E VIVA O BOÇALNISTÃO!

Pague, pague mais caro

Encher o seu prato já custa 52% a mais do que há um ano. Vai subir mais: os produtos agropecuários se valorizaram no mercado mundial e a China está importando mais do que nunca. Como o Governo não providenciou nenhum estoque estratégico, os preços sobem e talvez faltem derivados de milho e de soja. Pode piorar: de janeiro para cá, os fretes do Centro Oeste aumentaram 25% em média. Parte dos aumentos parece temporária; porém até lá vai doer.

Mas há custos que o caro leitor está pagando e que são imorais. Neste Dia das Mães, o presidente Bolsonaro festejou com um churrasco todo especial: a picanha que foi servida custa R$ 1.799,99 o quilo. É carne wagyu, uma variedade de gado japonês, vendida em peças de 350 gramas, a R$ 599,00 cada, pelo Frigorífico Goiás. Coisa chique: na embalagem, uma caricatura de Bolsonaro, um slogan da campanha presidencial e a marca Picanha Mito.

No site do Frigorífico Goiás (https://friggoias.com/produto/picanha-wagyu/), não há Picanha Mito; mas há picanha de gado Wagyu, a R$ 599,00 a peça de 350 gramas – preço promocional, informam, já que o preço normal do bife de 350 gramas é de R$ 1.200,99. Tchê, “O Churrasqueiro dos Artistas”, foi importado de Belém do Pará, a quase 2 mil km do Alvorada.

Entre os convidados, só gente chique – nenhum daqueles que gritam Mito a cada palavra de seu ídolo. Neste churrasco todo selecionado, estava por exemplo o cirurgião plástico de Michele Bolsonaro.

Pague e não bufe.

O dia adequado

Foi uma festa digna do dia a ser festejado. Pena que a mãe sejamos nós.

A hora dos problemas

Charge: A “escolha muito difícil” de Bolsonaro | Jornal Alto Vale Online

Dois jornais revelaram fatos que vão incomodar o presidente Bolsonaro por alguns dias. A Folha de S.Paulo descobriu os bifes milionários que Sua Excelência serve aos bons amigos. O Estado de S.Paulo pegou um escândalo de R$ 3 bilhões de reais – que, dissimulados no Orçamento, serviram para convencer parlamentares mais flexíveis a votar nos candidatos de Bolsonaro à presidência da Câmara e do Senado.

Um escândalo interessante: o dinheiro foi destinado aos gastos solicitados pelas Excelências mais colaborativas. E há indícios de compras altamente superfaturadas, como tratores com preços 259% superiores aos habituais. Um equipamento de R$ 100 mil pode ter custado R$ 359 mil, tudo discreto, na moita. Bolsonaro disse que é mentira e que foi tudo criado “pelos canalhas” do Estadão. O problema é que o jornal apresenta toda a documentação oficial, incluindo os ofícios de parlamentares indicando onde gastar o dinheiro. Será curioso seguir os desmentidos.

Lembranças

Pergunta a Bolsonaro dos R$ 89 mil bomba na web; veja posts mais criativos - UOL TILT

Até agora, as rachadinhas, as compras milionárias de bebidas alcoólicas e os 700 mil kg de picanha para as Forças Armadas, o caso Queiroz, a dúvida a respeito do motivo pelo qual Queiroz e senhora depositaram R$ 89 mil na conta da primeira-dama, os R$ 2,5 milhões gastos em férias só neste ano, as ordens de compra de insumos de cloroquina a preços bem superiores aos habituais, a estranha insistência em cloroquina, tudo isso quase não atingiu Bolsonaro.

Em outras épocas, saraivadas de acusações foram feitas contra o governador paulista Orestes Quércia, apelidado de Teflon porque nada grudava nele. Mas, quando grudou, custou-lhe tanto voto que seu partido, o PMDB, sempre forte em São Paulo, perdeu o poder político no Estado.

As pedras no caminho…

Por que gesto de 'OK' de assessor de Bolsonaro está em lista de símbolos de ódio

Lembra-se de Felipe Martins, assessor para Assuntos Internacionais da Presidência da República, que foi filmado no Senado fazendo um gesto que, para alguns, significa aquilo que o público de um estádio costuma gritar para o juiz e, para outros, copia um gesto americano de supremacia branca?

A Procuradoria da República em Brasília deu prazo até o dia 13 para que Felipe Martins explique seu gesto. Se ele disser que foi um sinal obsceno para os senadores e o público, é ruim. Se disser que é supremacia branca, é crime.

Se disser, como até agora, que estava arrumando o terno, é ridículo.

Os donos do cargo

De Lucca on Twitter: "Historicamente é ok [ou tomar no cu, depende da região], mas ele foi ressignificado pela extrema-direita no exterior como símbolo dos supremacistas brancos.… https://t.co/3LJI0kMZJg"

O normal seria que ele pedisse demissão “para que a má interpretação de seu gesto” não prejudicasse o Governo. Ou que o Governo o afastasse “para poupá-lo”. Mas demissão ele não pede. E seus padrinhos são Olavo de Carvalho e Carluxo, o filho 02, gurus de Bolsonaro. Quando Carluxo se irrita com o pai e se afasta, o pai sente sua falta. Quando Olavo se irrita, manda Bolsonaro enfiar uma condecoração no pazuello.

Ser presidente é dolorido.*

(**) Coluna Carlos Brickmann

COMEÇOU A ESCULHAMBAÇÃO

Chega ao STF o primeiro pedido para Pazuello ficar em silêncio na CPI da Covid

Foi apresentado ontem, às 23h, o primeiro pedido de habeas corpus em favor do general Eduardo Pazuello, ex-ministro da Saúde de Bolsonaro. O advogado Rafael Mendes de Castro Alves correu ao STF para pedir liminar beneficiando Pazuello com o “direito constitucional ao silêncio na condição de inquirido como testemunha” na CPI da Covid-19.

Apesar da petição de valorosas oito páginas, o advogado não representa Pazuello oficialmente – o que joga contra a solicitação. O pedido “oficial” de habeas corpus, se assim é possível dizer, está nas mãos do advogado-geral da União, André Mendonça.

Como se sabe, o depoimento de Pazuello está previsto para 19 de maio. Para requerer o silêncio do general, o advogado alega que a CPI tem atuado de forma “ardil” ao “constranger” as testemunhas presentes, e que o ex-ministro “foi durante 12 meses, e ainda é, o cidadão brasileiro mais alvejado politicamente pelo combate e enfrentamento à pandemia global do novo coronavírus”.*

(**) Nelson Lima Neto – O Globo

UM GOVERNO DESQUALIFICADO

CPI da Covid: provas ganham corpo e desmoralizam governo; leia análise

Das 11 vacinas vendidas no mundo, o Brasil apostou todas as fichas em apenas duas delas, decisão que revelou-se atroz

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Quantas mortes teriam sido evitadas se o governo federal tivesse comprado, por dez dólares a dose, milhões de vacinas da Pfizer disponíveis para entrega desde dezembro de 2020? É certo que

milhares de óbitos preveníveis pela vacinação ocorreram enquanto ofertas comerciais da empresa eram desdenhadas.

O representante da farmacêutica, Carlos Murillo, confirmou, em termos inequívocos, as tratativas fracassadas com o Ministério da Saúde, o que tanto causa estupor, agora com o detalhamento levado à CPI.

Das 11 vacinas vendidas no mundo, o Brasil apostou todas as fichas em apenas duas delas, decisão que revelou-se atroz. Conforme contrato recente e extemporâneo, entre o governo e Pfizer, a

vacina que o país ajudou a testar passou de rejeitada a possível candidata a campeã de doses em 2021. As entregas anunciadas pelo depoente na CPI são mais um revelador da negligência

anterior.

Nesse episódio, a oposição deve cimentar a tese na CPI que converge para a desmoralização do governo. É compreensível, sob o risco de dispersão que favoreceria governistas de tão poucos

argumentos, que senadores não tenham olhado para a Pfizer em si.

Em alguns países é ela, a empresa, que vem sendo criticada por suas estratégias comerciais calculistas. Com foco em inovação e produtos caros, a Pfizer prioriza vender seu imunizante aos países

ricos e tem engajamento mínimo no consórcio de vacinas da OMS. Radical contra a quebra de patentes, não menciona transferir tecnologia para produção local, não prevê outsourcing

(terceirizar produção, por exemplo com a Índia, para ampliar a oferta no mundo), exige prédios de embaixadas e bases militares como garantia para vender a países pobres, e ainda fecha acordos

polêmicos. Um deles – obter informações confidenciais sobre efeitos adversos da vacina em troca de doses – foi o que permitiu Israel largar na frente na vacinação e ajudou na reeleição de

Benjamin Netanyahu.

O depoimento da Pfizer criou uma atmosfera agourenta para o governo federal na CPI. A base probatória ganha corpo. Mas considerando o histórico de personagens centrais da comissão, não há

que se esperar coerência excessiva nem se pode tornar antecedentes pessoais mais nobres do que foram.*

(**) Mário Scheffer*, O Estado de S.Paulo*

**PROFESSOR DA FACULDADE DE MEDICINA DA USP

VAGABUNDO X GENOCIDA

Bolsonaro sobre Renan: “Temos um vagabundo inquirindo pessoas de bem”

Em agenda no estado do senador, Alagoas, o presidente da República disparou críticas contra o relator da CPI da Covid

O presidente Jair Bolsonaro (sem partido) fez uma série de críticas ao senador Renan Calheiros (MDB-AL), relator da Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) da Covid, durante agenda em Alagoas nesta quinta-feira (13/5).“Se Jesus teve um traidor, temos um vagabundo inquirindo pessoas de bem. É um crime o que vem acontecendo com essa CPI”, disparou o mandatário do país.

Bolsonaro cumpre agenda em Alagoas, estado comandado por Renan Filho (MDB), herdeiro do relator da CPI da Covid. O governador não acompanhou os compromissos públicos. Ao lado do prefeito de Maceió, João Henrique Caldas, o JHC (PSB), o presidente participou da entrega de 500 unidades habitacionais do Residencial Oiticica I. Em seguida, vai inaugurar um complexo viário.

Enquanto o público presente gritava “Renan vagabundo”, Bolsonaro disse:

“O recado que eu tenho para esse indivíduo: se quer fazer um show tentando me derrubar, não fará. Somente Deus me tira daquela cadeira. Temos um compromisso com vocês e devemos lealdade a vocês. Queremos trabalhar O povo quer liberdade, quer ser feliz. E no que depender desse governo, assim o será.”

Na quarta (12), o senador Flávio Bolsonaro (Republicanos-RJ), filho do presidente, havia chamado Renan de vagabundo, durante depoimento do ex-secretário de Comunicação Social da Presidência Fabio Wajngarten na CPI, o que ensejou a militância bolsonarista a repetir o xingamento.

O presidente da Câmara, Arthur Lira (PP-AL), e o senador Fernando Collor (Pros-AL) também acompanham a agenda do chefe do Executivo federal no estado.*

(**) Flávia Said – Metrópoles

PINÓQUIO DE ESTIMAÇÃO

Pfizer afirma que Brasil ignorou seis ofertas para compra de vacinas

Segundo executivo Carlos Murillo, governo federal ignorou carta enviada pela farmacêutica ao alto escalão

 

Gilmar Fraga / Agencia RBS

 

O gerente-geral da Pfizer para a América Latina, Carlos Murillo, confirmou, nesta quinta-feira (13/5), que o presidente Jair Bolsonaro (sem partido) ignorou carta enviada pela farmacêutica ao alto escalão do governo federal se colocando à disposição para negociar com o Brasil doses de vacina contra Covid-19.

O governo, segundo Carlos Murillo, não respondeu às propostas que previam 1,5 milhão de doses ainda no ano passado.O documento foi apresentado à Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) da Covid pelo ex-secretário de Comunicação Social da Presidência Fabio Wajngarten. Provocado pelo relator, senador Renan Calheiros (MDB-AL), Murillo enfatizou: “Nós não recebemos resposta da Presidência”.

Aos senadores do colegiado, o gerente mostrou cronograma detalhado sobre as negociações entre a Pfizer e o governo, exclusivamente sobre compra de vacinas.

Foram realizadas, de acordo com o representante, “reuniões exploratórias” em maio e junho de 2020. Em 16 de julho, a empresa conversou com o governo federal sobre as condições de compra das doses. “Tivemos outras reuniões no mês de agosto, em que aprofundamos alguns detalhes. Em 6 de agosto, o governo manifestou possível interesse em nossa vacina e fornecemos em 14 de agosto nossa primeira oferta, uma oferta vinculante”, disse.

Segundo o gerente-geral da Pfizer, o governo federal recusou, ao todo, seis ofertas — cinco delas oferecidas entre agosto e novembro de 2020. A primeira oferta da farmacêutica foi feita em 14 de agosto. Na ocasião, a empresa apresentou contrato de 30 milhões de doses e um outro de 70 milhões de doses.

A mesma proposta, nos mesmos termos, foi apresentada ao governo em outras duas ocasiões: 18 e 26 de agosto. Em 11 e 24 de novembro, a norte-americana mudou os termos do contrato e reduziu, para 70 milhões, o montante de imunizantes à venda.

Em 15 de fevereiro de 2021, a Pfizer voltou a fazer uma oferta, de 100 milhões de doses. No entanto, apenas em 8 de março, o governo brasileiro aceitou e fechou contrato com a empresa norte-americana.

Murillo afirmou que teve contato, por duas vezes, com o ex-ministro da Saúde Eduardo Pazuello. “Tive duas interações com o ministro Pazuello. A primeira, em novembro, ele fez uma ligação ao meu celular, colocando-se à disposição para continuar a negociação. Neste momento, tinha enviado a oferta de 70 milhões de doses e, depois, conversas que tive com ele foi no Ministério da Saúde. Em 22 de dezembro, ele falou que agora estávamos avançando e que precisava contar com mais doses para o Brasil. Respondi que tínhamos esse compromisso”, pontuou o gerente.

O encontro da Pfizer com os senadores ocorre após o depoimento de Wajngarten. Os senadores ouviram também o presidente da Anvisa, Antônio Barra Torres, os ex-ministros da Saúde Luiz Henrique Mandetta e Nelson Teich, além do atual chefe da pasta, Marcelo Queiroga.

A CPI da Covid-19 tem por objetivo investigar ações e omissões do governo federal no enfrentamento à pandemia e, em especial, no agravamento da crise sanitária no Amazonas com a ausência de oxigênio, além de apurar possíveis irregularidades em repasses federais a estados e municípios.*

(**) Victor Fuzeira e Marcelo Montanini – Metrópole

TORNIQUETE

CPI, tratoraço e Datafolha mostram: 2º turno sem Bolsonaro não é inviável

Além da grande vantagem do ex-presidente Lula sobre Jair Bolsonaro, tanto em primeiro quanto em segundo turno, o que o novo Datafolha mostra é que não é impossível, como muitos analistas de pesquisas avaliam até aqui, que aconteça no ano que vem um cenário em que Jair Bolsonaro fique fora do segundo turno.

Até aqui o presidente vem mostrando espantosa resiliência em manter uma aprovação a seu mandato e um índice de intenção de votos expressivos dadas as muitas frentes em que seu governo é uma tragédia: a avaliação sempre supera a casa dos 22% e o percentual dos que dizem que pretendem votar nele ainda está em 23%, de acordo com o Datafolha (bem abaixo de pesquisas anteriores, diga-se).

Mas a maré daqui até as urnas não será fácil para ele. A CPI da Pandemia tem avançado por um rumo bastante delicado, mostrando, agora com documentos, a deliberada omissão de Bolsonaro e de seu governo para comprar vacinas para proteger a população brasileira do novo coronavírus.

Mesmo a capitulação do presidente negacionista, que passou a investir na compra de vacinas, não tem sido capaz de fazer com que os imunizantes cheguem em quantidade razoável para acelerar nossa lenta vacinação. Por quê? Pelo alerta feito pela Pfizer: era evidente que governos que deixassem para provisionar seu estoque de vacinas depois das grandes potências ficariam para trás.

Pela enorme população do Brasil, a Pfizer se preocupou em procurar o governo brasileiro em setembro. E deu com a cara na porta. O potencial destrutivo dessa comprovação é duplo: no âmbito da CPI e na já desgastada imagem do governo, portanto podendo acentuar sua queda nas pesquisas de avaliação e de intenção de votos.

O mesmo movimento pode decorrer do avanço no novo cipoal no qual está envolto Bolsonaro, o do Orçamento secreto, ou paralelo, em que donos de nacos de dinheiro público decidem para onde vão mandá-lo, fora da lupa dos órgãos de controle. O caso vai se expandir para além do Ministério do Desenvolvimento Regional, atingindo Bolsonaro naquela balela repetida de que seu governo não tem corrupção. Mais desgaste, mais perda de massa muscular nas pesquisas.

Para que se torne uma possibilidade concreta que ele fique fora do segundo turno no ano que vem essas investigações precisam ter resultados. Sua sorte também depende da recuperação ou não da economia e do ritmo de vacinação, que vai ditar se sairemos antes ou tarde da espiral de mortes em que estamos.

A construção de um segundo turno sem Bolsonaro, possibilidade sobre a qual escrevi em minha coluna em 24 de março, portanto bem antes dessa preparação de tempestade perfeita, também depende da construção de uma candidatura robusta de centro — com variantes à esquerda ou à direita.

Ciro Gomes é quem tem a candidatura mais estruturada até aqui. Tem recall, partidos dispostos a apoiá-lo, o apoio de seu próprio partido (um luxo, quando se olha, por exemplo, a situação de guerrra do PSDB) e um marqueteiro vencedor.

Mas imaginar um segundo turno entre ele e Lula é desconhecer que a direita ainda terá um papel importante em 2022, a despeito do desastre de Bolsonaro. O mais provável é que o ex-presidente e o pedetista disputem a mesma vaga. Portanto, a força de Lula em primeiro e segundo turno é péssima notícia não só para Bolsonaro, mas também para Ciro.*

(**) Vera Magalhães – O Globo

MENOS UM FASCISTA NA LINHA DE FRENTE

A mentira e a linha de um tempo de absurdos

Ministério Público pede afastamento de Fábio Wajngarten, chefe da Secom |  bloglimpinhoecheiroso

Precipitadamente, esperava-se que o depoimento de Fabio Wajngarten trouxesse revelações bombásticas e viesse a entregar ex-colegas de governo. Afinal, o ex-secretário viveu os bastidores da presidência de Jair Bolsonaro, foi integrante do núcleo dirigente e, sobretudo, por meio da Revista Veja havia dirigido artilharia pesada contra o Ministério da Saúde.

No entanto, sendo evasivo, Wajngarten buscou se caracterizar como um burocrata distante do centro do poder. Defendeu-se e optou pela fidelidade ao presidente e à sua alma mater, o bolsonarismo. E era mesmo essa a perspectiva mais realista a respeito do depoimento.

Contudo, ele não combinou com a maioria da CPI. Determinados em revelar erros do governo e do presidente da República, os membros não governistas da comissão resolveram apertar o ex-secretário. E assim explicitaram inúmeras contradições em suas declarações. Sobretudo, em relação ao que disse à revista Veja.

Saiu dali a primeira protagonista do dia: as acusações de falso testemunho — Wajngarten mentiu à CPI ou à Veja? A revista liberou o áudio da entrevista e uma acareação entre o ex-secretário e seus repórteres foi posta sobre a mesa. Ficou ali patente o erro estratégico de Wajngarten, o que poderia ter-lhe levado da CPI diretamente à prisão. Não chegou a tanto, mas ficou o recado aos próximos depoentes.

A segunda personagem do depoimento emergiu com a exposição da Carta da Pfizer dirigida aos principais membros do governo. Emitida em setembro de 2020, ela alertava para a urgência da negociação em torno da compra de vacinas. Como se o assunto fosse irrelevante, após dois meses parecia ignorada — medidas efetivas se deram apenas quatro meses mortais mais tarde. Inadvertidamente, Wajngarten explicitou “a linha do tempo de absurdos” que giram em torno da pandemia no Brasil.

A mentira e o desmazelo gritaram alto na CPI. Despreparada, a tropa governista não conseguiu deter a linha do tempo. Nem a história, de onde todos os absurdos transbordam.*

(**) Carlos Melo, cientista político. Professor do Insper.

SO GENTE BOA

Toffoli deu decisões favoráveis a prefeitos citados em delação de Cabral

Em 2018, Toffoli prometeu a Villas Bôas que STF manteria Lula fora das  eleições – Em Cima da Notícia

O ministro Dias Toffoli , do Supremo Tribunal Federal, deu decisões favoráveis quando atuou no Tribunal Superior Eleitoral para os dois prefeitos fluminenses citados na delação do ex-governador do Rio Sérgio Cabral, que acusa o magistrado de receber pagamentos ilícitos.

Segundo Cabral, Toffoli recebeu 4 milhões de reais por meio do escritório de advocacia da mulher dele, Roberta Rangel, entre 2014 e 2015, para favorecer Branca Motta, ex-prefeita de Bom Jesus de Itabapoana, e Antônio Francisco Neto, atual prefeito de Volta Redonda. Toffoli negou, por meio de nota, ter recebido quaisquer recursos ilícitos.

Foi com base no relato feito por Cabral e apurações complementares que o delegado Bernardo Guidali Amaral solicitou ao ministro Edson Fachin a abertura de inquérito para investigar Toffoli. Responsável por homologar o acordo de colaboração de Cabral com a PF, Fachin encaminhou a solicitação para a Procuradoria-Geral da República emitir seu parecer. No passado, a PGR se recusou a assinar o acordo com o ex-governador.

No período dos supostos pagamentos mencionados por Cabral, Toffoli deu decisões favoráveis aos dois prefeitos no TSE, onde atuou entre os anos de 2012 e 2016. Em 2014, o ministro concedeu uma liminar mantendo Branca Motta no cargo de prefeita após ela ter tido o mandato cassado pelo Tribunal Regional Eleitoral do Rio, por abuso de poder econômico. Depois, o plenário do TSE manteve a decisão de Toffoli.

Já em 2015, quando era presidente do TSE, Toffoli votou para reverter a cassação do mandato do prefeito de Volta Redonda, Antônio Francisco Neto, do MDB, que também tinha sido cassado pelo TRE do Rio por propaganda irregular na campanha de 2012.

O ministro havia pedido vista nos embargos de declaração apresentados pela defesa do prefeito e, depois, afirmou em seu voto que era o caso de “reenquadramento e da valoração das provas” no processo do emedebista. “E nesta revaloração eu considero que não houve o abuso. Então, não vejo aqui a potencialidade de ter atingido o pleito”, afirmou Toffoli na ocasião.

O relato feito por Sérgio Cabral consta de um dos cerca de 20 anexos complementares do acordo de delação premiada homologado por Fachin em fevereiro do ano passado. Em uma das cláusulas do acordo, foi definido prazo de 120 dias para que o ex-governador apresentasse elementos de corroboração dos fatos mencionados envolvendo agentes públicos delatados com foro no Supremo, como ministros do Superior Tribunal de Justiça, do Tribunal de Contas da União e o próprio Toffoli.

Com esses elementos, o delegado da PF encarregado do caso decidiu solicitar a abertura de um inquérito ao próprio Supremo para investigar o ministro, fato inédito na história do tribunal. Paralelamente, há um recurso da PGR no STF contestando a delação de Cabral. O ministro Edson Fachin decidiu encaminhá-lo para o plenário virtual do corte, que examinará o caso entre os dias 21 e 28 de maio.*

(**) FABIO LEITE – CRUSOÉ

O PALÁCIO DO PLANALTO TREME…

Wajngarten é um mentiroso, mas a mentira na CPI pode ser mais ampla

Capa da notícia

Foto: Edilson Rodrigues/Agência Senado

O ex-chefe da Secom Fabio Wajngarten é um mentiroso, como demonstra o seu depoimento na CPI da Covid. Mentiu quando disse que não havia afirmado em entrevista ao jornalista Policarpo Jr. que ex-ministro da Saúde Eduardo Pazuello pecava por incompetência. Mentiu quando disse que a Secom fez a publicidade correta sobre os protocolos sanitários necessários para combater o vírus. Mentiu quando afirmou que Jair Bolsonaro não foi suficientemente informado sobre a gravidade da pandemia. Com a expressão assustada, Wajngarten perdeu a arrogância que cultivava quando comandava a Secom, mas continua a servir de guardião das lorotas bolsonaristas.

Na entrevista a Policarpo Jr, Fabio Wajngarten tentou empurrar para Eduardo Pazuello a inteira responsabilidade da gestão desastrosa da pandemia. Por isso falou em “incompetência” do ex-ministro. Hoje, tentou mudar a versão, mas a divulgação do áudio da entrevista a Policarpo Jr. desmentiu o Pinóquio. O que mudou de lá para cá? É que o ex-ministro da Saúde começou a dar sinais vigorosos de que não aceitará assumir toda a culpa, de que não será um soldado tão obediente como se imaginava. Que poderá entregar o comandante do massacre: o presidente Jair Bolsonaro.

Eduardo Pazuello está fugindo do depoimento da CPI da Covid não porque seja um covarde, mas porque o Planalto e adjacências agora tentam encontrar uma forma de evitar que o ex-ministro da Saúde conte toda a verdade, a fim de poupar o presidente da República. Como foi noticiado, Eduardo Pazuello ameaça até tirar a AGU da sua defesa, o que resultou no corre-corre atrás de um habeas corpus para cancelar o seu depoimento ou permitir que ele fique calado na próxima quarta-feira, data prevista para a sua aparição apoteótica na CPI da Covid.

Quanto aos inquiridores no teatro na CPI da Covid, é de se perguntar se realmente interessa a boa parte deles que Eduardo Pazuello entregue Jair Bolsonaro de maneira a tal inviabilizar a sua permanência no Palácio do Planalto. Qual seria o ponto ideal que possibilitará a sobrevivência do pato manco, sem inocentá-lo de barbaridades cometidas? Afinal de contas, o objetivo de continuar a achacá-lo se casa com o de mantê-lo bem enfraquecido no poder até a eleição presidencial de 2022, e não seria bom para ambos os lados que o depoimento de Eduardo Pazuello causasse clamor ainda maior pela abertura de um processo de impeachment do presidente da República.

Fabio Wajngarten é um mentiroso, mas possivelmente há mentiras mais amplas, gerais e irrestritas na CPI da Covid.*

(**) Mário Sabido – O Antagonista