POBRE MUNDO

Sociopatia X empatia

Crise do coronavírus separa comportamentos de forma cristalina

 

O que mais tem-se visto na crise global de proporções devastadoras decorrente da pandemia de coronavírus são demonstrações individuais e coletivas de empatia. Essa capacidade do ser humano de se preocupar com o outro e se sacrificar pela sociedade será um dos poucos legados positivos dessa distopia com a qual todos nós temos aprendido, um dia depois do outro e com muita dor, a conviver.

Mas o comportamento oposto, a sociopatia, também ganha relevo em tempos de exceção. E se torna ainda mais preocupante quando se manifesta, em gestos, palavras e decisões, nos responsáveis por comandar os destinos de grupos. Quais são as características dos sociopatas? Existem algumas que são universais.

Uma delas é a propensão à mentira. A distorção de dados e da realidade para descrever as próprias ações são muletas usadas pelos sociopatas, a forma como eles tentam esconder essa sua condição, mas por meio da qual acabam por ressaltá-la.

Os sociopatas se distinguem pela total falta de vergonha, arrependimento ou culpa. Mesmo quando flagrados fazendo algo condenável ou que tenha sido contraindicado, inventam subterfúgios, justificativas, jogam a responsabilidade para o outro e reafirmam, com arrogância e despreocupação, os próprios gestos.

A terceira característica de um sociopata é a completa falta de empatia. Ele é incapaz de se colocar no lugar do outro, demonstra frieza ou mesmo deboche em relação à dor e aos problemas daqueles com os quais não se identifica ou não tem relação, e coloca os interesses próprios e daqueles que lhe são próximos acima dos demais.

A habilidade de manipular é outra característica que a literatura reconhece nos sociopatas. Esse “dom” decorre justamente da capacidade de mentir e falsear a realidade. Quando pego na mentira, o sociopata se vitimiza e tenta virar o jogo culpando outros ou fingindo arrependimento.

O comportamento explosivo é comum aos sociopatas. Ele decorre justamente da falta de empatia. Quando questionado ou contrariado, o sociopata tende a explodir e agredir o outro, pois não reconhece nenhum propósito que não seja o seu como legítimo. A propensão à violência decorre desse desvio.

No conjunto de fatores observados para identificar e tratar um sociopata o egocentrismo também é listado. O sociopata tende a se achar ungido, especial, único, predestinado, detentor da verdade moral e por vezes divina. Quem sofre do transtorno tende a ignorar críticas e falar só de si mesmo.

Outro traço distintivo dos sociopatas é a falta de vínculos. Embora altamente carismáticos, muitas vezes, não desenvolvem afetividade e descartam pessoas próximas com facilidade quando elas deixam de aceitar suas determinações.

Outra regra é a dificuldade de quem sofre dessa patologia de reconhecer e cumprir limites, regras, leis e convenções sociais quando eles o contrariam.

Sociopatas são conhecidos também pela impulsividade e irresponsabilidade, que os faz colocar a si mesmos e a outras pessoas em risco pela gratificação imediata de suas vontades. Eles podem até ouvir a sensatez por um tempo, mas a inquietação e a impulsividade fazem com que eles revelem sua verdadeira natureza de uma hora para outra. Um sociopata costuma ser ainda mais imprudente quando o que está em jogo é a segurança alheia, e não a própria.

O comportamento de sociopatas, ainda mais quando investidos de poder, é um risco às sociedades em condições normais, mas se torna intolerável em momentos de calamidade pública global, como a atual.

Separar os comportamentos será um dos substratos imediatos e definitivos dessa era de pandemia. Sejamos empáticos e façamos nossa parte para neutralizar os estragos que os sociopatas podem causar.*

(*) Vera Magalhães – Estadão