A ERA DA BOÇALIDADE

Pena não haver no Brasil vacina contra a tolice

A única coisa realmente bem distribuída no mundo é a tolice. É grande a quantidade de tolos. E como não há vacina contra asneira, todos correm o perigo de contágio. Em matéria de imunização, o governo decidiu roçar as fronteiras do impensável. No início da semana, o ministro interino da Saúde, o general paraquedista Eduardo Pazuello, nomeou um veterinário, Laurício Monteiro Cruz, para o cargo de Diretor do Departamento de Imunização e Doenças Transmissíveis, responsável pelo gerenciamento do programa nacional de vacinação.

No dia seguinte, o presidente falou sobre vacinas como se estivesse com os pés no século 21 e a cabeça na era proterozoica, que é anterior ao aparecimento dos animais na Terra. Uma devota de Bolsonaro levantou a bola no cercadinho do Alvorada para que o presidente falasse sobre vacinação: “Ô, Bolsonaro, não deixa fazer esse negócio de vacina, não! Isso é perigoso.” E o presidente concluiu o lance com uma cortada: “Ninguém pode obrigar ninguém a tomar vacina.”

Numa evidência de que a tolice é altamente contagiosa, a Secretaria de Comunicação do governo transformou a fala proterozoica do presidente em peça de propaganda. E se apressou em anotar nas redes sociais: “O governo do Brasil preza pelas liberdades dos brasileiros”.

Chegamos, então, ao seguinte quadro: o governo é comandado por um presidente que, há duas semanas, disse em viagem ao Pará que as mais de 100 mil mortes que o coronavírus produziu no Brasil não existiriam se os doentes tivessem sido tratados desde o início com hidroxicloroquina. Esse mesmo Bolsonaro que trata como vacina um remédio sem eficácia confirmada, desdenha de uma vacina que o mundo aguarda com ansiedade.

Num mundo convencional, havendo uma doença, vacina-se o povo e está tudo resolvido. No caso do novo coronavírus, aguarda-se ansiosamente pelos testes que validarão as vacinas. Antes da conclusão, Bolsonaro trata da vacinação não como um presidente, mas com a displicência de um curandeiro. Em vez de esclarecer, confunde.*

(*) Blog do Josias de Souza – UOL