O QUE FOI A DITADURA

Apoio de 75% a democracia é recado para Bolsonaro, dizem entidades
Avaliação é que resultado do Datafolha mostra não haver espaço para ruptura; Folha é elogiada por campanha

Apoiadores do presidente Jair Bolsonaro seguram cartazes a favor da intervenção militar e com foto do presidente

Apoiadores do presidente Jair Bolsonaro em ato em frente ao quartel-general do Exército, em Brasília – Pedro Ladeira/Folhapress

Um recado claro para o presidente Jair Bolsonaro, que vem flertando com discursos autoritários e de ruptura institucional.Assim, representantes de entidades de defesa dos direitos humanos e de movimentos da sociedade civil avaliaram a pesquisa Datafolha que mostra apoio de 75% da população à democracia.

Eles também elogiaram a campanha lançada pela Folha de defesa do regime democrático, que inclui um curso online e um projeto especial didático retratando a ditadura militar, destinado, sobretudo, a quem não viveu diretamente aquele período.

Segundo o IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), 70% dos brasileiros tinham no máximo dez anos de idade quando a ditadura acabou, em 1985.

“A pesquisa mostra que o Brasil está convalescendo. O risco de um golpe de Estado está a exigir reação forte em prol da democracia. A pesquisa mostra que este movimento ganha corpo”, disse o ex-ministro da Justiça José Carlos Dias, presidente da Comissão de Defesa dos Direitos Humanos Dom Paulo Evaristo Arns.

Atuante na campanha das Diretas Já, em 1983-84, Dias afirmou que a campanha lançada pela Folha o “enche de esperança”.

“Este é o momento de abrir mão das divergências menores em prol de uma causa maior, a defesa da democracia”, declarou.

A campanha da Folha, inspirada nas Diretas, conta também a inclusão de uma faixa amarela embaixo do cabeçalho do jornal e a mudança do slogan para “Um jornal a serviço da democracia”.

Fundador do “Somos 70%”, grupo que pretende reunir todos os que não apoiam Bolsonaro, Eduardo Moreira afirma que é importante deixar claro para o presidente e seus apoiadores que não se pode colocar em dúvida as balizas democráticas.

“É importantíssima a campanha. O fato de estarmos discutindo a democracia com tanto interesse é a prova cabal de que ela está ameaçada, um sintoma claro. As iniciativas em defesa dela que estão surgindo não são criações de fulano ou sicrano, são vocalizações de algo maior que as pessoas estão sentindo”, afirmou.

Diretor-executivo do Instituto Vladimir Herzog, Rogério Sottili afirmou que “a pesquisa Datafolha reflete que o que vinha sendo trabalhado pelo governo Bolsonaro do ponto de vista de enfrentamento das instituições não tem amparo na sociedade brasileira”.

“Bolsonaro vem perdendo crédito junto à sociedade. Toda aquela fanfarra, aquele gesto de enfrentamento ao Estado de Direito, de apologia à tortura, a grande maioria da população é contra”, disse.

Para Sottili, o momento é de unificar movimentos pró-democracia. “Deixa as divergências para aparecerem no debate político e nas próprias eleições. A Folha mais uma vez demonstra que tem compromisso irrestrito com a democracia e ajuda a amplificar o que a sociedade vem fazendo neste momento”, declarou.*

(*) Folha de SP