QUEM É O CULPADO?

‘Day after’ é de falta de insumos para Butantã produzir vacinas

O diretor-presidente do Instituto Butantã, Dimas Covas, reiterou nesta segunda, 18, preocupação com a chegada de insumos para produção da Coronavac ao Brasil. Ontem, no ato simbólico de vacinação da primeira pessoa no País, Covas revelou que aguarda há 15 dias a matéria-prima do imunizante da China, chamada Ingrediente Farmacêutico Ativo (IFA).

“Preocupa sim a chegada da matéria-prima. Essa matéria-prima precisa chegar para não parar o processo de produção. E esperamos que isso aconteça muito rapidamente. Porque, se chegar neste mês, nós manteremos o cronograma de entrega de vacinas”, afirmou Covas, durante entrevista coletiva no Palácio dos Bandeirantes.

O contrato do Butantã com a fabricante chinesa Sinovac previu que o instituto fizesse a terceira fase do estudo clínico da vacina, adquirisse 46 milhões de doses da Coronavac e recebesse a tecnologia para a produção do imunizante. Essas doses, entretanto, devem chegar ao longo do primeiro semestre. Os insumos em estoque no Butantã garantem a produção de 4,8 milhões de doses até 31 de janeiro.

Segundo Covas, a carga de IFA está parada no aeroporto de Pequim.

O governador João Doria (PSDB-SP) atribuiu parte do problema aos insultos que o clã Bolsonaro remete contra a China sempre quando tem oportunidade. Sem o IFA, o Butantã pode interromper a campanha de vacinação em São Paulo.

O mesmo problema pode enfrentar a Fiocruz, que aguarda carga de IFA para produzir a vacina desenvolvida pela farmacêutica AstraZeneca em parceria com a Universidade de Oxford.*

(*) Equipe BR Político – Estadão

STF ENQUADRA O EXECUTIVO AUTORITÁRIO

Fachin: “Não se impute ao STF a inapetência de gestão”

No mesmo dia em que o Supremo rebateu, em nota oficial, a mentira de Jair Bolsonaro de que a Corte teria retirado seus poderes para combater a pandemia, Edson Fachin reforçou o recado.

“Não se impute ao STF a inapetência de gestão comprometida com o interesse público e com o bem comum”, afirmou o ministro ao Estadão“Não há crise entre os poderes nem conflito institucional no país. Esfarrapada é a tentativa de criar conflitos e vilipendiar a Constituição.”

Fachin disse ainda ser “bem-vinda” a aprovação da vacina contra a Covid-19.

“Informação e conhecimento científico são os remédios contra a alucinada e perversa desinformação estimulada e patrocinada por mentes autoritárias, não raro visível em autoridades de elevadas esferas, portadoras de mau exemplo de cuidados de si e dos outros pelo comportamento incompatível com as altas funções que exercem”, afirmou.

NEGACIONISTA DÁ TIRO NO PÉ

Vacinação já começa a ser feita nos Estados, mas logística ainda atrapalha

Depois de São Paulo, outros Estados começaram a imunização contra a Covid, mas com atraso na entrega das vacinas.

Começou. Depois de São Paulo iniciar, no domingo, as primeiras vacinações contra a Covid-19, o processo se espalhou hoje pelos outros Estados do País. Como sempre, a logística preparada pelo Ministério da Saúde não saiu como o planejado e a entrega dos imunizantes acabou atrasando. Mesmo assim, Estados como Rio, Goiás, Santa Catarina e Piauí já conseguiram, à tarde, vacinar profissionais de saúde, grupo priorizado no início do processo. E, claro, aumentaram a esperança de seus habitantes pelo fim da pandemia nos próximos meses.

Braços abertos. No domingo, o ministro da Saúde, general Eduardo Pazuello, criticou o governador de São Paulo, João Doria, reclamando dele fazer um “show de marketing” na vacinação. No Rio, o governador Claudio Castro e o prefeito Eduardo Paes fizeram a primeira vacinação em pleno Cristo Redentor, cartão postal da cidade. Mais marketing impossível. Mas, dessa vez, ninguém resmungou contra. E nem faz sentido reclamar disso. Porque, o que importa, de fato, é ter cada vez mais gente vacinada.

Dificuldades. Se a largada da vacinação foi finalmente dada, há uma preocupação com a sua continuidade. O Instituto Butantã, que distribui a Coronavac, vai depender, em breve, de receber mais insumos vindos da China para produzir mais doses da vacina e pode haver demora nessa remessa. No caso da vacina de Oxford, fabricada pela AstraZeneca, o problema é pior ainda. Não existe sequer data confirmada para seu envio da fábrica na Índia. Segundo o ministro Pazuello, todos os dias há conversa diplomáticas com os indianos para definir quando as duas milhões de doses contratadas serão enviadas ao Brasil. O próprio Jair Bolsonaro se encontrou hoje com o embaixador da Índia, mas não há definição sobre prazo. E, sem isso, por enquanto, o que há é a Coronavac mesmo.

Azedou. Depois de assistirem Doria organizar a primeira vacinação no País, os governistas não esconderam seu mau humor. Politicamente, o estrago foi grande. Jair Bolsonaro passou os últimos meses minimizando a pandemia e nunca deu a menor pelota para a Coronavac. Pelo contrário, a menosprezou e disse que seu governo não a compraria. Com quase 210 mil mortes pela Covid no Brasil, a pressão sobre o governo aumentou demais e Bolsonaro não teve alternativa a não ser a de adotar a Coronavac. Hoje, com a cara abatida, o presidente falou que a vacina era do Brasil e não de um governador. Uma tentativa inútil de recuperar algum crédito nesse processo.

Tenta outra. Bolsonaro ainda fez, nesta segunda, uma de suas tradicionais falas estilo cortina de fumaça sobre a ditadura para tentar mudar de agenda. Ele disse que são as Forças Armadas que definem se as pessoas viverão numa democracia ou ditadura. No meio da empolgação pelo início da vacinação, ninguém deu muita bola para a bravata.

Desgaste. Mais do que precisar recuar de suas críticas contra a Coronavac, Bolsonaro sentiu mesmo foi o desgaste político. Seu comportamento negacionista diante do coronavírus tem lhe custado popularidade. Além disso, a tragédia da falta de oxigênio nos hospitais de Manaus, com doentes morrendo asfixiados, parece ter se tornado uma especie de ponto de virada, indicando uma impaciência da opinião pública. O governo vem sendo apontado como tendo ignorado avisos prévios que o oxigênio poderia acabar. Com isso, foi reaberta a conversa sobre o impeachment presidencial. Mas isso não é simples de acontecer.*

(*) Marcelo Moraes – Estadão

GENOCIDA, MENTIROSO…

Pazuello diz que nunca recomendou cloroquina

Eduardo Pazuello se irritou com uma jornalista que o questionou por que não falou na cloroquina ao defender, novamente, o “atendimento precoce” para pacientes com Covid.

“A senhora nunca me viu receitar ou dizer, colocar para as pessoas tomarem esse ou aquele remédio. Não aceito sua posição”, afirmou.

Questionado se o governo federal vai seguir distribuindo o medicamento, respondeu:

“Quando solicitado por estados e municípios. Eu nunca indiquei medicamentos a ninguém, nunca autorizei Ministério da Saúde a fazer protocolos indicando medicamentos.”


Pazuello mente descaradamente de novo

Eduardo Pazuello voltou a mentir na coletiva há pouco, ao dizer que nunca indicou cloroquina ou autorizou o Ministério da Saúde a fazer protocolos indicando medicamentos.

Uma das primeiras ações ainda como ministro interino da Saúde foi a publicação de protocolo ampliando a recomendação do uso de cloroquina para casos leves.

Além disso, recentemente a pasta de Pazuello lançou o aplicativo TrateCOV, que auxilia médicos no diagnóstico da Covid-19 e sugere a prescrição de hidroxicloroquina, cloroquina, além de invermectina, azitromicina e doxiciclina.

Pazuello também montou uma força-tarefa para orientar as unidades de saúde de Manaus a disseminar o tratamento precoce.

Em ofício, a secretária Mayra Pinheiro disse ser “inadmissível” a não adoção de antivirais recomendados pelo Ministério da Saúde.

 

(*) O Antagonista

MOLEQUE DE RECADOS

Pazuello mente ao dizer que Saúde nunca indicou remédios contra a covid-19

Renato Aroeira | Brasil 247 Renato Aroeira | Brasil 247

O ministro da Saúde, general Eduardo Pazuello, mentiu hoje ao dizer que a pasta nunca indicou nenhum medicamento para o tratamento da covid-19. Logo depois de sua posse, em 20 de maio, o ministério lançou um protocolo que sugeria a prescrição de hidroxicloroquina e cloroquina aos infectados, ainda que não haja nenhuma comprovação da eficácia desses remédios contra o coronavírus.

“A senhora nunca me viu receitar, dizer, colocar para as pessoas tomarem este ou aquele remédio. Nunca. Não aceito a sua posição. Eu nunca indiquei medicamentos a ninguém, nunca autorizei o Ministério da Saúde a fazer protocolos indicando medicamentos”, disse o ministro a uma jornalista durante coletiva no Palácio do Planalto.

STF nega que proibiu governo de atuar na pandemia e desmente Bolsonaro
O protocolo divulgado em maio, porém, orienta o uso de cloroquina, hidroxicloroquina e outros medicamentos, bem como a dosagem recomendada (abaixo rasuradas) para cada um deles.

Assim como o presidente Jair Bolsonaro (sem partido), Pazuello já defendeu o uso de cloroquina contra a covid-19 em diversas oportunidades. Em 21 de julho, por exemplo, o ministro citou o antimalárico e a ivermectina, que também não tem eficácia comprovada contra a doença, quando falava sobre “tratamento precoce”.

À época, apesar da existência do protocolo, Pazuello disse que era apenas uma “orientação”, não uma diretriz. Segundo ele, o Ministério da Saúde apenas apresentou quais medicamentos estão sendo usados, quais estão dando resultados e qual a melhor dosagem e momento de uso.

“Temos a hidroxicloroquina, ivermectina e azitromicina listadas, e cabe ao médico prescrever qual é o medicamento adequado naquela fase e para aquele paciente”, afirmou ele durante visita ao Rio Grande do Sul.

Depois, ao lado de Bolsonaro, ele voltou a recomendar o uso de cloroquina no tratamento da covid-19. A declaração foi feita em transmissão ao vivo em 22 de outubro (assista abaixo), um dia depois de Pazuello ser diagnosticado com a doença. Tanto ele como o presidente, que também já foi infectado, apareceram sem máscara.

“Atendimento” precoce
Durante a coletiva de hoje, Pazuello também negou que o Ministério da Saúde tenha defendido o “tratamento precoce” contra a covid-19, ainda que no sábado (16) o Twitter tenha ocultado uma publicação da pasta que falava justamente sobre isso por considerá-la “enganosa” e “potencialmente prejudicial”.

“Não confundam o atendimento precoce com definição de que remédio tomar. Por favor, compreendam isso e não coloquem mais errado. Nós defendemos e incentivamos e orientamos que a pessoa doente procure imediatamente o posto de saúde, procure o médico. O médico faz o diagnóstico clínico desse paciente, esse é o atendimento precoce”, disse o ministro.

Tratamento é uma coisa, atendimento é outra. Como leigos, às vezes nós falamos o nome errado. Mas nós temos que saber exatamente o que nós estamos querendo dizer. Atendimento precoce, é esse o nosso objetivo.

Segundo Pazuello, cabe ao médico definir os medicamentos que vai prescrever ao paciente, e a Saúde “não tem protocolos sobre isso” — o que não é verdade. O protocolo lançado em 20 de maio foi atualizado em 15 de junho e continua disponível no site da pasta.*

(*) Do UOL, em São Paulo

MENTIROSO CONTUMAZ

STF rebate Bolsonaro e afirma que não proibiu governo federal de atuar contra pandemia

Por meio de nota, tribunal rechaçou as declarações de Bolsonaro e disse que a responsabilidade de enfrentar a doença é de todos os entes da federação

O STF (Supremo Tribunal Federal) rebateu as declarações do presidente Jair Bolsonaro e afirmou, nesta segunda-feira (18), que a corte não proibiu o governo federal de agir no enfrentamento à Covid-19.

Por meio de nota assinada pela Secretaria de Comunicação Social do órgão, o tribunal ressalta que suas decisões estabeleceram a competência concorrente de estados, municípios e União para atuar contra a pandemia, sem excluir nenhuma esfera administrativa dessa responsabilidade.

O texto não cita Bolsonaro, mas é uma resposta ao chefe do Executivo, que afirmou que não pode agir no combate à doença por decisão do Supremo.

“Vou repetir aqui: que moral tem João Doria e Rodrigo Maia em falar em impeachment se eu fui impedido pelo STF de fazer qualquer ação contra a pandemia?”, afirmou Bolsonaro na tarde de sexta-feira (15) em entrevista a José Luiz Datena, da TV Band.

Segundo Bolsonaro, pelo Supremo, ele deveria “estar na praia tomando uma cerveja”.

O discurso do presidente reverberou na sua base. Diante da discussão sobre o colapso de saúde em Manaus na semana passada, bolsonaristas passaram a eximir o presidente de culpa sob o argumento de que o Supremo o proibiu de agir contra a doença.

O STF, porém, afirma que esse discurso não é verdadeiro. Na nota, a corte não faz referência a Bolsonaro e menciona “afirmação que circula nas redes sociais” sobre o tema.

“Na verdade, o Plenário decidiu, no início da pandemia, em 2020, que União, estados, Distrito Federal e municípios têm competência concorrente na área da saúde pública para realizar ações de mitigação dos impactos do novo coronavírus”, diz a nota.

E conclui: “Ou seja, conforme as decisões, é responsabilidade de todos os entes da federação adotarem medidas em benefício da população brasileira no que se refere à pandemia”.

As decisões mencionadas por Bolsonaro assentaram que estados e municípios têm autonomia para fixar medidas de prevenção à Covid-19.

Na prática, a corte impediu o presidente de flexibilizar o isolamento social e adotar medidas não recomendadas por cientistas e estudiosos na área.

O Supremo, porém, não retirou do governo federal a possibilidade de atuar contra a doença, apenas concedeu competência para os entes atuarem contra a doença de acordo com as peculiaridades de cada região.*

(*) Matheus Teixeira – Folha de São Paulo
BRASÍLIA

BANDIDOS UNIDOS JAMAIS SERÃO VENCIDOS

Gilmar suspende inquérito contra desembargador que deu carteirada para não usar máscara

Ministro entende que direito de defesa foi violado ao magistrado não ter sido notificado de julgamento que abriu inquérito

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O ministro Gilmar Mendes, do STF (Supremo Tribunal Federal), suspendeu o inquérito que investiga o desembargador Eduardo Siqueira, flagrado no ano passado humilhando um guarda civil após ter sido multado por não estar de máscara em local público.

O caso está em curso no STJ (Superior Tribunal de Justiça). Gilmar entendeu que a corte violou o direito de defesa do magistrado por não ter notificado seus advogados sobre o julgamento que determinou a instauração do inquérito.

O ministro decidiu que a apuração ficará suspensa até o “julgamento final” do recurso de Siqueira no Supremo, o que ainda não tem data para ocorrer.

O magistrado, que integra o TJ-SP (Tribunal de Justiça de São Paulo), foi flagrado em 18 de junho em Santos (SP) após ser repreendido por estar sem máscara na rua.

O desembargador chamou o agente de fiscalização de “analfabeto”, rasgou a multa e ainda tentou se livrar da punição comunicando o fato ao secretário de Segurança Pública da cidade. Toda a abordagem foi filmada pelos guardas, e as imagens viralizaram na internet.

O desembargador do Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo Eduardo Siqueira foi flagrado humilhando um Guarda Civil Municipal (GCM) após o agente pedir que ele utilizasse máscara na praia de Santos (SP) – Reprodução – 18.jul.20/TV Tribuna

Cinco dias depois, Siqueira emitiu uma nota em que afirmou estar arrependido da própria conduta.

“Realmente, no último sábado me exaltei, desmedidamente, com o guarda municipal Cícero Hilário, razão pela qual venho a público pedir desculpas”, afirmou o magistrado.

Em agosto, o CNJ (Conselho Nacional de Justiça) decidiu abrir procedimento administrativo e afastar o desembargador do cargo.

Além da decisão administrativa do conselho, a PGR (Procuradoria-Geral da República) pediu ao STJ, corte competente para julgar desembargadores, a instauração de inquérito policial para apurar o caso.

Inicialmente, o relator do caso, ministro Raul Araújo, rejeitou a solicitação da PGR sob o argumento de que não teria se caracterizado o delito de abuso de autoridade porque o crime exigiria que o agente invocasse a condição de funcionário público para descumprir obrigação prevista em lei.

A Procuradoria, então, apresentou recurso e, por 10 a 3, a Corte Especial do STJ reverteu o entendimento de Araújo e determinou a instauração do inquérito, em 16 de dezembro.

Siqueira, porém, alega que o julgamento foi iniciado em 2 de dezembro sem que sua defesa fosse avisada.

“Há verossimilhança na alegação de violação dos princípios do contraditório e da ampla defesa, uma vez que, como consta da certidão de julgamento, a habilitação do requerente somente ocorreu após o início do julgamento do recurso”, escreveu Gilmar.*

(*) Matheus Teixeira – Folha de São Paulo

CARLUXO ESTÁ BEM PARADO

Gabinete de Monica Benício, viúva de Marielle, fica ao lado do de Carlos Bolsonaro

Sorteio pôs rivais políticos na Câmara de Vereadores do Rio divididos por uma parede

Entrada do gabinete de Monica Benicio, na Câmara de Vereadores do Rio: 'Quem matou Marielle?' Foto: Gabriel de Paiva - Agência O Globo

Entrada do gabinete de Monica Benicio, na Câmara de Vereadores do Rio: ‘Quem matou Marielle?’ Foto: Gabriel de Paiva – Agência O Globo

RIO — O destino pregou uma peça na recém-eleita vereadora Monica Benicio (PSOL), viúva de Marielle Franco, parlamentar assassinada há dois anos e 10 meses numa emboscada. Como os 34 vereadores reeleitos podem se manter nos gabinetes, os 17 novatos precisavam participar de um sorteio para evitar que houvesse privilégios na distribuição dos espaços. Monica acabou sorteando o de número 904, passando a ser vizinha de porta de seu rival na política, o vereador Carlos Bolsonaro (PR), instalado no 905.

Lados opostos: Carlos Bolsonaro e viúva de Marielle não se cumprimentam em posse na Câmara de Vereadores

As coincidências não param por aí. O gabinete de Monica fica entre o dele e o antigo espaço ocupado por Marielle, o de número 903, que, pelo sorteio, coube ao vereador Márcio Santos de Araújo (PTB). Além de uma placa de fundo preto com a pergunta escrita na cor amarela “Quem matou Marielle?”, a viúva da parlamentar decidiu encher a porta com dezenas de adesivos com a mesma pergunta. O blog do Ancelmo Gois publicou, na quinta-feira, a informação de que ela havia fixado um adesivo com o questionamento.

— Onde quer que Marielle esteja, ela deve estar rindo de mim. De tantos gabinetes para eu sortear, acabo ficando ao lado do que ela ocupou e vizinha de um outro com pautas bem diferentes das nossas — disse Monica. — Foi uma decisão política não ficar com o 903. Eu não queria ficar com o gabinete dela, porque iria trazer muitas lembranças, principalmente para alguns dos assessores (cinco) que atuaram na mandata (como Marielle, Monica chama o mandato na forma feminina, por causa das bandeiras em defesa dos direitos das mulheres e de integrantes dos movimentos LGBTQI+) e hoje trabalham comigo — explicou Monica, ressaltando que Tarcísio Motta, colega de partido, encontra-se em gabinete no mesmo andar.

O sorteio ocorreu numa solenidade no salão nobre, mesmo local onde o corpo de Marielle foi velado, no fim de dezembro. Os recém-eleitos retiram um papel com o número do gabinete de dentro de uma sacola plástica preta. Ao saber que o gabinete de Monica ficava entre o de Carlos Bolsonaro e o que fora usado pela mulher da vereadora, alguns assessores sugeriram que ela tentasse trocar de número, mas ela preferiu manter o resultado. Os 17 gabinetes sorteados ficam espalhados pelos 10 andares do prédio anexo do Palácio Pedro Ernesto.

— Dentro da Câmara dos Vereadores, que é a casa do povo, espero que a gente (ela e Carlos) se trate com a cordialidade e respeito que a Casa exige de seus parlamentares. Existem divergências políticas entre nós, pois represento o oposto do que ele defende. Tenho muito orgulho de ser oposição. A gente está separado por uma parede, mas as ideias e os ideais são diferentes. Democracia é isso — ponderou a vereadora.

Formada em arquitetura, Monica pretende reestruturar o seu gabinete. Antes dela, o espaço era ocupado pelo vereador Eliseu Kessler (PSD), dotado de isolamento acústico, algo pouco comum no prédio. Kessler deixou para trás dezenas de pôsteres com fotografias dele com aliados, inclusive o ex-prefeito Marcelo Crivella (PR), que chegou a ser preso antes de completar o mandato, no fim de dezembro. Atualmente Crivella cumpre prisão domiciliar e faz uso de tornozeleira eletrônica, por decisão do Superior Tribunal de Justiça (STJ).

Uma das medidas a serem adotadas pela vereadora será preencher a parede externa do gabinete com a pergunta “Quem mandou matar Marielle?”. Prestes a completar três anos no próximo dia 14 de março, a investigação da Delegacia de Homicídios da Capital e do Ministério Público do Rio apontou o policial militar reformado Ronnie Lessa e o ex-PM Élcio de Queiroz como autores do homicídio da parlamentar e de seu motorista Anderson Gomes. No entanto, ainda não há respostas sobre quem mandou matar Marielle, tampouco a motivação do crime.

— Como parlamentar vou continuar cobrando justiça por Marielle e Anderson. Também vou continuar defendendo as bandeiras dela. Estamos preparando um mapeamento com indicadores de violência contra a mulher. A ideia é aprontaramos os locais onde elas sofrem mais estupros e assaltos. Só estudando bem esses pontos poderemos criar políticas públicas em favor delas. Por exemplo, vamos propor que, à noite ou de madrugada, os ônibus possam parar o mais próximo possível das moradias das mulheres, para que elas não fiquem mais tempo vulneráveis nas ruas — anunciou Monica.

Na porta de Carlos Bolsonaro, também há dezenas de adesivos com suas ideias como “Partidos de esquerda incentivam invasões”, além da pergunta “Quem mandou matar Bolsonaro?”. Trata-se de uma referência ao atentado à faca sofrido pelo pai do parlamentar, o presidente Jair Bolsonaro (sem partido), em setembro de 2018, em Juiz de Fora (MG). Apesar de o caso ter sido esclarecido pela Polícia Federal, que apontou Adélio Bispo como autor do crime, o presidente nunca ficou convencido sobre o desfecho.

Parte da parede externa do gabinete do vereador Carlos Bolsonaro tem ainda um tributo ao pai. Nela está colado um papel com o slogan do presidente: “Brasil acima de Tudo, Deus acima de todos”. O GLOBO procurou o vereador para falar sobre a nova vizinhança, mas ele não retornou as ligações.

Mil dias sem Marielle: assista ao documentário que conta a trajetória da vereadora

Carlos e Monica ainda não se esbarraram pelo corredor do nono andar, onde estão localizados seus gabinetes. O único encontro este ano ocorreu no dia 1º, quando houve a cerimônia para empossar os 51 vereadores eleitos. Os dois não se cumprimentaram. O ano legislativo começa no dia 15 de fevereiro.*

(*) Vera Araújo – O Globo