O PILOTO SUMIU, PULEM TAMBÉM

Bolsonaro e profetas da negação ignoram as vítimas do coronavírus

Previsões furadas, sem base científica, ameaçam levar país por caminho desastroso

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No dia 22 de março, em plena campanha contra as autoridades de saúde, Jair Bolsonaro arriscou um palpite. Em entrevista na TV, ele disse que as mortes pelo novo coronavírus ficariam abaixo das 796 vítimas da gripe H1N1 no ano passado.

“A previsão é não chegar a essa quantidade de óbitos no tocante ao coronavírus”, pressentiu, pedindo o fim das medidas de isolamento aplicadas para frear as contaminações.

O presidente não citou a origem dessa tentativa de adivinhação, mas foram necessárias menos de três semanas para desmoralizá-lo. Os mortos pela Covid-19 no Brasil já se aproximam de mil, e a curva de contaminações ainda aponta para cima.

Se não quisesse passar vergonha, bastava a Bolsonaro ter ouvido médicos e cientistas sérios. Ele preferiu liderar um time de profetas da negação, que conduzem um país inteiro por caminhos desastrosos.

O presidente se aconselha com o deputado Osmar Terra, que já foi demitido do governo, mas faz as vezes de ministro paralelo da Saúde. Dias antes da previsão furada de Bolsonaro, ele também dizia que o novo coronavírus mataria menos que a H1N1.

No início desta semana, Terra tentou ajustar suas planilhas imaginárias. Afirmou que haveria menos vítimas de Covid-19 do que mortes por gripes sazonais. Segundo os boletins do Ministério da Saúde, porém, os vírus influenza fizeram 1.122 vítimas no ano passado. Infelizmente, os próximos dias deverão provar que o deputado estava errado, de novo.

Terra usa uma bola de cristal fajuta para se alinhar a Bolsonaro e derrubar o verdadeiro ministro da Saúde. Em conversa divulgada pela CNN, ele conspira contra Henrique Mandetta, repete a premonição equivocada e, agora, diz esperar “entre 3.000 e 4.000” mortes durante a crise.

As projeções dos pesquisadores superam esse número —principalmente se as medidas de isolamento forem suspensas, como defendem Terra e Bolsonaro. Os falsos adivinhos, afinal, preferem ignorar a ciência e desprezar as vítimas da doença, sejam elas quantas forem.*

(*) Bruno Boghossian – Folha de São Paulo