A ERA DA IMBECILIDADE

A pós-verdade no poder

Dizer que a escravidão foi boa para os negros é um título de loucura que você não apenas pode como deve contrariar

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Minha formação cultural se deu principalmente no século XX recheado de rocambolescas teorias revolucionárias. De um modo geral, eram apostas no futuro, uma inconsciente reconstrução do paraíso. Se há algo no século XXI para o qual custo a encontrar o tom adequado de lidar é esse período de pós-verdade, em que as evidências científicas ou não são atropeladas por narrativas grotescas.

O intelectual francês Bruno Latour considera que esse período foi de uma certa forma inaugurado por Colin Powell quando apresentou falsas evidências de armas de destruição em massa, antes da invasão do Iraque. Mas a tendência era muito mais forte, e aqui nos trópicos deságua no terraplanismo, na mamadeira de piroca, na crença de que o filósofo alemão Theodor Adorno escrevia as músicas dos Beatles, que John Lennon tinha um pacto com o diabo, que o rock leva ao aborto, que por sua vez leva ao satanismo. Como lidar? Às vezes, lembro-me da infância e dos conselhos paternos muito presentes nos adultos mineiros: não contrariar.

Lembro-me de uma ambulância que parou na porta do vizinho, um grupo se formou e, sem contato com os médicos e enfermeiros, alguém afirmou: “Foi leite com manga, certamente foi leite com manga que derrubou o vizinho”.

Essa ideia de não contrariar as afirmações malucas me acompanhou nos anos de juventude. No livro “O que é isso, companheiro?”, relato o caso de um louco que acordou gritando quando estávamos presos em Ricardo de Albuquerque. Ele tentava em voz alta, desesperadamente, ajudar a encostar um caminhão imaginário e às vezes se alarmava: “Vai bater, vai bater”.

Não conseguíamos dormir com aquele barulho. O único caminho foi ajudá-lo também em voz alta a encontrar o caminhão. Avançamos num ritmo conjunto até que conseguimos estacionar aquele maldito caminhão nas nossas exíguas celas de um distrito policial.

Mas essa tática é ineficaz quando se dizem coisas absurdas em nome do governo, sobretudo as que influenciam o destino de milhares de pessoas, a própria realidade histórica do Brasil. Dizer, por exemplo, que a escravidão foi boa para os negros é um título de loucura que você não apenas pode como deve contrariar. Inclusive destituir legalmente essa nomeação. Muitos adeptos do governo consideram apenas a economia, o combate ao crime e a gestão da infraestrutura como pontos essenciais. O resto seriam apenas borbulhas inconsequentes. Mas um país não se reduz à economia, à infraestrutura e ao combate ao crime. Ele é tecido de múltiplas teias que se interpenetram.

Considerar como apenas perfumaria nossa história de escravidão, tentar que revolvam nos túmulos nossos formadores — como Joaquim Nabuco, mas sobretudo milhares de negros açoitados e assassinados — é introduzir um elemento de corrosão que apodrece todo o tecido nacional.

Se tivesse tempo, iria me divertir demonstrando que Theodor Adorno jamais escreveria um verso como esse: “Help, I need somebody”.

Essa loucura é do gênero que não se precisa tanto contrariar. É preciso reservar um espaço para as de Bolsonaro. Elas repercutem na imagem do Brasil. Quando um presidente acusa um astro de Hollywood de financiar queimadas, ele nos expõe à autocombustão no conceito internacional.

Economia e infraestrutura não se fazem sozinhas. Política de segurança é algo muito complexo para se focar apenas na repressão. Andei por Paraisópolis para realizar um programa de televisão. O governo estadual afirmou que cumpriu o protocolo, e isso não foi entendido pelas pessoas. Se cumprir o protocolo leva à morte de nove jovens, alguma coisa estava errada nesse protocolo.

Certamente algo terá de mudar, assim como a própria ideia desses bailes funks chamados pancadões precisa ser, de uma certa forma, adaptada à vida das pessoas. Senti em Paraisópolis que há pessoas doentes, falei com muitos idosos, vi muitas gestantes. Elas não frequentam baile funk, mas são atingidas por ele. Não tenho uma saída no bolso. Aliás, fui ouvir as pessoas em que sentido apontam para se equacionar o problema.

Andamos por um território sensível cada vez mais acossados pela realidade, e os terraplanistas investem contra o rock e o satanismo. No século passado, os grandes, os chamados loucos de Deus, deixavam todos os confortos materiais para seguir sua orientação religiosa. O século virou, e hoje os loucos entram no governo e já nem se lembram mais de Deus, siderados que estão no combate ao satanismo. Da busca da verdade à pós-verdade o novo século me desconcerta.*

(*) Fernando Gabeira – O Globo

PORRADA NELES…

Zero Três culpa vítimas por mortes em Paraisópolis

Eleito por São Paulo, o deputado federal Eduado Bolsonaro pendurou nas redes sociais um vídeo sobre a morte de nove jovens durante ação policial num baile funk de Paraisópolis. Num instante em que o governo de São Paulo decidiu elevar de seis para 38 o número de policiais militares afastados duas ruas por envolvimento na ação que resultou nas mortes, o filho Zero Três de Jair Bolsonaro responsabilizou as vítimas pelas mortes.

“Você indo para esse tipo de local, onde ocorre os pancadões, onde há consumo de drogas, isso acaba por atrair bandidos, e a probabilidade de sua vida ficar em risco aumenta. E muito. Então, a exemplo do sempre foi aconselhado dentro de casa, evite esses lugares”, declarou Eduardo Bolsonaro no vídeo. A peça foi gravada em Omã, para onde o deputado viajou em missão oficial.

As investigações ainda não foram concluídas. Mas o filho do presidente da República isentou preventivamente os policiais de culpa. “Você não precisa de droga pra viver e nem é tirar onda ficar andando com vagabundo armado – muito pelo contrário, você está colocando sua vida em risco. Paraisópolis está aí e é um exemplo disso. Lamentavelmente morreram nove pessoas, mas de maneira nenhuma podemos culpar a Polícia Militar por isso”.

Na versão oficial, os policiais perseguiam dois homens numa moto na madrugada do domingo (1º). Na perseguição, os policiais teriam sido alvejados por tiros. Entraram na rua onde se realizava o baile funk. Disseram ter sido hostilizados. Pediram reforço. Deu-se, então, o tumulto que resultou nas mortes por pisoteamento.

Num primeiro momento, o governador paulista João Doria (PSDB) avalizou a versão policial. Disse que o protocolo da PM não seria alterado. Depois, recuou. Declarou que “todas as teses” estão sob investigação. Admitiu rever os protocolos policiais. “Não tenho compromisso com o erro”, afirmou.

Eduardo Bolsonaro analisa o episódio munido apenas de certezas: “Quem tá errado é bandido que dá tiro pra cima da polícia e a população que não coopera com as autoridades. A polícia tá ali pra manter a ordem e a disciplina. E todos os trabalhadores gostam disso. Quem não gosta disso é marginal e pessoas envolvidas com o tráfico. Todo meu apoio aos policiais militares”.*

(*) Blog do Josias de Souza

 

RODA, RODA E AVISA…

O Brasil 2019 visto do alto da roda-gigante

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E lá se vai 2019, um ano tão esquisito que foi preciso inaugurar uma roda gigante no Cais do Porto para que lá de cima o povo incrédulo constatasse – a terra não é plana coisa nenhuma. Redondinha da silva. Era uma tentativa de corrigir o ano, mas não deu certo. Houve quem pedisse o dinheiro de volta e denunciasse a roda como subversiva.

Quem vai escrever, agora que Bunitinho está morto, a tragicomédia de “2019, o ano em que o Brasil rodou”?

Tivesse 2019 alguns dias a mais e esta primeira retrospectiva do ano precisaria anotar ainda que foi retomada a escravidão e Joaquim Silvério dos Reis, esse injustiçado, foi condecorado por serviços ao país. Ficou para 2020, o mesmo ano em que será desproclamada a República. Foi golpe vil contra a nobreza de D. Pedro II. Todas as medalhas de Deodoro serão doadas ao movimento “Ouro para o bem Brasil”.

“2019, o ano em que o Brasil se desinventou” é um livro a ser escrito por algum autor de poucas letras, o mainstream intelectual da temporada, e o ministro da educação, que escreve paralisação com “z” e suspensão com “ç”, apresenta-se desde já como um biógrafo à altura de tamanha trapalhada. Ao tentar chamar de “asseclas” correligionários do PT, sua excelência educacional, auto-anunciado leitor de “Kafta”, rotulou-os de “acepipes”. Poderia ser humor. Era só inguinorança no país da geringonça.

O mundo gira, a Lusitana roda e o Brasil 2019 que ora se retrospecta entrou em pirueta profunda. Caminhou com determinação rumo ao passado mais pretérito. Os termômetros anotaram a sensação térmica de que a intelectualidade vigente beirava os anos 1920 e logo-logo os altos mandatários da nação declarariam a necessidade de se reconstruir o Morro do Castelo. O peixe, alardeado pelo ministro da pescaria como extremamente inteligente em sua capacidade de nadar evitando placas de óleo, tornou-se o intelectual do ano. Sem concorrentes. Foi tudo Caramuru e Cunhambebe. Anita brigou com Ludmilla.

“2019, o ano que caiu como uma uva” recebeu a visita de Jesus Cristo uma única vez, visto em cima de uma goiabeira no sertão. Nunca mais deu as caras e deixou o Brasil ao Deus-dará, com cara de conje. Travestiu-se de técnico português. De costas para a torcida, deu o tom da temporada, irritadíssimo contra todos, dando esporro até em quem fazia gol.

A grande ausência foi Amaral Neto, o repórter, com sua série de programas ora perseguindo o encontro das águas do Amazonas com o Atlântico, ora as do Negro com as do Solimões. Teria sido uma pororoca atrás da outra e, com a floresta úmida, os incêndios cessariam.

A ecologia avançou como um toldo. O pensamento vitorioso no combate à crise do meio ambiente foi eficientemente simples para que a população se engajasse com denodo – o “número um” se faria nos dias impares e o “número dois”, nos pares. A propósito, a identidade nacional corre risco. A madeira do Pau-Brasil foi considerada vermelha demais para homenagear um país cristão, e para quem viu a cara de espanto de 2019 não será surpresa esta notícia final – até o Natal o Brasil vai mudar de nome.*

(*) Joaquim Ferreira dos Santos – O Globo

ESCROQUE JURAMENTADO

Marco Feliciano é expulso do Podemos por “transgredir conduta ética

O deputado federal Marco Feliciano (SP) foi expulso do Podemos em decisão tomada hoje pelo diretório do partido em São Paulo. Cabe recurso à Executiva Nacional, que diz que o diretório estadual não tem competência para expulsá-lo.

O Podemos cita aspectos da conduta “ética e moral” de Feliciano para embasar a decisão de expulsá-lo, de acordo com um documento elaborado pelo partido e assinado pelo presidente da sigla no estado, o vereador paulistano Mário Covas Neto.

A reportagem pediu um posicionamento sobre a decisão em mensagens enviadas a Feliciano e à sua assessoria, mas não obteve retorno até o momento.

De acordo com o documento assinado por Covas, Feliciano não teve o “espírito partidário inerente e necessário”. O texto diz que o “Conselho de Ética e Disciplina opinou pela imposição da penalidade de expulsão”.*

(*) Alex Tajra e Juliana Arreguy*

Do UOL, em São Paulo

 

TODOS CONTRA A LAVA JATO

PGR deve cortar cerca de 50 assessores que atuam nas investigações contra políticos e na Lava-Jato

Procurado, Aras afirma que está realizando reformulação na estrutura de cargos para otimizar o funcionamento da instituição

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BRASÍLIA – A gestão do procurador-geral da República, Augusto Aras , publicou uma portaria propondo cortes de aproximadamente 50 assessores de diversos órgãos de investigação da Procuradoria-Geral da República ( PGR ), incluindo o grupo de trabalho da Lava-Jato e o setor de perícia. Ao mesmo tempo, a portaria criou 74 cargos de assessores nos gabinetes dos subprocuradores-gerais da República, topo da hierarquia do Ministério Público Federal ( MPF ). Procurado, Aras afirma que está realizando uma reformulação na estrutura de cargos da PGR para otimizar o funcionamento da instituição, mas admitiu a possibilidade de rever cortes em áreas de investigações.

A portaria, publicada na última quinta-feira, foi formatada pelo secretário-geral Eitel Santiago Pereira e gerou descontentamento interno na equipe do PGR. Os cortes ameaçam afetar os trabalhos de investigação de políticos, já que os procuradores contarão com menor número de assessores para auxiliá-los na tarefa. Também houve uma redução no nível dos salários dos cargos.

Um dos setores mais afetados foi a Secretaria de Perícia, Pesquisa e Análise (Sppea), responsável por relatórios de inteligência que abastecem as investigações, incluindo análises dos dados do antigo Coaf (Conselho de Controle de Atividades Financeiras. A Sppea tinha 47 cargos comissionados em sua estrutura e, pela proposta, ficaria com 30 cargos, com salários menores.

Outro setor afetado pela proposta de cortes seria a Secretaria de Cooperação Internacional (SCI), responsável pela repatriação de recursos no exterior e cooperação com os demais países em investigações, principalmente na Lava-Jato. A SCI, que atualmente tem 29 assessores, ficaria com 15. A portaria não deixa claro os cortes no grupo de trabalho da Lava-Jato, porque os assessores aparecem vinculados ao gabinete do procurador-geral.

A própria chefia de gabinete de Aras também perderia cargos. Atualmente com 30 funções comissionadas, ficaria com metade dos cargos, pelo estabelecido na portaria.

Um dos motivos do descontentamento foi o fato de a portaria ter sido publicada sem que houvesse uma consulta prévia aos setores que seriam afetados e sem uma análise da demanda de cada um desses setores. Ao assumir o comando da PGR, Aras já havia anunciado que faria uma reestruturação nos cargos e assessores do órgão, por considerar haver excesso de gente em cargos comissionados, incluindo funcionários de fora da carreira do Ministério Público Federal.

Remanejamento
Após a publicação da portaria, o PGR solicitou que os responsáveis pelos órgãos informem as suas necessidades de servidores para formatar a estrutura final do remanejamento. Diante do descontentamento interno, porém, Aras afirmou que a estrutura da portaria não era definitiva e que os órgãos poderiam ter até mesmo a ampliação de funcionários, caso ficasse provada a necessidade. Ele afirma que a criação de um assessor para cada gabinete dos 74 subprocuradores-gerais era uma demanda antiga devido à carga de trabalho deles.

—  Baixamos a portaria para colher as informações do quantitativo de servidores. Vamos avaliar as demandas e verificar a adequação para cada órgão  —  afirmou o procurador-geral.

Em evento de comemoração ao dia de combate à corrupção, Aras afirmou que a gestão está redirecionando recursos para as áreas onde há maior demanda.

— Esses cuidados nesses pouco mais que 70 dias da nossa gestão têm se desenvolvido na esfera da verificação das demandas reais por recursos materiais e de pessoal de todas as forças tarefas e operações em curso, para que possamos dotar de melhores quadros de pessoal, de melhores meios, cada grupo de trabalho dedicado ao combate à corrupção. Também estamos levantando o nosso quadro de pessoal para saber onde o cobertor é mais folgado, para dirigirmos o que possa ser aproveitado àquelas operações em que lhes falta o essencial para que cumpra com o seu sagrado dever — discursou o procurador-geral.

Aras disse ainda que sua gestão está realizando esforços para fortalecer o combate à corrupção. Citou dentre esses esforços a criação de um manual de boas práticas para as colaborações premiadas e a criação de uma “unidade anticorrupção”, cujo objetivo seria coordenar e dar apoio aos trabalhos das diversas forças-tarefas de operações nos Estados. A unidade está sendo formatada pelos procuradores da equipe da PGR.

— (A unidade anticorrupção) não visa afastar o promotor natural, mas visa sim otimizar todas as operações, fornecendo-lhe meios, recursos pessoais, uma nova dinâmica, para que cada operação possa receber o apoio da PGR e que nao lhe falte nada — disse.*

(*) Aguirre Talento – O Globo

CHUPA, NORUEGA… CHUPA, SUÍÇA…

Brasil tem 2ª maior concentração de renda do mundo, diz relatório da ONU

Os 1% mais ricos concentram 28,3% da renda total do país, conforme ranking sobre o desenvolvimento humano. Brasil perde apenas para o Catar em desigualdade de renda, onde 1% mais ricos concentram 29% da renda.

Ranking de concentração de renda - Pnud 2019 — Foto: Infografia: Juliane Souza e Rodrigo Sanches/G1

Apesar de leve melhora, Brasil perde uma posição no ranking do IDH da ONU

A concentração da renda no Brasil continua sendo uma das mais altas do mundo, conforme o Relatório de Desenvolvimento Humano (RDH) da Organização das Nações Unidas (ONU), divulgado nesta segunda-feira (9). O Brasil está em segundo lugar em má distribuição de renda entre sua população, atrás apenas do Catar, quando analisados os 1% mais ricos.

No Brasil, os 1% mais ricos concentram 28,3% da renda total do país (no Catar essa proporção é de 29%). Ou seja, quase um terço da renda está nas mãos dos mais ricos. Já os 10% mais ricos no Brasil concentram 41,9% da renda total.

Em terceiro lugar está o Chile, com 23,7% de concentração da renda total nas mãos da parcela 1% mais rica da população (veja a tabela abaixo com os 20 primeiros colocados nesse quesito). Entre outros vizinhos do Brasil, no “top 20” está também a Colômbia, com 20,5%.

Os Estados Unidos e a Rússia concentram 20,2% da renda total nas mãos dos 1% mais ricos.

O relatório considera todos os países para os quais a ONU tem dados disponíveis no período de 2010 a 2017 e adota a informação mais recente para cada país. Organizado pelo Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (Pnud), o documento considera uma série de índices, e não apenas a distribuição de renda, para chegar ao conceito de desigualdade social.*

(*) G1

UM VERDADEIRO TANGO

Inflação, pobreza, aborto: veja temas que serão importantes no governo de Alberto Fernández na Argentina

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Esquerdista deve assumir a presidência do país na terça-feira (10); ele precisará dar uma solução a uma dívida que a Argentina não tem como pagar, alta de preços de mais de 50% ao ano e uma difícil relação com o Brasil –Bolsonaro não deve enviar nem mesmo um representante para a posse.

Alberto Fernández vai assumir a presidência da Argentina na terça-feira (10). Ele chegou ao poder impulsionado pela vice, Cristina Kirchner, que o escolheu para liderar a chapa. Dessa forma, foi eleito em primeiro turno nas eleições que aconteceram em 27 de outubro ao derrotar Maurício Macri, que estava no poder desde 2015.

O novo presidente assume a Argentina com graves problemas econômicos: uma inflação descontrolada, uma dívida que o país não tem como pagar e pobreza em alta.

Às vésperas da posse, os 4 principais desafios do próximo presidente da Argentina
Além disso, mesmo antes de ser eleito, Fernández começou a enfrentar a resistência de Jair Bolsonaro e precisará encontrar uma forma de não deteriorar a relação com o Brasil. Bolsonaro chegou a dizer a interlocutores que não mandaria representantes do governo brasileiro para a posse de Fernández na terça (10), de acordo com o blog de Gerson Camarotti.

No entanto, o Brasil deve acabar sendo representado pelo vice Hamilton Mourão, que disse ao blog de Valdo Cruz que viajará a Buenos Aires a pedido do presidente. “É um gesto do presidente para que as relações voltem ao normal”, afirmou.

Após eleições na Argentina, Brasil tem expectativa sobre futura relação comercial

Veja abaixo seis problem.as que Fernández vai enfrentar na presidência da Argentina:

Dívida
Esse é um dos problemas mais urgentes do país.

Em 2018, o FMI acertou com a Argentina a maior linha de crédito de todos os tempos, um montante de US$ 56 bilhões.

Nem todo esse dinheiro foi entregue –Fernández já declarou que não pretende receber uma parcela de US$ 11 bilhões.

“Tenho um problemão e vou pedir outros US$ 11 bilhões?”, disse ele em uma entrevista. Até agora, o FMI emprestou US$ 44 bilhões.

O novo presidente deverá renegociar essa dívida, assim como aquela de credores privados que têm títulos.

O que os argentinos pretendem é prorrogar os vencimentos do principal e o pagamento de juros durante os anos de 2020 e 2021.

Dois dias depois da posse de Fernández, a Argentina precisará pagar uma prestação de US$ 174 milhões de um título de dívida (letras do Tesouro). Ainda em dezembro, haverá um outro prazo final para o pagamento de US$ 1,17 bilhão.

Em 2015, ano em que Cristina Kirchner passou o governo para Maurício Macri, a relação entre o total de dívidas e o PIB era de 52,6%.

Neste ano, as obrigações financeiras da Argentina são o equivalente a 80,7% de sua economia, segundo dados são do Ministério da Fazenda.

Inflação
O ano de 2019 deve terminar com uma inflação de 54,6%, de acordo com as previsões das consultorias que o Banco Central do país agrega.

A expectativa desses economistas é que em 2020 haja uma alta de 43% no índice de preços.

O plano para combater a inflação inclui negociar com os sindicatos uma interrupção nas negociações salariais das categorias –a ideia é corrigir no futuro com pagamentos para os trabalhadores, quando as pressões inflacionárias, espera-se, estejam mais fracas.

O novo governo deve estabelecer um conselho com participação de empresários e representantes de classes de trabalhadores para tentar chegar a um acordo.

Pobreza
O Observatório da Dívida Social, uma entidade da UCA (Universidade Católica Argentina), publicou no dia 5 de novembro dados do terceiro trimestre de 2019 sobre pobreza na Argentina. De acordo com os últimos números, 16 milhões de argentinos das áreas urbanas são pobres –é o equivalente a 40,8% da população. A eles, somam-se outros 2 milhões das regiões rurais do país.

Há ainda quase 4 milhões em estado de indigência, em um país de 44,5 milhões de pessoas, de acordo com o Banco Mundial.

Relações exteriores
Um dos maiores desafios para o governo de Fernández será a relação com o Brasil. O presidente Jair Bolsonaro fez campanha para o rival, Macri, lamentou a vitória do esquerdista argentino e não vai comparecer à posse.

O maior risco para a Argentina é que o Brasil pode querer flexibilizar o Mercosul. Hoje, os países que compõem o bloco econômico não podem fechar, sozinhos, acordos comerciais com terceiros.

Caso essa regra caia, a tendência é que a Argentina seja mais prejudicada –o Brasil é o maior consumidor de produtos argentinos do mundo.

O embaixador em Brasília será Daniel Scioli, um importante peronista que foi vice-presidente de Néstor Kirchner, governador da província de Buenos Aires e segundo colocado nas eleições presidenciais em que Macri foi vencedor, em 2015.

Aborto
Alberto Fernández disse, durante sua campanha, que é favorável à descriminalização do aborto. O novo presidente diz ser um ativista dessa causa.

O jornal “Página 12” e perguntou se o projeto de lei deve ser encaminhado ao Congresso ainda neste ano. “Vou tentar que saia o quanto antes, mas não depende só de mim”, respondeu Fernández.

No entanto, ele enfrentará resistência na sociedade argentina. O arcebispo de La Plata, Victor Fernández, que é amigo do Papa Francisco, disse que legalizar o procedimento iria facilitar o aborto para quem quiser fazê-lo por qualquer motivo, e que hoje, na prática, “quase nenhuma mulher vai presa por fazer aborto”.

Negociações com o Congresso
Desde que Fernández foi apontado como líder da chapa na qual Cristina Kirchner seria vice, os argentinos perguntam quem vai, de fato, exercer o poder no país.
Os kirchneristas, corrente política ligada à ex-presidente, formaram um bloco de 121 deputados na Câmara. O líder dessa força é o filho de Néstor e Cristina, Máximo.

O número não é o suficiente para conseguir maioria no Parlamento.

O kirchnerismo é uma parte do peronismo, movimento ligado ao legado de Juan Perón, que morreu em 1974.

Há, no Congresso, peronistas não-kirchneristas, e o governo de Fernández vai depender deles para conseguir maioria. O presidente da Câmara será Sergio Massa, que compõe esse grupo.

O segundo grupo mais numeroso de deputados é formado por políticos ligados a Maurício Macri.*

(*) G1

COMO A TERRA “É PLANA”…

Política ambiental gera desconfiança internacional e inibe combate ao desmatamento

Os sinais conntraditórios da política ambiental do governo têm sido determinantes para inibir o combate ao desmatamento no Brasil. E isso tem sinais negativos no exterior. Os movimentos dúbios do governo têm desacreditado o país durante a reunião da COP 25, conferência do clima da ONU que está acontecendo em Madri até o dia 13 de dezembro.

Se de um lado há ações para combater as queimadas e punir os infratores ambientais, do outro há flexibilização do discurso que passa a ser visto como uma espécie de sinal verde para desmatadores e infratores.

AGU DESPERTOU – Um setor do governo tem agido. Essa semana, o blog revelou que uma força-tarefa da Advocacia Geral da União (AGU) ajuizou 16 ações civis públicas para cobrar R$ 555 milhões em multas de grandes desmatadores, em quatro estados da região da Amazônia Legal.

Ao mesmo tempo, houve redução expressiva de desmatamento na região amazônica no mês de outubro, quando operação de Garantia da Lei e da Ordem (GLO) enviou as Forças Armadas para controlar os incêndios e combater o desmatamento.

Porém, esses bons exemplos são neutralizados pelos discursos oficiais que relativizam a questão ambiental. Um dos exemplos é a insistência do governo Bolsonaro de querer legalizar o garimpo em reservas indígenas, o que liberaria a prática em área equivalente a dois estados da Bahia.

FORTE REAÇÃO – A possibilidade de legalização dos garimpos em reservas indígenas tem causado forte reação internacional. A preocupação de ambientalistas em relação ao assunto é de que haja imediatamente um aumento dos casos de garimpo ilegal em terras indígenas antes de serem fixadas as normas.

Tais contradições têm colocado o Brasil numa posição desconfiança em cúpulas como a COP 25.*

(*) Gerson Camarotti
G1 Política