PIRAÇÃO TOTAL E IRRESTRITA

A insanidade no Poder

A violência verbal e física de poderosos pode fazer do Coringa não só uma máscara de Carnaval
A violência verbal e física de poderosos pode fazer do
Coringa não só uma máscara de Carnaval | Reprodução

Falta sanidade a quem controla os destinos da cidade, do estado e da nação. E isso é perigoso. Porque dá à população a sensação de que é válido usar a máscara do Coringa e sair por aí xingando e vandalizando. O Coringa já aparece em manifestações na América Latina, no Oriente Médio e na Ásia.

O Brasil é hoje governado por uma família sem freios ou limites no trato social e político. Os filhos de Bolsonaro são caixa de ressonância e de dissonância. Carlos posta no perfil do pai uma ridícula paródia sobre o “rei Bolsonaro leão” e as hienas. As hienas são juízes, políticos, jornalistas, todos os que fazem parte do jogo da democracia. O presidente pede desculpas, diz que não sabia, exime o filho. E fica por isso mesmo até o próximo espanto.

O deputado Eduardo Bolsonaro fez bem pior. Como atual líder do PSL na Câmara, ameaçou o Brasil com um novo golpe militar. “Não vamos deixar isso aí vir pra cá (os protestos de rua no Chile). Se vier pra cá, vai ter que se ver com a polícia e, se eles começarem a radicalizar do lado de lá, a gente vai ver a História se repetir. Aí é que eu quero ver como é que a banda vai tocar. Muito obrigado, senhor presidente”, afirmou Eduardo. O presidente da Câmara, Rodrigo Maia, nasceu no Chile, durante o exílio de seu pai, Cesar Maia, pela ditadura brasileira.

Na manhã desta quinta-feira, Eduardo insistiu. “Se a esquerda radicalizar, a resposta pode ser via um novo AI-5”. O Ato Institucional número 5 inaugurou o período mais sombrio de nossa ditadura. Legalizava repressão, tortura, censura, estado de sítio por tempo indeterminado, cassação de mandatos, fim de habeas corpus, fechamento do Congresso. À tarde, depois de o pai dizer que ele estava sonhando (com nova ditadura), Eduardo pediu desculpas e disse ter sido mal-interpretado. Esses “meninos”…

Flávio sumiu, todos sabemos. O pai tem medo que ele seja preso, acha que “todos” conspiram para isso. O Queiroz e as rachadinhas obrigaram o senador a submergir. Opera só nos bastidores, para que as investigações de desvio de dinheiro público não comprometam a bandeira de anticorrupção. Opera e se dá bem com ministros do STF, o mesmo Supremo que o irmão Eduardo disse que, para fechar, “basta um soldado e um cabo”. O mesmo Supremo que, no perfil do pai presidente, controlado por Carlos, não passa de uma hiena.

O capitão Jair Bolsonaro foi expulso do Exército. Admitiu atos de indisciplina e deslealdade com seus superiores, ao publicar artigo pedindo aumento salarial para a tropa e ao afirmar que ele e outro oficial tinham elaborado um plano para explodir bombas-relógio em unidades militares no Rio de Janeiro. Depois, disse que não passavam de “espoletas”. Bolsonaro foi preso por 5 dias por “ter ferido a ética, gerando clima de inquietação na organização militar” e “por ter sido indiscreto, comprometendo a disciplina”. De quem Eduardo puxou a incontinência verbal, a adoração por armas, o autoritarismo e a indisciplina? De quem será?

As más línguas disseram que Jair foi expulso por ser “maluco”. Injustiça, não? O descontrole não é exclusivo do presidente Bolsonaro. O governador do Rio, Wilson Witzel, sobe camuflado em helicóptero militar e diz que agora é “atirar na cabecinha” de quem portar uma arma. Se o tiro matar uma criança, abre um inquérito. O prefeito Marcelo Crivella destrói com retroescavadeiras e marretas a praça do pedágio da Linha Amarela. Cancelas e guaritas foram para o espaço. Muita gente acha que Crivella surtou.

Se o Poder acha que pode agir como maluco e black bloc, como se precisasse de um calmante tarja preta ou de uma camisa-de-força, qual é a mensagem de violência verbal e física que está passando? O Coringa pode não ser apenas uma máscara no próximo Carnaval. Pode invadir as ruas com seu riso. Sinistro.*

(*) Ruth de Aquino – O Globo