AS PMs SÃO TODAS BOLSONARISTAS

Em documento, PM de Minas orienta tratamentos não comprovados contra covid

 

Por meio de um protocolo interno com data de abril deste ano, a PM-MG (Polícia Militar de Minas Gerais) orienta que sejam utilizados em policiais sob suspeita de contaminação do novo coronavírus medicamentos ditos de “tratamento precoce”, mas que não têm nenhuma comprovação científica de eficácia no combate ao vírus.

O protocolo, obtido pelo UOL, tem 40 páginas e diz que a PM pode atualizar suas informações e diretrizes conforme a necessidade. A corporação afirma que sua diretoria de Saúde designou referências técnicas para definir uma proposta de tratamento preventivo e imediato, “baseada nas melhores evidências científicas disponíveis”.

Entre as 33 referências bibliográficas listadas no documento, que teve a assinatura de 14 oficiais da Polícia Militar (sendo 13 médicos da corporação), não há nenhuma evidência que comprove eficácia no tratamento precoce contra a covid-19. Procurada, a PM afirmou que o documento ainda está em avaliação, mas a reportagem apurou que policiais da tropa já receberam receitas para os medicamentos neste ano.

Entre os remédios, estão: hidroxicloroquina, ivermectina, vitamina D, zinco quelato e quercetina. A PM não cita quais evidências amparam suas utilizações, apenas lista em quais níveis de gravidade elas devem ser usadas na tropa. Alguns desses remédios foram defendidos e comprados pelo governo do presidente Jair Bolsonaro (sem partido) em larga escala, mas a OMS (Organização Mundial da Saúde) não recomenda a utilização deles para combater o vírus.

Outras entidades, como o Centro de Controle e Prevenção de Doenças dos Estados Unidos e da Europa, a Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) e a Sociedade Brasileira de Infectologia (SBI), não reconhecem esses medicamentos ou chegam a contraindicá-los.

O próprio documento da PM diz que “o tema tornou-se controverso entre os profissionais de saúde, trazendo insegurança e questionamentos pelos usuários”, mas defende que a ação tem “robustez técnico-científica e ética para subsidiar decisões médicas e acolher o público que deseja efetivamente receber tais tratamentos, garantindo a autonomia médica e do paciente”, o que é contestado por médicos sanitaristas que estão na linha de frente de combate à pandemia.

A PM pondera no protocolo que “em momento algum são recomendados ‘kits’, mas cada paciente deve ter sua avaliação e prescrição individualizada, além do segmento clínico”.

Por meio de nota, a corporação reafirma que as orientações são “para médicos e pacientes que optarem por aderir às recomendações” e que “a referida minuta não vincula e não obriga os médicos militares a adotarem quaisquer protocolos sugeridos, sendo apenas mais um referencial bibliográfico”.(…) *

(**) Luís Adorno
Do UOL, em São Paulo