulação política também o poupa de desgaste, mas não faz com que saia do aconselhamento estratégico de Bolsonaro nesse campo, nem da negociação com grandes atores do parlamento e do Judiciário, garantem aliados e colegas. Além disso, caberá a Onyx implementar o “centro de governo”, coordenação gerencial que é um dos pressupostos para a entrada do Brasil na OCDE. Por fim, Bolsonaro garantiu que ele está fortalecido –o que não é garantia de longevidade no cargo, mas ao menos afasta o risco de fritura imediata.*

(*) Vera Magalhães – Estadão

DOIS PRODÍGIOS

“Conspiração” é o único assunto em que Lula e Bolsonaro concordam em discordar

Resultado de imagem para bolsonaro - - burro - charges

É por isso que adoro romances de espionagem. Partem de tramas tão intrincadas que, já na segunda página, nos esquecemos de como elas são improváveis. O inglês John Le Carré é o mestre do gênero. Ou era —porque, agora, temos Lula e Jair Bolsonaro.

Há dias, Adélio Bispo de Oliveira, autor da facada no candidato Bolsonaro em Juiz de Fora, em 2018, foi absolvido pelo Código de Processo Penal por ser inimputável, portador de uma doença mental. Ficará num presídio de segurança máxima, mas isso só reforçou a dúvida do ex-presidente Lula sobre se houve mesmo a facada. “Não aparece sangue…”, insinuou ele, numa entrevista.

FALSA FACADA – Para Lula, o golpe em Bolsonaro deve ter sido feito com uma faca retrátil, de teatro, daí a falta de sangue. Para tornar a história plausível, armou-se previamente uma conspiração envolvendo o povo de Juiz de Fora, a equipe do hospital local, os que transportaram Bolsonaro para São Paulo, o pessoal do Albert Einstein que simulou operá-lo e os funcionários dos laboratórios que fingiram analisar suas tripas. Quem seria o cérebro por trás disso? Milhares de pessoas tomaram parte na farsa e, incrível, até hoje ninguém quebrou o pacto de silêncio.

O presidente Bolsonaro, por sua vez, também não admite a sentença. Para ele, Bispo foi apenas a mão que lhe cravou a faca. Por trás dela, haveria uma rede envolvendo o PT, o PC do B, o PSOL, o centrão, os ideólogos, sindicalistas, professores, jornalistas, cientistas de humanas, atores, cantores, índios, ecologistas, pacifistas, gays, lésbicas, praticantes de sexo urinário e idiotas em geral. Todos se articularam para que um ativista contratado o esfaqueasse entre milhares de pessoas e fosse preso ou linchado. E, para disfarçar, confiaram a tarefa a um —este, sim, reconhecidamente— idiota.

Tanto para Lula quanto para Bolsonaro, os psiquiatras que examinaram Bispo também devem estar na conspiração. E louco é o Bispo.*

(*) Ruy Castro – Folha de São Paulo