UM CELERADO NO PODER

Ambientalistas contestam fala de Bolsonaro na ONU: ‘Afirmações delirantes’

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Ambientalistas criticaram duramente as informações divulgadas pelo presidente Jair Bolsonaro sobre o meio ambiente em seu discurso na Assembleia Geral da ONU em Nova York nesta terça, 21.

Bolsonaro afirmou, por exemplo, que, na Amazônia, “tivemos uma redução de 32% do desmatamento no mês de agosto, quando comparado a agosto do ano anterior“.

O número usado pelo presidente foi retirado do programa Deter, sistema de alerta das áreas de desmatamento mantido pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais, o Inpe. Porém, o Deter apenas localiza áreas com alteração de vegetação. Em agosto e em setembro, em geral, queima-se aquilo que já foi desmatado anteriormente, para abrir espaço para as culturas, como a soja e a pecuária. A área que foi de fato desmatada é calculada por outro programa, o Prodes, também do Inpe, que é divulgado uma vez ao ano, geralmente em novembro.

Os dados anuais do Prodes já publicados mostram que, nos cinco anos anteriores ao governo Bolsonaro, a média de desmatamento na Amazônia foi de 6,7 mil quilômetros quadrados. Nos primeiros dois anos da atual gestão, a média foi de 10,5 mil quilômetros quadrados, um aumento de 56%. Os dados de 2021 serão divulgados apenas no fim do ano. Segundo a ONG Observatório do Clima, os números devem ficar novamente em torno de 10 mil quilômetros quadrados.

Bolsonaro deve saber a diferença entre o Deter e o Prodes, mas ele usa os números para agradar a própria claque. Ele selecionou apenas o dado de agosto do Deter, mas se ele tivesse considerado o ano todo, de janeiro até agora, teria percebido que não teve diminuição nos alertas de desmatamento em relação ao ano anterior“, diz Marcio Astrini, secretário-executivo do Observatório do Clima.

O engenheiro florestal Mauro Armelin, diretor da ONG Amigos da Terra, também considera que a situação não melhorou. “O desmatamento não tem dado sinais de que está sendo reduzido e isso, provavelmente, será comprovado com os dados do Prodes, a serem divulgados nos próximos meses”, diz Armelin.

Em sua tentativa de exibir um cenário favorável, Bolsonaro afirmou ainda que “os recursos humanos e financeiros destinados ao fortalecimento dos órgãos ambientais foram dobrados, com vistas a zerar o desmatamento ilegal“.

Ocorre que, no governo atual, as multas do Ibama caíram para o nível mais baixo em duas décadas e as operações de campo minguaram. Em relação aos alegados “recursos humanos” que, segundo o presidente, teriam sido “dobrados”, o Observatório do Clima afirma que o concurso público feito para os órgãos de fiscalização do meio ambiente, anunciado após três anos de pressão internacional, concentra 73% das vagas em técnicos de nível médio, que por lei não podem fiscalizar. O Ibama receberá apenas 96 analistas com curso superior, o que preenche 10% das suas necessidades.

Foi um discurso cheio de mentiras, incluindo algumas afirmações delirantes. Mas o mundo sabe o que esta acontecendo no Brasil, particularmente em relação a política ambiental, climática e da Amazônia“, diz Eduardo Viola, professor de relações internacionais da Universidade de Brasília e especialista em meio ambiente. *

(**) DUDA TEIXEIRA – CRUSOÉ