“É DANDO QUE SE RECEBE”

O risco que Bolsonaro corre ao tentar influenciar a eleição na Câmara

O impeachment de Dilma Rousseff continua fresco na memória dos políticos de Brasília, quando se fala sobre a próxima sucessão da Câmara. Alguns o usam como exemplo ao recomendar cautela nos movimentos vindos do Palácio do Planalto em favor da candidatura de Arthur Lira (PP-AL). Outros, para defender a necessidade de que o governo consiga eleger quem lhe seja fiel.

O presidente Jair Bolsonaro e o atual presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ), tiveram uma relação de mais brigas do que afagos ao longo destes dois anos. Em abril, o presidente da República fez os ataques mais diretos ao deputado e afirmou sobre o Congresso: “Parece que estão querendo me tirar do governo”.

Foi a partir dali que Bolsonaro mudou a forma de governar e se aproximou do centrão, com Lira sendo seu principal interlocutor. Cargos foram entregues, recursos do governo foram disponibilizados para apadrinhamento e reuniões de políticos no Planalto passaram a ser mais comuns. O próprio Maia chegou a ser convidado ao palácio, para distensionamentos.

Mas a memória da derrota de Dilma com a eleição de Eduardo Cunha em 2015 ainda ronda o ambiente político. Para aliados do presidente, Lira seria o único entre os candidatos com chances reais que garante a Bolsonaro tranquilidade para levar o mandato até o final, o que justificaria o esforço. Para outros, o risco de uma derrota recomendaria cautela para que um eventual vencedor do grupo de Maia não chegue à cadeira como inimigo.

Apesar da lembrança recente, o caso de 2015 não é a única vez em que um presidente entrou na eleição para a Câmara e perdeu. Em 2005, o ex-presidente Lula rachou seu próprio partido ao apoiar Luiz Eduardo Greenhalgh (PT) em detrimento de Virgílio Guimarães (PT), que era tido como nome mais palatável na Casa. Acabou colhendo uma surpreendente vitória de Severino Cavalcanti (PP-PE), conhecido como rei do baixo clero. Ao sentar na cadeira, Severino cobrou do governo uma diretoria que “fura poço” na Petrobras. Acabou forçado a renunciar meses depois, mas foi a primeira exibição do risco para um presidente que ousa cruzar o limite entre o Palácio do Planalto e o Congresso para interferir na eleição interna do outro poder.*

(*) – O Globo