MILICIANO DE ESTIMAÇÃO

Silveira virou uma espécie de preso-ostentação

Admita-se que o Supremo quis dar uma demonstração de força ao confirmar a tranca de Daniel Silveira por um placar de 11 a zero. Neste caso, as togas precisam explicar ao país por que permitiram que o deputado brutamontes transformasse sua cana num processo de avacalhação da supremacia da Suprema Corte.

O preso não está atrás das grades. Encontra-se numa sala. Beleza. Ordenou-se que fosse transferido da Superintendência da Polícia Federal para o batalhão da Polícia Militar no Rio, uma hospedaria mais ao gosto do ex-PM Silveira. Chegou-se a um arranjo mosqueteiro, do tipo um por todos, todos por hummmm!!!

Na saída da PF, soube-se que o detento dispunha de celular —não um, mas dois aparelhos. Espanto! Na chegada à PM, passeou pelo pátio do batalhão. Foi filmado contracenando com apoiadores no portão. Estupefação!!

O preso vociferou para os seus seguidores: “Vocês vão saber a verdade. Eu vou mostrar para o Brasil quem é o STF.” Numa evidência de que há males que vêm para pior, foi ovacionado.

Tudo isso depois de ter provocado um sururu institucional com a divulgação do vídeo em que defendera a destituição de todos os ministros do Supremo e enaltecera o AI-5, principal torniquete da ditadura.

A reputação dos políticos profissionais é a soma dos palavrões que eles inspiram nas esquinas, salas e botecos. O conceito de Daniel Silveira também pode ser aferido pelos palavrões que ele mesmo pronuncia.

“Folgada pra caralho”, disse o deputado, por exemplo, em reação a uma policial que insistia para que usasse máscara no IML, onde fez exame de corpo delito. “E se eu não quiser botar?”, ralhou.

Com o dedo e a língua em riste, Silveira prosseguiu: “Se a senhora falar mais uma vez eu não boto. Respeite! (…) Não está falando com vagabundo, não. A senhora é policial civil, eu também sou polícia, e aí? Sou deputado federal, e aí?”.

Sobre esse episódio, a Polícia Civil do Rio escreveu em nota oficial que não enxergou desacato. “A Secretaria de Estado de Polícia Civil esclarece que não foi dada voz de prisão por desacato ao deputado pela perita, nem pelos policiais federais, por entenderem que não houve ofensa aos agentes da lei.”

Ficaram entendidas duas coisas: 1) Todo cidadão que for preso na cidade do Rio de Janeiro está autorizado a achincalhar os policiais. Liberou-se o desacato à autoridade. 2) Quando a avacalhação ocorre no cumprimento de mandado de prisão expedido pela instância máxima do Judiciário, os brasileiros ficam autorizados a enxergar no vocábulo “Supremo” um outro nome para Casa da Mãe Joana.*

(*) Josias de Souza
Colunista do UOL