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SEXTA-FEIRA, 17 DE JANEIRO DE 2020

Cristovam, sobre Alvim: “Só faltou levantar e gritar ‘heil, mito’”

 

O ex-senador e ex-ministro Cristovam Buarque comentou, no Twitter, a demissão de Roberto Alvim após ter gravado um vídeo no qual emulava Joseph Goebbels.

“A demissão do secretário da Cultura não muda o caráter do governo Bolsonaro ao desprezar manifestações culturais, políticas, religiosas, intelectuais que não sigam seu credo. Isso é característica totalitária”, escreveu Cristovam.

“A visão nazista não estava só na ideia usada, de Goebbels. Estava na concepção de arte tutelada pela visão política do partido no governo. O secretário só faltou levantar e gritar ‘heil, mito.’”

DEMOCRACIA? PERO NO MUCHO…

Bolsonaro quer que você finja que nada aconteceu

“Essa imprensa que aqui está me olhando”, declarou o presidente. “Comecem a produzir verdades, porque só a verdade pode nos libertar.”

Magnânimo, emendou: “Não tomarei nenhuma medida para censurá-la, mas tomem vergonha na cara.”

O contrário do antigovernismo primário é um pró-governismo inocente, que aceita todas as presunções de Jair Bolsonaro a seu próprio respeito.

Em matéria de ética, isso inclui concordar com a tese segundo a qual o capitão veio ao mundo para desempenhar uma missão que, por ser divina, é inquestionável.

Bolsonaro considera-se beneficiário de dois “milagres”. Num, sobreviveu à facada. Noutro, foi eleito presidente do Brasil. Por isso, acha que foi “escolhido por Deus”.

Todo líder político cultiva a fantasia da excepcionalidade. Bolsonaro inclui-se no grupo dos que exageram.

Evocando o versículo do Evangelho de João —”Conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará”—, o capitão imagina que seu destino evangelizador o dispensa de dar explicações.

Não é o cinismo de Bolsonaro que assusta. O cinismo pelo menos é uma estratégia compreensível para um presidente que se diz amigo do Queiroz e está rodeado de filhos, ministros e auxiliares encrencados com a lei.

O que espanta é perceber que Bolsonaro fala como se acreditasse de verdade que sua missão sublime lhe dá o direito de atentar contra a inteligência alheia.

Desprezadas a lógica e os fatos, sobram o cinismo e a licença dada por Bolsonaro a si mesmo para tratar os brasileiros como bobos.

“A nossa imprensa tem medo da verdade”, bateu Bolsonaro. “Deturpam o tempo todo. E quando não conseguem deturpar, mentem descaradamente!”

Bolsonaro passara o dia sob os efeitos da notícia que revelara a dupla militância do secretário de Comunicação da Presidência, Fabio Wajngarten.

O secretário é sócio de empresa que mantém negócios com tevês e agências contratadas pela Secom.

Mais cedo, Bolsonaro mandara uma repórter da Folha, jornal que havia veiculado a reportagem, calar a boca.

Espremido sobre os contratos da firma de Wajngarten, o presidente partiu para a grosseria: “Tá falando da sua mãe”. E a repórter: “Não, estou falando do secretário de Comunicação, Fabio Wajngarten.”

No fundo, ao sonegar explicações à imprensa, Bolsonaro pede aos brasileiros que façam como ele, se fingindo de imbecis pelo bem da pátria.

Bolsonaro foi alertado para a evidência de que Wajngarten tornou-se um caso clássico de conflito de interesses. Mas não convém colocar em risco a tranquilidade do governo por algo tão supérfluo como a verdade.

Não seria o primeiro sacrifício, apenas mais uma história mal contada em meio a tantas outras: o amigo Queiroz e as cifras repassadas à primeira-dama Michelle, os filhos sob investigação, os ministros enrolados.

De resto, um povo que por 13 anos foi espoliado pelo petismo e seus comparsas já tem prática no papel de bobo. Bolsonaro raciocina com seus botões: Um embuste a mais, um embuste a menos.*

(*) Blog do Josias de Souza

É UMA PESSOA CIVILIZADA

Regina Duarte é convidada para Secretaria de Cultura e diz que responderá até amanhã

Atriz, conhecida por suas posições de direita, diz estar animada com possibilidade

A atriz Regina Duarte foi convidada pelo governo para assumir a Secretaria Nacional de Cultura e promete responder até este sábado (18). Ela já foi chamada anteriormente para o posto pelo presidente Jair Bolsonaro, mas recusou. Dessa vez, no entanto, o assédio a ela aumentou.

A atriz, conhecida por suas posições de direita, vem sendo cortejada por membros do entorno de Bolsonaro desde o anúncio da saída de Roberto Alvim. Regina disse a interlocutores que ficou animada, mas ainda está em dúvida sobre assumir o cargo.

O nome dela também foi levado por um parlamentar próximo ao presidente ao deputado federal Eduardo Bolsonaro (PSL-SP).*

(*) Mônica Bergamo – Folha SP

DECISÃO ENCOMENDADA PARA OS REBENTOS

Decisão de Toffoli sobre o juiz das garantias pode favorecer Flávio Bolsonaro e Lulinha

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A regra fixada pelo presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), ministro Dias Toffoli, que estabelece um prazo de seis meses para a entrada em vigor do juiz de garantias, também pode provocar a mudança dos magistrados que darão sentenças em investigações em andamento, como o inquérito que envolve o senador Flávio Bolsonaro (sem partido-RJ) no caso das “rachadinhas”, e a apuração contra Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha.

Se nos próximos 180 dias, o Ministério Público não oferecer denúncias formais contra réus de operações como Lava Jato, Zelotes e Greenfield, seus casos passarão a ser divididos entre dois magistrados.

“REGRA DE TRANSIÇÃO” – Ao esticar o prazo para a entrada em vigor do juiz de garantias, Toffoli estabeleceu uma “regra de transição” para a validade do texto sancionado pelo presidente Jair Bolsonaro em dezembro.

Nas ações penais já em curso, ou seja, naqueles casos em que a denúncia já foi recebida, não deve haver mudanças na condução dos processos. No entanto, nas apurações que estiverem menos avançadas, ou seja, aquelas em que a acusação formal ainda não foi aceita por um juiz, a nova legislação já deve produzir efeitos, afastando os juízes que acompanharam os casos até aqui.

“RACHADINHA” – Na investigação de um suposto esquema de “rachadinha” no antigo gabinete de Flávio Bolsonaro, filho do presidente da República, na Assembleia Legislativa do Rio, os promotores estão perto de oferecer a denúncia, segundo pessoas que acompanham a investigação.

Para que o juiz Flavio Itabaiana, considerado linha-dura, continue à frente do caso, ele só teria que aceitar a acusação formal em seis meses. O nível de detalhamento dos autos da medida cautelar apresentada à Justiça pelos investigadores no mês passado, quando foram cumpridos mandados de busca e apreensão contra 24 alvos, já é semelhante ao de uma denúncia.

INQUÉRITO PARALISADO – A primeira quebra de sigilos bancário e fiscal autorizada no caso se deu em abril do ano passado e atingiu 85 pessoas e nove empresas. Desde então o MP tinha essas informações para cruzá-las, mas o inquérito foi paralisado em julho por outra decisão de Toffoli.

A decisão só foi julgada – e revertida – em 4 de dezembro pelo plenário do Supremo. A medida cautelar, apresentada à Justiça um dia após o Supremo mudar a decisão de Toffoli, passou apenas por pequenos ajustes antes de ser levado ao juiz. Itabaiana a endossou em 11 dias.

LULINHA – Em Curitiba, Fábio Luís, filho do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, também ainda não foi denunciado pela Lava Jato, sob responsabilidade do juiz Luiz Antônio Bonat. Lulinha é suspeito de receber cerca de R$ 132 milhões da Oi, como propina. Ele nega.

O filho do ex-presidente foi alvo de buscas no dia 10 de dezembro. Como ele não foi preso, hipótese em que há prazo para a denúncia, não há urgência em oferecer a acusação. Lula, por exemplo, foi alvo da Operação Alethea em março de 2016 e denunciado em setembro.

TROCA-TROCA – A Lava Jato de São Paulo também tem casos em que poderia haver troca de juízes. Entre um dos investigados por suspeita de corrupção nas obras do Rodoanel, o ex-diretor da Dersa, Pedro da Silva ainda não foi denunciado. Sucessor de Paulo Vieira de Souza, apontado como operador do PSDB e também investigado em Curitiba, Silva teria girado R$ 50 milhões de forma irregular em cinco anos. Ele também nega as acusações.

Quando o juiz de garantias entrar em vigor, cada ação será conduzida por dois magistrados. Um juiz vai conduzir as investigações e decidir sobre medidas cautelares, como autorizar quebra de sigilo telefônico e bancário, até o momento em que a denúncia for eventualmente recebida. Depois disso, outro magistrado vai ouvir as partes e dar a sentença.

“É fundamental que o Supremo Tribunal Federal determine os exatos termos em que deverá incidir a lei no que tange aos processos e às investigações que estiverem em curso quando do esgotamento do prazo de 180 dias”, escreveu Toffoli, em decisão.

INSEGURANÇA – Para o procurador regional da República Blal Dalloul, a decisão de Toffoli promove insegurança jurídica. “O Brasil insiste em fazer a sociedade pensar que o processo penal depende de quem você está processando. Depois reclamam – tudo é o filho do presidente? Mas é. Acaba parecendo uma decisão encomendada para o caso dele”, criticou o procurador.

A procuradora regional eleitoral Silvana Batini, professora da FGV Direito Rio, por sua vez, afirma que o entendimento de Toffoli pode dar margem a dúvidas. “A simples necessidade de se estabelecer por liminar regras de transição para uma lei já mostra a precipitação da própria lei. Em tempos de instabilidade e insegurança jurídica, o Brasil não merecia mais esse imbróglio”, disse.

A professora de Direito Penal da FGV de São Paulo Raquel Scalcon discorda. “A decisão servirá tanto para orientar comportamentos dos órgãos jurisdicionais, quanto para evitar nulidades futuras. Não retirou a totalidade das dúvidas, mas ofereceu alguma orientação.”*

(*) Rafael Moraes Moura, Caio Sartori, Luiz Vassallo
Estadão

DITADOR DE BOTEQUIM

“Você está falando da sua mãe?” responde Bolsonaro sobre contratos de secretário de Comunicação

O presidente Jair Bolsonaro voltou a reclamar da imprensa nesta quinta-feira, dia 16. Em evento no fim da tarde e começo da noite realizado no Palácio do Planalto, o presidente mandou, em tom exaltado, a imprensa tomar vergonha na cara.

O discurso ocorreu um dia depois da publicação de reportagem do jornal “Folha de S.Paulo” sobre o secretário especial de Comunicação Social da Presidência da República (Secom), Fabio Wajngarten. Depois, questionado sobre o caso, se irritou novamente.

“TUDO LEGAL” – Pela manhã, Bolsonaro já tinha se irritado com a imprensa ao ser perguntado sobre o assunto e afirmou que, pelo que analisou até agora, “está tudo legal” com Wajngarten e que ele irá continuar no cargo. Segundo a “Folha de S. Paulo”, a empresa da qual Wajngarten tem 95% da sociedade mantém contratos com emissoras de televisão e agências de publicidade que atendem o governo.

É tarefa da Secom direcionar os recursos de propaganda do Palácio do Planalto. O caso será analisado pela Comissão de Ética Pública da Presidência da República em sua primeira reunião do ano, no próximo dia 28. O secretário nega ter cometido irregularidades.

“TOMEM VERGONHA” – “Essa imprensa que aqui está me olhando: comecem a produzir verdades, porque só a verdade pode nos libertar. À imprensa: não tomarei nenhuma medida para censurá-la, mas tomem vergonha na cara”, disse Bolsonaro na solenidade no Planalto.

Depois, voltou a dizer, “repetindo: comecem a vender a verdade, afinal é obrigação de vocês. Não é nenhum favor não”. O discurso ocorreu durante a solenidade de passagem de comando da Operação Acolhida, responsável por receber os imigrantes venezuelanos que fogem da crise em seu país e entram no Brasil pela fronteira no estado de Roraima. Em nova fase, a operação poderá agora receber doações privadas, por meio de um site. O dinheiro será gerenciado pela Fundação Banco do Brasil.

Depois da solenidade, o presidente foi ao Palácio da Alvorada. Ao chegar, desceu do carro dizendo que os repórteres deveriam ouvir o discurso que havia feito minutos antes e por isso não falaria à imprensa: “Eu gosto de vocês, mas os editores de vocês…”

“DA SUA MÃE?” – Ao ser questionado se sabia dos contratos da empresa do secretário de Comunicação, Bolsonaro reagiu: “Tá falando da sua mãe?” O repórter respondeu: “Não, estou falando do secretário de Comunicação, Fábio Wajngarten”. Bolsonaro não respondeu mais e passou a cumprimentar apoiadores.

No discurso na solenidade no Palácio do Planalto, Bolsonaro elogiou o trabalho das Forças Armadas na operação e também durante a ditadura militar, atacou o PT e o governo da Venezuela, e criticou os protestos no Chile.

“Não dê chance a essa nova esquerda. Eles não merecem ser tratados como pessoas normais, que querem o bem do Brasil. Não podemos chegar a 2022 como chegou a Argentina no presente ano. Ou como esta caminhando um próspero país, o Chile, caminhando para o socialismo. Não podemos deixar que o Brasil chegue à situação dessa garotada”, disse Bolsonaro referindo ao coral de crianças e adolescentes venezuelanos que vieram para o Brasil e se apresentaram no Planalto.

NOTA –  Em nota, a “Folha de S.Paulo” se posicionou sobre o caso: “O presidente volta a atacar a Folha sem explicar os conflitos de interesse de seu assessor revelados em reportagem. Continuaremos a praticar um jornalismo técnico, crítico e apartidário em relação a seu governo, como fizemos com todas as administrações anteriores.”*

(*) André de Souza, Jussara Soares
O Globo

INFORMAÇÕES DISCREPANTES

Bolsonaro elogia transparência, mas governo omite informações sobre filhas de militares

Resultado de imagem para aposentadoria dos militares - charges

O presidente Jair Bolsonaro afirmou nas redes sociais que determinou a publicação da remuneração dos servidores aposentados e pensionistas do Poder Executivo, fato ocorrido nesta segunda-feira (13). Mas a publicação resultou, na verdade, de decisão do Tribunal de Contas da União (TCU). Além disso, os rendimentos dos militares inativos e de seus pensionistas foram divulgados parcialmente, em volume muito abaixo do real.

No Twitter, Bolsonaro afirmou na segunda-feira (13): “Tenho determinado aos meus ministros, em especial à CGU, que fortaleçam a transparência em defesa do interesse público e combate à corrupção. Por esse motivo, publicamos, em dados abertos, a remuneração dos servidores aposentados e pagamentos aos pensionistas do Poder Executivo”.

A decisão do TCU, tomada em setembro do ano passado, respondeu a denúncia apresentada pela agência de dados Fiquem Sabendo, que contestou o fato de o governo federal divulgar apenas as remunerações dos servidores da ativa. O tribunal deu prazo de 60 dias para o governo federal publicar a renda dos aposentados e pensionistas. Houve atraso, mas os dados acabaram sendo divulgados nesta segunda-feira.

Pensão de filhas de militares: dados parciais nas Forças Armadas
Analisando a base de dados divulgada pelo Ministério da Economia, o blog observou que os pagamentos feitos às pensionistas filhas maiores (solteiras, casadas, divorciadas, viúvas) das Forças Armadas em dezembro somaram apenas R$ 30 milhões. Considerando apenas o Exército, foram R$ 10 milhões em pensão a filhas de militares.

Farra das filhas solteiras custa R$ 4 bi por ano: tem até irmã e neta de 87 anos na “festa”
No final de 2017, em resposta a pedido feito pelo blog por meio da Lei de Acesso à Informação, o Comando do Exército informou o número de pensionistas filhas maiores e o valor total pago por mês. Eram 67 mil pensões num total de R$ 377 milhões por mês. Somando com as filhas maiores da Marinha e Aeronáutica, a despesa mensal com 87 mil pensionistas chegava a R$ 470 milhões – ou R$ 6 bilhões por ano.

Exército informa o número de filhas solteiras e o custo mensal.
O blog questionou a Controladoria Geral da União (CGU) e os Ministério da Economia e da Defesa sobre essa discrepância entre os dados fornecidos pelas Forças Armadas por meio da Lei de Acesso e os valores agora publicados sobre pensão de filhas de militares. A CGU e a Economia responderam que as informações deveriam ser passadas pela Defesa, que fornece a base de dado relativa aos militares.

O Ministério da Defesa apresentou uma resposta protocolar, afirmando que “está em permanente entendimento com a Controladoria-Geral da União, Órgão gestor do Portal da Transparência, prestando todos os dados e informações necessários para o cumprimento de toda e qualquer determinação do Tribunal de Contas da União”.

Exército explica por que não divulga dados de inativos
O Exército foi questionado pelo blog, em dezembro, sobre a remuneração de militares inativos que ocupam cargos públicos federais. Citamos alguns nomes e perguntamos por que essas rendas são mantidas em sigilo, fora do Portal da Transparência, e qual a norma jurídica que determina essa exclusão.

O Comando do Exército respondeu nesta terça-feira (14) que a Portaria Interministerial 233/2012 disciplina, no âmbito do Poder Executivo federal, o modo de divulgação da remuneração recebida por ocupante de cargo, posto e emprego público, “bem como proventos de aposentadoria e pensões daqueles que estiverem na ativa”, conforme diz o art. 7º do Decreto 7.724/2012.

O Exército entende que, “desta forma, não está prevista a publicação dos proventos de servidores inativos (aposentados), militares da reserva ou reformados e pensionistas”. E acrescenta que, para dar cumprimento a essa portaria, o Portal da Transparência do Governo Federal publica a remuneração dos servidores públicos federais do Poder Executivo e dos militares das Forças Armadas.

Exército explica por não divulga remunerações de inativos.
O entendimento contraria o Acórdão 2154/2019 do TCU, que determinou ao Ministério da Economia a adoção de medidas, no prazo de 60 dias, com vistas à divulgação da base de dados, em formato aberto, dos pensionistas vinculados ao Poder Executivo Federal, bem como dos aposentados que passaram à inatividade em data anterior a novembro de 2016. Segundo o tribunal, as medidas observam ao princípio da publicidade constante do art. 37 da Constituição Federal, na Lei 12.527/2011 (Lei de Acesso) e nos Decretos 7.724/2012 e 8.777/2016.”*

(*)  Lúcio Vaz – Gazeta do Povo

ISSO É CASO DE CADEIA

Pela visão que Bolsonaro tem da história, seu secretário é de esquerda

Em abril do ano passado, o presidente Jair Bolsonaro afirmou, durante visita a Israel, que o nazismo foi um movimento político de esquerda. “Não há dúvida, não é? Partido Socialista, como é que é? Da Alemanha. Partido Nacional Socialista da Alemanha”, disse Bolsonaro, referindo-se ao nome do partido do ditador alemão Adolf Hitler.

A afirmação foi uma resposta a uma pergunta de um jornalista, que pediu para o presidente dar sua opinião a respeito do que havia dito o seu chanceler sobre o assunto. Em artigo publicado em seu blog, Ernesto Araújo escreveu que o nazismo era uma ideologia de esquerda, pois se caracterizava, entre outras coisas, por ser “contrário à liberdade individual” e por promover “a censura e o controle do pensamento pela propaganda e lavagem cerebral”. O arquiteto desse aspecto do nazismo foi Joseph Goebbels, o ministro da Informação e da Propaganda de Hitler.

Dez meses depois, a visão que Bolsonaro e Araújo têm da história vem assombrá-los. Roberto Alvim, secretário de Cultura do governo Bolsonaro, divulgou um vídeo em que copia escancaradamente um discurso de Goebbels, além de beber na fonte a estética das propagandas nazistas — tanto visual quanto na trilha sonora do vídeo.

Ora, se Bolsonaro estava certo sobre a avaliação que fez do nazismo, então seu secretário de Cultura é socialista, pois se inspira em Goebbels. E já que o presidente exige tanto empenho para que socialistas, petistas e esquerdistas de todos os naipes sejam expurgados de seu governo, o que ele fará agora que descobre que um deles está à frente de uma das áreas mais sensíveis do que seus apoiadores costumam chamar de “guerra cultural”?

Se Bolsonaro não expurgar Alvim, terá de admitir o que os principais historiadores do nazismo não se cansam de afirmar: o movimento de Hitler tinha alguns traços comuns à esquerda, mas era fundamentalmente uma ideologia de direita.*

(*) Blog do Diogo Schelp

 

MENOS UM NAZISTA NO GOVERNO

Exclusivo: Os últimos minutos de Alvim em seu gabinete antes de ser demitido

Secretário especial da Cultura tinha agenda com a imprensa na manhã desta sexta-feira
Secretário da Cultura, Roberto Alvim abandona entrevista para O Globo, e após receber ligação, se dirige às pressas para o Palácio do Planalto. Foto: Jorge William / Agência O Globo
Secretário da Cultura, Roberto Alvim abandona entrevista para O Globo, e após receber ligação,
se dirige às pressas para o Palácio do Planalto. Foto: Jorge William / Agência O Globo
BRASÍLIA — Roberto Alvim, secretário especial da Cultura recém-demitido por Jair Bolsonaro, começou a manhã desta sexta-feira atendendo a uma ligação do presidente da República às 7h30. Era a primeira de uma série de explicações que pretendia dar: entrevistas com a imprensa ocupavam sua agenda até 14h. A demissão foi publicada no Diário Oficial em edição extra na tarde desta sexta.Depois da pressão: Roberto Alvim é demitido da Secretaria Especial da Cultura
Bolsonaro o questionou sobre o vídeo publicado na noite de quinta-feira,  em que ele parafraseava um discurso do ministro da Propaganda nazistaJoseph Goebbels. Alvim disse se tratar de uma coincidência e ouviu do chefe que não retrocedesse e seguisse com a agenda, inicialmente programada para divulgar o Prêmio Nacional das Artes.

O secretário especial da Cultura, Roberto Alvim, copiou uma citação do ministro de propaganda da Alemanha nazista, Joseph Goebbels, em um pronunciamento. O vídeo foi divulgado para anunciar o Prêmio Nacional das Artes, projeto no valor total de mais de R$ 20 milhões.
O secretário especial da Cultura, Roberto Alvim, copiou uma citação do ministro de propaganda da Alemanha nazista, Joseph Goebbels, em um pronunciamento. O vídeo foi divulgado para anunciar o Prêmio Nacional das Artes, projeto no valor total de mais de R$ 20 milhões.

Onda de indignação:Legislativo, Judiciário, Embaixada da Alemanha e federações israelitas condenam fala de Alvim

Em poucas horas, no entanto, a situação mudou. Bolsonaro decidiu demitir o secretário. Enquanto a reportagem do GLOBO aguardava para ser atendida  — o terceiro veículo da fila — Alvim atendia a sucessivas ligações, entrando e saindo do gabinete. Em sua mesa, ainda estava a cruz de Lorena, símbolo medieval da resistência, honra e fé cristãs, mostrada com destaque no vídeo.

Propaganda nazista:Quem foi Joseph Goebbels?

Após mais de uma hora de atraso, o secretário, ainda com o telefone na mão, entrou novamente na sala e pediu mais cinco minutos antes de começar a entrevista. Ele se desculpou diversas vezes pelo atraso.

— Desculpa, estou suando muito. Não tem ar-condicionado aqui.

Viu isso? Embaixada da Alemanha diz que período nazista fo o ‘mais sombrio’ da história do país

Alvim entrou em uma sala contígua ao gabinete, de onde era possível ouvir as explicações tensas aos interlocutores com quem ele dialogava. Nas entrevistas e nos telefonemas que atendeu, ele sustentava que não fez homenagem ao nazismo e que a frase de Goebbels foi incorporada ao texto em um “brainstorming” com assessores.

Depois do escândalo:Roberto Alvim diz que frase de Goebbels foi ‘coincidência retórica’, mas ‘é perfeita’

Dois assessores acompanhavam a agenda. Assim como o chefe, passaram por uma escalada de tensão durante a manhã. Enquanto o GLOBO ainda esperava (já excedendo os cinco minutos pedidos por Alvim), uma das auxiliares foi avisada de que ele fora convocado por Bolsonaro para uma reunião no Palácio do Planalto e já tinha deixado o prédio.

O secretário deixou para trás um gabinete lotado de referências às suas convicções. Em um bloco preso a um cavalete, havia um desenho de uma cruz dos templários com a inscrição “Cultura, base da Pátria” ao lado. Embaixo, uma frase em alemão: “Wo ist der design?” (“onde está o design?”). Em outra folha, via-se uma figura semelhante a um dos personagens de Henfil, a Graúna, que dizia: “Mandioca no Bombril”.

A lousa de papel que fica na sala do secretário Foto: Agência O Globo
A lousa de papel que fica na sala do secretário Foto: Agência O Globo
Além da cruz, havia em sua mesa  um bonequinho mascarado com os olhos vermelhos, “O Doutrinador”. O personagem, de autoria do quadrinista brasileiro Luciano Cunha, persegue políticos corruptos em Brasília e fez sucesso durante as manifestações de junho de 2013. Em 2018, a história ganhou uma adaptação no cinema.
Acima, ao lado direito, um boneco do personagem 'O Doutrinador' Foto: Paula Ferreira/Agência O Globo
Acima, ao lado direito, um boneco do personagem ‘O Doutrinador’ Foto:
Paula Ferreira/Agência O Globo

Alvim passou pouco mais de dois meses no cargo. É o terceiro titular da Cultura no governo Bolsonaro. Em agosto, o então secretário Henrique Pires foi demitido após polêmica envolvendo filmes com temática LGBT. Na ocasião, disse que preferia sair a “bater palma para censura”. Depois, o economista Ricardo Braga foi alçado ao cargo, mas acabou sendo indicado para chefiar uma secretaria do Ministério da Educação.

Cruzada conservadora:Relembre as crises de Roberto Alvim, secretário da Cultura que parafraseou Goebbels

Alvim já havia chamado atenção da classe artística, em agosto, ao lançar em suas redes sociais  uma convocação para ‘artistas conservadores’ criarem uma ‘máquina de guerra cultural’. Em setembro, criou polêmica quando ofendeu abertamente Fernanda Montenegro, chamando a atriz de “sórdida” em suas redes sociais. O ataque veio após a atriz posar para uma revista literária vestida como uma bruxa prestes a ser queimada em uma fogueira com livros.

Fernanda Montenegro em pôster da revista "Quatro cinco um" Foto: Divulgação
Fernanda Montenegro em pôster da revista “Quatro cinco um” Foto: Divulgação

As anotações de Alvim

A equipe da secretaria da Cultura também havia utilizado uma das folhas do cavalete para deliberar sobre a escolha de cargos na Fundação Palmares. Dois nomes cotados para a presidência estavam lado a lado, com prós e contras: Tatiana Alvarenga, economista indicada pela ministra Damares Alves, e “Pastor MG”.

Alvarenga é listada como uma indicação de Damares, o que foi visto como um ponto positivo. Já o “Pastor MG” tinha uma recomendação de Marcelo Álvaro Antônio, chefe de Alvim, o que foi considerado um ponto negativo. Alvarenga tem “controle”, enquanto o “Pastor MG” é tido como “sem controle”.

O fato de Alvarenga ser mulher elevou a avaliação da economista. A qualificação técnica também foi avaliada. Enquanto Alvarenga foi qualificada como “gestora”, o Pastor MG seria “(?) Doutor”, com um ponto de interrogação. Ambos são negros, o que também foi considerado na avaliação.*

(*) Natália Portinari, Renata Mariz e Paula Ferreira – O Globo

 

BRIGA NO COVIL

Wajngarten teve impulso de Carlos e fritou ministros antes de virar alvo

 

Guindado à chefia da Secretaria de Comunicação da Presidência como solução para a dificuldade de relacionamento de Jair Bolsonaro com a imprensa, Fabio Wajngarten tornou-se parte do problema em menos de dez meses. Virou um típico caso de feiticeiro que termina enfeitiçado.

Wajngarten ascendeu ao posto em abril de 2019 com o apoio do vereador carioca Carlos Bolsonaro. Beneficiou-se da carbonização de um ministro palaciano, Gustavo Bebianno. Participou da fritura de outro ministro com gabinete no Planalto, o general Carlos Alberto Santos Cruz. Deu no que está dando.

Em vez de servir de ponte entre o Planalto e a mídia, Wajngarten associou-se a Bolsonaro nos ataques à imprensa. Virou alvo de Carlos, o filho Zero Dois do presidente. Revelou-se um colecionador de desafetos. Um deles ironiza, em privado: “Vaidoso, o Fabio transformou sua vitrine num forno de micro-ondas.”

Conflito de interesses na atuação pública

A temperatura subiu ao redor do secretário de Comunicação da Presidência graças a uma reportagem da Folha. Nela, revelou-se que Wajngarten recebe, por meio de uma empresa da qual é sócio majoritário, dinheiro de emissoras de TV e de agências de publicidade contratadas pela secretaria que dirige.

O conflito de interesses é nítido, pois Wajngarten distribui a verba de propaganda do Planalto. Mais: Acompanha as contas dos demais órgãos federais. Apenas no ano passado, aplicou R$ 197 milhões em campanhas publicitárias.

Quando Wajngarten chegou ao Planalto, havia um consenso quanto à existência de uma crise no setor de comunicação. Planejava-se buscar aliados e evitar confusões.

Com o tempo, o assessor tornou-se uma modalidade sui generis de conselheiro, do tipo que quer ver o sangue daqueles que o chefe enxerga como inimigos.

Associou-se a Bolsonaro nos ataques à Folha e ao Grupo Globo. Chegou mesmo a sugerir boicote dos anunciantes. Na gestão de Wajngarten, a audiência deixou de ser um critério para a aplicação de verbas publicitárias oficiais. Subiram os repasses ao SBT e à Record —emissoras da predileção de Bolsonaro—, em detrimento da Globo.

Santos Cruz e Bebianno ficaram no caminho

Enquanto esteve no comando da pasta da Secretaria de Governo, o general Santos Cruz impediu o desvirtuamento técnico do orçamento publicitário. Superior hierárquico da Secom, vivia às turras com Wajngarten. A exoneração do general deu mais autonomia ao secretário.

A queda de Santos Cruz foi urdida numa parceria do polemista Olavo de Carvalho com Carlos Bolsonaro. Influenciado pelas opiniões do guru e, sobretudo do filho, o presidente levou à bandeja o escalpo de um amigo de três décadas. Foi o segundo ministro palaciano a ser defenestrado em seis meses.

Antes de Santos Cruz, afastara-se Gustavo Bebianno (Secretaria-Geral). Durante a disputa presidencial de 2018, Bebianno torcera o nariz para as tentativas de Wajngarten de influenciar nos rumos da campanha. O agora secretário conhecera Bolsonaro em 2016, num jantar na casa do empresário Meyer Nigri, da construtora Tecnisa.

Depois, Wajngarten organizou outros encontros de Bolsonaro com empresários. Achegou-se um pouco mais ao capitão depois da facada. Visitava-o amiúde no Hospital Albert Einstein, em São Paulo. Nessa época, Carlos Bolsonaro, que não desgrudava do pai, encantou-se com o visitante.

Na mesma época, Carluxo, como o Zero Dois é chamado na intimidade, cavou os pretextos que levaram à demissão de Bebianno. Entre eles uma audiência concedida pelo então ministro a um diretor da Rede Globo.

Carlos Bolsonaro, amigo e inimigo

No final de 2019, um ano em que a principal marca da oposição foi a inoperância, Carlos Bolsonaro decidiu acumular as atribuições de amigo e inimigo do governo. Considerando-se o principal defensor da gestão do pai, voltou a lamentar que o setor de comunicação do Planalto não siga o seu exemplo.

Em postagem nas redes sociais, o filho do presidente anotou ser “lamentável” ter de lutar “para mostrar o que tem sido feito de bom 24h ao dia, enquanto se vê uma comunicação do governo que nada faz”. Foi um ataque direto ao trabalho de Wajngarten.

Ironicamente, Wajngarten festejara meses antes ataques do mesmo nível dirigidos por Carluxo ao porta-voz da Presidência, o general Otávio do Rêgo Barros. O chefe da Secom e o segundo filho uniram-se nas críticas aos cafés que o porta-voz organizava semanalmente para aproximar Bolsonaro dos jornalistas. À mesa, o presidente pronunciava frases que eletrificavam o noticiário, desgastando-o.

“Falar que se passa fome no Brasil é uma grande mentira”, disse Bolsonaro, por exemplo, numa mesa em que os garçons do Planalto serviam a jornalistas estrangeiros guloseimas custeadas pelos brasileiros em dia com o Fisco.

“Desses governadores de Paraíba, o pior é o do Maranhão”, balbuciou o presidente, num lapso captado pelas câmeras da empresa oficial de comunicação. Comum no Rio de Janeiro, onde todo nordestino é um “paraíba”, a metonímia veio acompanhada de um complemento que revelou pendores antirrepublicanos em relação a Flávio Dino, o governador comunista do Maranhão:

“Tem que ter nada pra esse cara”. Em verdade, sonegam-se recursos federais não para “esse cara”, mas para os “paraíbas” do Maranhão.

Irritado ao ver o pai pendurado nas manchetes de ponta-cabeça, Carlos Bolsonaro investiu contra os cafés de Rêgo Barros: “Não critico homens mas modus operandi, me colocando sempre em situações difíceis”, ralhou o Zero Dois nas redes sociais.

Carluxo arrematou: “Quando a militância espontânea cansar de defender o governo, que faz um bom trabalho, nada sobrará, pois sua comunicação é e pelo jeito continuará sendo ruim e então seremos massacrados pela mídia.”

Dos cafés aos portões do Alvorada

Sob ataque, Rêgo Barros recolheu-se. Por inspiração de Wajngarten, os cafés matinais foram substituídos por entrevistas, concedidas defronte do portão do Palácio da Alvorada. Desde então, as polêmicas passaram a soar não semanalmente, mas em ritmo praticamente diário.

Sem se dar conta de que o problema está na língua do pai, Carluxo agora direciona seus ataques ao ex-queridinho Wajngarten. A fritura do chefe da Secom tende a ser demorada, pois Bolsonaro não costuma afastar quem briga com seus hipotéticos inimigos. Nesta quinta-feira, o presidente deu de ombros para as revelações da Folha:

“Se foi ilegal, a gente vê lá na frente. Mas, pelo que vi até agora, está tudo legal, vai continuar. Excelente profissional. Se fosse um porcaria, igual alguns que tem por aí, ninguém estaria criticando ele”, disse o presidente ao anunciar, na saída do Alvorada, que Wajngarten será mantido no cargo.*

(*) Blog do Josias de Souza