TOTALMENTE UM DESQUALIFICADO

Bolsonaro não ouviu nenhum recado das urnas

No primeiro turno, o eleitor deixou bem claro seu descontentamento com o radicalismo. Votou a favor de candidatos moderados e rejeitou a chamada antipolítica, que viveu seu auge em 2018 com a onda bolsonarista. Apesar disso, e mesmo vendo a derrota da imensa maioria dos nomes que apoiou, Jair Bolsonaro parece não ter escutado recado nenhum das urnas e segue na mesma toada que o levou ao Planalto.

Oito dias depois do primeiro turno, o presidente vai enfileirando uma polêmica atrás da outra. Já reforçou – sem qualquer prova – sua tese sobre o risco de fraude nas urnas eletrônicas; já atacou os países estrangeiros que criticam a política ambiental do governo, ameaçando e depois recuando denunciar os que compram madeira ilegal brasileira; continuou com seu negacionismo do coronavírus, chegando a elogiar os agricultores por “não terem sido frouxos” e parado durante a pandemia; passou ao largo do assassinato de João Alberto Freitas, morto por seguranças do Carrefour, num caso que envolve racismo e chocou o País; desfilou pendurado do lado de fora de um carro em Amapá, como se estivesse em campanha, depois que o Estado já enfrentava há 15 dias um terrível apagão de energia (que ainda continua).

São alguns exemplos e há muito mais. Nesta segunda-feira, 23, usou o termo “idiota” para se referir a pessoas que o lembrem que o Estado é laico. Mas não é preciso se enganar. Esse é e sempre foi o estilo de Bolsonaro, antes mesmo de chegar à Presidência. A diferença é que o eleitor deu sinais de que está cansado desse estilo. E é aí que os projetos políticos do presidente – reeleição em 2022, obviamente – estão ameaçados.

E há outro fator que ajuda a tapar ainda mais os ouvidos de Bolsonaro para o risco de continuar a se expor com o discurso mais radical. Quase sempre está cercado por bajuladores ou integrantes da ala ideológica, que defendem que mantenha a beligerância na sua fala. Nas eleições municipais, Bolsonaro acabou vendo o naufrágio de candidatos em quem investiu abertamente, como foi o caso de Celso Russomanno, em São Paulo, Delegada Patrícia, em Recife, e Bruno Engler, em Belo Horizonte. Todos acabaram bem longe. No segundo turno, o prefeito do Rio, Marcelo Crivella, apoiado fortemente pelo presidente, deverá ser derrotado por Eduardo Paes por larga margem. Será mais um recado. Mas é difícil acreditar que, dessa vez, ele vá assimilar a mensagem e dê um freada de arrumação. O tempo dirá se aposta arriscada do presidente dará certo ou não.*

(*) Marcelo de Moraes – Estadão