QUEM SABE? QUEM SABE?

A fala da múmia

Proponho que, ao morrer, Sarney, Collor, FHC, Lula, Dilma, Temer e Bolsonaro sejam embalsamados

In an undated photo from Leeds Teaching Hospitals/Leeds Museums and Galleries, the mummy of Nesyamun, a priest who lived in Thebes about 3,000 years ago, ready for CT scanning. Scientists used a 3-D printer, a loudspeaker and computer software to recreate a part of the voice of a 3,000-year-old mummy. (Leeds Teaching Hospitals/Leeds Museums and Galleries via The New York Times)  -- NO SALES; FOR EDITORIAL USE ONLY WITH NYT STORY MUMMY 3D MOUTH  BY NICHOLAS ST. FLEUR FOR JAN. 23, 2020. ALL OTHER USE PROHIBITED. --

Múmia de Nesyamun antes de ser submetida a tomografia – Leeds Teaching Hospitals
Leeds Museums and Galleries/The New York Times

A Universidade de Londres acaba de realizar uma façanha: “devolveu” a fala a um sacerdote egípcio morto e embalsamado há 3.000 anos. O religioso se chamava Nesyamun e, como se lê nas inscrições em seu sarcófago, não queria que a morte interrompesse seu diálogo com os deuses. A atual falta de deuses não impediu que os cientistas o fizessem “falar”, usando técnicas nunca até então tentadas.

O trabalho consistiu em criar uma versão em 3D do espaço entre a boca e a garganta de Nesyamun, aplicar-lhe uma laringe eletrônica e gerar uma onda sonora que, passando pelo seu trato vocal, criasse um som compatível com os que este emitia. Parece simples, mas a operação levou três anos, envolveu tomógrafos, sintetizadores e 3Ds de última geração e só foi possível porque o trato vocal de Nesyamun continuou intacto através dos milênios.

E o que ele disse para os cientistas? Nada de mais —apenas sons de “a” e “e”. Mas isto já é revolucionário. Os britânicos confiam em que logo poderão extrair palavras inteiras de Nesyamun, talvez frases, conceitos, narrativas complexas. Todo um passado perdido virá à tona. Empolgado pela notícia, atrevo-me desde já a sugerir que nossos presidentes vivos —Sarney, Collor, FHC, Lula, Dilma, Temer e, agora, Bolsonaro— também sejam escrupulosamente mumificados ao morrer para que, um dia, possamos arrancar deles a verdade sobre seus governos.

E que verdades! Licitações fraudadas, compra de votos, privatizações viciadas, estelionato eleitoral, obstrução da Justiça, mensalão, sítios, tríplexes, lavagem de dinheiro, peculato, formação de quadrilha, petrolão, pedaladas fiscais, propinas, déficit público, superfaturamentos, malas de dinheiro, compra de sentenças, rachadinhas, laranjas, associação com milícias, prática da filhocracia, cultura da impunidade.

Suas múmias serão arquivos vivos dessas especialidades, cultivadas por eles em nome do Brasil.*

(*) Ruy Castro 0 Folha de São Paulo