BRASIL CONFIDENCIAL

Tiro pela culatra

Crédito: Michel Jesus/Câmara dos Deputados

PRIMEIRA DERROTA –  Arthur Lira quis passar o trator na Câmara para
aprovar a PEC da Impunidade no apagar das luzes, mas a sociedade impediu

O Centrão pode muito, mas não pode tudo. O deputado Arthur Lira achou que poderia mandar e desmandar na Câmara, após ter sido eleito com a ajuda dos cofres públicos do seu chefe, o presidente Bolsonaro, mas, na semana passada, teve que engolir sua primeira derrota. Ele não conseguiu aprovar, a toque de caixa, a PEC da Impunidade, que simplesmente daria alforria para os parlamentares roubarem à vontade e cometerem outros tipos de crimes sem serem molestados. No máximo, se fossem flagrados em delitos, poderiam cumprir as penas em confortáveis salas do próprio recinto do Congresso. Um escárnio, sobretudo porque sua manobra aconteceu na pior semana da Covid, período em que os deputados deveriam estar implementando medidas de combate à pandemia. Um corporativismo nefasto.

Reação

Por sorte, a sociedade civil, o STF e os deputados mais lúcidos conseguiram derrotar a blindagem que o Centrão queria impor para proteger os parlamentares encalacrados com a Justiça. O ministro Luíz Roberto Barroso, do STF, recomendou que o texto da PEC fosse “aperfeiçoado” para não tornar-se inconstitucional. A Corte pode barrar esse casuísmo.

Insistência

Apesar de a medida não ter pegado bem junto à opinião pública, Lira ainda não desistiu de aprovar dispositivos de impunidade para salvar a pele de deputados como Daniel Silveira, que agrediu ministros do STF e defendeu instrumentos fascistas, como o AI-5. Mandou criar uma comissão para debater o assunto. Ele insiste em proteger criminosos.

Cadê o dinheiro que estava aqui?

Em meio à grave pandemia, o País tem R$ 1,2 bilhão parado nos bancos por causa da incompetência do governo. O dinheiro foi recuperado pela Lava Jato e a juíza Gabriela Hardt mandou que os recursos fossem usados no combate à Covid. O governo, porém, diz que não cabe a ela determinar como o dinheiro será aplicado. O procurador-geral Augusto Aras pede que o ministro Lewandowski defina como usar os valores.

Retrato falado

O senador Otto Alencar, que acaba de ser eleito para presidir a Comissão de Assuntos Econômicos (CAE), do Senado, diz que a recente intervenção de Bolsonaro na Petrobras provocou perdas, em dois dias, equivalentes ao valor que o Brasil precisaria para implantar o novo auxílio emergencial. Para ele, o governo não pode funcionar por impulsos. “A maioria das crises que o País atravessa, como na política, na economia e na saúde, é gestada dentro do Palácio do Planalto.”

Fuga de capitais

O discurso de Bolsonaro de que as estatais precisam ter visão social não se sustenta. Ao decretar uma intervenção brutal na Petrobras, o ex-capitão abalou a confiança dos investidores estrangeiros na política econômica, que liquidou a pretensa face liberal sustentada por Guedes. Além da enorme queda no preço das ações da estatal, Bolsonaro foi responsável por uma articulada fuga de capitais da Bolsa de Valores de São Paulo: os investidores retiraram do Brasil pelo menos R$ 9,2 bilhões
da B3 após a crise credibilidade demonstrada pelo governo populista. Esse dinheiro, poderia estar dinamizando a economia
e gerando empregos.

Dólar dispara

E as trapalhadas de Bolsonaro podem dar prejuízos ainda às estatais do setor elétrico, onde ele promete também intervir. Esse movimento provocou uma alta recorde no valor do dólar, que no dia 4 de janeiro era de R$ 5,16 e subiu para R$ 5,70 no último dia 2: aumento de quase 10% este ano. Especulação em alta.

Aplausos da China

A senadora Kátia Abreu (PP-TO) acaba de assumir a presidência da Comissão de Relações Exteriores do Senado, trazendo esperança de dias melhores para o relacionamento do Brasil com a China, situação que ela defende como vital. Dois dias depois de assumir o posto, a senadora recebeu felicitações do embaixador da China no Brasil, Yang Wanming.

Pede para sair

Ex-vice de Ciro, Kátia Abreu acha que o ministro das Relações Exteriores, Ernesto Araújo, deveria modificar seu posicionamento contrário à China. Ela diz que cabe a Bolsonaro trocar ministros, mas entende que se Araújo quer ficar no cargo “deveria repensar seus conceitos ideológicos, abandonando a retórica de confrontação com os chineses”.

Rápidas

* Bolsonaro quer tirar Pazuello da Saúde para entregar o ministério ao Centrão, mas, para isso, precisa promovê-lo a general de quatro estrelas. O Alto Comando do Exército considera isso ilegal. Se o presidente Bolsonaro promover o amigo, o Exército declarará guerra a ele.

* Mesmo sem pagar auxílio emergencial em janeiro, a dívida pública do governo atingiu R$ 6,6 trilhões no primeiro mês do ano, o que representa 89,7% do PIB. Em dezembro de 2020, a dívida pública era de 89,2% do PIB.

* A taxa de desemprego atingiu no ano passado o pior desempenho desde 2012. Nesse ano, o País tinha 7,4% de desempregados e, em 2020, a taxa subiu para 13,5%. Temos 14 milhões de desempregados e 32 milhões de desalentados.

* O Índice Geral de Preços do Mercado (IGP-M), que reajusta o aluguel, será de 28,94% para os contratos que vencem em março. O aumento no preço da gasolina ajudou a puxar o índice para cima. Bolsonaro vai intervir? *

(**) Germano Oliveira, diretor de redação da revista ISTOÉ