NÃO É NEÓFITO, É BOÇAL

O caso do presidente do BB acende uma luz amarela no mercado

Somos Todos Aroeira: uma campanha contra o nazismo, que insiste em brotar  no Brasil – blog da kikacastro

Jair Bolsonaro sempre disse que não entendia de economia. Na campanha, isso soou irrelevante aos seus apoiadores: Bolsonaro podia ser uma nulidade no assunto, mas tinha Paulo Guedes e Paulo Guedes era um liberal, um Chicago boy de carteirinha.

Dois anos de governo cuidaram de mostrar que Bolsonaro nunca disse nada tão verdadeiro como quando admitiu seu vasto desconhecimento sobre a ciência econômica.

Em setembro de 2019, em meio às discussões sobre a desindexação do Orçamento, o Ministério da Economia propôs que os reajustes de aposentadorias e benefícios assistenciais deixassem de ter o salário mínimo como referência. A ideia, que seria apresentada ao Congresso por meio de uma Proposta de Emenda à Constituição (PEC), tinha a concordância do presidente, mas sobreviveu só até o momento em que uma autoridade do governo fez à equipe econômica responsável pela elaboração da PEC a pergunta que poucos imaginavam necessária: “Vocês explicaram ao presidente o que é desindexação?”.

Ninguém havia explicado. Tomada a providência faltante, revelou-se o que a autoridade supunha: o presidente desconhecia o significado do conceito e, ao compreender suas implicações, vetou a proposta.

Como têm constatado agentes de mercado, a ignorância de um presidente na área econômica pode ser um evento bem mais relevante do que se imaginava, sobretudo quando esse presidente resolve atropelar os preceitos recitados pelo seu ministro liberal de carteirinha.

A não diminuição da máquina pública e a privatização de coisa nenhuma foram apenas algumas das frustrações amargadas pelos entusiastas de Paulo Guedes ao longo dos últimos dois anos. Na área do ministro, entre as promessas do governo que ainda restam de pé, estava a da gestão técnica das estatais, preservada de ingerências políticas.

Rios de suor frio
Desde o começo do mês, no entanto, a demora no repasse das altas do petróleo para os preços do diesel e da gasolina tem provocado calafrios naqueles que guardam lembranças frescas dos calamitosos resultados da prática cometida no governo Dilma Rousseff.

Ontem, quando se divulgou que Jair Bolsonaro teria decidido demitir o presidente do Banco do Brasil, André Brandão, como punição pelo anúncio do fechamento de agências e demissão de funcionários, rios de suor escorreram pelas frontes de agentes do mercado. O enxugamento da instituição (que seria também o primeiro passo para a sua privatização) foi visto pelo presidente como um atentado à sua popularidade.

Até agora, não foram poucas as promessas do governo que se desvaneceram no ar com nenhuma consequência prática para a sustentação do presidente no poder.

Bolsonaro continuará resistindo se a quimera liberal tiver igual destino?*

(*) Thaís Oyama
Colunista do UOL