QUINTA-FEIRA, 29 DE OUTUBRO DE 2020

Dudu Lima Trio | Vera Cruz (Milton Nascimento e Márcio Borges) | Instrumental Sesc Brasil

Dudu Lima – baixo elétrico

Ricardo Itaborahy – teclados

Leandro Scio – bateria

Show que ocorreu no Teatro Anchieta do Sesc Consolação dia 13/05/2013

UMA LÍDER DE VERDADE

Angela Merkel: “Este inverno será duro, serão quatro meses longos e difíceis”

Merkel volta a defender uso da máscara para conter covid-19 - Notícias - R7 Internacional

Em discurso no Bundestag, o parlamento alemão, Angela Merkel chamou de irresponsáveis populistas que propagam mentiras sobre a Covid-19.

Ela previu um “inverno duro” no país e pediu solidariedade e empatia.

“Essa dinâmica vai sobrecarregar nossas unidades de terapia intensiva daqui a algumas semanas. Tudo isso nos mostra que no início da estação fria estamos em uma situação dramática. Afeta a todos nós, sem exceção.”

A chanceler afirmou que entende “a frustração e o desespero”, mas acrescentou que não há outra saída que não seja reduzir o contato entre as pessoas.

“No momento, não podemos rastrear a origem de 75% das infecções e precisamos sair dessa situação o mais rápido possível. A situação é preocupante e não pode ser desfeita.”

Merkel emendou:

“Pensamentos ilusórios ou trivializações populistas não são apenas mentirosos, são irresponsáveis. Não podemos permitir que a linha entre o verdadeiro e o falso, o certo e o errado seja borrado. Quando a ciência provou que algo é falso, isso deve ser claramente declarado.”

A chanceler disse, ainda, que “valores democráticos estão sendo testados na pandemia” e voltou a pedir “que todos sejamos solidários e empáticos”.

“Este inverno será duro, serão quatro meses longos e difíceis, mas vai passar.” *

(*) Redação – O Antagonista

LUGAR DE MILICO É NA CASERNA

Com artigo “Memento mori”, general Rego Barros se transforma em porta-voz dos militares

O recado do general Otávio do Rego Barros, ex-porta-voz do Planalto, foi elogiado nos meios militares e, embora seja lido como um recado direto ao presidente Jair Bolsonaro, não foi visto com deslealdade. O objetivo, avaliam amigos do general, jamais foi criar celeuma. E sim alertar sobre o perigo de não se dar espaço ao que ele chama de “discordância leal”.

É isso que hoje mais incomoda grande parte dos generais e de antigos apoiadores do presidente, que, diante dos novos amigos do Centrão, deixa de lado aqueles que o ajudaram a chegar ao Planalto e apostaram num projeto.

INTRIGAS PALACIANAS – “Alguns deixam de ser respeitados. Outros, abandonados ao longo do caminho, feridos pelas intrigas palacianas. O restante, por sobrevivência, assume uma confortável mudez. São esses, seguidores subservientes que não praticam, por interesses pessoais, a discordância leal”, escreveu o general no artigo “Memento mori”, publicado nesta quarta-feira no Correio Braziliense.

Rego Barros, que foi porta-voz da Presidência, mas acabou isolado após um tempo, traduziu no artigo o sentimento que perpassa os militares, de que hoje o presidente confunde discordância leal com oposição e é preciso ter clareza de que nem toda discordância é deslealdade.

O artigo, aliás, fez com que muitos saíssem da “toca”, em solidariedade ao general. Alguns, inclusive que se veem hoje quase que atirados à oposição, embora não tenham essa intenção.

REVOLTA DOS GENERAIS – “Barbara Tuchman tinha razão: ‘A Marcha da Insensatez’ parece se repetir. Toda a minha solidariedade ao General Rêgo Barros pela atitude. Leitura precisa de um sombrio cenário. O mesmo cenário já repudiado por General Santos Cruz, Sérgio Moro e outros atentos defensores da moralidade”, escreveu em seu Twitter o general Francisco Brito, numa referência aos ex-ministros de Bolsonaro e à historiadora, jornalista e escritora estadunidense, ganhadora de dois prêmios Pulitzer.

O que o general Brito menciona de público corre a caserna nas conversas reservadas. O artigo “Memento mori” vale para todos aqueles que, ao alcançar o coração do poder, terminam deixando de lado os projetos iniciais pactuados e se acham acima do bem e do mal, sem levar em conta que a próxima eleição está logo ali e que é preciso manter firme a conexão com a realidade e não apenas com a bolha de seguidores nas redes sociais.

CASO DE PAZUELLO – O artigo de Rego Barros foi escrito logo depois do pito público que o presidente Jair Bolsonaro passou no ministro da Saúde, Eduardo Pazuello, o general que se viu no constrangimento de ter um protocolo de intenções assinado por sua pasta desautorizado pelo presidente da República, num tema tão caro à sociedade como a vacina contra a covid-19.

Já estava escrito, vale dizer, quando a revista Época trouxe reportagem de Guilherme Amado, contando os bastidores dos encontros do presidente com advogadas de seu filho, o senador Flávio Bolsonaro, e autoridades da área de inteligência do governo. Portanto, avisam alguns, quem tentar levar para esse lado estará num terreno que o general não pisou.

SEM ASSESSORIA – Na falta de alguém que discorde do presidente e lhe alerte sobre determinadas atitudes, a lição deixa clara ainda a necessidade de que o funcionamento de todas as instituições tem de ser fundamental.

“As demais instituições dessa república — parte da tríade do poder — precisarão, então, blindar-se contra os atos indecorosos, desalinhados dos interesses da sociedade, que advirão como decisões do “imperador imortal”. Deverão ser firmes, não recuar diante de pressões”, escreveu Rêgo Barros.

No Supremo Tribunal Federal (STF) e na cúpula do Congresso ficou a sensação de que as críticas às instituições não terão eco na caserna. Até aqui, o Planalto fez “cara de paisagem”. E diz o ditado que “quem cala, consente”.*

(*) Denise Rothenburg – Correio Braziliense

NOTÍCIAS DO CARLUXO?

Bolsonaro ironiza cor de refrigerante no Maranhão e faz piada :
“Agora eu virei boiola igual maranhense, é isso?”

Bolsonaro tenta ser engraçado ao provar o famoso guaraná Jesus

Deputado Bolsonaro | Picada de Cobra

Em parada não programada na pequena cidade de Bacabeira (MA), durante viagem ao Maranhão, o presidente Jair Bolsonaro tomou refrigerante Guaraná Jesus, cor de rosa, tradicional do estado, e questionou se teria virado “boiola”, devido à cor da bebida. A declaração foi dada em vídeo publicado nas redes sociais do presidente.

“Agora eu virei boiola igual maranhense, é isso? Olha o guaraná cor de rosa do Maranhão ai ó. Quem toma esse guaraná vira maranhense”, disse, rindo, enquanto mostrava o copo com a bebida. Cerca de um minuto depois, Bolsonaro volta a falar de “boiolagem” ao citar a cor do refrigerante. “Guaraná cor de rosa do Maranhão, fudeu, fudeu. É boiolagem isso aqui”, afirma.

“DE GRAÇA” – As piadas com a cor do refrigerante foram feitas em um bar da cidade, enquanto o presidente posava para fotos com apoiadores. Durante a visita, Bolsonaro conheceu o dono do estabelecimento e perguntou se “tudo é de graça”. “Pode ser”, respondeu o homem, sem convicção.

A passagem da comitiva presidencial provocou aglomerações na cidade — uma multidão de pessoas seguiu Bolsonaro durante o trajeto dele até o bar. Assim como na chegada a São Luís (MA) mais cedo, Bolsonaro não usava máscara.

Depois da breve visita, o presidente seguiu para Imperatiz (MA), onde participa de cerimônia de entregas do governo federal para o estado. Mais cedo, participou de inauguração de trecho da BR-135.*

(*) Victor Farias – O Globo

FARINHAS DO MESMO SACO, PODRE

Os renegados

GZH on Twitter: "Veja a charge do Iotti desta terça-feira. Veja todas em:  https://t.co/FRBVqXOzeH… "

O presidente Jair Bolsonaro e o ex-presidente Lula continuam polarizando a disputa eleitoral de olho em 2022, mas as recentes pesquisas de intenções de votos mostram que os dois não são os cabos eleitorais mais decisivos nesta eleição municipal. Pelo contrário. São desprezados pelos eleitores. Ambos são os personagens mais rejeitados e se depender deles, os candidatos que contam com a simpatia desses líderes não se elegerão prefeitos ou vereadores neste ano. De acordo com o Datafolha, Bolsonaro e Lula têm rejeições que passam dos 50% nas principais capitais brasileiras e puxam para baixo os candidatos que contam com seu apoio. Essa aversão aos dois acontece em São Paulo, Rio de Janeiro, Belo Horizonte e Recife, os quatro maiores colégios eleitorais brasileiros.

São Paulo
Na capital paulista, essa constatação é ainda mais clara. Bolsonaro é rejeitado por 63% dos eleitores e Celso Russomanno (Republicanos) perderá se insistir em se escorar no presidente. Já Lula, com uma rejeição de 54%, não conseguirá melhorar a situação de Jilmar Tatto, candidato do PT, que está com 1% das intenções de votos, entre os últimos.

Antipatia
Os que pensam em ter Bolsonaro e Lula em seus palanques no Rio de Janeiro, Belo Horizonte e Recife também se darão mal. No Rio, Bolsonaro tem uma rejeição de 59% e Lula, 58%. No Recife, Lula é mal avaliado por 41% e, Bolsonaro, por 63%. Em Belo Horizonte é a mesma coisa. Bolsonaro é desprezado por 53% e Lula, por 57%. Campeões de antipatia.*

(*) Germano Oliveira – Isto É

SEMPRE ENFIANDO O GALHO DENTRO

Para o que serve um presidente arregão?

Galinha Verde Bolsonaro Arregão - YouTube

Vejam essa lista de manchetes: “Bolsonaro volta atrás e desiste de nomear Decotelli para a Educação. Bolsonaro volta atrás e desiste de nomear Mantovani para a Funarte. Bolsonaro volta atrás e desiste de nomear Ramagem para a PF. Bolsonaro volta atrás e desiste de suspender o Renda Brasil. Bolsonaro volta atrás e vai manter o auxílio de R$ 600”.

Por quê? Ora, porque o Olavo de Carvalho não gostou. Porque as redes sociais não aprovaram. Porque o Queiroz não concordou. Porque a Dona Micheque, perdão, Michelle não foi consultada. Porque o Carluxo ficou dodói. Porque Donald Trump não autorizou. Porque a torcida do Palmeiras é chata… Sei lá eu o porquê!!

A verdade é que Jair Bolsonaro é fraco! Posa de cabra-macho nas redes sociais e quando está cercado pelos malucos que o apoiam, mas bastam meia dúzia de tuítes e hashtags contra, que lá vai o “mito” se esconder no quarto. Não à toa fugiu de todos os debates depois de receber alta médica, após o atentado à faca que sofreu em Minas Gerais, em 2018.

Outro dia mesmo, amarelou feio perante o Brasil e o mundo ao suspender o acordo para a importação, produção e distribuição da “vacina chinesa do Doria” pelo prestigiado Instituto Butantan. Seu subalterno, o general com “g” minúsculo, Eduardo Pazuello, foi humilhado em praça pública e desautorizado pelo mofino. A súcia não gostou e o ignavo recuou.

Ontem, quarta-feira (28), surpreendentemente uma boa medida deste (des)governo: o decreto que previa PPP (Parcerias Público Privadas) para a construção, reforma e operação de UBS (Unidades Básicas de Saúde) da rede SUS (Sistema Único de Saúde). É tão raro algo assim, que até pensei em escrever elogiando, para variar um pouco.

Sorte minha! Tão logo imprensa, oposição e redes sociais começaram a “cair de pau” – por interpretarem mal o decreto, que de privatização não continha nada -, o mito de araque (afinal, nunca vi mito ter medo) revogou o próprio decreto e desistiu de uma ótima proposta. Mais uma vez Jair Bolsonaro se rendeu às “vozes das ruas” e enfiou a viola no saco.

No campo externo o presidente submete-se a ser mero fantoche dos Estados Unidos. Internamente, é comandado ou pelo Centrão ou por sua turba de fanáticos. Na economia, confessa que é obediente ao Posto Ipiranga, que de Posto Ipiranga não tem mais nada. Ofereceu cloroquina às emas do Alvorada e foi solenemente, por elas, ignorado.

Afinal, Bolsonaro governa o País ou é governado? Manda ou obedece? Possui vontade própria ou não? Repito: para o que serve, no limite, um presidente arregão?*

(*) Ricardo Kertzman – Isto É

BOIADA VOLTA PARA O MESMO LUGAR

Rosa Weber suspende decisão do Conama que derrubou regras de proteção de mangues

E Viva a Farofa!: A boiada de Ricardo Salles passou sobre a política  ambiental

A ministra Rosa Weber, do Supremo Tribunal Federal (STF), suspendeu nesta quinta-feira (28) a decisão do Conselho Nacional do Meio Ambiente (Conama) que derrubou regras de proteção ambiental a áreas de mangues e restingas. A decisão foi tomada em uma ação movida pelo PSB e vale até que o plenário do STF analise o caso. Por enquanto, voltam a valer as normas de preservação revogadas em setembro. No despacho de 37 páginas, a ministra observou que a competência normativa do Conama, presidido pelo ministro Ricardo Salles (Meio Ambiente), encontra limites na Constituição e na legislação ambiental.*

(*) Gazeta do Povo

LÁ COMO CÁ

É dando que se recebe

Maracutaia ocorre no mundo inteiro

Borgen (TV series) - Wikipedia, the free encyclopedia | Tv series, Series  movies, Television show

Uma das melhores séries políticas em cartaz nas redes de streaming mostra os intestinos da política na Dinamarca, um dos países mais desenvolvidos e civilizados da Terra. Chama-se “Borgen” e é excelente, feito goma arábica, de tanto que gruda. A história começa com a eleição do Parlamento e a construção de um novo governo de centro, em substituição a um de direita. Embora ficcional, a obra apresenta um bastidor imaginário do poder que não deve ser muito diferente do real, já que o roteiro é de três dinamarqueses. E esse é um valor extra que a série tem, além do entretenimento, pois se enxerga como funciona a realpolitik local.

Aquela aura de incorruptibilidade que se vislumbra sempre que um país nórdico é mencionado desvanece logo nos primeiros episódios. Claro que nada se compara ao Brasil, onde corrupto carrega dinheiro enfiado entre as nádegas, e operações políticas desviam bilhões de cofres de empresas públicas para contas de partidos. Mas nem por isso o que ocorre em Borgen é a quintessência do puritanismo na vida pública. Muito pelo contrário. Já no primeiro episódio, o primeiro-ministro que está de saída se vê na contingência de pagar compras da mulher com cartão corporativo oficial. Foi por acaso, pois ele estava sem a carteira. Mas, na chance que teve para devolver o dinheiro, foi convencido por um assessor de que era possível resolver aquilo jogando o gasto numa rubrica qualquer do gabinete.

Em seguida, passada a eleição, ocorre uma intensa negociação de cargos em troca de apoio. Até aí, tudo normal, está se construindo um novo governo, e partidos que são próximos politicamente repartem os ministérios entre si. Se é assim no presidencialismo, imagine no parlamentarismo, como o dinamarquês. Formado o governo, no momento em que a nova primeira-ministra tenta aprovar seu Orçamento, começa um festival de chantagens e traições. Dissidentes de um partido da base exigem dela a construção de uma estrada em troca de seus votos. E o que faz a primeira-ministra? Arruma seis bilhões de coroas (R$ 5,4 bi) para comprar os chantagistas. Mais alguns bilhões são dirigidos como subsídios a um setor da indústria local, de maneira a garantir o apoio de outro grupo.

Mais adiante, de forma a conseguir a extensão do prazo para aprovar o mesmo Orçamento, a primeira-ministra negocia com seu antecessor. Promete sentar em cima das investigações sobre aquele gasto privado do cartão corporativo, que acabou se tornando público durante a eleição, se ele a apoiasse na questão. Feito o acordo, a investigação sobre o crime é encerrada no dia seguinte, com o governo anunciando não ver elementos para seguir com o inquérito. De qualquer ponto que se olhe o caso, o que se vê é um escândalo. Não tem as dimensões tsunâmicas brasileiras, mas não é bobagem em se tratando do país menos corrupto do mundo, segundo o ranking da Transparência Internacional.

Na série há também ataques à imprensa. Pelo menos duas vezes jornalistas são abertamente constrangidos por membros do governo. Na primeira, uma repórter é intimidada na própria casa. Na segunda, a polícia entra numa redação de TV local que denunciava um caso e informa que os jornalistas estão sendo processados por interceptação de produto de roubo. O produto são fotos, repassadas a repórter por fonte militar, que mostram que aviões americanos pousaram em base dinamarquesa com prisioneiros ilegais. Apesar de a primeira-ministra ficar fula da vida com a incursão policial antes de ela acontecer, ela ocorre mesmo assim.

O leitor pode estar se perguntando o que o articulista quer provar com isso. Nada. Trata-se, como já foi dito, de uma ficção. Obviamente não se pretende igualar a Dinamarca ao Brasil, à Somália ou ao Sudão. Mas parece claro, pelo menos para os roteiristas de “Borgen”, que maracutaia ocorre no mundo inteiro. Todo país tem um centrão para chamar de seu.*

(*) Ascânio Seleme – O Globo

DESGRAÇA POUCA É BOBAGEM

Segunda onda na Europa é um alerta para a epidemia e economia do Brasil

Números gerais não permitem descartar um recrudescimento da epidemia por aqui

Sob pressão da segunda onda, França e Alemanha tentam frear a Covid – Hora  do Povo

A segunda onda da epidemia nos grandes países da Europa ficou evidente na mesma data: começo de setembro. É quando acabam as férias de verão. Foi então que o número de mortes começou a aumentar de modo inegável. Em meados de outubro houve a disparada. Em países como Alemanha, Espanha, França, Itália e Reino Unido, as taxas mínimas de morte haviam ocorrido em julho, mais ou menos.

O número diário de novas mortes por milhão anda entre 2,5 e 3,5 nesses países, com exceção da Alemanha, onde está por volta de 0,5 por milhão (média móvel de sete dias). No Brasil, o morticínio agora está perto de pouco mais 2 novas mortes por milhão, em queda lenta, faz algum tempo. No pico da mortandade nesses países europeus, a taxa diária de mortes por milhão ficou em torno de 15 (com exceção, outra vez, da Alemanha (que chegou perto de 3).

É um alerta para o Brasil? Sempre é. Aprendeu-se que a epidemia é, até certo ponto e tempo, regional, o que é um aspecto muito significativo em um país do tamanho e população como o nosso. Ainda assim, convém dar uma olhada em estatísticas mais gerais, ao menos para dar a escola de grandeza do problema.

O número de mortes pode ser um indicador aproximado do tamanho da epidemia, do número total de infectados. Sim, existe grande controvérsia sobre a letalidade da doença. Isto é, quantas pessoas morrem entre aquelas que foram infectadas. Como se tornou evidente, as pesquisas na população têm dificuldade de estimar o número total de infectados. Logo, a taxa de letalidade da doença é motivo de polêmica.

Suponha-se que ela seja aproximadamente igual e que se leve em conta as diferenças demográficas (a Covid mata mais os idosos. Tudo mais constante, países com mais idosos terão mais mortes). A taxa de mortes por milhão no Brasil é maior do que a da Espanha, o país grande da Europa mais afetado. A do estado de São Paulo é ainda maior. Levando em conta a idade da população, a diferença aumenta.

A taxa de mortes do estado de São Paulo, sem qualquer ajuste, é de 866 por milhão. A da Espanha, 755. A julgar apenas pelo número de mortes e pela hipótese de que certo número de mortes esteja associado a uma taxa de infecção, seria possível especular que um recrudescimento da epidemia não pode ser descartado por aqui. O estado de São Paulo ainda conta 2 mortes diárias por milhão. A Espanha da segunda onda conta 3,3.

Nem de longe, claro, é prognóstico. Em meses de conversas com excelentes epidemiologistas do Brasil, muito cientista dedicado observou que levou dribles e outros bailes da epidemia. O que todos dizem é que não dá para relaxar, que cada medida de alívio das restrições tem de ser muito bem fundamentada, que aglomerações são insanidades, que se deve usar máscara, que é preciso fazer mais testes e tentar encurralar a doença.

A nova onda europeia ainda está longe de ser tão mortífera quanto em abril. Mas a mortandade afeta o mundo inteiro pela economia, é preciso e horroroso dizer. A percepção de riscos aumentados e a incerteza vão ecoar pelo mundo, como se viu nos mercados financeiros desta quarta-feira, e a segunda onda vai atingir a atividade econômica em alguma medida. Alemanha e França vão ter isolamentos duros durante novembro inteiro.

Os alertas estão aí. O controle da epidemia no Brasil foi vergonhoso; o governo federal não se ocupa nem ao menos do manual básico da economia. Estamos sem imunidade na política sanitária e na econômica.*

(*) Vinicius Torres Freire – Folha de SP
Jornalista, foi secretário de Redação da Folha. É mestre em administração pública pela Universidade Harvard (EUA).