O MAIS IMPORTANTE É A INFORMAÇÃO

Risco maior é o pânico

Desinformação se espalha mais rápido que o novo coronavírus e dificulta contenção da epidemia

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O comitê de emergência da Organização Mundial da Saúde se reúne hoje em Genebra para decidir se considera “emergência global” a epidemia da nova variante do coronavírus que se espalhou nos últimos dias a partir da cidade de Wuhan, na China (chamado 2019-nCov).

Com 170 mortes num total de 7.783 casos registrados até ontem (2,2%), o 2019-nCov tem se revelado menos letal que a variante responsável pela epidemia de Síndrome Respiratória Aguda (Sars), que matou 774 dos 8.098 infectados (9,6%) em 2003. Em compensação, o novo vírus parece tão contagioso quanto a variante anterior. O fato de matar menos pode contribuir para que se espalhe mais, já que ele fica incubado entre 6 a 14 dias nos infectados, sem sintomas aparentes.

O Ministério da Saúde anunciou ontem que há pelo menos 9 casos suspeitos sob investigação no Brasil, nenhum deles confirmado. Companhias aéreas suspenderam voos para a China, e a vigilância foi reforçada em portos e aeroportos. Medidas básicas de higiene e isolamento dos infectados, já adotadas no caso da Sars, poderão funcionar para conter a epidemia.

O principal fator que tende a dificultar o trabalho dos profissionais de saúde é a desinformação. Por enquanto, apesar de casos suspeitos já terem sido confirmados em mais 19 países, o grosso se concentra na China. É lá que estão 98,7% dos 7.783 infectados até ontem. Só a província de Hubei, onde fica Wuhan, concentra 59%. Fora da China foram detectados apenas 105 casos. Nenhum deles resultou em morte.

Embora as autoridades chinesas tenham demorado a reconhecer a extensão da ameaça e demorado para agir (leia mais aqui), as medidas de quarentena e inspeção deverão começar a surtir efeito nos próximos dias. No caso da Sars, o mecanismo levou algumas semanas para demonstrar eficácia, mas funcionou.

A opacidade do governo chinês para lidar com o risco desde o aparecimento dos primeiros casos, em dezembro, contribuiu para despertar uma onda de boatos. Eles têm se espalhado pelas redes sociais e sites de reputação duvidosa com velocidade bem maior que o próprio vírus. Entre as teorias da conspiração mais disseminadas, estão as que atribuem o desenvolvimento do vírus a um laboratório militar chinês ou a cientistas canadenses, além de gráficos falsos, fabricados para exagerar o risco (o G1 publicou um guia do que é #FATO ou #FAKE).

Tudo isso contribui apenas para disseminar o pânico numa situação que, embora preocupante, está longe de oferecer risco comparável ao de epidemias devastadoras, como a gripe espanhola do início do século XX ou a peste bubônica na Idade Média. Ainda que a OMS declare a situação de emergência, o pânico não ajuda em nada o combate ao coronavírus.

Apesar de ter superado a Sars em velocidade de contágio, o novo vírus tem sido menos letal, em especial entre as crianças. Uma hipótese é que alguma vacina comumente aplicada na infância também ofereça proteção indireta – ideia usada para acelerar pesquisas de uma vacina contra o 2019-nCov. Boa parte dos pacientes que morreram estava sujeita a outras infecções ou doenças.

O impacto mais garantido da epidemia de coronavírus será econômico. As medidas de controle da epidemia isolaram pelo menos 56 milhões de chineses, numa região que funciona como entroncamento na rede de transportes e centro de produção industrial, com fábricas da Nissan, Honda e General Motors, além da maior fabricante global de cabos para redes de comunicacão.

A província de Hubei, praticamente paralisada, é responsável por 4,5% do PIB chinês, cujo crescimento já tem deixado a desejar. Na época da epidemia de Sars, a China respondia por apenas 4% da economia global. Hoje são 16%. Não é à toa que as bolsas e mercados financeiros tenham sofrido um baque.

As indústrias de turismo e entretenimento estão entre as mais afetadas. Centros como Xangai e Cantão estenderam o feriado do Ano Novo Lunar como medida de precaução. Fábricas e lojas permanecem fechadas. A retomada plena das atividades está prevista apenas para 10 de fevereiro. Até lá, os riscos estarão mais claros, e a epidemia, assim esperemos, poderá ter sido contida.*

(*) Helio Gurovitz – G1

BRIGA DE QUADRILHA

Rodrigo Maia ironiza Salles e Weintraub, que a seu ver fragilizam o governo Bolsonaro

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O presidente da Câmara dos Deputados, Rodrigo Maia (DEM-RJ), disse nesta quarta-feira que os ministros do Meio Ambiente, Ricardo Salles, e da Educação, Abraham Weintraub, radicalizaram demais e perderam a condição de interlocução, fragilizando a posição do governo do presidente Jair Bolsonaro em duas áreas que avalia como fundamentais.

Em evento do banco Credit Suisse em São Paulo, Maia afirmou que o crescimento econômico pode ser menor que o esperado neste ano por causa da questão ambiental e que a atuação de Weintraub no MEC manda um sinal ruim para investidores.

SEM CONDIÇÕES — “Eu não sei como o governo vai fazer com o seu ministro do Meio Ambiente. Acho que, de alguma forma, ele perdeu as condições de ser o interlocutor. Acho que ele radicalizou demais, não sei se combinado com o presidente ou não. A mesma coisa com o Ministério da Educação “— disse Maia.

O presidente da Câmara afirmou, ainda, que Weintraub pode desestimular investidores que desejam apostar no Brasil. “Como é que faz para o investidor olhar que o Brasil tem um ministro da Educação desse? Então, esse país não tem futuro. E parece que tem um passado ruim, porque conseguiu fazer um cara desse ministro da Educação. Que construção que nós tivemos” — disparou.

Maia disse que tem escutado tanto de investidores quanto de representantes de Parlamentos estrangeiros com quem tem conversado preocupação com a questão ambiental no Brasil. Ele, no entanto, centrou fogo principalmente em Weintraub. “Ele ainda critica o PT de forma injusta, porque como ele trabalhava no banco que o Banco do Brasil comprou 49% quando ia quebrar, o Votorantim, quem garantiu o emprego dele em 2009 foi o PT” — ironizou o presidente da Câmara.

TERCEIRA VIA – Maia disse que vê espaço para uma candidatura de “terceira via”, do chamado centro, que consiga romper uma polarização entre Bolsonaro e o PT e citou entre os possíveis candidatos de centro o apresentador Luciano Huck, o governador de São Paulo, João Doria (PSDB), e o ex-governador do Ceará Ciro Gomes (PDT).

“Eu acho que vai ter um espaço importante para uma terceira via, que aí se chamou de centro, fora a posição mais extrema entre o governo e o PT” — avaliou: “Acho que se o PT perder alguma força, atrapalha a polarização com o outro extremo, e se esse centro aqui não estiver dividido, ele vai ter uma candidatura viável. Não dá para ter três, quatro candidatos (de centro).

CANDIDATOS – Maia citou entre os possíveis candidatos deste campo de centro o apresentador de TV Luciano Huck (sem partido), o governador de São Paulo, João Doria (PSDB), e o ex-ministro da Fazenda e ex-governador do Ceará Ciro Gomes (PDT), que foi derrotado no primeiro turno na eleição presidencial de 2018.

“Então neste campo aqui, acho que tem que juntar aqui para ter um candidato que represente um centro liberal, com uma agenda olhando, claro, a questão social, porque um país pobre como o nosso não dá para ser uma agenda exclusivamente econômica” — afirmou.*

(*) Eduardo Simões
da Reuters

E NO PAÍS DA PIADA PRONTA

Carluxo nega

O 02 do Bozo, vereador (RJ) Carlos Bolsonaro,  negou ter pedido um novo cargo para Vicente Santini, comentando educadamente no Twitter:

“Teu cú”.

A PROPÓSITO

Acentuando o substantivo masculino, até parece que ele não entende bem de, de, digamos, português.

BOÇALIDADE REINANTE

Damares e o ‘risco de dar certo’

Damares Alves postou em seu Twitter uma reportagem da agência Reuters com o título “Proposta de Damares de abstinência sexual de jovens virá como complementar, mas especialistas veem riscos”.

A ministra ironizou o enunciado: “O risco de dar certo, né? Nunca foi tentado no Brasil, oras. Vamos dialogar.”*

(*) Crusoé

A PROPÓSITO

A FILA ANDOU…

Bolsonaro não frita Onyx Lorenzoni, esquarteja-o

A Casa Civil de Jair Bolsonaro cheira mal. Não é cheiro de queimado. Dessa vez, o odor é de sangue. O capitão decidiu submeter Onyx Lorenzoni a uma nova modalidade de suplício. Em vez de fritar, Bolsonaro submete o ministro a um processo de esquartejamento.

No início do governo, Onyx imaginou que exerceria no time de Bolsonaro o papel de craque do meio de campo. Concentraria os poderes de articulador político, revisor dos atos presidenciais e coordenador da Esplanada. Deu tudo errado. Nesta quinta-feira, Onyx foi enviado à enfermaria num instante em que se imaginava em férias.

No esplendor de suas ilusões, Onyx estimou que articularia uma tropa de cerca de 350 deputados, 42 acima dos 308 necessários para aprovar emendas constitucionais. Bolsonaro cortou-lhe um braço quando transferiu a coordenação política para um general: primeiro, Santos Cruz. Agora, Luiz Eduardo Ramos.

Na sequência, o presidente quebrou uma perna de Onyx ao privar a Casa Civil da atribuição de revisar projetos, medidas provisórias e decretos. Ex-subchefe para Assuntos Jurídicos da Casa Civil, o advogado Jorge Oliveira foi promovido a ministro. Levou para a pasta da Secretaria-Geral a atribuição de revisor-geral.

Bolsonaro concluiu o processo de mutilação pelo Twitter. Num único post, o presidente pôs no olho da rua dois secretários de Onyx e amputou do rol de atribuições da Casa Civil a coordenação do PPI, o Programa de Parceria de Investimentos.

Onyx tornou-se um caso raro de ex-ministro no exercício do cargo. Não reúne condições mínimas de permanecer no governo. Ou retorna ao seu mandato de deputado federal ou entra na fila do INSS como postulante de uma aposentadoria por invalidez.*

(*) Blog do Josias de Souza

UM PAÍS SEMPRE À BEIRA DO ABISMO…

A crise viajou, mas já voltou

Tudo tranquilo? Espere só: ontem de manhã, o presidente Jair Bolsonaro voltou de viagem à Índia. Já criticou pesado o presidente do BNDES (por ter contratado uma auditoria caríssima que não mostrou irregularidades), tomou um chega-pra-lá de Sergio “o candidato sou eu” Moro, recebeu informações oficiais a respeito de mal-educadíssimos bilhetes que teriam sido redigidos pelo general Santos Cruz. Não são dele, como qualquer pessoa que conheça o general sabia desde o começo; e foram encaminhados a Bolsonaro como verdadeiros pelo trio, unidíssimo, Carluxo, Wajngarten e Olavo de Carvalho.

E agora? Já demitiu faz tempo o general Santos Cruz, amigo de 40 anos, e não tem como levá-lo de volta para seu lado. Carluxo, Wajngarten e Olavo são três, mas não formam mais um trio. No caso do BNDES pode até ter razão, mas a quem responsabilizar pelo gasto de R$ 48 milhões? Quanto a Sergio Moro, Bolsonaro está de novo na fase de elogiá-lo. Mas tinha dito que havia convidado Moro só para a Justiça – logo, se quisesse dividir Justiça e Segurança Pública, o ministro não teria do que reclamar.

Moro pisou nos seus calos: Bolsonaro o havia chamado, sim, para unir Segurança Pública e Justiça, já que ambas as pastas, unidas, ganhariam força. Mas Moro é tão bonzinho que garantiu não só que não há motivo para deixar o Governo como assegurou a Bolsonaro seu apoio na luta pela reeleição. Moro é livre para dizer essas coisas. Basta que Bolsonaro acredite em lealdades eternas.

A escala dos desejos

Moro é um homem simples, de Maringá, não parece sonhar com jatinhos ou limusines. Mas deixa claro que ser nomeado ministro do Supremo, como aliás Bolsonaro havia prometido, o deixará muito feliz (de certa forma, é até melhor do que ser presidente: férias maiores, menos trabalho, salário igual, abundância de funcionários para ajudá-los a vestir a toga, a puxar a cadeira para que eles se sentem). Moro diz que ser ministro do Supremo “é uma perspectiva interessante”. Diz também que não há motivo para deixar o Governo – embora não fosse isso o que disse a amigos, há dias, quando Bolsonaro falou em separar Segurança Pública e Justiça, deixando-o apenas com a Justiça e, entre outras coisas, tomando-lhe a Polícia Federal. Por fim, prometeu apoiar o presidente Bolsonaro nas eleições presidenciais de 2022, sem reivindicar nada, nem mesmo o cargo de vice-presidente.

 E se for pouco?

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Entre os defensores da separação dos ministérios, há um velho amigo do presidente Bolsonaro: Pancrácio, apelido do deputado federal Alberto Fraga, que o chama de Cavalão e quer ser o ministro da Segurança Pública, entregando o comando da Polícia Federal ao delegado Anderson Gustavo Torres – já sugerido a Moro e vetado por ele. Façamos as contas: Anderson, vetado por Moro, no comando da Polícia Federal (com a queda do preferido de Moro, delegado Maurício Valeixo), um expoente da bancada da bala na Segurança – usufruindo dos bons índices de queda de homicídios, que Moro considera realização de sua equipe.

Feitas as contas, Moro fica ou sai? E, se sair, fica quietinho, cuidando de seu escritório de advocacia, ou se lança candidato à Presidência da República, considerando que sua popularidade é bem maior que a de Bolsonaro?

História antiga

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O marechal Eurico Dutra, ministro da Guerra da ditadura Getúlio Vargas, ajudou a depô-lo e, com seu apoio, se elegeu presidente, derrotando um forte adversário, o brigadeiro Eduardo Gomes. Passados mais de dez anos, o marechal Lott, ministro da Guerra de Juscelino, saiu candidato à Presidência, e foi visitar o marechal. Conversaram e Dutra profetizou, com sua péssima dicção: “Oxê num vai ganhá. Oxê num xabe falá”. Lott rebateu: “O sr. se elegeu e não sabe falar”. Dutra completou: “Xim, xó que eu num falava”.

Lott foi derrotado por Jânio Quadros – uma surra histórica.

Admitamos, Bolsonaro não é um grande orador, mas sabe falar e boa parte da população o entende e segue. O que ele não sabe é calar-se.

 Risco de tragédia

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O número de vítimas do coronavírus se multiplicou na China, já com centenas de vítimas. E, apesar das rígidas providências do Governo chinês, que cercou os locais onde o vírus foi encontrado e proibiu entrada e saída de pessoas, o que se sabe é que a doença cruzou as fronteiras da China e chegou à Europa. Segundo o ministro da Saúde, há casos suspeitos no Brasil. E pelo menos uma família brasileira foi localizada nas regiões bloqueadas da China. Em princípio, não há o que fazer: retirá-la (e isso se os chineses o permitissem, o que até agora não ocorreu em caso algum) seria enviar a família para local se transformasse em agente de contaminação. Houve queda nas Bolsas, sem perspectiva visível de reversão. Há queda no ritmo da produção e dos negócios. Nos Estados Unidos, para reduzir o risco de contágio, o tratamento vem sendo realizado por nanorrobôs.*

(*) Coluna Carlos Brickmann

SÓ BOLA NAS COSTAS

Proposta de Trump significa vitória definitiva de Israel, com rendição dos palestinos

Observe a imagem de Donald Trump, que enfrenta um processo de impeachment no Senado em Washington, ao lado de Benjamin Netanyahu, formalmente indiciado por corrupção em Israel. Agora, compare à de Yitzhak Rabin apertando a mão de Yasser Arafat com Bill Clinton ao fundo em 13 de setembro de 1993. Qual delas dá mais esperança de paz para a resolução do conflito entre israelenses e palestinos? A resposta é óbvia.

Paz se negocia com inimigos. Rabin, talvez o maior estadista do Oriente Médio desde a Segunda Guerra, sabia que precisava se sentar à mesa com Arafat, visto como terrorista por muitos em Israel.

UMA CHANCE À PAZ – O líder palestino, por sua vez, após décadas de luta armada, decidiu dar uma chance à diplomacia. Ambos sabiam da necessidade de fazer concessões. Tiveram sucesso inicial com os Acordos de Oslo, mas extremistas islâmicos do Hamas e também judeus como Yigal Amir, que assassinou Rabin, deram um duro golpe no processo de paz.

Em Camp David, no ano 2000, Ehud Barak e Arafat chegaram perto de uma resolução final, mas cada um dos lados culpou o outro pelo fracasso. Israel, sem dúvida, fez muitas concessões naquele diálogo mais uma vez mediado por Clinton. Os palestinos, também. Mas não chegaram a um denominador comum. George W. Bush e Barack Obama também tentaram e fracassaram.

Diante de tantos fracassos, Trump apresenta uma estratégia diferente. Não houve negociações. Impôs seus parâmetros que consistem basicamente em aceitar o status quo atual, com alguns ajustes.

ACORDO PRÓ-ISRAEL – Como o cenário proposto implica a existência dos assentamentos, o não retorno dos refugiados e Jerusalém como capital indivisível de Israel, a sua proposta claramente adota um viés favorável aos israelenses.

Os palestinos teriam de abdicar de suas três principais demandas. Primeiro, precisariam aceitar que todos os assentamentos israelenses na Cisjordânia sejam anexados a Israel. Isso sem falar no Vale do Rio Jordão, que deixaria a “Palestina” como uma ilha dentro de Israel, sem fronteira com a Jordânia, embora faça sentido para a segurança israelense.

Em segundo lugar, não terão a parte oriental de Jerusalém, de maioria árabe, como capital, por mais que Trump tenha dito que sim. Na verdade, ficarão com bairros no subúrbio da cidade. Por último, no caso dos refugiados, necessitariam abandonar o direito de retorno, algo muito forte na identidade palestina, apesar de ser inaceitável em qualquer circunstância por Israel.

SÓ PROMESSAS – O plano do presidente americano tenta compensar estas concessões com a promessa de dezenas de bilhões de dólares para o desenvolvimento do futuro Estado e áreas no Deserto do Negev. Não há possibilidade de a Autoridade Nacional Palestina e muito menos o Hamas aceitarem neste momento a proposta de Trump. Seria o equivalente a uma rendição.

Por outro lado, não há muitas alternativas aos palestinos, a não ser torcer para Trump perder as eleições. O opositor Benny Gantz concorda com o plano de Trump e, para completar, os países do Golfo Pérsico pouco estão se importando com os palestinos e já começaram a se aproximar de Israel. C

aso o presidente americano seja reeleito, restará talvez aos palestinos render-se e aceitar o status quo oficialmente no acordo de Trump ou viver sob o status quo em conflito. Esta é a realidade.*

(*) Guga Chacra
O Globo

SUBSERVIÊNCIA CANINA

Itamaraty divulga nota de apoio ao plano de Trump para Israel e Palestina

Governo brasileiro disse que acordo é ‘realista’, ‘ambicioso’ e ‘compatível com os princípios constitucionais que regem a atuação externa do Brasil’

O Ministério das Relações Exteriores viu com bons olhos o plano divulgado na terça-feira, 28, pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, para a convivência pacífica entre Israel e a Palestina. Em nota publicada nesta quarta-feira, 29, no site do Itamaraty, o governo brasileiro disse que o plano de Trump é “realista” e “ambicioso”, além de “compatível com os princípios constitucionais que regem a atuação externa do Brasil”.

“O governo brasileiro saúda o plano de paz e prosperidade, apresentado ontem pelo Presidente dos Estados Unidos Donald Trump, que configura uma visão promissora para, após mais de sete décadas de esforços infrutíferos, retomar o caminho rumo à tão desejada solução do conflito israelense-palestino”, abre a nota do Itamaraty, que vê no documento uma “iniciativa valiosa” que “permite vislumbrar a esperança de uma paz sólida para israelenses e palestinos, árabes e judeus, e para toda a região”.

Segundo o Itamaraty, o plano americano estabelece “condições econômicas indispensáveis para uma grande elevação do bem-estar do povo palestino”.

Apesar dos líderes da Autoridade Palestina (AP) e do Hamas, que controlam territórios palestinos, terem recusado as ideias de Trump, o governo brasileiro disse que “exorta tanto israelenses quanto palestinos a considerar o plano com toda a seriedade e a iniciar negociações partindo das bases ali expostas”.

Pelo Twitter, o chanceler Ernesto Araújo disse que a proposta de Trump “é uma boa base negociadora e cria esperança de solução para o conflito israelense-palestino”.*

(*) Gregory Prudenciano, O Estado de S.Paulo

COBRA ENGOLINDO COBRA

Gesto de paz

(Millôr Fernandes)
Como num jogo de gato e rato, o presidente Bolsonaro e o ministro Sérgio Moro vivem se indispondo. No momento, um confronto que chegou ao ponto da ruptura dias atrás, transmutou-se em silencioso duelo, onde cada palavra tem sentido mais amplo, sempre mirando a eleição de 2022 para a presidência da República.

Acredito que Moro não entrou para o ministério com a intenção de tornar-se político e concorrer a um cargo público, muito menos à presidência. Mas, para sobreviver dentro do governo, e enfrentando reações adversas no Congresso, teve que aprender.

A popularidade que tem desde os primórdios da operação Lava-Jato se iniciou em consequência de um trabalho de combate à corrupção que veio ao encontro do anseio da sociedade. Para manter sua capacidade de atuação, usou a popularidade como um escudo contra as críticas e ataques políticos, e o apoio da população como propulsor de sua atuação.

O auge da crise que o envolveu foi a divulgação pelo Intercept, e outros jornais e revistas, de conversas privadas entre ele e o coordenador dos procuradores de Curitiba, que pretendia manchar sua imagem de homem probo, como é visto pela população.

Embora muitos juristas críticos e oposicionistas, até mesmo gente que tinha uma boa imagem de Moro, detectassem na relação entre as partes transgressões jurídicas que poderiam ter prejudicado os réus, essa percepção esteve longe de ser unânime, pelo contrário.

Muitos outros juristas e políticos não viram nada de ilegal nos diálogos entre Moro e os procuradores. Além do mais, não houve nada nas conversas que revelasse uma manobra para condenar inocentes, ou provas plantadas contra este ou aquele réu.

Não houve inocentes condenados, como lembra Moro com insistência. A confiança em Moro continuou inalterada, sendo o ministro com maior índice de popularidade entre todos do governo, inclusive o próprio presidente da República.

Além de a maioria dos cidadãos não ter encontrado nada de ilegal na atuação de Moro, há uma razão cultural mais profunda. Como constatou uma pesquisa do Instituto da Democracia divulgada pelo jornal Valor Econômico, 69,9% dos brasileiros acham que “condenar políticos corruptos é mais importante que preservar o direito de defesa do acusado”.

Pode ser um sentimento desvirtuado, provocado pela ânsia da maioria da população de ver um combate efetivo contra a corrupção e o crime organizado, que apavora o cidadão comum. Ou então a percepção de que, como diz o ministro do STF Luis Roberto Barroso, há leis que são feitas para não funcionar, existem apenas para manter a situação como está, protegendo os poderosos.

Moro transformou-se em símbolo desse combate, assim como o ministro aposentado Joaquim Barbosa por sua atuação na época do mensalão do PT. Não é à toa que até hoje, anos depois que se aposentou prematuramente do Supremo, Barbosa ainda é procurado por partidos políticos para disputar a presidência da República.

Essa popularidade, e os resultados obtidos no combate à criminalidade, uma continuidade da Lava-Jato na visão popular, criaram a possibilidade de Moro ser candidato à presidência da República.

A crise recente, provocada pelo anúncio de Bolsonaro de que estava sendo estudada a divisão do ministério de Moro, que perderia a parte de Segurança Pública, foi contornada diante da repercussão negativa.

Bolsonaro, que pode ser tudo, menos um político ingênuo, sabia que o simples anúncio de esvaziar o ministério fragilizaria Moro. Foi mais uma tentativa frustrada, que teve que ser abortada.

Moro dizer que não se candidatará de jeito nenhum, muito menos contra o presidente, não dissolve a desconfiança de Bolsonaro. Nem que gravasse na testa “Bolsonaro 2022”. A paranóia dos Bolsonaro é cultivada com dedicação. Mas pela primeira vez admitir que ir para o Supremo Tribunal Federal seria “uma perspectiva interessante” é uma saída boa para todo mundo.

Ao ser convidado, esse era o objetivo final de Moro, depois de dois anos de governo em que esperava consolidar os avanços da Operação Lava-Jato. Conseguiu muitos avanços, mas teve que aceitar derrotas.

A essa altura, ser indicado para o STF na próxima vaga do ministro Celso de Mello, que entra na expulsória em novembro, o deixaria mais contido no Judiciário, e ficaria mais difícil uma aventura política.
Não é garantia de nada, mas expressar o desejo é um gesto de pacificação de Moro.*

(*) Merval Pereira – O Globo