O BICHO VAI PEGAR

O significado das manifestações

A maré mudou. E os protestos apenas começaram.

É uma amarga ironia que o principal motivo (entre muitos) — a tragédia sanitária — para ir às ruas exigir o impeachment de Jair Bolsonaro seja também o principal motivo para ficar em casa.

Que risco é maior: ir às ruas, provocando aglomerações perigosas, que causarão mortes, ou ficar em casa calado enquanto Bolsonaro comete livremente barbaridades, maximiza o número de mortes e destrói a democracia? A resposta a esse dilema não é óbvia, há diferentes pontos de vista.

Mas, no sábado passado, depois de um ano de imobilismo e raiva contida, boa parte da sociedade brasileira chegou à conclusão de que Jair Bolsonaro é um risco ainda maior do que o vírus. E foi às ruas em um volume que não se via há anos.

A derrota de Bolsonaro é avassaladora e indiscutível. As ruas já não lhe pertencem. A rejeição ao presidente é colossal, inegável, e muito maior do que o apoio. A máquina de fake news bolsonarista não conseguiu criar uma narrativa para negar o que todo mundo viu.

Ficou mais difícil para Bolsonaro impedir a punição de Pazuello. Ficou mais fácil para as Forças Armadas e para a Polícia Federal resistir à pressão do presidente. Ficou mais fácil para a CPI fazer seu trabalho. Ficou mais difícil mentir à CPI sem ser preso. Ficou mais difícil (e mais caro) para o centrão apoiar o presidente e barrar o impeachment. Ficou mais difícil (e caro) para Augusto Aras arquivar denúncias. A reeleição de Bolsonaro, e mesmo sua chegada ao segundo turno, ficou mais difícil.­

Não se sabe o que Bolsonaro fará para se recuperar. Mas se sabe que o que ocorreu no sábado leva o jogo para outro patamar. E, agora que o tabu de ir às ruas para protestar caiu por terra, a porteira está aberta. Haverá novas manifestações.

E serão maiores.*

(**) Por Ricardo Rangel – veja.com

BREQUE NA BOIADA

PGR pede ao STF para investigar Ricardo Salles

O vice-procurador-geral, Humberto Jaques de Medeiros, pediu ao Supremo Tribunal Federal a abertura de um inquérito criminal para investigar o ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles. O requerimento foi feito com base na notícia-crime movida pelo delegado da Polícia Federal, Alexandre Saraiva, que acusa o ministro de atrapalhar as investigações que levaram à apreensão de 131 mil metros cúbicos de madeira no Amazonas – tida como a maior da história.

Tal cenário evidencia, de forma ampla, a necessidade de aprofundamento investigativo dos fatos noticiados à Procuradoria-Geral da República e ao Supremo Tribunal Federal, concernentes à atuação do mencionado agente político“, anotou o procurador.

Em seu parecer sobre a acusação de Saraiva, o procurador pede também que os proprietários rurais e agentes de fiscalização do Ibama e da PF no Amazonas que integraram a operação Handroantus – que mira as madeireiras – prestem depoimento. Requereu ainda a cópia de toda a investigação e que Salles seja interrogado.

Caberá à ministra Cármen Lúcia a instauração do inquérito. Ela é a relatora da notícia-crime apresentada por Saraiva. Em outra investigação, conduzida pelo ministro Alexandre de Moraes, Salles foi alvo de busca e apreensão em razão de sua suposta atuação junto ao Ibama para beneficiar duas empresas que teriam feito “exportações ilícitas de produtos florestais” do Brasil para os Estados Unidos. *

(**) LUIZ VASSALLO – CRUSOÉ

MANIPULANDO O GADO

Bolsonaro não tem partido. Ele alugou (ou comprou) um

Se há uma qualidade no presidente da República, é a de escancarar a palhaçada demagógico-fisiológica de partidos que compõem o grotesco cenário nacional

Os partidos de aluguel… – Marco Aurélio D'Eça

Qual é a importância da notícia de que está aberto o caminho para Jair Bolsonaro ir para o Patriota, agora que Flávio Bolsonaro se filiou à sigla? Nenhuma. O que não significa que a notícia podia deixar de ser publicada. É o que temos, afinal de contas, com esse estranho presidente que não tinha partido nenhum e, dado ainda mais pitoresco, não conseguiu formar a sua própria agremiação.

A importância de que falo é para a sua vida, a minha ou a de todos os brasileiros que não fazem parte do Patriota ou que não transformaram a política na segunda profissão mais antiga do mundo. Relevância zero, menos do que nada, a não ser pela conta a pagar. O Patriota é uma legenda de aluguel, nada mais do que isso, embora haja gente lá dentro que ache o contrário. Nesse aspecto, é como quase todos os outros que compõem o grotesco cenário nacional. Ao que tudo indica, os seus dirigentes deram à famiglia Bolsonaro a “porteira fechada” que ela queria — ou seja, viraram donos da sigla que quase os hospedou para a eleição de 2018. Vão fazer o rachuncho do Fundo Partidário do jeito que quiserem. Nas eleições de 2020, a merreca foi de 27,5 milhões de reais. A ideia para além de 2022, imagina-se, é que Bolsonaro consiga alavancar a sigla de tal forma que ela ultrapasse a cláusula de barreira de 2,5% dos votos válidos em 2026 (obteve 2% em 2020), em pelo menos um terço dos estados, para continuar a ter direito a receber a bufunfa e engrossá-la ainda mais, inclusive com outras fontes de arrecadação.

Hoje, o partido se chama Patriota, mas se chamava Partido Ecológico Nacional. Antes de selar o negócio com o Patriota, a famiglia Bolsonaro andou conversando com o Partido da Mulher Brasileira, que, para agradar ao clã,  passou a se chamar Brasil 35, incorporando ao nome o número do registro oficial. Quando concorreu à presidência da República, o atual inquilino do Planalto pertencia ao Partido Social Liberal, com o qual rompeu por razões pecuniárias. Como Jair Bolsonaro nunca foi ecológico, é misógino e jamais foi liberal, ao menos ele tem a qualidade de escancarar a palhaçada demagógico-fisiológica que está na base da criação desses partidos que nasceram para alugar-se — ou vender-se. E que se dispõem a mudar de nome com a mesma facilidade do primeiro autobatismo, porque programa mesmo não há. Quer dizer, há, mas não no sentido estritamente político do termo.*

(**) Mário Sabino – O Antagonista

ELES, NÃO!!

Rouba mas faz, de novo?

Quando se cita o mote, os mais jovens — e nem tão jovens assim — lembram Paulo Maluf.Mas até isso Maluf pegou, digamos, de maneira indevida. O verdadeiro dono do “rouba mas faz” é Ademar de Barros, político dos anos 40 a 60, prefeito e governador de São Paulo, senador, candidato a presidente.

Ele mesmo espalhava as piadas a seu respeito. Nos comícios, dizia: “Neste bolso nunca entrou dinheiro roubado”. E a plateia, divertida: “Calça nova, governador”. Ele ria.

Também lançou o que poderia ser o lema da atual velha política: amigo meu não fica na estrada.

Era verdade. Ademar no governo, não tinha um ademarista que ficasse sem cargo público.

O folclore ficou para Ademar de Barros, mas a coisa se espalhava por todo o espectro político. O consenso tácito era o seguinte: todo mundo levava o seu, o importante é que abrisse estradas (ou construísse Brasília), oferecesse bons negócios públicos aos correligionários e nomeasse a turma.

O capitalismo de amigos sempre esteve na raiz da política brasileira. Até que foram apanhados o mensalão e o petrolão — mas que, vistos de hoje, parecem mesmo dois pontos fora da curva. Todo mundo está sendo perdoado nas instâncias judiciárias e políticas.

O STF vem cancelando condenações e devolvendo ao cenário político personagens que curtiram cana em anos recentes. Na política, não há melhor exemplo de anistia plena, geral e irrestrita do que o encontro entre Fernando Henrique Cardoso e Lula.

Lula saiu de lá com o voto de FH e o passado limpo. Não precisou pedir desculpas pelos eternos ataques ao tucano (herança maldita, entreguista, neoliberal), pelos seguidos pedidos de impeachment que o PT entrava contra o governo FH, muito menos pelo mensalão e pelo petrolão.

Em resumo, Lula levou tudo e não entregou nada.

Digamos que FH tenha feito algumas ressalvas em privado. Mas isso não conta em política. Na sua única manifestação pública, Lula disse que, se fosse FH contra Bolsonaro, ele votaria no tucano.

Estão de gozação.

FH disse que ainda continua preferindo uma terceira via, mas tornou-a ainda mais difícil — se não a enterrou — ao anistiar Lula sem levar nada em troca.

Reparem no cenário político — ex-presidiários voltando ao comando, o Centrão nomeando e gastando, Bolsonaro ameaçando golpes e vendendo pedaços do Orçamento, os correligionários ocupando os cargos, a Lava-Jato destruída, os negócios de amigos só não voltam com tudo porque a economia ainda patina. Mas já se nota a ocupação de estatais e fundos de pensão pela turma do governo.

Eis o quadro: amigo meu não fica na estrada; ganhar 200 mil por mês do governo não tem nada demais; para os amigos, tudo, para os adversários, o rigor da lei. (Dizem que esta última era do Getúlio!) E Bolsonaro quer colocar os militares na roda.

Boa parte do mundo desenvolvido está saindo da pandemia e voltando a crescer. Há riscos pela frente, como a temida volta da inflação elevada, provocada pelo excesso de dinheiro que os governos gastaram e continuam gastando. Sim, era preciso apoiar pessoas e empresas na pandemia, mas, como já dizem alguns economistas, talvez tenham colocado água demais na bacia.

De todo modo, por aqui estamos longe de superar a pandemia. O nível de investimento público e privado está em torno de 15% do PIB, insuficiente para sustentar o crescimento. A reforma tributária foi cortada em fatias tão finas que nem se veem. É possível que o sistema piore com vários impostos e contribuições sobre as mesmas mercadorias e serviços.

Neste momento, a recuperação dos desenvolvidos está nos ajudando, via commodities e juros zerados pelo mundo afora. Mas, se lá subirem inflação e juros, teremos outra conta a pagar — num mau momento.

Capaz de piorar. Ficar no rouba e nem faz.*

(**) Por Carlos Alberto Sardenberg – O Globo

A ERA DA BOÇALIDADE

Secretário da Rouanet leva arma para o trabalho

Mário Frias também tem o hábito de levar uma arma para a Secretaria da Cultura

Servidores do Ministério do Turismo têm se queixado do clima de insegurança no ambiente de trabalho: o secretário de Fomento e Incentivo à Cultura, André Porciuncula, responsável pela Lei Rouanet, tem o costume de ir trabalhar armado.De acordo com alguns servidores ouvidos pela coluna, a presença da arma constrange os funcionários, que se sentem receosos em emitir pareceres contrários à linha bolsonarista seguida pelo secretário, que é ex-PM e elogia propostas do presidente para armar a população.

De acordo com os relatos, o clima é de tensão e ameaça.

Porciuncula não é o único a ir armado para o trabalho. Mário Frias também tem o hábito de levar uma arma para a Secretaria da Cultura, como relatou o repórter Eduardo Moura.

A abordagem de Porciuncula, no entanto, seria diferente da usada por Frias, de gritar com os colegas, embora também tenha o hábito, segundo os relatos, de destratar funcionários.

O secretário também teria causado constrangimento com superiores por ter assinado em março, sem a análise da consultoria jurídica, uma portaria para priorizar projetos culturais em estados que não empreguem medidas de restrição para tentar controlar a pandemia e que são alvo de Bolsonaro.

Menos de quatro semanas depois, em 29 de março, o ministro do Turismo, Gilson Machado, assinou uma portaria que obriga todas as minutas de atos normativos a passarem pela Consultoria Jurídica, mesmo quando não precisarem da assinatura de Machado.

A coluna contatou o Ministério do Turismo, mas não obteve resposta até o momento.*

(**) Naomi Matsui – Metrópoles

FASCISMO FARDADO

Comandante de ação violenta contra manifestantes em PE é afastado

Governador afirma ter aberto procedimento para apurar responsáveis

Dias 522, 523 e 524 | “E a gente chama isso de fascismo não é à toa” | 06,  07 e 08/06/20 – Medo e delírio em Brasília
O governador de Pernambuco, Paulo Câmara, disse neste sábado que o comandante e policiais envolvidos na ação violenta contra manifestantes que protestavam contra Jair Bolsonaro em Recife foram afastados do cargo.Na operação, policiais dispararam balas de borracha e gás de efeito moral, além de terem detido alguns dos manifestantes. Um soldado também disparou spray de pimenta no rosto da vereadora do PT Liana Cirne Lins.Câmara afirmou também que a Corregedoria da Secretaria de Defesa Social já instaurou procedimento para investigar os responsáveis.

(**) Naomi Matsui – Metrópoles

JÁ SE ESPERAVA…

A vingança de Bolsonaro

Ele deve ter ficado magoado com o Exército após quase ter sido expulso em 1986

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Jair Bolsonaro deve ter ficado magoado com o Exército depois de quase ter sido expulso da instituição em 1986. Vingança é a melhor explicação para a difícil situação em que o capitão reformado põe o Exército agora.

Com efeito, com pouco mais de dois anos na Presidência, Bolsonaro fez com que os generais jogassem por terra três décadas de intensos esforços de relações públicas pelos quais tentaram convencer o país de que o Exército Brasileiro tinha compromisso com a democracia e se pautava pelo profissionalismo e pela competência.

Apreço pela democracia não é compatível com o apoio ostensivo que militares da ativa dão a um político autoritário que pode ser acusado de várias coisas, mas não de zelar pelas instituições democráticas.

Profissionalismo e competência não são compatíveis com o desastre que é a atual administração, que conta com número recorde de militares. O caso mais notório é o do ex-ministro da Saúde general Eduardo Pazuello, que aceitou um cargo para o qual não estava qualificado e entregou um morticínio.

Bolsonaro também foi capaz de produzir uma crise militar como o país não via havia décadas ao demitir, em março passado, o ministro da Defesa e os chefes das três Forças. Ao que tudo indica, a dispensa ocorreu porque o presidente não se sentia suficientemente apoiado pelos oficiais.

Nos últimos dias, o capitão rebelde voltou à carga, arrastando Pazuello para um ato político, o que é vedado a militares da ativa, e criando empecilhos à punição que o comando teria de impor ao general. Mais uma vez, a imagem da instituição vai para a lama. Ou o novo comandante peita o presidente (o que não ocorrerá) ou contemporiza e se sai com uma punição simbólica, o que representaria um incentivo à indisciplina e à politização das Forças Armadas.

Tudo isso talvez tivesse sido evitado se, lá atrás, os oficiais não tivessem contemporizado ao punir Bolsonaro.*

(**) Hélio Schwartsman – Folha de São Paulo

DURA LEX SED LEX NO CABELO SÓ GUMEX

Supremo desfaz a si mesmo para blindar Toffoli

JUSTIÇA" LENTA, DEMOCRACIA E … (frases e charges) – Sarau Para Todos

Já se sabia que a Justiça é cega. Descobre-se agora, num episódio estrelado pelo ministro Dias Toffoli, que a balança da Justiça está desregulada. A desregulagem ficou evidente na decisão em que o Supremo Tribunal Federal anulou, por 7 votos a 4, a delação do megacorrupto Sérgio Cabral, ex-governador do Rio. Alegou-se que a validade do acordo, celebrado pela Polícia Federal, dependia do aval do Ministério Público. Em 2018, o mesmo Supremo havia decidido o oposto. Reconheceu os poderes da PF para firmar acordos de delação, mesmo que à revelia do Ministério Público.

A delação de Cabral havia sido homologada no ano passado. A Procuradoria contestou a decisão em março de 2020. Só agora, um ano e dois meses depois, o pedido de anulação foi julgado. O assunto saiu da gaveta depois que o nome de Dias Toffoli foi pendurado nas manchetes de ponta-cabeça. Descobriu-se que Cabral acusou Toffoli de receber propina de R$ 4 milhões para favorecer dois prefeitos fluminenses enroscados no Tribunal Superior Eleitoral. Toffoli nega o malfeito. Antes de analisar o mérito da delação, tornou-se necessário julgar a preliminar sobre a validade do acordo.*

(**) Josias de Souza
Colunista do UOL