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Falta de partido forte difere Bolsonaro de líderes nacionalistas

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Uma das maiores diferenças entre Jair Bolsonaro e líderes nacionalistas da direita internacional está na sua incapacidade de, ao menos até agora, ter conseguido construir um partido poderoso ou liderar uma agremiação pré-existente com força política para governar o Brasil. O presidente sequer integra uma sigla e apenas ambiciona lançar a Aliança pelo Brasil.

Basta observar lideranças populistas ao redor do planeta para ver o contraste. O húngaro Viktor Orbán, que talvez seja o mais bem-sucedido de todos, comanda o Fidesz. Este partido de direita conservadora nacionalista, que significa Aliança Cívica da Hungria, serve de exemplo para Bolsonaro com a sua ainda inexistente Aliança pelo Brasil. A diferença é que esta agremiação húngara surgiu como liberal nos anos 1980 para se opor ao regime comunista. Demorou anos para ser construída. Orbán assumiu o comando no final da década seguinte e foi um premier relativamente moderado até 2002, quando voltou para a oposição.

Ao longo dos oito anos seguintes, Orbán se tornou um vanguardista ao dar uma guinada nacionalista de direita, abdicando do liberalismo. Retornou ao poder com o Fidesz em 2010 e implementou o que ele próprio chama de democracia “iliberal”, com uma agenda ultraconservadora, contra o liberalismo — com o sentido americano de “progressista” da palavra. Virou símbolo do “antiglobalismo”, ou soberanismo. Das 199 cadeiras da Assembleia Nacional em Budapeste, o partido tem 117. Junto com um parceiro menor, a coalizão alcança 133 assentos, ou cerca de dois terços do total. Algo incomparável a Bolsonaro no Brasil.

Matteo Salvini, outro integrante do movimento de extrema direita nacionalista europeu, herdou o comando da Liga do Norte, que passou a adotar apenas a nomenclatura Liga nos últimos anos. Este partido nasceu com base no Norte italiano há três décadas, adotando uma postura preconceituosa em relação ao Sul. Nas eleições de 2018, passou a propagar posições xenófobas, ampliando sua base para o restante do país. Chegou a participar do governo. Ao tentar uma estratégia política para convocar eleições e se tornar premier, fracassou. Está na oposição. Ainda assim, lidera um partido poderoso.

Outros exemplos de lideranças da direita nacionalista com partidos fortes dentro e fora do poder podem ser encontrados na Polônia, com o PiS (Lei e Justiça), na França com antiga Frente Nacional de Marine Le Pen, e na Turquia com o AKP de Recep Tayyip Erdogan. Isso para não falar de Donald Trump, que basicamente remodelou o Partido Republicano. Na Espanha, também começa a emergir o Vox, que se tornou a terceira força política do país com poucos anos; na Alemanha, o AfD.

Filipe Martins, assessor de assuntos internacionais de Bolsonaro, é um estudioso e entusiasta destes movimentos que ele chama de soberanistas na direita europeia. Já demonstrou simpatia pelo Fidezs, pelo PiS e pela Liga no passado. Eduardo Bolsonaro, que é discípulo de Martins, também buscou se aproximar de Orbán e Salvini. Ambos passaram a ser orientados por Steve Bannon, que é o grande articulador deste movimento. Possivelmente, o nome Aliança pelo Brasil tenha sua origem não na Arena, como dizem alguns, mas em Szövetség, de Aliança, em húngaro, que dá nome ao Fidesz. O desafio será fazer em poucos anos o que o partido húngaro demorou décadas para conseguir. E tendo como líder Bolsonaro, não um político hábil como Orbán.*

(*) Guga Chacra – O Globo