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UM NÃO VIVE SEM O OUTRO

Lula x Bolsonaro será um grande confronto de mentirosos

Lula x Bolsonaro será um grande confronto de mentirosos, em que Lula leva vantagem. A terceira via não pode ser mais um mentiroso

A mentira nasceu com o homem, provavelmente quando Caim negou ter matado Abel, com medo da ira de Adão e Eva.

De lá para cá, mentir, todo mundo mente, mas quando alguém começa a mentir para si mesmo, e acreditar, é um caso perdido, dizem os psicanalistas.

Em 2005, durante o julgamento do Mensalão, diante do cinismo e das mentiras dos acusados, escrevi uma crônica com o título de “Minto, logo, existo”, o cartesianismo à brasileira, expressando aquele momento histórico. Santa ingenuidade. O que se mentiu de lá para cá superou de longe as previsões mais pessimistas. No Petrolão e na Lava-Jato a mentira dominou a cena, depois vieram os desmentidos das mentiras, as delações cheias de falsidades. “Eu não sabia” foi a campeã das mentiras.

A partir de Donald Trump, vindo do showbusiness, onde a ficção e a realidade se misturam, a mentira foi institucionalizada como linguagem e adotada pelos seus devotos espalhados pelo mundo. No início do governo, a porta-voz da Casa Branca ainda se saiu com a expressão “fatos alternativos” para tentar validar um inegável caô do chefe. Mas logo viu que era inútil. Os fatos falsos se misturavam aos verdadeiros, era esse o objetivo, e o que valia era a palavra de Trump no Twitter.

Até então, com presidentes democratas e republicanos, as mentiras públicas foram poucas —mas graves, como o Iraque ter armas de destruição em massa, de Bush II — e exceções fora da curva, como Richard Nixon, que mentiu tanto que teve que renunciar, num país que tem uma cultura protestante em que faltar com a verdade é ofensa grave, é crime de perjúrio nos tribunais e leva à cadeia. Bill Clinton não sofreu um impeachment porque teve um caso com a estagiária Monica Lewinski, mas porque mentiu para o Congresso. Foi condenado na Câmara, com os votos até de democratas, e escapou por um fio no Senado. Moralismo e hipocrisia também influíram, mas a mentira foi exemplarmente punida.

Trump acabou com isso tudo. Mentiroso vocacional, amoral e compulsivo, suas piores punições até agora foram a expulsão do Twitter e do Facebook, que o levaram a redes alternativas para falar direto a seus devotos, uma mistura de seita religiosa e movimento político. No Brasil, sua versão mais tosca é desmentida e tirada do ar no Facebook, no Twitter e no Instagram, e migra para o Telegram, aplicativo russo de origem obscura e sem representação no país. Se estiver interessado, Putin pode saber tudo que se conspira, se planeja e se mente, ali.

Mas até para mentir é preciso talento. Mentiras em que se percebe a falsidade, a canastrice, não colam: só mentiras sinceras interessam. Além de político, Lula x Bolsonaro será um grande confronto de mentirosos, em que Lula leva vantagem porque mente muito melhor, acredita em suas mentiras, se precisar até chora, enquanto Bolsonaro mente mal, e só seu gado acredita.

A terceira via não pode ser mais um mentiroso.*

(**) Nelson Motta – O Globo