RASGANDO A FANTASIA

As histórias da carochinha de Flávio Bolsonaro

A entrevista de Flávio Bolsonaro ao GLOBO vale como um almanaque de histórias da carochinha. O senador nem se esforçou para tentar explicar o inexplicável. O relato só deve convencer quem já estava convencido da sua inocência.

O Ministério Público descobriu que o policial Diego Sodré de Castro Ambrósio pagou um boleto em nome de Fernanda Bolsonaro, mulher do senador. Por que um sargento da PM ajudaria um parlamentar a quitar um imóvel?

Resposta do Zero Um: os dois foram a um churrasco, a prestação “estava para vencer” e ele não queria abandonar a carne no prato. Sensibilizado, o policial teria se oferecido para quitar o boleto de R$ 16,5 mil pelo celular. Amigo é para essas coisas.

Os jornalistas Paulo Capelli e Thiago Prado perguntaram por que outro sargento da PM, o faz-tudo Fabrício Queiroz, pagava o plano de saúde e a escola das filhas do senador. Mais uma vez, a explicação foi singela.

“Eu pego dinheiro meu, dou para ele, ele vai ao banco e paga para mim”, disse Flávio, como se a investigação não tivesse mostrado que Queiroz recolhia parte dos salários de assessores do chefe.

O senador também não se preocupou em encontrar uma versão verossímil para o fato de o assessor ter sido preso na chácara do seu advogado. Ele jurou que não conhecia o esconderijo e admitiu que “isso não podia ter acontecido”.

Em seguida, fez questão de dizer que não houve “crime nenhum” no episódio. O primeiro-filho pareceu indeciso. Em suas palavras, a operação para esconder Queiroz “foi um erro”, mas não teve “nada de errado”. Ah, bom!

O Zero Um ainda abusou da boa-fé dos leitores ao comentar a fantástica história de sua loja de chocolates. Os investigadores constataram que a franquia registra maior faturamento fora da Páscoa. Isso reforçou a suspeita de que o negócio era usado para lavar dinheiro.

“É um comércio. Se a pessoa chega com dinheiro para comprar, eu não vou aceitar?”, desconversou o senador.

Na entrevista, Flávio criticou a Lava-Jato, elogiou o procurador Augusto Aras e justificou a aliança do governo com o centrão, que seu pai já definiu como “o que há de pior” na política.

O senador também elogiou a proposta da nova CPMF. Neste ponto, é possível que ele tenha sido sincero. O imposto não vai alcançar quem paga suas despesas em dinheiro vivo.*

(*) Bernardo Mello Franco – O Globo