O MALUCO CONTINUA DESAFIANDO A CIÊNCIA

Bolsonaro: Vírus é igual chuva; você vai se molhar, mas não morrer afogado

O presidente Jair Bolsonaro (sem partido) voltou a minimizar a covid-19, comparando o novo coronavírus a uma chuva que molha, mas não mata ninguém afogado. A declaração foi feita hoje em entrevista ao “Brasil Urgente”, da TV Bandeirantes.

“O vírus é igual a uma chuva. Ela vem e você vai se molhar, mas não vai morrer afogado”, argumentou. “Tem essas pessoas mais fracas. Às vezes a pessoa vive pobre, fraca por natureza, dada a falta de uma alimentação mais adequada. Então essas pessoas são quem sofre mais.”

Bolsonaro ainda revelou ter se reunido com um grupo de pesquisadores que estuda a atuação da hidroxicloroquina no tratamento da covid-19. “A cloroquina é uma realidade, é quase palpável. Falta uma comprovação científica, uma base maior. Parece que está tendo resultados que podem nos levar a uma certeza”, disse, sem dar maiores detalhes.

Cloroquina não é unanimidade Apesar do que diz o presidente, o medicamento vem gerando dúvidas entre especialistas. Ainda não existe nenhuma evidência científica concreta de que a hidroxicloroquina seja eficaz no tratamento.

O próprio ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta, ainda é cauteloso quanto ao remédio. Ontem, na apresentação do balanço de casos e mortes por coronavírus, Mandetta reforçou que não há evidências de que ela “pode ser usada [como] profilático [para prevenção de doenças], muito menos em pessoas que não estão em estado grave.” *

(*) UOL-SP

NOIVO, MARIDO OU IRMÃO?

Compra em massa dos EUA à China cancela contratos de importação de equipamentos médicos no Brasil, diz Mandetta
Segundo o ministro, há também uma busca elevada por respiradores

BRASÍLIA – O ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta, afirmou que compras feitas pelo Brasil de equipamentos de proteção individual, como máscaras e gorros, da China “caíram” após os Estados Unidos adquirirem um grande volume de produtos. Segundo Mandetta, a mesma corrida por respiradores tem ocorrido. Ele disse que “demos um passo atrás” na aquisição desses itens fundamentais ao enfrentamento ao covid-19.

– Hoje os Estados Unidos mandaram 23 aviões cargueiros dos maiores para a China, para levar o material que eles adquiriram. As nossas compras, que tínhamos expectativa de concretizar para poder fazer o abastecimento, muitas caíram.

Mandetta disse que, no caso de respiradores, importantes para pacientes graves, fornecedores que já tinham sido contratados, mas disseram que não tinham mais estoque para atender.

– Nós estávamos comprados, tínhamos, quando começamos a pedir. Entregaram a primeira parte. Na segunda parte, mesmo com eles contratados, assinados, com o dinheiro para pagar, quem ganhou falou: não tenho mais os respiradores, não consigo te entregar. Então, nós voltamos de algo que a gente achava que a gente já tinha, demos um passo para trás.

Mandetta voltou a falar que será preciso normatizar o uso de máscaras N95, considerada mais moderna para filtrar o ar. Segundo ele, o equipamento terá o nome de cada profissional de saúde e será esterilizada para ser usada por diversas vezes.

– A gente espera que a China volte a ter uma produção mais organizada, e a gente espera que os países que exercem o seu poder muito forte de compra já tenham saciado das suas necessidades para que o Brasil possa entrar e comprar a parte para proteger nosso povo.*

(*) Renata Mariz, André de Souza, Leandro Prazeres, Daniel Gullino e Gustavo Maia – O Globo

O MAIOR VÍRUS DO MUNDO OCIDENTAL

Economistas da Casa Branca alertaram em 2019 que uma pandemia poderia devastar os EUA
Estudo de setembro de 2019, antes do coronavírus, foi ignorado

“Não acho que o corona seja uma ameaça tão grande quanto as pessoas imaginam”, disse o presidente em exercício do Conselho de Assessores Econômicos, Tomas Philipson, a repórteres durante um briefing de 18 de fevereiro, no mesmo dia em que mais de uma dúzia de passageiros de navios de cruzeiro americanos que haviam contraído o vírus foram evacuados para casa.

“As ameaças à saúde pública normalmente não prejudicam a economia”, disse Philipson. Ele sugeriu que o vírus não seria tão ruim quanto uma temporada de gripe normal.

O estudo de 2019 alertou o contrário – especificamente pedindo aos americanos que não confundam os riscos de uma gripe típica e uma pandemia. A existência desse aviso mina as alegações dos funcionários do governo dos Estados Unidos nas últimas semanas de que ninguém poderia antever o vírus danificando a economia.

O estudo foi solicitado pelo Conselho de Segurança Nacional, segundo duas pessoas familiarizadas com o assunto. Um dos autores do estudo, que desde então deixou a Casa Branca, agora diz que faria sentido para o governo efetivamente encerrar a maioria das atividades econômicas por de dois a oito meses para retardar o vírus.

Vidas perdidas
O coronavírus se espalhou rapidamente pelos Estados Unidos e por sua economia, matando mais de 3 mil americanos e fazendo o país mergulhar no que os economistas preveem que será uma profunda recessão. Um número crescente de governadores e autoridades locais efetivamente interrompeu grandes quantidades de atividade econômica e ordenou que as pessoas permanecessem em suas casas na maioria das situações, na esperança de diminuir a disseminação e aliviar a pressão sobre os hospitais.

Autoridades do governo divulgaram na terça-feira, 31, modelos de saúde pública que impulsionaram essas decisões, incluindo projeções de quando as taxas de infecção podem atingir o pico nacional e local. Oficiais do governo estimaram que o patógeno mortal poderia matar entre 100 mil e 240 mil americanos.

Enquanto os funcionários debatem quando podem começar a reabrir os setores fechados do país, não está claro como a Casa Branca está contabilizando os benefícios e custos potenciais – em números de dólares e vidas humanas – de cronogramas de ação concorrentes.

Questionado pela Fox News no último domingo (29) sobre o efeito econômico e se os Estados Unidos estavam em recessão, o secretário do Tesouro Steven Mnuchin se recusou a dizer. “Vamos ter atividade econômica reduzida neste trimestre? Absolutamente”, ele disse. “Acho que no próximo trimestre, depende muito da rapidez com que a curva da situação médica funciona”.

O diretor do Conselho Econômico Nacional, Larry Kudlow, disse à ABC News no domingo que “pode ​​demorar quatro semanas, pode levar oito semanas” antes do início da atividade econômica. “Eu digo isso com esperança”, disse ele, “e digo isso em oração”.

Economia fechada por quase oito meses?
Economistas externos vêm realizando análises sobre a duração ideal de um desligamento quase diariamente. Um que foi compartilhado com funcionários da Casa Branca vem de Anna Scherbina, uma autora do estudo de 2019 que agora é economista da Brandeis University e do American Enterprise Institute.

Ele procura determinar a duração ideal de uma supressão nacional da atividade econômica, que Scherbina não define precisamente no artigo. Em uma entrevista, ela disse que abrangeria o fechamento de escolas, fechando muitas empresas e o tipo de ordens de permanência em casa que muitos, mas não todos, os estados impuseram.

“O que isso implica é algo o mais drástico possível”, disse Scherbina. Nos Estados Unidos, no momento, ela acrescentou: “não temos em todos os lugares”.

O artigo de Scherbina avalia as compensações envolvidas na desaceleração da economia para combater a propagação do vírus, como o artigo coloca, “equilibrando seus benefícios incrementais com os enormes custos que a política de supressão impõe à economia dos EUA”.

No melhor cenário, conclui Scherbina, uma supressão nacional da atividade econômica para achatar a curva de infecção deve durar pelo menos sete semanas. Na pior das hipóteses, onde o desligamento se mostra menos eficaz em diminuir a taxa de novas infecções, seria economicamente ideal manter a economia fechada por quase oito meses.

Os esforços de supressão causam danos consideráveis ​​à economia, reduzindo a atividade em cerca de US$ 36 bilhões por semana, estima o estudo. Mas os esforços salvariam quase 2 milhões de vidas quando comparados a um cenário em que o governo não fez nada para frear a atividade econômica e a propagação do vírus, estima Scherbina, porque não fazer nada imporia um custo de US$ 13 trilhões à economia – igual a cerca de dois terços da quantidade de atividade econômica que os Estados Unidos deveriam gerar este ano antes do ataque do vírus.

Scherbina baseou suas estimativas nos modelos que construiu quando economista sênior do Conselho de Assessores Econômicos e principal autora do artigo de setembro, “Atenuando o impacto da gripe pandêmica por meio da inovação de vacinas”, que alertou sobre o número de mortes potencialmente catastróficas e danos econômicos causados ​​pela gripe pandêmica nos Estados Unidos.

“Acumulei todo esse conhecimento e, em seguida, o coronavírus apareceu”, disse Scherbina em uma entrevista por telefone. “Então eu pensei: eu deveria usá-lo.”

As estimativas do estudo
O estudo da Casa Branca de 2019 pediu novos esforços federais para acelerar o tempo necessário para desenvolver e implantar novas vacinas. Ele não previu especificamente o surgimento do coronavírus – em vez disso, modelou o que aconteceria se os Estados Unidos fossem atingidos por uma pandemia de gripe semelhante à gripe espanhola de 1918 ou à chamada gripe suína de 2009. Ela projetou mortes e perdas econômicas dependendo de quão contagioso e mortal o vírus seria.

Mesmo nas taxas mais altas que modelou, a gripe pandêmica no exercício ainda era menos contagiosa e menos mortal do que os epidemiologistas dizem agora que o coronavírus poderia estar nos Estados Unidos.

O estudo da Casa Branca estimou que uma gripe pandêmica poderia matar até 500.000 americanos e infligir até US$ 3,8 trilhões em danos à economia. Essas estimativas não foram responsáveis ​​por nenhuma perda econômica incorrida por “pessoas saudáveis, evitando o trabalho por medo de serem infectadas por colegas de trabalho”.

A estimativa de danos de ponta do estudo teria sido ainda maior que US$ 3,8 trilhões, disse Scherbina, mas a versão final do documento foi alterada dentro do Conselho de Assessores Econômicos para descontar o valor econômico atribuído à vida dos americanos mais velhos. Ele atribuiu um valor de US$ 12,3 milhões por vida para americanos entre 18 e 49 anos, em comparação com US $ 5,3 milhões para aqueles com 65 anos ou mais.

Funcionários do Conselho disseram na terça-feira, 31, que Philipson não estava disponível para uma entrevista. Ele não deu nenhuma indicação este ano de que o estudo e suas previsões haviam influenciado os funcionários do governo em sua resposta inicial ao surto de coronavírus.*

(*) Coluna Investidor – Estadão

ELE REQUER ISOLAMENTO TOTAL

Jornal britânico “The Guardian” diz que Bolsonaro é “perigo para brasileiros”

Charge do Milton César(midiamax.com.br)

 

Em editorial publicado nesta terça-feira, dia 31, o diário britânico “The Guardian” critica o posicionamento de Jair Bolsonaro em meio à pandemia de coronavírus, afirmando que o presidente é um “perigo para os brasileiros”. Prestes a completar 200 anos de fundação, “The Guardian” é um dos jornais mais importantes do mundo.

“Sua resposta ao coronavírus atingiu novas profundezas. Muitos governos terão que responder por seus erros e complacência quando a pandemia terminar. O desempenho de Bolsonaro está em uma categoria única”, diz trecho do texto.

QUARENTENA – Logo no início, o artigo ressalta que a maior parte do Brasil segue rigorosas quarentenas impostas por seus governadores e que o Ministério da Saúde faz apelos para que as pessoas permaneçam em suas casas, caso contrário o sistema de saúde pública poderá entrar em colapso já no final de abril.

Mas destaca que um homem desdenha das restrições e passeia pelo mercado local, tem suas publicações removidas de redes sociais ao promover medicamentos não testados e atacar o distanciamento social. “Um homem normalmente não pode causar tanto dano. Infelizmente, este homem é o presidente”, diz o jornal.

PERIGO – O texto lembra ainda que Bolsonaro chamou a Covid-19 de “gripezinha” e reclamou de suposta histeria da imprensa, além de dizer que “todo mundo vai morrer um dia”. E lembra que ele mesmo já foi testado após pessoas próximas a ele terem sido diagnosticadas com a doença, e pode ter representado um perigo físico para seus seguidores ao manter contato próximo durante seus passeios por Brasília no último final de semana.

O jornal menciona também seu desentendimento com governadores, que acusou de serem “exterminadores de empregos” e diz que isso seria uma estratégia para atribuir a culpa a terceiros quando a economia começar a afundar.

EX-APOIADORES – No entanto, em sua conclusão, o artigo diz que alguns aliados já começam a romper com o presidente, e cita os governadores de Goiás e Santa Catarina e rumores de inquietação nas Forças Armadas. “O senhor Bolsonaro pode não acreditar no distanciamento físico, mas está se mostrando notavelmente bem-sucedido em se isolar”, encerra o jornal.

Na segunda-feira, diversos veículos de imprensa de outros países já haviam criticado a postura de Jair Bolsonaro em relação à pandemia de coronavírus, inclusive condenando sua saída às ruas durante o final de semana.*

(*) g1

A IGNORÂNCIA CONTRA A CIÊNCIA

Em casa, pela vida, uma homenagem a quem se arrisca em nome da coletividade

Coronavírus: Profissionais de saúde são homenageados com aplausos ...

Reprodução de foto de O Globo

Sigo todas as instruções para manter-me vivo. Não dou trela ao azar. Não me deixo vencer pelo desânimo nem pelo seu parceiro, a irritação. Mantenho meus hábitos. Abro janelas. Arejo a casa. Saúdo o canto dos pássaros. Varro os cômodos. Penduro roupa no varal. Lavo louça. Telefono para netos e filhas. O distanciamento forçado alimenta e fortalece a alma com vigoroso e indispensável amor e solidariedade.

O espírito cultiva pensamentos voltados para aqueles que também sonham em preservar sua vida. Muitos deles, infelizmente, não têm alternativas materiais e financeiras para cuidarem-se com mais segurança.

HERÓIS DA RESISTÊNCIA – Imagino a intranquilidade e o tormento rondando lares e vidas de famílias amontoadas em cubículos. Sem condições básicas de saneamento. Onde falta de tudo um pouco. São legítimos heróis da resistência. Bravos anônimos. O governo não pode esquecê-los.

O isolamento nos leva a pensamentos e autocríticas. Sinto-me protegido, revigorado e orgulhoso com os esforços dos abnegados patriotas profissionais da saúde. Na mesma linha, aplaudo, também, e coloco no pedestal do bem os bombeiros, lixeiros, garis, policiais civis e militares, caminhoneiros, vigilantes,  lixeiros, motoboys, frentistas de postos de gasolina, porteiros, empregados de farmácias, mercados e padarias, assim como os jornalistas e tantos outros profissionais, que também se arriscam .

Lamentável, por sua vez, que setores políticos não se entendam. O coletivo é prejudicado por juvenis arranca-rabos. Anteciparam 2022 sem a permissão dos eleitores. Oremos.*

(*) Vicente Limongi Netto
Correio Braziliense

CALIFADO EM ALTA

Ministro Mandetta fica de fora de reunião com médicos na Presidência da República

O ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta, foi surpreendido na noite de terça-feira, dia 31, com o contato de alguns médicos amigos que estão na linha do combate ao coronavírus. Eles avisaram terem sido chamados pela Presidência da República para uma reunião presencial.

Os médicos queriam saber se Mandetta estava ciente e se iria ao encontro. Surpreso, Mandetta respondeu que não iria porque não estava sabendo. E mais: ele questionou se o convite era para um encontro presencial, o que classificou como um erro no momento em que os profissionais estavam dedicados ao combate ao coronavírus e a recomendação do mundo era para evitar deslocamentos.

CLOROQUINA – A resposta dos médicos a Mandetta, segundo o blog apurou, foi positiva. Indignado, Mandetta procurou o ministro da Casa Civil, Braga Neto, que disse ao colega não saber de reunião alguma. Mandetta afirmou ao ministro que não adiantava chamá-lo de última hora porque ele não iria à reunião para discutir o uso de cloroquina no combate ao coronavírus, como defende o presidente Jair Bolsonaro e seus familiares.

Segundo o blog apurou, Mandetta disse a aliados, nos bastidores, acreditar que a reunião seja uma ideia da área de “marketing” do Planalto para “bater uma foto” com os principais médicos do país. E, se a reunião se confirmar, será a “nova polêmica” do governo hoje.

“GOVERNO PARALELO” – No Ministério da Saúde, a equipe avaliou nesta manhã que há uma tentativa de se criar um “governo paralelo” para provar uma “tese” sobre o uso da cloroquina no combate ao coronavírus.

Mandetta vai repetir que não há provas disso e que só falará a respeito quando houver dados científicos que embasem o uso do remédio no tratamento.

O ministro aguarda o desdobramento do chamado para a reunião com médicos e desaconselhou profissionais a comparecerem ao encontro presencialmente. Por videoconferência, não veria problema desde que o tema fosse objetivo.*

(*) Andréia Sadi
G1 – Brasília

PERGUNTAR NÃO ESTUPRA

Qual é o plano de Bolsonaro?

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É curioso notar que o governo mais militarizado da Nova República passa pelo seu pior momento durante uma crise que exige, principalmente, planejamento militar. Não me refiro a munição, fuzil e tanques. O Brasil precisa, antes de tudo, de um plano de ação imediata, exatamente aquilo que os generais são treinados para fazer.

Numa guerra, as Forças Armadas não agem somente com armas. Planos são ainda mais importantes. Na guerra atual, é preciso articular o conhecimento de virologistas, epidemiologistas, intensivistas, economistas, industriais e outros profissionais, de modo a viabilizar um planejamento logístico que indique qual caminho devemos seguir.

Muita gente dedicou os últimos dias para discutir a tese do “isolamento vertical” — em contraposição ao “isolamento horizontal” —, cuja ideia é restringir a quarentena aos grupos de risco.

De fato, o custo econômico do isolamento horizontal é altíssimo. Fome, desemprego e falência são ameaças reais a muitos brasileiros. Mesmo que políticas públicas aliviem a dor, elas dificilmente serão rápidas o suficiente. A renda básica emergencial, recém-aprovada, surgiu após quase 10 dias de paralisação da economia.

Mas há um problema: para relaxar o isolamento horizontal, precisamos de um plano. Qual é o nosso? Quando a quarentena será relaxada? Quais os planos do governo para evitar novas paralisações, caso as ocorrências de Covid-19 sigam crescendo descontroladamente? O que nós vamos fazer para achatar a curva? A maioria dos brasileiros não faz ideia. Está cada vez mais evidente que a quarentena não vai acabar cedo.

Alguns países conseguiram manter parte da economia aberta. É o caso da brava Hong Kong, que interrompeu sua luta por independência em nome de um bem maior. O cidadão honcoguês pode checar, num site do governo, tudo o que é necessário para evitar o vírus. Todos os infectados de Hong Kong aparecem num mapa geolocalizado, que mostram os bairros onde há maior incidência do vírus. Quando alguém é internado, o governo informa qual é o hospital, de modo que todos podem evitar os mais lotados e tratar outras doenças nos locais onde não há infectados por Covid-19. O site informa também o método de contaminação — se o vírus foi contraído em Hong Kong ou território estrangeiro —, uma informação útil para saber por onde é seguro andar.

Também na Ásia, há o exemplo sul-coreano. Calejada por epidemias anteriores, a Coreia do Sul está preocupada com o novo coronavírus desde janeiro. Os primeiros 30 pacientes infectados foram identificados imediatamente no momento em que entraram no país. A paciente 31, missionária de uma igreja local, foi a primeira a passar despercebida e iniciou o surto de transmissão comunitária em Daegu, em meio a cultos com milhares de pessoas.

Para controlar o problema, a Coreia iniciou a fase dois: quarentena severa em Daegu, com testagem em massa por todo o resto do país. Ninguém chega perto dos sul-coreanos neste assunto. Imensos postos de teste drive-thru foram montados em todo o país. Agora, também há testes por orelhão. O paciente não precisa ter contato com terceiros e recebe o resultado direto no celular após poucas horas. Quando alguém testa positivo, o governo usa sistemas de localização dos celulares para obrigar todos que estiveram a pelo menos 100 metros de distância do infectado. Quem testa positivo também precisa manter o celular ligado para que o governo verifique se o cidadão cumpre a quarentena.

Hong Kong e Coreia do Sul estão entre as nações que mais aparecem como destaque positivo no noticiário internacional. Mas o sucesso dependeu de intenso planejamento. Ninguém subestimou a “gripezinha” da Covid-19.

Como deixou claro o biólogo Atila Iamarino em sua entrevista no Roda Viva, o que nos falta para viabilizar um isolamento menos radical é justamente um plano. No máximo, temos notícias esparsas sobre chegadas de novos testes, construção de hospitais de campanha e compra de respiradores. O cidadão quer saber quando vai poder sair de casa e o que o governo pretende fazer para transformar seu discurso em prática.

Só há um agente político capaz de liderar esse plano: Jair Messias Bolsonaro. Só o presidente da República tem um orçamento trilionário, um corpo diplomático com centenas de pessoas treinadas para negociar com outros países e a capacidade de articular os esforços dos governadores e prefeitos em nome de um bem maior.

A população brasileira, por outro lado, não vê um plano no horizonte de Bolsonaro. Segundo pesquisa recente divulgada pelo jornal Valor Econômico, 28% dos brasileiros aprovam a atuação do presidente na pandemia, enquanto 50% desaprovam e 22% não tem opinião formada. No caso dos governadores, 70% da população aprova o trabalho realizado até aqui, 19% desaprova e 11% não emite opinião.

Ao invés de criar conflitos e jogar a crise econômica no colo dos outros, Bolsonaro precisa liderar, pois foi eleito para isso. Pois bem, presidente: qual é o plano? Quais epidemiologistas orientam o governo? Qual será a estratégia para testagem em massa? Quando os novos leitos de UTI estarão prontos para uso, com capacidade para aguentar novos picos de transmissão da Covid-19?

Todas estas perguntas seguem em aberto. Bolsonaro precisa usar os generais ao seu redor e comunicar uma estratégia da forma mais clara possível. Caso contrário, o custo da inação será expressão em milhares de vidas brasileiras — ou, como já é cada vez mais discutido em Brasília, num possível impeachment do presidente da República. Caso a situação se agrave, não adianta gritar “golpe”.*

(*) Pedro Menezes – Gazeta do Povo

BOTANDO O GALHO DENTRO

O PRESIDENTE E OS MILITARES

Isolado politicamente por sua postura na crise, Bolsonaro voltou a se aproximar da ala militar de seu governo. O movimento veio após declarações públicas de alguns ministros, como Sergio Moro e Paulo Guedes, além, é claro, de Luiz Henrique Mandetta, em defesa da quarentena — criticada pelo presidente — como forma de prevenção. Esta convergência, inclusive, pode ter tido influência direta na mudança de tom do presidente em seu discurso. A proximidade também se deu justamente no aniversário de 56 anos do golpe militar , que culminou em 21 anos de ditadura no Brasil. O período foi de ruptura institucional e trevas para a democracia, mas o presidente, o vice, Hamilton Mourão, e o ministro da Defesa, Fernando Azevedo e Silva, celebraram a data em postagens.*

(*) Redação – veja.com

TERÇA-FEIRA, 31 DE MARÇO DE 2020

IN MEMORIAM

Coronavírus mata Wallace Roney, trompetista americano e estrela do jazz

Discípulo de Miles Davis, músico tinha 59 anos e deixa vários álbuns gravados

RIO – Lendário trompetista de jazz e protegido de Miles Davis, Wallace Roney morreu esta terça-feira, aos 59 anos, de complicações do coronavírus. A morte de Roney foi confirmada através de várias postagens na página do Facebook do músico, nascido na Filadélfia. No momento de sua morte, Roney estava morando na cidade de Nova York.

“Estou triste por ter que confirmar que o icônico trompetista e lenda do jazz Wallace Roney faleceu devido a complicações do COVID-19 hoje de manhã pouco antes do meio dia”, disse a assessora Lydia Liebman em um comunicado à imprensa. “A família está procurando um memorial para homenagear Wallace e suas contribuições musicais depois que essa pandemia tiver passado. Por favor, respeite a privacidade deles neste momento.”

Antes de estudar com Miles Davis (e ele foi o único músico a quem Miles deu aulas), o jovem músico recebeu sua educação em jazz de Clark Terry e Duke Ellington. Ele estudou com Miles de 1985 até a morte da lenda do jazz em 1991. De acordo com a biografia do site oficial de Roney, ele conheceu Miles em 1983, depois de ter se apresentado no Carnegie Hall. No mesmo ano da morte do mentor, os dois se apresentaram juntos no Montreaux Jazz Festival.

Perda:Morre McCoy Tyner, um dos maiores pianistas do jazz

Wallace Roney gravou seu álbum de estréia como líder, “Verses”, em 1987 pelo selo Muse Records. Vários álbuns na Muse, Warner Bros. Records e Concord Records/Stretch Records se seguiram, e quando ele completou 40 anos, em 2000, já tinha participado de mais de 250 gravações. Roney se apresentou várias vezes no Brasil.*

(*) O Globo